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quarta-feira, 30 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 6

- Outra tentativa… “Na minha rua há….”
- Há lá perto muitos prédios coloridos, assim aos quadradinhos cor-de-rosa, azuis, verdes e amarelos - disse, articulando as palavras tão depressa com a boca como com os gestos das mãos.
Com esta deixa fez-se luz na cabeça de Pedro. A casa da menina ficaria certamente próximo de um bairro social que havia ali perto. Decidido a confirmar a sua pista, Pedro convidou Maria a acompanhá-lo até à rua. Iria acompanhá-la a pé, até se certificar que a deixaria devidamente entregue à família. Antes de sair, Maria quis dar um beijo a Dona Carlota e dizer-lhe obrigada. Sentia que aquela velhota a tinha vindo salvar da sua pobre e triste existência. De facto, não estava muito longe da realidade. Só ainda não o sabia.
- Vamos combinar uma coisa - sugeriu Dona Carlota - a partir de amanhã eu vou buscar-te à porta da escola e depois vens para aqui comigo um bocadinho, tomas um lanche e fazes os trabalhos, antes de voltares para cada, pode ser?
- A sério? Yupi! – Explodiu Maria, num gritinho tipicamente infantil, completamente eufórica com a proposta avançada pela avó de Pedro.
No dia seguinte, pontualmente às três da tarde, lá estava Dona Carlota junto ao portão principal. Maria desceu a escadaria frontal num fôlego só. Estava eufórica por rever a sua nova (velha) amiga. E muito feliz por ela ter cumprido o que prometera na noite anterior.
- Maria! – Chamou Dona Carlota num grito, ao mesmo tempo que acenava efusivamente com o braço direito.
- Dona Carlota! – Respondeu a menina, noutro berro não menos sonoro e expressivo, correndo de braços abertos na sua direcção, deixando antever um caloroso abraço.
Já de mãos dadas, as duas caminharam tranquilamente até à casa cor-de-rosa, trocando confidências sobre o decorrer daquele dia, e claro, sobre o desfecho da noite anterior.
À chegada a casa, a mãe de Maria reagira com rispidez. Chegou a ser até um pouco desagradável com Pedro, antes de se acalmar e ouvir a versão integral do sucedido. Pedro ficou impressionado com a pobreza daquela casa e daquela gente. Chegou a questionar-se em silêncio: como pode ser possível alguém sobreviver num sítio como este? Era de facto perturbadora a forma como aquela pobreza falava directamente aos olhos atentos de Pedro. As paredes (se assim se podiam chamar) escorriam água e exibiam bolor como se de obras de arte se tratassem. O cheiro a bafio era nauseabundo, mesmo sentido apenas suavemente através da porta entreaberta. Um pequeno grupo de crianças de olhar vazio, circundavam a mãe como crias que anseiam desesperadamente pela próxima mamada. (...)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 5

A hora que demorou aquele lanche tardio serviu para Pedro colocar a avó ao corrente do que se passava com Maria. Dona Carlota ficou muito sensibilizada ao saber que a menina era muito pobre e que vivia em condições miseráveis apenas com a mãe e mais quatro irmãos. Apercebeu-se de que era uma criança carente, talvez pelo facto de a mãe estar mais preocupada em arranjar dinheiro para sustentar os filhos do que em confortá-los com gestos de carinho. A falta de dinheiro bloqueia-nos sempre a vontade de demonstrar amor, pensou só para si a velhota.
Dona Carlota havia reparado também que a menina, apesar de ser muito bonita, se apresentava com o cabelo muito oleoso e as roupas demasiado roçadas. Por isso, antes de resolver a questão de a devolver à mãe, decidiu que ela sairia de sua casa com outro aspecto. Encheu a sua velha banheira com água quente e deixou a menina chapinhar nela durante uns minutos, enquanto lhe esfregava energicamente a longa melena encaracolada e cada dobra do corpo, desde as axilas até aos entremeios dos dedos dos pés. Depois secou-a muito bem e lembrou-se de procurar num baú muito antigo algumas roupas dos netos quando eram pequenos. Descobriu uma camisola de lã grossa com motivos de renas e uma jardineira castanha de bombazina que assentaram a Maria como uma luva. Agora está perfeita, pensou, fixando a criança com o olhar contemplativo que habitualmente dedicava a cada uma das suas bonecas de porcelana.
Era já noite cerrada. As nove badaladas ecoadas pelo antigo relógio de pêndulo confirmavam isso mesmo.
- Está na hora de voltares para casa, Maria – disse Dona Carlota – a tua mãe já deve estar muito apoquentada – acrescentou, revendo-se com nitidez na pele de uma mãe que desespera pela chegada de um filho ausente.
- Mas eu não sei o caminho! – Retorquiu a menina, encolhendo os ombros e franzindo ao de leve o sobrolho. - Por isso andava perdida quando o Pedro me encontrou – prosseguiu, gesticulando com as mãos enquanto se fazia explicar.
- Não há problema - aligeirou Pedro - vamos jogar um jogo para ver se eu descubro onde é a tua rua, propôs. Vais-me dando pistas e eu vou compondo o puzzle aqui na minha cabeça. Olha, eu começo a frase “Na minha rua há…” e tu acabas, pode ser?
A ideia pareceu animar Maria que rapidamente se lançou na brincadeira:
- Siiim! Na minha rua há… um café!
- Boa! E como se chama esse café? – Questionou Pedro.
- Ahhhhh… - hesitou Maria – O nome não me lembro, mas sei que é da Dona Rosa, disse a menina, certa de que seria uma dica importante.
Pedro esboçou um ar de completo desânimo ao aperceber-se que não ia ser assim tão fácil chegar à chave do problema. Ainda assim prosseguiu:
- Outra tentativa… “Na minha rua há…" (...)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 4

Às primeiras notas da melodia, Maria estava oficialmente encantada. Era como se estivesse ali apenas fisicamente. O seu espírito vagueava galopando livremente sobre um mundo com o qual sempre sonhara. Um mundo onde tudo é belo, onde todas as pessoas são bondosas e onde as crianças podem comer gomas ao pequeno-almoço sem reprimendas maternais. A imaginação de Maria viajava agora a bordo de uma espiral giratória multicolorida que a transportava para uma outra dimensão.
- Ouviste o que eu te disse, Maria? – Perguntou Dona Carlota, interrompendo o sonho diurno da menina. Por instantes, a senhora temeu pela integridade da caixinha, tal era a forma como as mãos de Maria se evidenciavam trémulas. Um mero reflexo do turbilhão de emoções das últimas horas.
- Oh, que linda caixinha! Eu sempre sonhei ter uma destas! – Exclamou Maria, antes de libertar um sonante e profundo suspiro.
- Pois bem, Maria, como Deus nunca me deu filhas nem netas, vou propor-te um acordo: Um dia, quando a minha vida chegar ao fim, esta caixinha será tua. O anúncio súbito e inesperado de Dona Carlota emocionou de tal forma Maria que a menina não se conteve. Transpondo os limites da vergonha e da intimidade, abraçou a velhota com todas as suas forças.
- Muito obrigada! Obrigada, obrigada, obrigada…- repetiu a menina quase interminavelmente, agarrada à cintura da sua nova (velha) amiga. Era o melhor presente que jamais alguém lhe oferecera. Apesar de ser um presente que só chegaria no futuro.
Dona Carlota acariciou a cabeça da menina num suave cafuné, esboçando um sorriso com um olhar distante.
Passou-se mais uma hora em que os três exploraram toda a loja, desvendando segredos escondidos em pequenas caixas de madeira, movimentando fantoches e soltando gargalhadas. Parecia que se conheciam há anos.
Dona Carlota propôs que subissem à cozinha, para comer qualquer coisa.
- Eu já estou cheiinha de fome! – Fez saber Maria, sem sombra de vergonha.
- Ainda bem, meu amor – respondeu a avó Carlota. – Vou já preparar um lanchinho para nós os três. Colocou uma toalha de quadrados vermelhos sobre a mesa, na qual sobrepôs um lindo pão-de-ló, aparentemente acabado de sair do forno. Levou ao lume um púcaro de alumínio cheio de leite fresco e no final dissolveu várias colheradas de cacau no cremoso líquido branco. Depois, partilhou o chocolate quente por três chávenas iguais, servindo a primeira ao neto, a segunda à menina e reservando a última para si. (...)

domingo, 20 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 3

- Olá princezinha! Então chamas-te Maria. E quantos anos tens, minha querida? – Perguntou Dona Carlota, tentando meter conversa da forma mais natural possível.
- Tenho sete, quase oito. Faço anos no mês que vem – tratou de esclarecer a menina com prontidão.
- Uhmmm! Então já sabes ler e escrever, certo? - Continuou a avó.
- Claro! E até sou uma das melhores alunas da minha sala – disse Maria com visível orgulho.
Deixando-se levar pela magia daquele inesperado encontro com uma criança de tenra idade, a avó decidiu não fazer perguntas difíceis ao neto em frente da menina. Guardou-as para mais tarde, quando estivessem os dois a sós. E prosseguiu a conversa apressando-se a fazer as honras à casa. Era sempre com grande emoção que revelava os cantos e recantos da sua loja encantada, partilhando histórias que por ali se passaram ao longo de mais de cinquenta anos. Energicamente, apesar dos seus oitenta e muitos anos, foi fazendo disparar interruptores à sua passagem.
Maria caminhava, pé ante pé, boquiaberta e deslumbrada com o que se ia revelando à sua frente. Para ela, que pouco ou nada tinha, aquela loja era um mundo inteiro. Um mundo de fantasia, cor e alegria. Um mundo oposto ao que a esperava diariamente à chegada a casa. Por instantes, Maria desejou esquecer-se de vez que morava numa barraca, onde dividia uma espécie de quarto com mais quatro irmãos – três mais velhos e uma irmã mais nova de apenas dois anos. Na ingenuidade dos seus sete anos, foi invadida por um inconsciente desejo de ficar naquela casa para sempre.
Nas estantes, vitrinas e cadeirões antigos harmoniosamente espalhados pela enorme sala dormiam os mais variados brinquedos. Bonecas de porcelana, bonecas de pano com cabelos de lã, peões e carrinhos de madeira, bolas de trapos eram apenas o início de uma longa lista que levaria meses a escrever. Mais perto do sonho do que a realidade, Maria era incapaz de pronunciar uma palavra que fosse. Estava numa espécie de transe provocado por um auge da sua curta existência. Fixou o olhar numa peça que estava exposta na montra como se a quisesse hipnotizar. E sem pedir licença aproximou-se dela decidida a tocá-la. Mas antes de o fazer, hesitou e parou.
- Não tenhas medo, querida – disse a avó Carlota – podes pegar-lhe, só tens de o fazer com as duas mãos e com muito cuidado para que não se parta. Sabes, essa peça é muito especial para mim – continuou - essa caixinha de música era da minha avó. Quando era pequenina, devia de ter mais ou menos a tua idade, também eu adorava dar-lhe corda e ficar a ver a bailarina dançar ao som desta música – concluiu, pegando ela própria na caixinha com o objectivo de lhe dar corda pela enésima vez.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 2

- Sim, Maria, acho que posso ajudar – respondeu Pedro, ainda sem saber como. Recorrer às autoridades seria a ideia mais simples e óbvia. Mas Pedro temia que a criança ficasse ainda mais assustada ao aperceber-se da gravidade da situação. E foi de repente que se lembrou:
- Tu disseste que procuravas uma casa de brinquedos?
- Sim! – Assentiu Maria, já com outro entusiasmo na voz.
- Pois olha, lembrei-me agora, sabes que a minha avó é dona de uma loja de brinquedos há já muitos anos?
- A sério? – Exclamou Maria incrédula, em jeito de interrogação.
- Sim, é verdade! É uma loja um bocado velha, cheia de brinquedos antigos, uns novos e outros usados que as pessoas vão lá vender quando já não os querem. Gostavas de ir comigo lá à loja e conhecer a minha avó? – Perguntou Pedro, sabendo de antemão qual seria a resposta.
- Sim! Claro que quero! – Gritou Maria, com os olhos a cintilar. Por momentos, o medo cedeu lugar ao entusiasmo e fez esquecer tudo o resto.
- Então vamos – disse Pedro, acompanhando as palavras com um discreto abraço sobre a pesada mochila que a menina carregava às costas. E lá foram. Lado a lado, caminhando lentamente. Maria deixou-se guiar com total confiança, embalada pela sua doce inocência infantil. Cinco minutos depois, Pedro parou frente a um edifício cor-de-rosa de dois andares que, apesar de parecer muito antigo, se apresentava em muito bom estado de conservação. Maria também parou, aguardando pacientemente o que aconteceria a seguir.
Pedro bateu à porta. Deu três toques, segurando a mãozinha metálica em forma de punho cerrado. Pouco depois, uma senhora velhota apareceu. Dona Carlota era a típica avozinha. De cabelo grisalho amarrado na nuca em forma de coque. Vestia roupa castanha e envergava sobre os ombros um xaile de lã bege. Apesar de ser viúva, Dona Carlota recusava-se a carregar o luto sob a forma de roupa preta.
Abriu a porta com um sorriso e apressou-se a abraçar Pedro.
- Oh, meu querido netinho! - Sussurrou, antes de lhe espetar um repenicado beijo na bochecha.
- Olá avó! – Cumprimentou Pedro, num tom meigo, antes de devolver o beijo. - Hoje trago companhia – avançou, antes que a avó sequer lhe perguntasse quem era a menina que vinha com ele.
- Esta é a Maria e ela adorava conhecer a tua loja, avó!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 1

Maria andava há horas sem saber onde estava. Caminhava cheia de fome, de frio e de medo quando foi abordada por um homem que se atravessou no caminho.
- Olá, como te chamas? - Perguntou Pedro, tentando meter conversa com a menina de ar amedrontado que aparentava ter não mais que sete ou oito anos.
- Eu sou a Maria, mas a minha mãe disse-me para não falar com estranhos - respondeu hesitante, colocando um ar muito sério.
- A tua mãe tem toda a razão, Maria. Mas onde é que ela está? - Insistiu Pedro.
- Deve estar em casa a fazer o jantar. Já é de noite e quando começa a ficar escuro ela vai para a cozinha fazer a sopa - esclareceu Maria.
Perante uma resposta que não justificava o facto de uma criança tão pequena vaguear sozinha pelas perigosas ruas da cidade àquela hora, Pedro voltou a insistir:
- Mas onde fica a tua casa, Maria?
A pergunta despertou nela a fragilidade que vinha a disfarçar e que culminou num enorme pranto.
- Eu não sei - disse soluçando, enquanto encobria o rosto com ambas as mãos. - Estou perdida! – Acrescentou, erguendo os olhos inundados de lágrimas na direcção do rosto de Pedro, como que em busca de uma solução.
Confirmou-se a suspeita que ele mais temia. Aquela criança estava mesmo perdida e não sabia como regressar a casa.
- Mas como é que te perdeste, Maria?
Já um pouco mais calma, confortada com a presença daquele estranho que parecia uma pessoa amigável, a menina explicou:
- Eu saí da escola esta tarde e em vez de voltar logo para casa, lembrei-me de procurar uma loja de brinquedos que a professora disse que havia numa rua aqui perto. Fui andando, andando, e só via casas e pessoas e árvores e carros e não encontrava loja nenhuma. Quando quis voltar para casa, já não sabia o caminho de volta. Estava perdida. Então, comecei a andar, a andar, a ver se me lembrava qual era a rua onde devia virar.
Respirou fundo, como se estivesse cansada de falar, mas assim que recuperou o fôlego, continuou:
- Podes ajudar-me a voltar para a minha casinha? – Perguntou, num tom enternecedor.

sábado, 15 de janeiro de 2011

15 minutos

Tanto que sonhei, tanto que desejei. E nada acontece. Nada do que desejei que fosse a minha vida. A cada encruzilhada pareço seguir sempre o caminho mais sinuoso. Certo dia terei ouvido dizer que “os caminhos mais difíceis são aqueles que nos levam mais longe”. Serão mesmo? Questiono. Não serão antes os que nos fazem perder mais tempo. Este precioso intervalo de tempo que nos separa do fim e que, por maior que seja, nunca é demais. Sinto falta de animação. Sinto os dias a passar só por passar. Sei-me capaz de tanto e pareço não conseguir fazer nada. Vejo-me em tantos outros sítios longe daqui. Consigo visualizar-me na pele da pessoa que gostaria de ser. Só não sei como consigo lá chegar e fundir-me nela até que sejamos uma só. Talvez nunca chegue. Talvez chegue tarde de mais. Ou talvez surpreendentemente consiga lá chegar subitamente, de rompante, sem aviso prévio, quando menos esperar. A vida é boa. A vida é má. A vida tem dias… Gosto de viver no limite das emoções. Gosto daqueles instantes de infinito em que os acontecimentos nos fazem testar a velocidade máxima do bater do coração. É só nesses momentos que me sinto verdadeiramente viva. Em todos os outros, aqueles em que nos arrastamos pelo tiquetaque dos dias, sinto-me apenas um espírito que vagueia à procura de algo. Há dias em que me sinto mera espectadora do filme da minha vida. No dia em que encontrar o caminho, serei a actriz principal. Quero brilhar sobre a passadeira vermelha. Que venham os meus quinze minutos de fama. Até eu mereço. Toda a gente merece. Só pelo simples facto de viver e não o poder fazer para sempre.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Apagar o rasto do ano velho, deixar entrar o ano novo

Nestes últimos dias do ano tenho sempre a mesma sensação. Há uma emergência que paira no ar e na atitude das pessoas. Há uma ânsia colectiva focada no desejo de que o ano velho se vá embora depressa e leve consigo tudo o que de mau aconteceu. Em simultâneo, parece haver em cada pessoa (e eu não sou excepção) a doce ilusão de que naquele limiar entre a 11ª e a 12ª badalada tudo vá renascer. E ao acordar, na manhã tardia do dia 1 de Janeiro, damo-nos conta que tudo não passou disso mesmo – uma ténue, muito ligeira mesmo, ilusão. Mas vale pela festa. Mesmo aquela que se faz sem sair de casa, ao ritmo dos anúncios da TV. Vale pelas horas de descompressão cerebral, entre um e outro flute de champanhe (ou espumante, conforme a disponibilidade). Vale uma ou outra gargalhada que acaba por se soltar, nem que seja com a anedota do avô ou de algum velhote que passe o ano ao nosso lado. Vale sempre pela esperança de que uma mudança magnética súbita vá redireccionar as nossas vidas, colocando-as por fim no rumo certo.
Mas antes, deixem-nos arrumar gavetas e rasgar papéis. Renovar dossiers e arquivar as pastas do Outlook. Deixem-nos enviar um milhão e meio de e-mails e sms e colocar sequências incansáveis de posts nas redes sociais, como se nos estivéssemos a despedir dos nossos amigos velhos, que amanhã já vão ser outros – renovados, renascidos, tal como o ano que aí vem. “Adeus, até para o ano!” – oiço por aí. E rio-me. Parece que alguém vai fazer uma longa viagem com retorno previsto para uma data a perder de vista. Que doce ilusão esta a do Ano Novo. Mas eu gosto dela, ainda assim, por isso vou gozá-la. Só porque me apetece. Adeus 2010. Até já 2011. Prometo voltar com palavras frescas muito em breve.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um banho de imersão com Deus

Naquele dia, dirigi-me para o jacuzzi como que em busca da salvação. Há muito que ansiava relaxar. O peso de um ano de trabalho, de problemas e obrigações parecia agora insuportável. Um saco cheio, prestes a rebentar, caso não fosse despejado a tempo. Estava no limite. Tinham acabado de se me esgotar as forças e os meus movimentos reflectiam isso. Movia-me quase em câmara lenta, como um robot cujas pilhas estão prestes a descarregar por completo. Subi os degraus e saltei sem hesitar para a abundante banheira de água quente. Ao tocar na minha pele submersa, os revoltos jactos de água cruzados provocavam-me uma estranha sensação de calma misturada com prazer. Imaginei que a cada bolha que emergia, acabando por rebentar, correspondia um problema. E eu assistia deliciada àquele espectáculo pirotécnico de bolhas de água efervescentes. Umas vezes, rebentavam ao chegar à superfície. Noutras, dissolviam-se na própria água. Por vezes, pareciam até evaporar-se através da fina cortina de vapor que a água quente acabava por libertar. Um por um, os problemas iam-se afogando. Todos, sem excepção. E eu, sádica, sorria. Cada vez mais leve, mais solta e mais feliz. Decidi fechar os olhos por instantes, para que a visão não me distraísse. Não queria que a poluição visual desestabilizasse os outros sentidos, total e unicamente concentrados em delirar com aquele momento de lazer que eu decidira proporcionar-lhes. Não tive consciência de adormecer, mas comecei a sentir um leve arrepio, como se a alma se estivesse a desprender do corpo. Este leve, muito leve, arrepio foi-me atravessando o corpo, como um raio. Naquele momento senti que podia levitar. E foi nesse preciso momento, nesse instante de infinito que Ele se sentou frente a mim. Não ouvi nada, nem vi ninguém. Apenas senti uma presença forte juntar-se a mim dentro de água. Tal como o vento, que apesar de não se ver sente-se, Ele chegou, sentou-se e ficou a admirar-me por uns segundos. Depois (imagino que tenha esboçado um ligeiro sorriso, satisfeito por ter cumprido mais uma missão), dissolveu-se na água, entranhando a sua energia em mim como um pó protector que ajuda a enfrentar os males do Mundo.
Já há muito que nos conhecíamos e admirávamos mutuamente. Mas naquela tarde, após aquele inesperado encontro, ficámos amigos para sempre. Ele mostrou-me que não preciso de ir a lugar nenhum em sua busca. Sempre que eu quiser, pedir ou desejar, Ele virá ao meu encontro. Sempre que saudar alguém com o meu sorriso rasgado. Sempre que libertar da minha mão uma moeda na direcção de outra mão carente. Sempre que estiver a ver, a cheirar, saborear, ouvir ou tocar em algo belo. Ele estará lá, ele estará sempre lá. E prometeu ajudar-me, se eu colaborar e seguir à risca os conselhos que me deu: “Pela janela da alma despeja o lixo invisível que te polui. Pela porta, deixa entrar a energia universal que te move e te renova a cada dia”.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O lado bom da crise

Pode parecer um lugar comum, mas a vida têm-me ensinado que é nos piores momentos que se aprendem as melhores lições. Foi com base neste pressuposto que me ocorreu analisar a crise económica - de que todos falam mas poucos entendem - à luz do que, a meu ver, é realmente essencial. Na verdade, mais do que tentar perceber quem provocou a crise e como vamos sair dela, importa analisar a situação e despertar a nossa consciência para o que todos andamos a fazer de errado. Porque se queremos realmente falar de culpa, os reais culpados somos todos nós.
Não sei bem há quantos anos foi - ainda por cá ando há relativamente poucos - que o ser humano deixou de assentar a construção do seu bem-estar apenas na satisfação das necessidades básicas. Houve um dia em que o homem acordou e começou a projectar no que possuía a fonte da felicidade suprema. E assim se criaram as mais variadas necessidades desnecessárias. Crianças que crescem solitárias, compensadas com milhares de brinquedos; Homens que se exibem ao volante de luxuosos carros; Mulheres que desafiam os limites do equilíbrio em saltos imensamente mais altos do que alguém com juízo poderia suportar. Em nome do luxo, do bom e do belo, tudo se aguenta, até a factura que cresce, mês após mês, descontroladamente. São montras que nos sorriem a acenar com objectos de desejo, quase como se nos quisessem seduzir contra-vontade. E nós, que já não conseguimos encontrar alegria apenas no passar dos dias, sonhamos, desejamos e saciamos o vício, loucamente deliciados, numa alucinante overdose de felicidade efémera. A euforia é breve. A ressaca não tarda em chegar. E o ciclo repete-se, até à falência das forças e das cifras que a alimentam.
Pagar mais por bens até agora considerados essenciais também pode ser uma lição. O truque é equacionar se andamos a comprar o produto de que necessitamos ou o que tem a melhor campanha de marketing. É simples. Taxar leite infantil dito “especial de crescimento” no valor máximo, significa apenas que as crianças podem continuar a crescer, como sempre cresceram, a beber leite do dia, muito mais fresco e que até custa metade do preço. Outro exemplo. Serão também os néctares de fruta uma bebida essencial? Antigamente, nada disso havia e as crianças cresciam saudáveis e felizes a beber sumos espremidos directamente da fruta para o copo. Ou, melhor ainda, comiam fruta fresca, hábito convenientemente substituído pelo consumo de pacotes vendidos a preço exorbitante com a promessa de oferecer todos os benefícios das peças de fruta propriamente ditas. Vá lá, o que é custa afinal levar no bolso uma maçã, uma pêra ou uma banana?
Ao trabalharmos demasiado para alimentar os vícios, deixamos de ter tempo para o essencial. E é então que começamos a consumir comida de plástico que engolimos em frente ao televisor que só nos responde com notícias más. Trocamos o tempo que não temos para brincar com os nossos filhos por brinquedos e bugigangas que eles vão desprezando por toda a casa. Sentimos o fim-de-semana chegar num estado de coma permanente. Para despertar, deambulamos por centros comerciais em busca de drogas que saciem o vício e nos façam novamente encontrar a felicidade.
Não quero ser dependente destas coisas que não trazem felicidade nenhuma, apenas uma doce ilusão. Porque quando já se teve mais, aprender a viver com muito menos não é uma vergonha. É uma lição que nos abre a porta à liberdade de nos desprendermos dos bens materiais e encontrar a felicidade no tiquetaque das horas, na realidade dos dias, nos momentos verdadeiramente importantes da vida real.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Dia de festa na ilha do tio Jardim

Contemplo deslumbrada a chuva de cores que cai do céu. O fogo de artifício ateado sobre a baía do Funchal é, muito provavelmente, um dos mais bonitos do Mundo Os foguetes são disparados de dentro de um batelão, que quase não se vê. Por instantes, chego a pensar que o espectáculo pirotécnico nasce do fundo do mar. É de facto um presente assistir ao famoso fogo de artifício da Madeira, mesmo não sendo noite de passagem de ano. É apenas o culminar de um dia de festa, um dia muito especial para o concelho do Funchal. Hoje, dia 21 de Agosto, celebra-se o dia do Município.
Descubro o programa de festas num prospecto que me chega às mãos dentro do hotel. Há muito para ver e ouvir antes que o dia se faça noite. Fixo-me num acontecimento que desperta em mim um misto de curiosidade e interesse: a cerimónia que reúne as figuras ilustres na praça do município. É lá que estará presente o grande líder madeirense. Hoje apetece-me apelidá-lo de tio Jardim. Ir à Madeira e não ver o tio Jardim é quase como ir a Roma e não ver o Papa. Porque será que insistimos em cultivar esta estranha perversão voyeurista, às vezes quase inconfessável, de querer ver de perto as figuras que apenas conhecemos da televisão? Não consigo encontrar resposta. Porém, continuo a querer assistir bem de perto ao que se vai passar a seguir. A fachada da Câmara Municipal está trajada a rigor, coberta por coloridos mantos. Há faixas azuis, amarelas e vermelhas, tal como o tecido típico dos trajes madeirenses. A banda filarmónica está geometricamente alinhada frente à sede da autarquia e ensaia poses e saudações nos intervalos das músicas. Pouco passa das onze e meia quando todos ficam em sentido. O aproximar repentino de veículos topo de gama anuncia a chegada daquele que todos querem ver. Os jornalistas – e respectivas câmaras fotográficas e de televisão - põem-se a jeito para registar o momento do melhor ângulo. E eis que sai do interior de um veículo de estofos em pele o nosso carismático tio Jardim. Sem perder tempo, circula junto aos populares, distribui beijos e apertos de mão e chega mesmo a saudar turistas estrangeiros com uma simpática frase de cortesia: “Hello! Welcome to Madeira”.
Aparte de toda esta temática, há uma questão idiota que não me sai da cabeça. “Mas por que raio se há-de chamar Jardim ao líder político da ilha das flores?”. Vou investigar. Um dia ainda hei-de ver esclarecida esta questão.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um pão chamado bolo

Mal acabo de me sentar à mesa para aquela que seria a minha primeira refeição na Ilha da Madeira, sou violentamente confrontada com um cesto de pão. Uma massa quente, estaladiça por fora (meio esturricada até) e fofa por dentro, emana um salivante aroma. “ É o famoso bolo do caco” – apressa-se a esclarecer o empregado de mesa, com o visível orgulho de quem introduz um ex-líbris da região a toda a gente com aspecto de turista. “Com manteiga de alho é muito bom”, acrescenta, com o seu sotaque tipicamente madeirense, enquanto aponta discretamente para uma manteigueira de loiça que se destaca sobre a mesa. Descobrirei mais tarde, após experimentar mais de uma dezena de bolos do caco, todos em sítios diferentes, que este primeiro seria o meu preferido, exactamente por não vir recheado do que quer que fosse. Serei louca por toda a minha vida ter adorado comer pão às secas? Juro que adoro, não me perguntem porquê. Chego a ficar com soluços, por empurrar com insistência, movida apenas por saliva e gula, pequenas bolas de massa que vou espalmando entre o polegar e o indicador.
Mas porquê é que chamam a isto bolo do caco, se a mim apenas me parece uma espécie de pão de Mafra, um tanto ou quanto mais espalmado? Se ao menos fosse doce, ainda se entenderia a designação de bolo. Mas não, a massa é salgada, apenas confeccionada com farinha de trigo à qual são adicionados fermento, água e sal (descubro após uma breve consulta no ciberespaço). E é graças à mega enciclopédia online que desvendo a resposta à minha inquietação. Ou, pelo menos, parte dela. O caco deriva do facto desta massa ser tradicionalmente cozida sobre uma pedra de basalto, ou mais remotamente, sobre um caco de telha a escaldar. Ainda assim, continuo sem saber o porquê de ser bolo e não pão. Alguém me conseguirá esclarecer porque não chamam a esta deliciosa iguaria apenas pão do caco?
Ainda a debater-me com esta dúvida, embarco numa verdadeira viagem ao mundo dos sentidos, enquanto descubro os prazeres da gastronomia madeirense. Experimento o filete de espada com banana, que não se compara a nada que possa ter saboreado até hoje. Delicio-me com os cubos de milho frito que adornam a típica espetada de carne, após repetir dia após dia, sem me cansar, o mesmo aperitivo: as lapas grelhadas na chapa, salpicadas de alho picado e posteriormente regadas com limão. Quando não como lapas, opto por uma aveludada sopa de tomate com ovo escalfado. Sobra-me pouco estômago para os doces. Ainda assim, provo uma colherada aqui e outra ali. Entre o pudim de maracujá e a cassata de amêndoa com molho de chocolate quente, a escolha é de perder de vista.
Basta inverter o ditado e ter afinal mais barriga que olhos, onde possam caber tantas bombas calóricas. Agora percebo bem porque é que sobretudo as mulheres madeirenses são tão roliças. Diria mesmo que é muita força de banana e bolo do caco.
A rematar, o incontornável vinho da Madeira. Incontestavelmente famoso, existe em quatro variedades, respectivamente designadas pelas castas predominantes: Malvasia (doce), Boal (meio-doce), Verdelho (meio-seco) e Cercial (seco). Na adega Old Blandy, no coração do Funchal, enchem-se e vazam-se os cálices, ao ritmo da sede dos turistas que por aqui passam. Nunca em nenhum outro canto do mundo, senti os cinco sentidos tão apurados, tão em harmonia. Do olfacto ao paladar, o tacto revela texturas que a vista não alcança e o vento ouve-se assobiar quando o Sol se esconde timidamente por entre o manto de nuvens que abraçam a ilha, como se num casulo a quisessem proteger.