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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O lado bom da crise

Pode parecer um lugar comum, mas a vida têm-me ensinado que é nos piores momentos que se aprendem as melhores lições. Foi com base neste pressuposto que me ocorreu analisar a crise económica - de que todos falam mas poucos entendem - à luz do que, a meu ver, é realmente essencial. Na verdade, mais do que tentar perceber quem provocou a crise e como vamos sair dela, importa analisar a situação e despertar a nossa consciência para o que todos andamos a fazer de errado. Porque se queremos realmente falar de culpa, os reais culpados somos todos nós.
Não sei bem há quantos anos foi - ainda por cá ando há relativamente poucos - que o ser humano deixou de assentar a construção do seu bem-estar apenas na satisfação das necessidades básicas. Houve um dia em que o homem acordou e começou a projectar no que possuía a fonte da felicidade suprema. E assim se criaram as mais variadas necessidades desnecessárias. Crianças que crescem solitárias, compensadas com milhares de brinquedos; Homens que se exibem ao volante de luxuosos carros; Mulheres que desafiam os limites do equilíbrio em saltos imensamente mais altos do que alguém com juízo poderia suportar. Em nome do luxo, do bom e do belo, tudo se aguenta, até a factura que cresce, mês após mês, descontroladamente. São montras que nos sorriem a acenar com objectos de desejo, quase como se nos quisessem seduzir contra-vontade. E nós, que já não conseguimos encontrar alegria apenas no passar dos dias, sonhamos, desejamos e saciamos o vício, loucamente deliciados, numa alucinante overdose de felicidade efémera. A euforia é breve. A ressaca não tarda em chegar. E o ciclo repete-se, até à falência das forças e das cifras que a alimentam.
Pagar mais por bens até agora considerados essenciais também pode ser uma lição. O truque é equacionar se andamos a comprar o produto de que necessitamos ou o que tem a melhor campanha de marketing. É simples. Taxar leite infantil dito “especial de crescimento” no valor máximo, significa apenas que as crianças podem continuar a crescer, como sempre cresceram, a beber leite do dia, muito mais fresco e que até custa metade do preço. Outro exemplo. Serão também os néctares de fruta uma bebida essencial? Antigamente, nada disso havia e as crianças cresciam saudáveis e felizes a beber sumos espremidos directamente da fruta para o copo. Ou, melhor ainda, comiam fruta fresca, hábito convenientemente substituído pelo consumo de pacotes vendidos a preço exorbitante com a promessa de oferecer todos os benefícios das peças de fruta propriamente ditas. Vá lá, o que é custa afinal levar no bolso uma maçã, uma pêra ou uma banana?
Ao trabalharmos demasiado para alimentar os vícios, deixamos de ter tempo para o essencial. E é então que começamos a consumir comida de plástico que engolimos em frente ao televisor que só nos responde com notícias más. Trocamos o tempo que não temos para brincar com os nossos filhos por brinquedos e bugigangas que eles vão desprezando por toda a casa. Sentimos o fim-de-semana chegar num estado de coma permanente. Para despertar, deambulamos por centros comerciais em busca de drogas que saciem o vício e nos façam novamente encontrar a felicidade.
Não quero ser dependente destas coisas que não trazem felicidade nenhuma, apenas uma doce ilusão. Porque quando já se teve mais, aprender a viver com muito menos não é uma vergonha. É uma lição que nos abre a porta à liberdade de nos desprendermos dos bens materiais e encontrar a felicidade no tiquetaque das horas, na realidade dos dias, nos momentos verdadeiramente importantes da vida real.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Dia de festa na ilha do tio Jardim

Contemplo deslumbrada a chuva de cores que cai do céu. O fogo de artifício ateado sobre a baía do Funchal é, muito provavelmente, um dos mais bonitos do Mundo Os foguetes são disparados de dentro de um batelão, que quase não se vê. Por instantes, chego a pensar que o espectáculo pirotécnico nasce do fundo do mar. É de facto um presente assistir ao famoso fogo de artifício da Madeira, mesmo não sendo noite de passagem de ano. É apenas o culminar de um dia de festa, um dia muito especial para o concelho do Funchal. Hoje, dia 21 de Agosto, celebra-se o dia do Município.
Descubro o programa de festas num prospecto que me chega às mãos dentro do hotel. Há muito para ver e ouvir antes que o dia se faça noite. Fixo-me num acontecimento que desperta em mim um misto de curiosidade e interesse: a cerimónia que reúne as figuras ilustres na praça do município. É lá que estará presente o grande líder madeirense. Hoje apetece-me apelidá-lo de tio Jardim. Ir à Madeira e não ver o tio Jardim é quase como ir a Roma e não ver o Papa. Porque será que insistimos em cultivar esta estranha perversão voyeurista, às vezes quase inconfessável, de querer ver de perto as figuras que apenas conhecemos da televisão? Não consigo encontrar resposta. Porém, continuo a querer assistir bem de perto ao que se vai passar a seguir. A fachada da Câmara Municipal está trajada a rigor, coberta por coloridos mantos. Há faixas azuis, amarelas e vermelhas, tal como o tecido típico dos trajes madeirenses. A banda filarmónica está geometricamente alinhada frente à sede da autarquia e ensaia poses e saudações nos intervalos das músicas. Pouco passa das onze e meia quando todos ficam em sentido. O aproximar repentino de veículos topo de gama anuncia a chegada daquele que todos querem ver. Os jornalistas – e respectivas câmaras fotográficas e de televisão - põem-se a jeito para registar o momento do melhor ângulo. E eis que sai do interior de um veículo de estofos em pele o nosso carismático tio Jardim. Sem perder tempo, circula junto aos populares, distribui beijos e apertos de mão e chega mesmo a saudar turistas estrangeiros com uma simpática frase de cortesia: “Hello! Welcome to Madeira”.
Aparte de toda esta temática, há uma questão idiota que não me sai da cabeça. “Mas por que raio se há-de chamar Jardim ao líder político da ilha das flores?”. Vou investigar. Um dia ainda hei-de ver esclarecida esta questão.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um pão chamado bolo

Mal acabo de me sentar à mesa para aquela que seria a minha primeira refeição na Ilha da Madeira, sou violentamente confrontada com um cesto de pão. Uma massa quente, estaladiça por fora (meio esturricada até) e fofa por dentro, emana um salivante aroma. “ É o famoso bolo do caco” – apressa-se a esclarecer o empregado de mesa, com o visível orgulho de quem introduz um ex-líbris da região a toda a gente com aspecto de turista. “Com manteiga de alho é muito bom”, acrescenta, com o seu sotaque tipicamente madeirense, enquanto aponta discretamente para uma manteigueira de loiça que se destaca sobre a mesa. Descobrirei mais tarde, após experimentar mais de uma dezena de bolos do caco, todos em sítios diferentes, que este primeiro seria o meu preferido, exactamente por não vir recheado do que quer que fosse. Serei louca por toda a minha vida ter adorado comer pão às secas? Juro que adoro, não me perguntem porquê. Chego a ficar com soluços, por empurrar com insistência, movida apenas por saliva e gula, pequenas bolas de massa que vou espalmando entre o polegar e o indicador.
Mas porquê é que chamam a isto bolo do caco, se a mim apenas me parece uma espécie de pão de Mafra, um tanto ou quanto mais espalmado? Se ao menos fosse doce, ainda se entenderia a designação de bolo. Mas não, a massa é salgada, apenas confeccionada com farinha de trigo à qual são adicionados fermento, água e sal (descubro após uma breve consulta no ciberespaço). E é graças à mega enciclopédia online que desvendo a resposta à minha inquietação. Ou, pelo menos, parte dela. O caco deriva do facto desta massa ser tradicionalmente cozida sobre uma pedra de basalto, ou mais remotamente, sobre um caco de telha a escaldar. Ainda assim, continuo sem saber o porquê de ser bolo e não pão. Alguém me conseguirá esclarecer porque não chamam a esta deliciosa iguaria apenas pão do caco?
Ainda a debater-me com esta dúvida, embarco numa verdadeira viagem ao mundo dos sentidos, enquanto descubro os prazeres da gastronomia madeirense. Experimento o filete de espada com banana, que não se compara a nada que possa ter saboreado até hoje. Delicio-me com os cubos de milho frito que adornam a típica espetada de carne, após repetir dia após dia, sem me cansar, o mesmo aperitivo: as lapas grelhadas na chapa, salpicadas de alho picado e posteriormente regadas com limão. Quando não como lapas, opto por uma aveludada sopa de tomate com ovo escalfado. Sobra-me pouco estômago para os doces. Ainda assim, provo uma colherada aqui e outra ali. Entre o pudim de maracujá e a cassata de amêndoa com molho de chocolate quente, a escolha é de perder de vista.
Basta inverter o ditado e ter afinal mais barriga que olhos, onde possam caber tantas bombas calóricas. Agora percebo bem porque é que sobretudo as mulheres madeirenses são tão roliças. Diria mesmo que é muita força de banana e bolo do caco.
A rematar, o incontornável vinho da Madeira. Incontestavelmente famoso, existe em quatro variedades, respectivamente designadas pelas castas predominantes: Malvasia (doce), Boal (meio-doce), Verdelho (meio-seco) e Cercial (seco). Na adega Old Blandy, no coração do Funchal, enchem-se e vazam-se os cálices, ao ritmo da sede dos turistas que por aqui passam. Nunca em nenhum outro canto do mundo, senti os cinco sentidos tão apurados, tão em harmonia. Do olfacto ao paladar, o tacto revela texturas que a vista não alcança e o vento ouve-se assobiar quando o Sol se esconde timidamente por entre o manto de nuvens que abraçam a ilha, como se num casulo a quisessem proteger.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Uma praia de pedras rolantes

Cinco da tarde de um dia ameno de final de Agosto. No regresso ao hotel, após um dia de longos passeios pela cidade do Fuchal, improviso um novo percurso. Desemboco numa ruela que me conduz ao mar. Encostada ao corrimão cimeiro onde acaba a rua e começa a praia, assisto deslumbrada a um espectáculo inédito e gratuito. Dezenas de crianças saltam e gritam, raiando felicidade enquanto chapinham à beira-mar. Um cenário perfeitamente normal, não fosse tratar-se de uma praia onde os pés, em vez de areia macia e dourada, pisam calhaus. Duras e frias pedras vulcânicas, de tom escuro, onde se sobrepõem toalhas e corpos molhados sobre elas, como se de um confortável colchão se tratasse. Ao ver a felicidade genuína daqueles meninos, ao deixar-me contagiar por ela, consigo confirmar que de facto a felicidade vive guardada, escondida até, dentro das mais pequenas coisas. Felizes dos ignorantes, sempre ouvi dizer… e tem o seu quê de verdade. Aquela praia, a única que conhecem e que alguma vez tiveram oportunidade de pisar, é e sempre será a melhor praia do mundo para aqueles meninos, até que um dia possam experimentar o conforto de uma praia de areia branca, amarela, dourada ou uma mistura de todos esses tons num só. De facto, nunca percebi muito bem de que cor é a areia da praia… Mas isso agora não interessa nada.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Noventa euros em frutos tropicais

Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras

Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o portão principal para perceber porquê. Uns bons pares de mulheres trajadas a rigor vendem, cada uma na sua banca, uma inúmera variedade de flores. Flores exóticas. Flores diferentes do habitual. Flores com as mais variadas formas e cores. Por entre todas, sobressaem sempre as estrelícias – uma flor de grande talo verde-esmeralda por onde rebentam um conjunto de pétalas bicudas de tom alaranjado, que mais fazem lembrar um pássaro preparado para levantar voo. Não é raro encontrar o desenho desta flor bordado ou estampado em múltiplos “souvenirs” que pretendem imortalizar uma recordação da ilha da Madeira.
Das flores para o peixe, ainda passo pelas vergas e pelos bonitos trabalhos que ainda se produzem com uma matéria-prima já pouco em voga. A delicadeza e perfeição das peças cativa o meu olhar durante uns minutos e não resisto em tocar numa ou outra cesta para sentir a textura das palhinhas.
Chegada à secção de venda das riquezas do mar, descubro que o peixe típico da madeira é o peixe-espada preto. Banca sim, banca não, dezenas de exemplares repousam inertes, aguardando quem os leve para casa. Não menos espectaculares são os avantajados atuns, espadartes e pargos. Os maiores são vendidos à posta, os outros ao quilo, peça a peça. Um outro peixe de cor avermelhada e feições rudes chama-me a atenção. Descubro que é o célebre bodião, teimosamente sugerido a todos os turistas, em todo e qualquer restaurante típico.
Por último, visito a parte mais doce, suculenta e deliciosa do mercado – a zona das frutas. Faço-me desfilar por debaixo de gigantes cachos de bananas pendurados e devoro com os olhos aquela salada de frutas colorida.
Estava mergulhada neste paraíso “tutti-frutti” quando uma das vendedoras me abordou súbita e inesperadamente, dando-me a provar algo de completamente diferente. “Chama-se ananás-banana e é muito bom!” – esclareceu. À primeira vista, aquele fruto de cor verde seco, com a forma de um pepino e uma casca com a textura de pequenos losangos encaixados em forma de puzzle parecia repugnante. “Só quando amadurece e a casca começa a soltar-se sozinha é que estão bons para comer”, ensina a rapariga, num tom experiente. Espeta a polpa do fruto com um garfo e dá-me a provar. E tive uma epifania, posso resumir assim para não me alongar mais. Aos 30 anos provei uma espécie de fruta rara e deliciosa que jamais imaginei existir. Seguiu-se a prova de algumas cinco espécies de maracujá: além do tradicional (que imaginava fosse o único), existe o maracujá-limão, o maracujá-laranja, o maracujá-tomate e o maracujá-banana. Depois de tanta prova, achei indelicado sair da banca de mãos a abanar. Pedi, por isso, à vendedora que reunisse um “mix” num saquinho. Tirei a carteira da mala, preparando o pagamento. “Quanto é tudo?”, perguntei, descontraidamente. “90 euros e quarenta”, ouvi, antes de quase ter uma paragem cardio-respiratória. Não havia nada a fazer. Devolver a fruta estava fora de questão. Paguei e segui com um sorriso artificial, ainda perturbada. “90 euros em fruta?” – questionava-se o meu cérebro, sentindo-se culpado por tamanha extravagância. Mas depois, aos poucos, lembro-me de ter pensado, antes aqui que na farmácia, já diz o povo e, assim como assim, ainda ajudei alguém que produz o que de melhor se faz nesta terra que escolhi visitar.
Moral da história: os frutos tropicais são deliciosos, é um facto. Mas nem todas as bocas terão um dia a alegria de os saborear sob pena da carteira ser incapaz de os financiar. Hoje tive a verdadeira consciência de que sou uma privilegiada.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Turismo na Madeira: 5 estrelas

A primeira impressão que tive da ilha da Madeira poderia muito bem ser resumida em três palavras: organização, perfeccionismo e excelência.


Os elogios não devem ser poupados quando são merecidos. E o povo madeirense merece-os todos, pelas mais variadas razões. A começar pela forma arrumada como as habitações se foram erguendo socalco sobre socalco, monte acima, compondo a enorme plateia do anfiteatro que se ergue sobre a baía do Funchal. Talhando pedra basáltica, ergueram casas, estradas, túneis e pontes. Não é de admirar por isso que a cidade esteja completamente recomposta das cheias que há seis meses varreram pessoas, casas, estradas, muros e tudo mais o que a força da água encontrou pela frente. A água mole tanto bateu na pedra dura que conseguiu provar que afinal quando pode até que fura... De cabeça erguida e mãos à obra, os madeirenses parecem não perder muito tempo a chorar. De olhos no futuro, focados no que é essencial, rapidamente deixaram afogar as mágoas na força da maré. Quem não soubesse o que se passou, nem suspeitaria de nada. Um muro rachado, um separador junto a uma calçada em reconstrução parecem cenários perfeitamente normais dentro do que estamos habituados a ver na nossa cidade, seja ela qual for. O essencial, o que salta à vista, está de cara lavada, imaculado para receber os milhares de turistas que aportam ou aterram na ilha, durante todo o ano.
O rigor da influência inglesa sente-se por aqui, até no facto de mesmo os mais velhos arranharem, de uma forma muito satisfatória, a língua mais falada pelos turistas. Na Madeira respira-se, além de ar puro, beleza, cor e magia. Em jeito de crítica construtiva, gostava de deixar expressa uma opinião muito pessoal. Vão desculpar-me a franqueza, mas eu que cresci na região mais turística de Portugal considero que o Algarve ainda tem muito a aprender com o turismo da Madeira.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Pousar sobre a “Pérola do Atlântico”


Aterrar no Aeroporto da Madeira é simplesmente medonho. Assim que o avião perde a altitude suficiente para conseguir avistar aquilo que, lá do alto, me parece uma micro-pista de brincar, a euforia da chegada dá repentinamente lugar ao medo. Uma secura súbita apodera-se-me da garganta e a ansiedade crescente em saber se os meus pés voltarão a tocar terra firme faz com que o coração acelere a uma velocidade superior à máxima atingida pelo avião no pico da viagem. Apesar da deslumbrante vista sobre o Oceano Atlântico, opto por fechar os olhos assim que me apercebo da libertação bem sucedida do trem de aterragem. O piloto é experiente e o avião pára muito antes do final dos quase 3 Km que desembocam no mar. Nem quero imaginar como seria quando a pista tinha metade da extensão actual. Não terá sido por acaso que ocorreu aqui, no Aeroporto da Madeira, em 1977, o mais grave acidente da história da aviação em Portugal, no qual 131 pessoas perderam a vida.
Assolados por um sentimento comum, os passageiros manifestam a felicidade sentida cumprindo o ritual das aterragens difíceis bem sucedidas. Uma forte salva de palmas ecoa dentro do avião. De rosto tímido voltado para a janela, deixo que se solte uma teimosa lágrima há muito presa na garganta sob a forma de nó. Saio do avião avassalada por um misto de alegria e alívio, sem deixar que ninguém perceba, apenas por vergonha, que estive a chorar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Canção de embarcar


3º Prémio - Modalidade Prosa - Concurso Literário "Cantar Portugal em Prosa e Verso" do Elos Clube de Faro

Do alto de um imenso rochedo, avisto um mar imenso, de um azul intenso, a perder de vista. Antes de se esconder de vez, o Sol beija o mar, ao de leve, com respeito. E eu espreito, por cima do ombro, enquanto suspeito que o perigo se aproxima. É apenas o medo.
Do alto deste imenso rochedo, sou Infante, eterno gigante, saudoso das ondas vencidas, memórias perdidas no fundo do mar.
Longe vão os tempos em que fui herói. Fui exemplo seguido por pegadas anónimas, que livremente decidiram acompanhar-me rumo ao desconhecido.
Hoje sou mera lembrança, recorte de esperança, que serve de consolo a quem já nada tem, nem sonha, nem sente.
Quando mais nada nos resta, sobra-nos o mar. Esse eterno meio de fuga que leva gente e traz saudade.
Saudade, essa palavra tão vasta, nefasta, que é só nossa, que nos pertence como um fado que temos de carregar. Um fardo, pesado, demasiado grande para caber em nós.
Se soubesse escrever música, o meu país seria um assobio de vento, que vai e vem, acompanhado de um sonante lamento, libertado por alguém.
Uma gaivota que pousa a meu lado, amortece a solidão dos meus pensamentos, cada vez mais lentos. O meu semblante é hoje mais pesado, meu rosto rubro, de aspecto cansado, envelhecido pelo Sol. Sou apenas uma miragem do que fui.
A brisa suave, que de súbito me acaricia, relembra-me que tenho o cheiro a maresia entranhado em mim.
Um dia tive de partir, recordo. Os meus sonhos já não cabiam na linha do horizonte. Quase sem bagagem, segui viagem sem destino certo. Para trás deixei um país pequeno, demasiado ameno para alimentar a chama que, a cada passo, se acendia em mim.
Acabei por me encontrar no fundo do tempo, no passar das horas que sobejam quando nos libertamos dos vícios terrenos. Quando um dia me despedir da vida, vou brindá-la com um sorriso, ela foi boa para mim.
Em nome da História, e dos heróis de que há memória, o nosso destino será sempre lá longe, onde a vista deixa de alcançar. O nosso destino será sempre ausente, será sempre além-mar.

terça-feira, 2 de março de 2010

O Meu Pai


Lembro-me de como me acordavas, de forma irritante, puxando-me os dedos dos pés. Era uma forma original de dizer em silêncio “salta da cama”. Aliás, os teus silêncios sempre me disseram mais que as tuas palavras parcas, nem sempre muito doces. As nossas conversas sempre foram pontuais, casuais mas sempre muito regeneradoras das feridas causadas pelos percalços da vida. As tuas palavras, meu Pai, as tuas poucas palavras sempre foram sábias. Sempre tiveste explicação e solução para tudo. Quando eu tinha uns dez anos, recordo-me de ter dificuldade em adormecer. Temia o simples facto de fechar os olhos. Tinha medo de adormecer e morrer durante o sono. E depois, lutava contra o cansaço, ao ponto de ficar acordada, depois de toda a família ter já adormecido. Em pânico, rumava ao vosso quarto e tentava acordar-vos, de mansinho, sem sobressaltos. “Mãe, Pai, está toda a gente a dormir e eu estou sozinha no mundo!” – soluçava, entre uma e outra lágrima que me escorria pelo rosto.
Foi numa dessas noites que me ensinaste um truque especial para adormecer. Nunca mais me esqueci. Também nunca mais pratiquei. Porque o sono vem com mais facilidade com o passar dos anos. Vamos carregando com o peso do tempo que passa e isso deixa-nos mais cansados. “Fecha os olhos e vai imaginando uma linha de luz imaginária que sobe através do teu corpo, começando lentamente na ponta dos pés” – dizias-me, num tom de voz tranquilo, confiante de que o método era infalível. “Concentra-te na ponta dos pés”, reforçavas, ao perceberes que não estava convencida de que iria resultar. A verdade é que resultava. Não sei se seria do truque, ou do conforto da tua presença, mas em pouco tempo eu adormecia.
Também me recordo da sola de um chinelo que um dia me ficou tatuada na nádega direita. Devo ter feito algo que te irritou muito, meu Pai. Já não me lembro o quê. Nem da dor que a chinelada me causou. Hoje até recordo esse episódio com um sorriso nos lábios. Faz parte da nossa história e não te quero mal por isso.
Lembro-me ainda do dia em que me disseste que podia conduzir o teu carro. Tinha apenas dezasseis anos. Ocupaste o outro banco e deste-me liberdade para aprender, seguindo as tuas indicações. E eu fiz tudo certinho e nunca mais me esqueci.
Hoje continuas a ensinar-me muito. Que devo superar-me em tudo o que faço. Que devo aprender tudo o que posso e também o que julgo não poder. E que devo aprender a ter calma para viver a vida e aceitar serenamente tudo o que ela me quiser mostrar.
Nunca te disse isto antes, meu Pai. Também não sou de dizer tudo o que sinto. Mas fazes-me falta, meu Pai. Ainda tens tanto para me ensinar…

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

New York, I Love You – Day 5 – The last day

O último dia de uma viagem é sempre carregado de alguma melancolia. Uma saudade antecipada do que se vai deixar para trás. Uma saudade incontrolável de quem espera por nós. E sempre a incerteza sobre se a viagem de regresso irá terminar bem. Depois de sermos pais, penso que o maior medo é o de nunca mais voltarmos a ver os nossos filhos. Durante esta viagem pensei nisto milhares de vezes.
Há que abandonar o hotel até ao meio-dia. Faço o check-out por volta das nove e peço para me guardarem a mala até às 13h, altura em que terei obrigatoriamente que partir rumo ao aeroporto. Entretanto, ainda tenho tempo para tomar um café, dar mais um passeio e almoçar perto do hotel. Decido experimentar o “Bubba Gump” – um restaurante inspirado no filme de 1994 “Forrest Gump”, brilhantemente protagonizado por Tom Hanks, merecidamente galardoado com um Óscar da Academia. Este restaurante, cuja especialidade é marisco, oferece um vasto menu de iguarias, desde o camarão frito a uma fantástica sopa chamada “Old fashioned New England Clam Chowder”. Um sítio muito agradável que recomendo visitar. And it’s time to say goodbye. Não me consigo despedir da Big Apple sem pensar já no regresso e no que ficou por conhecer. Da próxima vez, quero ver um espectáculo na Broadway, quero visitar a estátua da liberdade, explorar o Museu de Arte Moderna, pernoitar no Waldorf Astoria, circular pela cidade numa limousine… (Isto já sou eu a sonhar alto). Tudo é possível. Em Nova Iorque tudo pode acontecer. E eu quero lá voltar. Sempre. Até ao último dos meus dias.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

New York, I Love You – Day 4

Acordo para o quarto dia quase sem sentir as pernas. Conhecer boa parte da cidade sempre a pé começa a abalar, ainda que de forma ligeira, a minha resistência física. Nada que possa fazer esmorecer o entusiasmo crescente que esta cidade desperta em mim. Hoje vou à zona chique. Subo a famosa 5ª avenida em direcção ao Central Parque. Pelo caminho, vou parando embasbacada frente a algumas imagens que sempre inundaram o meu imaginário, graças ao que vejo nos filmes. Passo em frente ao Waldorf Astoria, o hotel mais emblemático da cidade, a par com o Plazza. Vislumbro lustres que caem dos tectos das suites centenárias e sonho um dia voltar a Nova Iorque, podendo pernoitar num destes palácios onde se pode alugar um retiro de luxo por uma ou várias noites. Começam a surgir as lojas dos grandes criadores. Passo pela casa Channel, Louis Vuitton, Dior… As lojas têm à porta seguranças disfarçados de mordomos, o suficiente para afugentar qualquer curioso cujo recheio da carteira não cumpra os requisitos necessários para entrar na loja e sair com um saquinho que seja.
Entro no Central Park e decido parar uns minutos junto ao lago. O frio dos últimos dias transformou-o num espelho gelado. A paisagem, em tons de cinza, é triste, mas ainda assim muito bonita. As árvores despidas de folhas anseiam pelos dias mais quentes. Curioso – penso – as árvores, ao contrário das pessoas, despem-se no Inverno e resguardam-se de folhas em pleno Verão. Nuas. É assim que estão agora todas as árvores do Central Park, onde pessoas correm, crianças brincam e os esquilos saltitam, exibindo-se à nossa frente, de quando em vez.
Chego ao Metropolitan Museum of Art. Um dos museus que me falta visitar em Nova Iorque. Da última vez, estive no Guggenheim e no Museu de História Natural – dois marcos da cidade. Maravilhosos e inesquecíveis. Não me apetece assim tanto ver museus. Não que não esteja interessada em descobrir os fantásticos tesouros expostos aqui, mas porque não foi esse o propósito da minha viagem. Interessa-me mais andar nas ruas, ver pessoas, observar rotinas, entender hábitos e costumes. Gosto de pessoas, mais do que dos seus feitos. Gosto de observar e tentar compreender a essência de cada ser humano. Cruzar semelhanças e diferenças e tentar chegar a conclusões.
Saio do museu, duas horas depois. Novo passeio a pé e a fome aperta. Quero reencontrar um bar Grego onde comi um inesquecível hambúrguer de Búfalo há cinco anos atrás. Não encontro esse, mas descubro outro. Tão bom ou melhor. Delicio-me. Nem sou grande fã de hambúrgueres, mas este está soberbo. É de comer e salivar por mais. Mas o meu dia de pecados gastronómicos não termina por aqui. Ainda não comi um único doce desde que cheguei. Guardei-me para algo que me faça perder a cabeça e cometer o pecado da Gula. Passo por um bar chamado Lindy’s, que anuncia num reclamo luminoso frontal “the world famous cheesecake”. Está decidido. Vou cometer aqui o meu pecado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

New York, I Love You – Day 3

Cabem muitas cidades dentro da cidade de Nova Iorque. Hoje vou explorar uma dessas “cidades”. Apanho um Yellow Cab – um típico táxi nova-iorquino – e indico como destino a Canal Street, junto à Chinatown. Não foi por acaso que assim foi baptizada essa zona da cidade. Um emaranhado de prédios baixos, lojas e letreiros com caracteres chineses desenhados lembram-nos que estamos em território de uma tribo alheia. Uma numerosa comunidade de imigrantes chineses que assentou arraiais na zona baixa da Big Apple.
Desço do táxi e, ainda antes de conseguir assentar o pé direito no chão, sou abordada por uma senhora chinesa que literalmente me esbarra a passagem. Repetindo continuamente, num inglês mal arranhado, “purse, wallet, Louis Vuitton”, enquanto exibe uma folha impressa com vários modelos da marca, persegue-me ainda uns metros até desistir de me vender o que quer que seja. Enquanto circulo pelas ruas, vai passando por mim, em câmara lenta, uma sequência quase interminável de lojas de bugigangas, especializadas na venda de imitações perfeitas de relógios de marca. Na Chinatown, em Nova Iorque, quaisquer 50 dólares são suficientes para adquirir um Rolex ou um Pateck Philip que poucos vão perceber que não é verdadeiro. Um luxo pobre, de quem se contenta com pouco. Um momento de felicidade quase infantil para quem sabe de antemão que dificilmente chegará um dia a ser rico.
Antes de começar a investigar qual dos restaurantes reúne a minha preferência para o almoço, ainda descubro umas lojas que me convidam a entrar. Peixarias de rua, onde está exposto peixe com um aspecto tão fresco que dá vontade de comer cru. Ervanárias, onde se vendem latinhas de muitos chás especiais, com destaque para o de Jasmim. Ourivesarias, recheadas de diamantes e figuras de marfim. Pequenos quiosques que vendem um pouco de tudo, desde fotografias lindíssimas de Nova Iorque, até cachecóis de seda e caxemira.
Para o almoço escolho umas gambas salteadas com aipo, cogumelos e castanhas de caju. Estão deliciosas e já só penso no que irei descobrir quando sair dali. Num ritual típico dos restaurantes da Chinatown, não me retiro sem antes abrir um bolinho da sorte e ler a mensagem que me foi destinada.
Pode ser que se concretize. Para já, vou seguir em frente e ver se é desta que consigo tirar umas fotos junto da mítica Brooklyn Bridge.