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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Continuas a fazer anos, sem envelhecer…

Não me esqueci. Como poderia esquecer-me? Hoje farias 60 anos e só o cabelo grisalho denunciaria a tua idade. Sempre pareceste muito mais novo, exibindo uma saúde férrea de espalhar inveja. Não fosse aquela maldita doença e ainda aqui estarias, a massacrar-nos com o teu mau feitio militante. Quando alguém parte cedo demais, até os defeitos deixam saudades. A implicância com coisas menores era o teu forte. Por vezes, parecias possuir superpoderes e exigias o mesmo heroísmo de todos em teu redor. Não eras o amor perfeito mas um grande companheiro de viagem. Não eras um educador exemplar mas um pai dedicado e carinhoso. Eras um pai-avô, como te autoproclamavas, depois de teres repetido a experiência pela quarta vez aos 50 anos. Nesse dia, há dez anos, visitámos o Oceanário e à saída tirei-te uma fotografia. Tinhas um bebé de três meses ao colo. De olhos cerrados, beijavas-lhe a testa, inspirando amor. Era o teu “brotinho”, dizias tu. Era o “nosso tesourinho”, dizia eu. Como o tempo passa. Já tem dez anos a nossa menina e está a ficar uma mulher. E foi ela quem decidiu que continuas a fazer anos. “Sim, sim! Os mortos também fazem anos, mamã”, disse-me um dia. E quem sou eu para contrariar a magia do inocente imaginário infantil? Por isso, neste dia, continuas a fazer anos e nós a celebrar a tua existência. Agora, sem bolo nem velas mas com a memória acesa pela eterna chama do nosso amor. 

domingo, 6 de maio de 2018

Benilde ou a Virgem Mãe


A mãe e eu | 29 de setembro de 1979
És leite morno a transbordar do seio
Cordão umbilical resistente ao corte
És a pele que cobre o frio e o medo
Fizeste-me milagre nascido da morte

És o olhar vigilante que antevê a queda
A mão segura, o amparo constante
És colo, beijo, doce carícia pura
Mesmo longe, nunca estarás distante

És norte, palavra amiga, orientação
O sofrimento mais alegre do mundo
Coragem ímpar, força extrema
És mistério sobrenatural sem explicação

És filha, mãe, avó
Imagem omnipresente
És quem não me deixa só

És quem me sente e pressente
Quando a garganta dá um nó
És calma e colo e silêncio
O bem contra todo o mal
És mãe da tua filha
E mãe da tua mãe
Fonte do amor incondicional
És abnegação, benevolência
O fim de qualquer turbulência
És paciência sem fim
O mar e o céu juntos
Canção de embalar
A ecoar, eternamente, dentro de mim.


(Dedicado à minha Benilde, minha Mãe.)

terça-feira, 1 de maio de 2018

Reciclagem do amor


Há uma certeza que me rasga o peito e me ata o pensamento. Eu amo-te. Estou certa disso. Sou capaz de reconhecer em cada reação do meu corpo um sintoma indicador da veracidade do meu diagnóstico. Não é a primeira vez que penso continuamente em alguém noite e dia, dia e noite, como se não houvesse intervalo possível para uma mente sempre alerta, mesmo durante o sono. A ausência de notícias é o que mais me consome. Não saber, a cada hora que passa, por onde andas, o que estás a fazer, se e quando pensarás em mim. É aqui que encontro também a razão mais plausível para desistir de ti. Se fosse para ser possível, não seria assim. Um amor que vive de pensamentos tende a morrer de saudades. O amor alimenta-se de carne, de pele, odor e calor. E eu já quase não consigo imaginar o contorno do teu rosto sem voltar uma e outra vez às fotografias que guardo no computador. Na angústia sôfrega de te querer tanto e não te ter, a certeza volta a quebrar-se em mil pedaços, transformando-se numa dúvida existencial: O que fazer com o amor que sentimos, quando não o podemos viver? Haverá, algures, uma reciclagem do amor? 

domingo, 11 de março de 2018

Uma dezena de milagre

11 de Março de 2008

Tento imaginar a vida sem ti, num exercício impossível de quem procura reviver uma existência passada. Tudo parece ter nascido depois de ti. Até mesmo eu. Antes, talvez apenas existisse. Só depois de experimentar a extraordinária magia da multiplicação da carne é que aprendi a viver. Minha filha, és a única. Uma dezena de anos depois, continuas a ser a única pessoa que um dia me habitou. Poupando-me a gemidos e dores, conquistaste a tua liberdade, numa irrepetível madrugada de Março, dia 11, no calendário de um primaveril 2008. Só tu me abraças como se abraça o tempo, num aperto de eterno reencontro. Só tu, versão refinada de mim, consegues ser a superação da minha limitada e frágil existência. Disfarçada de criança, és a pura beleza da inteligência ingénua. Palpitando ideias geniais, és promessa diária de futuro. Brotando como uma flor, és a certeza de um amanhã que dará árvores de fruto. Quando sorris, és a esperança renovada de dias melhores. A cada centímetro do teu crescer, em tamanho, graça e sabedoria, és evolução, és prolongamento, és continuidade, és progresso, plenitude e eternidade. Na transcendência da minha mortalidade, és o melhor de mim. Se pudesse pedir um só desejo, queria reviver tudo de novo. Ver-te emergir das minhas entranhas e amar-te mais e mais e ainda mais. Devagar. Bem mais devagar. Ao ritmo de uma câmara lenta. Outra e outra vez.  

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Fast Love


Plim!
Conheceram se online
E houve logo um clique
Primeiras mensagens
Sorrisos acesos
A esperança a renascer
A solidão a desvanecer

Na virtualidade dos dias
Intervalos felizes
Um entusiasmo desperto
No adormecer das dores da vida

Despertares enérgicos
E tarefas velozes
Na ânsia de palavras cruzadas
Cliques poéticos de adivinhar sonhos
A mesma canção a convidar para dançar

A promessa de um abraço embrulhado no calor de uma mantinha...
A utopia de um amor perfeito!
O teclado apressa se
Na urgência de um encontro
Já só querem fugir
Para os braços um do outro
Num divertido toca e foge
Entre o desejo e o medo
Finalmente, um convite:
Jantamos?
Sim, claro, porque não?
Dizem que a realidade supera a ficção
Porque não? Porque não? Porque não?
Sim, vamos!
Encontram se num abraço
Afinal, são de carne e osso
Confirmam se
Existem mesmo
São reais e estão tão vivos!
Viagem de olhares e silêncios risonhos
Abraços, abraços, abraços...
Os olfatos a tatearem se
Em busca de sintonia
Sim! Gosto! Bom apetite!
As bocas alimentam se
Antes de se provar
Uma troca de garfadas românticas
Antes da coragem do beijo
Antes do princípio do fim
No limite da dúvida
Será bom?
É tão bom, não foi?
O desejo acelera a digestão
A viagem de regresso é veloz
Os corpos rendem se à vontade
Enquanto os problemas do mundo
Caem no esquecimento
Para onde foi o frio?
São duas fontes de calor
A serpentear, serpentear, serpentear...
Beijos redondos
Abraços infinitos
Pensamentos vazios
Uma explosão de prazer imediato!
E depois?
Depois?
Foi estranho, não sei.
É melhor não. Vamos fugir?
Não queremos repetir.
Afinal, a beleza é efémera
E não permite consumos rápidos.
Oh pah! É tão bom, não foi?
Pois, temos pena!
Fim de conversa.
Ponto final, parágrafo.
Mudar de linha. Virar a página.
Clique - Wireless - offline.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Medo de ser feliz

Os hábitos moldam-nos. Limitam-nos os desejos e as vontades. Nada é mais seguro e tranquilo que viver no casulo. Mas o Mundo gira, o tempo voa e sempre chega a hora da borboleta. Chama-se efémera, o nome do tempo que dura a felicidade. Descobre que voar tem tanto de mágico como de assustador. Mas ser feliz é planar em equilíbrio, aquele ponto no qual estamos alinhados com o universo, não pendemos para lado nenhum, a não ser para o nosso centro vital, onde um coração, no compasso certo, conta o tempo mais devagar. Não tenhas medo, lagarta! Ainda que venhas a ser efémera, terás conhecido o voo da felicidade.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Getsémani


Onde fica o teu monte das oliveiras?
O teu oratório de agonias e prantos?
O calvário onde morres todos os dias
Antes da diária ressurreição?  

Diz-me, onde fica o teu refúgio sagrado?
Onde o silêncio te habita
No confortável embalo
Do colo invisível que te purifica

Onde aguardas vigilante
O dia mais esperado?
O momento do reencontro
com a verdade da vida?

Diz-me, onde choras e oras?
Rogando que chegue o instante
da harmoniosa eternidade
O ponto de partida para a paz em liberdade

domingo, 19 de novembro de 2017

À noite no chalé



Naquela noite, a natureza prendeu-nos nos braços um do outro. Não adianta fugir quando até a natureza nos empurra na direção da nossa vontade. Há momentos em que devemos ceder ao ímpeto do desejo e aceitar o inevitável. Esses são os momentos a que se chama viver. O resto é a passagem do tempo que nos permite crescer e aprender. É a preparação para os instantes de suprema felicidade que esperamos durante anos. Enclausurados na escuridão da casa assombrada, os nossos olhos encontraram-se no clarão de um relâmpago, fazendo-nos estremecer como o trovão que se seguiu. E foi então que, num impulso magnético, as nossas bocas se colaram como ventosas. Nessa noite tenebrosa, ficámos imunes ao medo. E nada mais conhecemos senão o conforto do amor.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Aqui e agora

Neste lugar chamado tempo 
onde tudo é incerteza e medo
Tudo o que sou é espera e esperança
Tudo o que tenho é carência e frio
Tudo o que quero é tempo livre e paz
Tudo o que espero é um futuro diferente
Tudo o que sei é que nada é certo
Tudo o que temo é que nada mude
Tudo o que sonho é uma nova sorte

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Daquele colo, só conforto. Daquele tempo, só saudades. E o cheiro inconfundível da sombra noturna dos eucaliptos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Incontactável amor

Por mais que me esforce, não consigo lembrar-me quais as últimas palavras que trocámos. Talvez tenha sido apenas um sorriso triste, de mãos entrelaçadas sobre uma cama de hospital. A doença, como um aviso prévio, deu-nos o tempo para não deixar nada por dizer, nada por fazer. Todas as mágoas se desvaneceram, perante a imposição de um inevitável adeus. “É agora?”. Recordo-me de teres perguntado numa ocasião, ainda vagamente consciente, enquanto já esperavas pela morte com a certeza serena que sempre te admirei. Sem medo, revolta ou porquês, entregaste-te à morte como sempre te abriste à vida: destemido! “Quando a morte nos sorrir, só temos de lhe sorrir de volta”, repetias sempre. E assim o cumpriste. Talvez a nossa última palavra trocada tenha sido apenas esse sorriso, aquele que farei perpetuar na memória até ao último dos meus dias. Aquele que revejo nas molduras espalhadas pela casa com as quais insisto em conversar, sem nunca conseguir mais do que solitários monólogos. Aquele que, como uma réplica perfeita, diariamente resplandece no rosto de uma menina - prova viva que um dia, entre nós, o amor existiu. Hoje cumprem-se dois anos de eterna saudade. E eu continuo a cumprir o que te prometi. Enquanto a força me dominar a vontade, vou continuar-te, amando pelos dois o nosso maior tesouro.