segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Madeira marca a diferença
Repetir uma viagem é como rever um filme ou reler um livro. À primeira vista escapam-nos sempre os pormenores. Captamos o essencial, apreciamos o que há de belo e desejamos regressar sempre que as memórias que sobram mereçam ser guardadas para sempre. Queremos regressar, uma e outra vez, aos locais onde fomos felizes, tal como ansiamos rever as pessoas que um dia nos fizeram felizes. Talvez por isso tenhamos sido capazes de inventar a palavra saudade.
Uma imperiosa necessidade de recuperar memórias de dias felizes fez-me regressar à ilha da Madeira, um ano depois de lá ter estado pela primeira vez. A euforia da chegada, que anteriormente senti, cedeu lugar à confiança de já saber onde me encontrava. O clima ameno perfeito, o mar a perder de vista e o verde tropical sempre tão eléctrico, parece querer iluminar tudo em redor. Assimilado o essencial, decidi focar-me nos pormenores. E, em tempos de crise, quando em redor da protecção dos produtos nacionais gira uma enorme celeuma, não pude deixar de notar como o povo madeirense é perito na defesa das suas marcas. Publicidade à parte, no Funchal a cerveja é Coral. E quando nos sentamos à mesa, nem nos questionam alternativas. E nós acabamos por agradecer. A qualidade da cerveja produzida desde 1969 na ilha da Madeira satisfaz até os mais exigentes apreciadores. À pressão ou engarrafada, a marca é líder em toda o canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés). Esta curiosidade levou-me a explorar a marca e a surpreender-me ainda mais. Assediada por anúncios vários, decidi provar uma Brisa maracujá - um refrigerante gasoso. Fresco, exótico, ligeiramente doce, com um toque não excessivo de gás. Descobri mais tarde, que este foi o 1º refrigerante do mundo a ser produzido à base de sumo de maracujá puro, corria então o ano de 1970. Visionários, inovadores, pode dizer-se que os madeirenses cedo souberam tirar partido do melhor que a terra tinha para lhes oferecer. A fruta da paixão, “passion fruit” como os ingleses lhe chamam, constitui um dos ex-líbris da ilha, a par com a tão aclamada banana da Madeira. A água engarrafada, que se bebe em toda a parte, também é extraída e embalada na região. Desde 2002 que a ERC (Empresa de Cervejas da Madeira) se lançou no segmento das águas. Nos dias que correm, a marca Atlântida – uma água subterrânea captada a partir de rochas basálticas - lidera o consumo a nível regional. E a identidade das marcas que definem o carácter da ilha emergem ao virar da esquina, estejam os nossos olhos bem abertos. Não há táxi que não esteja pintado de azul e amarelo, as cores da bandeira da região autónoma. E por falar em autonomia, não há lugar para a EDP nesta ilha. A energia eléctrica é garantida pela EEM – Empresa de Electricidade da Madeira, conforme se pode ler nos tampos que cobrem os buracos redondos ao longo das estradas e passeios. Numa altura em que só se fala da Madeira pelas piores razões, apetece-me enaltecer, em honra do esforçado e trabalhador povo madeirense, as marcam que marcam a diferença no panorama económico da região. Madeira: o que faz, faz bem – é o mote que desejo lançar na despedida, em jeito de estímulo para todos os que conseguem fazer da Madeira um pequeno grande paraíso, logo ali, aqui tão perto.
Nota: referência bibliográfica - www.cervejacoral.com.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
A última palavra
Menção Honrosa - Modalidade Prosa (Tema: Ser jornalista por um dia) - 41º Jogos Florais Internacionais de Nossa Senhora do Carmo - Fuseta, Julho 2011 (Organização: Casa Museu Profª. Maria José Fraqueza - Poetisa e Escritora)
As mãos trémulas e cansadas, que lentamente se arrastam sobre o teclado para escrever estas linhas, já não são as mesmas que outrora seguravam firmemente a caneta, desenhando histórias sobre o papel. Ai, o bloco! Que saudades do meu velho guardião das notas, que lentamente se iam transformando em frases, que iam formando textos, que iam enchendo as páginas impressas, que preenchiam as pausas dos leitores que as iam folheando. Nesse tempo, havia vagar. As horas abriam espaço para nos sentarmos e pensarmos e desfrutarmos de cada detalhe. Os dias pareciam caminhar devagar, sem a pressa dos que hoje correm. Quem corria era eu. Recordo-me bem daquele jovem enérgico que rasgava o vento para alcançar os sonhos. E eu que sonhei um dia ser jornalista. Só para fugir daquela vida monótona que se esconde e se agacha de cócoras atrás de cada secretária. A fobia de ficar paralisado encorajava-me a arriscar. Tinha medo, tinha muito medo de um dia me sentar e ficar ali colado para sempre, sem coragem para me levantar. Sonhei fazer de cada dia uma aventura. Uma viagem que não se esgotasse na medonha rotina do simples passar das horas. Viajar, conhecer pessoas. Gente nova, gente mais velha, toda a gente que habita o mundo. Toda a gente tem uma história. E eu queria ouvi-las a todas, resumi-las, repeti-las, contá-las aos outros. E assim fui enriquecendo. Mas sem notas nem moedas, nem cifras nem cifrões. Guardei no bolso apenas a sabedoria. E quanto mais sabia, mais queria saber. E tocava, sentia, cheirava cada lugar como se lhe quisesse espremer o sumo, como se quisesse num abraço agarrar todo o mundo. Outra vez o medo. Tinha sempre medo de errar. O que é que os outros iriam pensar. Mas depois reagia. Amanhã já ninguém se irá lembrar. E a pensar sorria: não terão sequer fixado o meu nome. E o texto que me deliciei a cozinhar em lume brando, durante horas e horas, não será mais que a página rasgada, uma história assassinada a servir de agasalho a uma dúzia de castanhas quentes. Muitas vezes nem dormia, tal era a pressa de viver. Cada minuto em que fechasse os olhos seria menos um, numa acelerada contagem decrescente. Seria uma perda de tempo e eu não tinha tempo a perder. Mas o cansaço perseguia-me. Combatia-o ferozmente, consumindo cafeína a um ritmo vertiginoso, enquanto queimava teimosos cigarros que por castigo acabavam por morrer espezinhados. Fui feliz, posso dizer que fui muito feliz a fazer o que mais amava. Hoje recordo com saudade cada rosto, cada sorriso, cada lágrima impressa nas histórias que contei. Poderia ter feito melhor? Talvez, quem sabe. Ao olhar para trás, vejo estradas e mar e céu. Vejo pessoas e vidas que se perdem e se renovam a cada instante. Vejo decisões certas que traçaram rumos, escolhas erradas que serviram para ensinar alguém. Até ao dia em que os meus olhos contrariarem a minha vontade e se fecharem para sempre, vou devorar o mundo e tentar trocá-lo por miúdos para que todos os outros o fiquem a conhecer melhor. Até à última letra do alfabeto, vou continuar a gritar, até que as palavras se me esgotem de vez.
As mãos trémulas e cansadas, que lentamente se arrastam sobre o teclado para escrever estas linhas, já não são as mesmas que outrora seguravam firmemente a caneta, desenhando histórias sobre o papel. Ai, o bloco! Que saudades do meu velho guardião das notas, que lentamente se iam transformando em frases, que iam formando textos, que iam enchendo as páginas impressas, que preenchiam as pausas dos leitores que as iam folheando. Nesse tempo, havia vagar. As horas abriam espaço para nos sentarmos e pensarmos e desfrutarmos de cada detalhe. Os dias pareciam caminhar devagar, sem a pressa dos que hoje correm. Quem corria era eu. Recordo-me bem daquele jovem enérgico que rasgava o vento para alcançar os sonhos. E eu que sonhei um dia ser jornalista. Só para fugir daquela vida monótona que se esconde e se agacha de cócoras atrás de cada secretária. A fobia de ficar paralisado encorajava-me a arriscar. Tinha medo, tinha muito medo de um dia me sentar e ficar ali colado para sempre, sem coragem para me levantar. Sonhei fazer de cada dia uma aventura. Uma viagem que não se esgotasse na medonha rotina do simples passar das horas. Viajar, conhecer pessoas. Gente nova, gente mais velha, toda a gente que habita o mundo. Toda a gente tem uma história. E eu queria ouvi-las a todas, resumi-las, repeti-las, contá-las aos outros. E assim fui enriquecendo. Mas sem notas nem moedas, nem cifras nem cifrões. Guardei no bolso apenas a sabedoria. E quanto mais sabia, mais queria saber. E tocava, sentia, cheirava cada lugar como se lhe quisesse espremer o sumo, como se quisesse num abraço agarrar todo o mundo. Outra vez o medo. Tinha sempre medo de errar. O que é que os outros iriam pensar. Mas depois reagia. Amanhã já ninguém se irá lembrar. E a pensar sorria: não terão sequer fixado o meu nome. E o texto que me deliciei a cozinhar em lume brando, durante horas e horas, não será mais que a página rasgada, uma história assassinada a servir de agasalho a uma dúzia de castanhas quentes. Muitas vezes nem dormia, tal era a pressa de viver. Cada minuto em que fechasse os olhos seria menos um, numa acelerada contagem decrescente. Seria uma perda de tempo e eu não tinha tempo a perder. Mas o cansaço perseguia-me. Combatia-o ferozmente, consumindo cafeína a um ritmo vertiginoso, enquanto queimava teimosos cigarros que por castigo acabavam por morrer espezinhados. Fui feliz, posso dizer que fui muito feliz a fazer o que mais amava. Hoje recordo com saudade cada rosto, cada sorriso, cada lágrima impressa nas histórias que contei. Poderia ter feito melhor? Talvez, quem sabe. Ao olhar para trás, vejo estradas e mar e céu. Vejo pessoas e vidas que se perdem e se renovam a cada instante. Vejo decisões certas que traçaram rumos, escolhas erradas que serviram para ensinar alguém. Até ao dia em que os meus olhos contrariarem a minha vontade e se fecharem para sempre, vou devorar o mundo e tentar trocá-lo por miúdos para que todos os outros o fiquem a conhecer melhor. Até à última letra do alfabeto, vou continuar a gritar, até que as palavras se me esgotem de vez.
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Textos premiados
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Limpeza geral
Dizem que tenho a mania das limpezas. No início, contestava. Respondia sempre que estavam a exagerar. Mas a verdade é que continuo a ser constantemente assaltada por uma estranha obsessão em arrumar, organizar e limpar tudo o que me rodeia. Desde os papéis que se amontoam velozmente sobre a secretária à roupa suja que me vai entupindo a cesta a um ritmo assustadoramente descontrolado. Aos meus olhos, a loiça suja que se avoluma na pia assemelha-se a um cenário de guerra. Todas as coisas que se vão encostando a um e outro canto, à espera do dia em que “logo se vê” o que fazer com elas, causam-me uma espécie de horror. O mundo, tudo o que o compõe e rodeia, é mais belo quando está em ordem. Contemplo deslumbrada o quarto arrumado onde, confortavelmente deitada numa cama a cheirar a limpo, me deito a devorar as páginas de um livro. O prazer que experimento depois da exaustão permite-me fruir da beleza do momento como se de uma obra de arte se tratasse. O mundo, este meu mundo, implora-me a cada instante para que o ponha no seu devido lugar. Tudo o que não cabe num espaço acaba por ser desprezado, tal como o amor que alguém nos entrega sem que o tenhamos pedido. Oiço repetidamente que a perfeição não existe. É mentira. Eu já a toquei várias vezes, ainda que não a tivesse conseguido agarrar. Ela vem e vai. Vai e vem. Mas no entretanto deixa-se cheirar e acariciar como um bebé que pegamos ao colo e que no instante seguinte já é adulto. Quando tenho as unhas arranjadas sinto-me perfeita. Quando tenho as pernas depiladas sinto-me perfeita. Quando tenho o cabelo penteado sinto-me perfeita. Atinjo a perfeição sempre que todas as peças encaixam no puzzle formando uma imagem indiscutivelmente bela. E quando me volto a perder no meio do caos, sou inesperadamente salva pelo o imenso céu azul que numa linda manhã de Sol irrompe pelo pára-brisas fazendo espelhar novamente a perfeição que deveria existir em todas as coisas.
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Desabafos salteados
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 10
Nas paredes daquele grande salão ficaram gravadas as memórias do dia que havia de mudar o rumo de toda a sua vida. E isso inspirava Maria em cada um dos seus projectos. Sempre que necessitava de inspiração, recordava a conversa em que tinha dito a Dona Carlota que iria desenhar uma enorme casa só para si. Talvez movida pela crença de que o espírito da sua velha amiga a estaria sempre a ajudar, a inspiração acabava por surgir naturalmente, como que por magia.
Os anos foram passando: Primavera, Verão, Outono, Inverno e tudo de novo outra e outra vez. Maria tem vinte e oito anos numa tarde abafada de Verão. Está submersa em vários metros de esquiços que rascunham projectos de casas que hão-de nascer. Um pouco cansada, decide fazer uma pausa. Pega na caixinha de música que orgulhosamente exibe sobre a secretária e decide dar-lhe corda. Ao som da familiar melodia, abre a janela, deixando a brisa acariciar-lhe o rosto. Por entre as cortinas, que ficam a dançar ao ritmo do vento, Maria espreita a rua e fixa o olhar num imenso vazio. Subitamente é assaltada por uma saudade imensa da sua velha amiga. Ao mesmo tempo, sente um movimento brusco e acaricia a barriga. Maria espera para breve o nascimento do seu primeiro filho. É uma menina. E vai chamar-se Carlota.
FIM
Os anos foram passando: Primavera, Verão, Outono, Inverno e tudo de novo outra e outra vez. Maria tem vinte e oito anos numa tarde abafada de Verão. Está submersa em vários metros de esquiços que rascunham projectos de casas que hão-de nascer. Um pouco cansada, decide fazer uma pausa. Pega na caixinha de música que orgulhosamente exibe sobre a secretária e decide dar-lhe corda. Ao som da familiar melodia, abre a janela, deixando a brisa acariciar-lhe o rosto. Por entre as cortinas, que ficam a dançar ao ritmo do vento, Maria espreita a rua e fixa o olhar num imenso vazio. Subitamente é assaltada por uma saudade imensa da sua velha amiga. Ao mesmo tempo, sente um movimento brusco e acaricia a barriga. Maria espera para breve o nascimento do seu primeiro filho. É uma menina. E vai chamar-se Carlota.
FIM
Conto "Casa de Bonecas" - página 9
Na ausência de Dona Carlota, Pedro fez cumprir os desejos da avó e encarregou-se ele próprio de garantir que nada de essencial iria faltar a Maria. Assegurava-lhe a compra de todos os materiais escolares, inscreveu-a num centro de ocupação de tempos livres, garantindo um lugar onde poderia cumprir os deveres com o acompanhamento de que não dispunha em casa, e definiu um dia da semana para ir buscá-la à escola. Todas as quartas-feiras, estacionava o carro junto ao portão e esperava que Maria chegasse. Depois, rumavam a uma esplanada à beira-rio, fosse Verão ou Inverno, e sentavam-se a comer um gelado e a relatar tudo o que lhes tinha acontecido ao longo da semana passada.
No dia em que completou dez anos, Maria ganhou a sua primeira bicicleta. E no dia em que completou quinze, um computador. Aos dezoito, já na universidade, recebeu um cheque que serviria de passaporte à maior das ambições de quem atinge a maioridade: tirar a carta de condução. Da menina que uma noite andara perdida pelas ruas de Lisboa, pouco ou nada restava. Maria era agora uma jovem alta, esbelta, de longos cabelos negros ondulados, muito segura de si. Sabia bem o que queria e não temia esforços para chegar mais além. Nos estudos, continuava a ser exemplar. Conseguira entrar em arquitectura com média de dezanove. Era admirada por todos os que a conheciam, desde professores a colegas, como uma verdadeira menina-prodígio, que não deixava antever as suas humildes origens. Nem os gestos nem as palavras a denunciavam. Maria era uma pessoa doce de trato e sorriso fáceis, dona de um vocabulário irrepreensível.
O curso de arquitectura é concluído com sucesso. Maria tem agora 23 anos, uma casa alugada e um futuro promissor. Certo dia, numa festa organizada em casa de amigos comuns, reencontra-se com Pedro e algo de novo acontece. Ele é já um homem maduro, quinze anos mais velho. Ela, a anos-luz da menina que uma noite andava perdida, é agora uma mulher em todo o seu esplendor. E a magia acontece.
Loucamente apaixonados, apesar da diferença de idades, Pedro e Maria decidem viver juntos. Restauram a casa cor-de-rosa e mudam-se para lá. Maria decide transformar o antigo salão de exposição no seu atelier. Os antigos brinquedos há muito que foram doados a um museu da especialidade, para que todo o mundo os pudesse apreciar. Apesar das transformações estruturais, aquele espaço mantém uma energia positiva que contagia Maria.
No dia em que completou dez anos, Maria ganhou a sua primeira bicicleta. E no dia em que completou quinze, um computador. Aos dezoito, já na universidade, recebeu um cheque que serviria de passaporte à maior das ambições de quem atinge a maioridade: tirar a carta de condução. Da menina que uma noite andara perdida pelas ruas de Lisboa, pouco ou nada restava. Maria era agora uma jovem alta, esbelta, de longos cabelos negros ondulados, muito segura de si. Sabia bem o que queria e não temia esforços para chegar mais além. Nos estudos, continuava a ser exemplar. Conseguira entrar em arquitectura com média de dezanove. Era admirada por todos os que a conheciam, desde professores a colegas, como uma verdadeira menina-prodígio, que não deixava antever as suas humildes origens. Nem os gestos nem as palavras a denunciavam. Maria era uma pessoa doce de trato e sorriso fáceis, dona de um vocabulário irrepreensível.
O curso de arquitectura é concluído com sucesso. Maria tem agora 23 anos, uma casa alugada e um futuro promissor. Certo dia, numa festa organizada em casa de amigos comuns, reencontra-se com Pedro e algo de novo acontece. Ele é já um homem maduro, quinze anos mais velho. Ela, a anos-luz da menina que uma noite andava perdida, é agora uma mulher em todo o seu esplendor. E a magia acontece.
Loucamente apaixonados, apesar da diferença de idades, Pedro e Maria decidem viver juntos. Restauram a casa cor-de-rosa e mudam-se para lá. Maria decide transformar o antigo salão de exposição no seu atelier. Os antigos brinquedos há muito que foram doados a um museu da especialidade, para que todo o mundo os pudesse apreciar. Apesar das transformações estruturais, aquele espaço mantém uma energia positiva que contagia Maria.
Conto "Casa de Bonecas" - página 8
Se calhar atrasou-se, foi o seu primeiro pensamento. Poucos segundos depois chegou Pedro cabisbaixo, ao volante do seu automóvel. Parou o carro e convidou-a a entrar:
- Entra Maria, precisamos de conversar – anunciou, com uma voz trémula.
- E a Dona Carlota, porque é que ela não me veio buscar hoje? – Questionou a menina, longe de adivinhar qual seria a terrível resposta.
Pedro ficou em silêncio mais alguns segundos. Ainda não sabia bem como dar a notícia. Esperava encontrar algures no seu pensamento as palavras mais correctas para falar de morte com uma criança.
- A avó… ficou doente esta noite – avançou Pedro.
- Doente? – Interrogou Maria. – Mas doente com quê? – Quis saber a menina, forçando Pedro a rapidamente inventar o cenário menos doloroso possível:
- A avó sentiu-se mal e tivemos que chamar o doutor. Ele veio, deu-lhe um remédio e a avó ficou a dormir… - Pedro fez nova pausa, agora com os olhos rasos de água. As evidências faziam Maria começar a aperceber-se de que deveria ter acontecido algo de muito grave com a sua velha amiga.
- Mas conta Pedro, conta, onde é que está a Dona Carlota agora? – Voltou a insistir a criança, já num estado de nervosismo crescente.
Pedro fechou os olhos e respirou fundo. E por fim esclareceu:
- Maria, a avó está no céu junto aos anjinhos. Ela estava muito cansada e eles vieram buscá-la para depois a levarem para um jardim muito bonito.
Pedro nem queria acreditar no que tinha acabado de dizer. As palavras iam-lhe saindo de forma espontânea e soavam-lhe estupidamente. Sentia-se um autêntico padre, a ler um excerto de um típico sermão dominical.
- A avó Carlota morreu? – Perguntou Maria, já com as lágrimas a caírem-lhe de fio.
- Sim, Maria. É muito difícil, eu sei, também estou muito triste, mas infelizmente foi isso que aconteceu.
…
Passaram-se vários meses até que Maria conseguisse pensar em Dona Carlota sem chorar. Estava tudo ainda tão presente. A sua voz, as palavras que lhe dissera no dia anterior à sua partida, o seu acenar junto ao portão da escola. Aquela amizade era a melhor coisa que lhe tinha acontecido desde que se lembrava de ser gente. E logo tinha que acabar tão depressa, pensava inconsolável.
- Entra Maria, precisamos de conversar – anunciou, com uma voz trémula.
- E a Dona Carlota, porque é que ela não me veio buscar hoje? – Questionou a menina, longe de adivinhar qual seria a terrível resposta.
Pedro ficou em silêncio mais alguns segundos. Ainda não sabia bem como dar a notícia. Esperava encontrar algures no seu pensamento as palavras mais correctas para falar de morte com uma criança.
- A avó… ficou doente esta noite – avançou Pedro.
- Doente? – Interrogou Maria. – Mas doente com quê? – Quis saber a menina, forçando Pedro a rapidamente inventar o cenário menos doloroso possível:
- A avó sentiu-se mal e tivemos que chamar o doutor. Ele veio, deu-lhe um remédio e a avó ficou a dormir… - Pedro fez nova pausa, agora com os olhos rasos de água. As evidências faziam Maria começar a aperceber-se de que deveria ter acontecido algo de muito grave com a sua velha amiga.
- Mas conta Pedro, conta, onde é que está a Dona Carlota agora? – Voltou a insistir a criança, já num estado de nervosismo crescente.
Pedro fechou os olhos e respirou fundo. E por fim esclareceu:
- Maria, a avó está no céu junto aos anjinhos. Ela estava muito cansada e eles vieram buscá-la para depois a levarem para um jardim muito bonito.
Pedro nem queria acreditar no que tinha acabado de dizer. As palavras iam-lhe saindo de forma espontânea e soavam-lhe estupidamente. Sentia-se um autêntico padre, a ler um excerto de um típico sermão dominical.
- A avó Carlota morreu? – Perguntou Maria, já com as lágrimas a caírem-lhe de fio.
- Sim, Maria. É muito difícil, eu sei, também estou muito triste, mas infelizmente foi isso que aconteceu.
…
Passaram-se vários meses até que Maria conseguisse pensar em Dona Carlota sem chorar. Estava tudo ainda tão presente. A sua voz, as palavras que lhe dissera no dia anterior à sua partida, o seu acenar junto ao portão da escola. Aquela amizade era a melhor coisa que lhe tinha acontecido desde que se lembrava de ser gente. E logo tinha que acabar tão depressa, pensava inconsolável.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 7
Pedro sabia que não poderia fazer muito para resolver os imensos problemas em que aquela família estava mergulhada. Contudo, sentia que ao fazer algo por Maria, já estaria a dar um contributo importante à humanidade. Às vezes temos que nos conformar de que não podemos mudar o mundo, mas em contrapartida temos sempre a hipótese de mudar, por um pouco que seja, a vida de alguém, costumava opinar muitas vezes o jovem rapaz no decorrer das longas tertúlias com os amigos.
De volta à “Casa de bonecas” (nome com o qual Dona Carlota havia baptizado a sua loja na década de sessenta), Maria reencontrou na vida real o conforto que muitas vezes vivenciava nos seus sonhos. Tinha até já tomado uma decisão, muito adulta por sinal para uma criança de apenas sete anos:
- Quando for grande, vou ser arquitecta! – Afirmou, com uma convicção fora do vulgar para uma menina tão pequena. – E vou desenhar muitas casas. Uma delas só para mim, muito grande, onde eu possa ter um quarto só para mim, uma casa de banho só para mim e uma piscina só para mim – rematou, denunciando um certo egoísmo, um sentimento que nasce naturalmente nas pessoas que se vêem privadas daquilo que consideram merecer por direito, pelo simples facto de terem nascido.
- Que boa ideia, Maria! – Apoiou Dona Carlota, acabada de decidir que iria contemplar aquela doce criança no seu testamento. Estava certa de que os filhos e os netos não se iriam opor nem a condenariam por isso. Todos eles haviam sido educados com base no princípio do amor ao próximo.
Dona Carlota foi fazendo as coisas aos poucos, como se estivesse a preparar tudo para um final que se avizinhava, cada vez mais próximo, a cada dia que chegava ao fim. Abriu pessoalmente uma conta bancária a favor de Maria onde depositou o dinheiro suficiente para um dia acautelar os seus estudos. Estabeleceu que a menina só poderia gerir o seu próprio património depois de completar dezoito anos. Até lá, Pedro ficaria como seu fiel tutor.
Naquela tarde quente de Verão, Maria estranhou o facto de, pela primeira vez em mais de seis meses, não ver Dona Carlota junto ao portão da escola.
De volta à “Casa de bonecas” (nome com o qual Dona Carlota havia baptizado a sua loja na década de sessenta), Maria reencontrou na vida real o conforto que muitas vezes vivenciava nos seus sonhos. Tinha até já tomado uma decisão, muito adulta por sinal para uma criança de apenas sete anos:
- Quando for grande, vou ser arquitecta! – Afirmou, com uma convicção fora do vulgar para uma menina tão pequena. – E vou desenhar muitas casas. Uma delas só para mim, muito grande, onde eu possa ter um quarto só para mim, uma casa de banho só para mim e uma piscina só para mim – rematou, denunciando um certo egoísmo, um sentimento que nasce naturalmente nas pessoas que se vêem privadas daquilo que consideram merecer por direito, pelo simples facto de terem nascido.
- Que boa ideia, Maria! – Apoiou Dona Carlota, acabada de decidir que iria contemplar aquela doce criança no seu testamento. Estava certa de que os filhos e os netos não se iriam opor nem a condenariam por isso. Todos eles haviam sido educados com base no princípio do amor ao próximo.
Dona Carlota foi fazendo as coisas aos poucos, como se estivesse a preparar tudo para um final que se avizinhava, cada vez mais próximo, a cada dia que chegava ao fim. Abriu pessoalmente uma conta bancária a favor de Maria onde depositou o dinheiro suficiente para um dia acautelar os seus estudos. Estabeleceu que a menina só poderia gerir o seu próprio património depois de completar dezoito anos. Até lá, Pedro ficaria como seu fiel tutor.
Naquela tarde quente de Verão, Maria estranhou o facto de, pela primeira vez em mais de seis meses, não ver Dona Carlota junto ao portão da escola.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 6
- Outra tentativa… “Na minha rua há….”
- Há lá perto muitos prédios coloridos, assim aos quadradinhos cor-de-rosa, azuis, verdes e amarelos - disse, articulando as palavras tão depressa com a boca como com os gestos das mãos.
Com esta deixa fez-se luz na cabeça de Pedro. A casa da menina ficaria certamente próximo de um bairro social que havia ali perto. Decidido a confirmar a sua pista, Pedro convidou Maria a acompanhá-lo até à rua. Iria acompanhá-la a pé, até se certificar que a deixaria devidamente entregue à família. Antes de sair, Maria quis dar um beijo a Dona Carlota e dizer-lhe obrigada. Sentia que aquela velhota a tinha vindo salvar da sua pobre e triste existência. De facto, não estava muito longe da realidade. Só ainda não o sabia.
- Vamos combinar uma coisa - sugeriu Dona Carlota - a partir de amanhã eu vou buscar-te à porta da escola e depois vens para aqui comigo um bocadinho, tomas um lanche e fazes os trabalhos, antes de voltares para cada, pode ser?
- A sério? Yupi! – Explodiu Maria, num gritinho tipicamente infantil, completamente eufórica com a proposta avançada pela avó de Pedro.
No dia seguinte, pontualmente às três da tarde, lá estava Dona Carlota junto ao portão principal. Maria desceu a escadaria frontal num fôlego só. Estava eufórica por rever a sua nova (velha) amiga. E muito feliz por ela ter cumprido o que prometera na noite anterior.
- Maria! – Chamou Dona Carlota num grito, ao mesmo tempo que acenava efusivamente com o braço direito.
- Dona Carlota! – Respondeu a menina, noutro berro não menos sonoro e expressivo, correndo de braços abertos na sua direcção, deixando antever um caloroso abraço.
Já de mãos dadas, as duas caminharam tranquilamente até à casa cor-de-rosa, trocando confidências sobre o decorrer daquele dia, e claro, sobre o desfecho da noite anterior.
À chegada a casa, a mãe de Maria reagira com rispidez. Chegou a ser até um pouco desagradável com Pedro, antes de se acalmar e ouvir a versão integral do sucedido. Pedro ficou impressionado com a pobreza daquela casa e daquela gente. Chegou a questionar-se em silêncio: como pode ser possível alguém sobreviver num sítio como este? Era de facto perturbadora a forma como aquela pobreza falava directamente aos olhos atentos de Pedro. As paredes (se assim se podiam chamar) escorriam água e exibiam bolor como se de obras de arte se tratassem. O cheiro a bafio era nauseabundo, mesmo sentido apenas suavemente através da porta entreaberta. Um pequeno grupo de crianças de olhar vazio, circundavam a mãe como crias que anseiam desesperadamente pela próxima mamada. (...)
- Há lá perto muitos prédios coloridos, assim aos quadradinhos cor-de-rosa, azuis, verdes e amarelos - disse, articulando as palavras tão depressa com a boca como com os gestos das mãos.
Com esta deixa fez-se luz na cabeça de Pedro. A casa da menina ficaria certamente próximo de um bairro social que havia ali perto. Decidido a confirmar a sua pista, Pedro convidou Maria a acompanhá-lo até à rua. Iria acompanhá-la a pé, até se certificar que a deixaria devidamente entregue à família. Antes de sair, Maria quis dar um beijo a Dona Carlota e dizer-lhe obrigada. Sentia que aquela velhota a tinha vindo salvar da sua pobre e triste existência. De facto, não estava muito longe da realidade. Só ainda não o sabia.
- Vamos combinar uma coisa - sugeriu Dona Carlota - a partir de amanhã eu vou buscar-te à porta da escola e depois vens para aqui comigo um bocadinho, tomas um lanche e fazes os trabalhos, antes de voltares para cada, pode ser?
- A sério? Yupi! – Explodiu Maria, num gritinho tipicamente infantil, completamente eufórica com a proposta avançada pela avó de Pedro.
No dia seguinte, pontualmente às três da tarde, lá estava Dona Carlota junto ao portão principal. Maria desceu a escadaria frontal num fôlego só. Estava eufórica por rever a sua nova (velha) amiga. E muito feliz por ela ter cumprido o que prometera na noite anterior.
- Maria! – Chamou Dona Carlota num grito, ao mesmo tempo que acenava efusivamente com o braço direito.
- Dona Carlota! – Respondeu a menina, noutro berro não menos sonoro e expressivo, correndo de braços abertos na sua direcção, deixando antever um caloroso abraço.
Já de mãos dadas, as duas caminharam tranquilamente até à casa cor-de-rosa, trocando confidências sobre o decorrer daquele dia, e claro, sobre o desfecho da noite anterior.
À chegada a casa, a mãe de Maria reagira com rispidez. Chegou a ser até um pouco desagradável com Pedro, antes de se acalmar e ouvir a versão integral do sucedido. Pedro ficou impressionado com a pobreza daquela casa e daquela gente. Chegou a questionar-se em silêncio: como pode ser possível alguém sobreviver num sítio como este? Era de facto perturbadora a forma como aquela pobreza falava directamente aos olhos atentos de Pedro. As paredes (se assim se podiam chamar) escorriam água e exibiam bolor como se de obras de arte se tratassem. O cheiro a bafio era nauseabundo, mesmo sentido apenas suavemente através da porta entreaberta. Um pequeno grupo de crianças de olhar vazio, circundavam a mãe como crias que anseiam desesperadamente pela próxima mamada. (...)
segunda-feira, 28 de março de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 5
A hora que demorou aquele lanche tardio serviu para Pedro colocar a avó ao corrente do que se passava com Maria. Dona Carlota ficou muito sensibilizada ao saber que a menina era muito pobre e que vivia em condições miseráveis apenas com a mãe e mais quatro irmãos. Apercebeu-se de que era uma criança carente, talvez pelo facto de a mãe estar mais preocupada em arranjar dinheiro para sustentar os filhos do que em confortá-los com gestos de carinho. A falta de dinheiro bloqueia-nos sempre a vontade de demonstrar amor, pensou só para si a velhota.
Dona Carlota havia reparado também que a menina, apesar de ser muito bonita, se apresentava com o cabelo muito oleoso e as roupas demasiado roçadas. Por isso, antes de resolver a questão de a devolver à mãe, decidiu que ela sairia de sua casa com outro aspecto. Encheu a sua velha banheira com água quente e deixou a menina chapinhar nela durante uns minutos, enquanto lhe esfregava energicamente a longa melena encaracolada e cada dobra do corpo, desde as axilas até aos entremeios dos dedos dos pés. Depois secou-a muito bem e lembrou-se de procurar num baú muito antigo algumas roupas dos netos quando eram pequenos. Descobriu uma camisola de lã grossa com motivos de renas e uma jardineira castanha de bombazina que assentaram a Maria como uma luva. Agora está perfeita, pensou, fixando a criança com o olhar contemplativo que habitualmente dedicava a cada uma das suas bonecas de porcelana.
Era já noite cerrada. As nove badaladas ecoadas pelo antigo relógio de pêndulo confirmavam isso mesmo.
- Está na hora de voltares para casa, Maria – disse Dona Carlota – a tua mãe já deve estar muito apoquentada – acrescentou, revendo-se com nitidez na pele de uma mãe que desespera pela chegada de um filho ausente.
- Mas eu não sei o caminho! – Retorquiu a menina, encolhendo os ombros e franzindo ao de leve o sobrolho. - Por isso andava perdida quando o Pedro me encontrou – prosseguiu, gesticulando com as mãos enquanto se fazia explicar.
- Não há problema - aligeirou Pedro - vamos jogar um jogo para ver se eu descubro onde é a tua rua, propôs. Vais-me dando pistas e eu vou compondo o puzzle aqui na minha cabeça. Olha, eu começo a frase “Na minha rua há…” e tu acabas, pode ser?
A ideia pareceu animar Maria que rapidamente se lançou na brincadeira:
- Siiim! Na minha rua há… um café!
- Boa! E como se chama esse café? – Questionou Pedro.
- Ahhhhh… - hesitou Maria – O nome não me lembro, mas sei que é da Dona Rosa, disse a menina, certa de que seria uma dica importante.
Pedro esboçou um ar de completo desânimo ao aperceber-se que não ia ser assim tão fácil chegar à chave do problema. Ainda assim prosseguiu:
- Outra tentativa… “Na minha rua há…" (...)
Dona Carlota havia reparado também que a menina, apesar de ser muito bonita, se apresentava com o cabelo muito oleoso e as roupas demasiado roçadas. Por isso, antes de resolver a questão de a devolver à mãe, decidiu que ela sairia de sua casa com outro aspecto. Encheu a sua velha banheira com água quente e deixou a menina chapinhar nela durante uns minutos, enquanto lhe esfregava energicamente a longa melena encaracolada e cada dobra do corpo, desde as axilas até aos entremeios dos dedos dos pés. Depois secou-a muito bem e lembrou-se de procurar num baú muito antigo algumas roupas dos netos quando eram pequenos. Descobriu uma camisola de lã grossa com motivos de renas e uma jardineira castanha de bombazina que assentaram a Maria como uma luva. Agora está perfeita, pensou, fixando a criança com o olhar contemplativo que habitualmente dedicava a cada uma das suas bonecas de porcelana.
Era já noite cerrada. As nove badaladas ecoadas pelo antigo relógio de pêndulo confirmavam isso mesmo.
- Está na hora de voltares para casa, Maria – disse Dona Carlota – a tua mãe já deve estar muito apoquentada – acrescentou, revendo-se com nitidez na pele de uma mãe que desespera pela chegada de um filho ausente.
- Mas eu não sei o caminho! – Retorquiu a menina, encolhendo os ombros e franzindo ao de leve o sobrolho. - Por isso andava perdida quando o Pedro me encontrou – prosseguiu, gesticulando com as mãos enquanto se fazia explicar.
- Não há problema - aligeirou Pedro - vamos jogar um jogo para ver se eu descubro onde é a tua rua, propôs. Vais-me dando pistas e eu vou compondo o puzzle aqui na minha cabeça. Olha, eu começo a frase “Na minha rua há…” e tu acabas, pode ser?
A ideia pareceu animar Maria que rapidamente se lançou na brincadeira:
- Siiim! Na minha rua há… um café!
- Boa! E como se chama esse café? – Questionou Pedro.
- Ahhhhh… - hesitou Maria – O nome não me lembro, mas sei que é da Dona Rosa, disse a menina, certa de que seria uma dica importante.
Pedro esboçou um ar de completo desânimo ao aperceber-se que não ia ser assim tão fácil chegar à chave do problema. Ainda assim prosseguiu:
- Outra tentativa… “Na minha rua há…" (...)
quinta-feira, 24 de março de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 4
Às primeiras notas da melodia, Maria estava oficialmente encantada. Era como se estivesse ali apenas fisicamente. O seu espírito vagueava galopando livremente sobre um mundo com o qual sempre sonhara. Um mundo onde tudo é belo, onde todas as pessoas são bondosas e onde as crianças podem comer gomas ao pequeno-almoço sem reprimendas maternais. A imaginação de Maria viajava agora a bordo de uma espiral giratória multicolorida que a transportava para uma outra dimensão.
- Ouviste o que eu te disse, Maria? – Perguntou Dona Carlota, interrompendo o sonho diurno da menina. Por instantes, a senhora temeu pela integridade da caixinha, tal era a forma como as mãos de Maria se evidenciavam trémulas. Um mero reflexo do turbilhão de emoções das últimas horas.
- Oh, que linda caixinha! Eu sempre sonhei ter uma destas! – Exclamou Maria, antes de libertar um sonante e profundo suspiro.
- Pois bem, Maria, como Deus nunca me deu filhas nem netas, vou propor-te um acordo: Um dia, quando a minha vida chegar ao fim, esta caixinha será tua. O anúncio súbito e inesperado de Dona Carlota emocionou de tal forma Maria que a menina não se conteve. Transpondo os limites da vergonha e da intimidade, abraçou a velhota com todas as suas forças.
- Muito obrigada! Obrigada, obrigada, obrigada…- repetiu a menina quase interminavelmente, agarrada à cintura da sua nova (velha) amiga. Era o melhor presente que jamais alguém lhe oferecera. Apesar de ser um presente que só chegaria no futuro.
Dona Carlota acariciou a cabeça da menina num suave cafuné, esboçando um sorriso com um olhar distante.
Passou-se mais uma hora em que os três exploraram toda a loja, desvendando segredos escondidos em pequenas caixas de madeira, movimentando fantoches e soltando gargalhadas. Parecia que se conheciam há anos.
Dona Carlota propôs que subissem à cozinha, para comer qualquer coisa.
- Eu já estou cheiinha de fome! – Fez saber Maria, sem sombra de vergonha.
- Ainda bem, meu amor – respondeu a avó Carlota. – Vou já preparar um lanchinho para nós os três. Colocou uma toalha de quadrados vermelhos sobre a mesa, na qual sobrepôs um lindo pão-de-ló, aparentemente acabado de sair do forno. Levou ao lume um púcaro de alumínio cheio de leite fresco e no final dissolveu várias colheradas de cacau no cremoso líquido branco. Depois, partilhou o chocolate quente por três chávenas iguais, servindo a primeira ao neto, a segunda à menina e reservando a última para si. (...)
- Ouviste o que eu te disse, Maria? – Perguntou Dona Carlota, interrompendo o sonho diurno da menina. Por instantes, a senhora temeu pela integridade da caixinha, tal era a forma como as mãos de Maria se evidenciavam trémulas. Um mero reflexo do turbilhão de emoções das últimas horas.
- Oh, que linda caixinha! Eu sempre sonhei ter uma destas! – Exclamou Maria, antes de libertar um sonante e profundo suspiro.
- Pois bem, Maria, como Deus nunca me deu filhas nem netas, vou propor-te um acordo: Um dia, quando a minha vida chegar ao fim, esta caixinha será tua. O anúncio súbito e inesperado de Dona Carlota emocionou de tal forma Maria que a menina não se conteve. Transpondo os limites da vergonha e da intimidade, abraçou a velhota com todas as suas forças.
- Muito obrigada! Obrigada, obrigada, obrigada…- repetiu a menina quase interminavelmente, agarrada à cintura da sua nova (velha) amiga. Era o melhor presente que jamais alguém lhe oferecera. Apesar de ser um presente que só chegaria no futuro.
Dona Carlota acariciou a cabeça da menina num suave cafuné, esboçando um sorriso com um olhar distante.
Passou-se mais uma hora em que os três exploraram toda a loja, desvendando segredos escondidos em pequenas caixas de madeira, movimentando fantoches e soltando gargalhadas. Parecia que se conheciam há anos.
Dona Carlota propôs que subissem à cozinha, para comer qualquer coisa.
- Eu já estou cheiinha de fome! – Fez saber Maria, sem sombra de vergonha.
- Ainda bem, meu amor – respondeu a avó Carlota. – Vou já preparar um lanchinho para nós os três. Colocou uma toalha de quadrados vermelhos sobre a mesa, na qual sobrepôs um lindo pão-de-ló, aparentemente acabado de sair do forno. Levou ao lume um púcaro de alumínio cheio de leite fresco e no final dissolveu várias colheradas de cacau no cremoso líquido branco. Depois, partilhou o chocolate quente por três chávenas iguais, servindo a primeira ao neto, a segunda à menina e reservando a última para si. (...)
domingo, 20 de março de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 3
- Olá princezinha! Então chamas-te Maria. E quantos anos tens, minha querida? – Perguntou Dona Carlota, tentando meter conversa da forma mais natural possível.
- Tenho sete, quase oito. Faço anos no mês que vem – tratou de esclarecer a menina com prontidão.
- Uhmmm! Então já sabes ler e escrever, certo? - Continuou a avó.
- Claro! E até sou uma das melhores alunas da minha sala – disse Maria com visível orgulho.
Deixando-se levar pela magia daquele inesperado encontro com uma criança de tenra idade, a avó decidiu não fazer perguntas difíceis ao neto em frente da menina. Guardou-as para mais tarde, quando estivessem os dois a sós. E prosseguiu a conversa apressando-se a fazer as honras à casa. Era sempre com grande emoção que revelava os cantos e recantos da sua loja encantada, partilhando histórias que por ali se passaram ao longo de mais de cinquenta anos. Energicamente, apesar dos seus oitenta e muitos anos, foi fazendo disparar interruptores à sua passagem.
Maria caminhava, pé ante pé, boquiaberta e deslumbrada com o que se ia revelando à sua frente. Para ela, que pouco ou nada tinha, aquela loja era um mundo inteiro. Um mundo de fantasia, cor e alegria. Um mundo oposto ao que a esperava diariamente à chegada a casa. Por instantes, Maria desejou esquecer-se de vez que morava numa barraca, onde dividia uma espécie de quarto com mais quatro irmãos – três mais velhos e uma irmã mais nova de apenas dois anos. Na ingenuidade dos seus sete anos, foi invadida por um inconsciente desejo de ficar naquela casa para sempre.
Nas estantes, vitrinas e cadeirões antigos harmoniosamente espalhados pela enorme sala dormiam os mais variados brinquedos. Bonecas de porcelana, bonecas de pano com cabelos de lã, peões e carrinhos de madeira, bolas de trapos eram apenas o início de uma longa lista que levaria meses a escrever. Mais perto do sonho do que a realidade, Maria era incapaz de pronunciar uma palavra que fosse. Estava numa espécie de transe provocado por um auge da sua curta existência. Fixou o olhar numa peça que estava exposta na montra como se a quisesse hipnotizar. E sem pedir licença aproximou-se dela decidida a tocá-la. Mas antes de o fazer, hesitou e parou.
- Não tenhas medo, querida – disse a avó Carlota – podes pegar-lhe, só tens de o fazer com as duas mãos e com muito cuidado para que não se parta. Sabes, essa peça é muito especial para mim – continuou - essa caixinha de música era da minha avó. Quando era pequenina, devia de ter mais ou menos a tua idade, também eu adorava dar-lhe corda e ficar a ver a bailarina dançar ao som desta música – concluiu, pegando ela própria na caixinha com o objectivo de lhe dar corda pela enésima vez.
- Tenho sete, quase oito. Faço anos no mês que vem – tratou de esclarecer a menina com prontidão.
- Uhmmm! Então já sabes ler e escrever, certo? - Continuou a avó.
- Claro! E até sou uma das melhores alunas da minha sala – disse Maria com visível orgulho.
Deixando-se levar pela magia daquele inesperado encontro com uma criança de tenra idade, a avó decidiu não fazer perguntas difíceis ao neto em frente da menina. Guardou-as para mais tarde, quando estivessem os dois a sós. E prosseguiu a conversa apressando-se a fazer as honras à casa. Era sempre com grande emoção que revelava os cantos e recantos da sua loja encantada, partilhando histórias que por ali se passaram ao longo de mais de cinquenta anos. Energicamente, apesar dos seus oitenta e muitos anos, foi fazendo disparar interruptores à sua passagem.
Maria caminhava, pé ante pé, boquiaberta e deslumbrada com o que se ia revelando à sua frente. Para ela, que pouco ou nada tinha, aquela loja era um mundo inteiro. Um mundo de fantasia, cor e alegria. Um mundo oposto ao que a esperava diariamente à chegada a casa. Por instantes, Maria desejou esquecer-se de vez que morava numa barraca, onde dividia uma espécie de quarto com mais quatro irmãos – três mais velhos e uma irmã mais nova de apenas dois anos. Na ingenuidade dos seus sete anos, foi invadida por um inconsciente desejo de ficar naquela casa para sempre.
Nas estantes, vitrinas e cadeirões antigos harmoniosamente espalhados pela enorme sala dormiam os mais variados brinquedos. Bonecas de porcelana, bonecas de pano com cabelos de lã, peões e carrinhos de madeira, bolas de trapos eram apenas o início de uma longa lista que levaria meses a escrever. Mais perto do sonho do que a realidade, Maria era incapaz de pronunciar uma palavra que fosse. Estava numa espécie de transe provocado por um auge da sua curta existência. Fixou o olhar numa peça que estava exposta na montra como se a quisesse hipnotizar. E sem pedir licença aproximou-se dela decidida a tocá-la. Mas antes de o fazer, hesitou e parou.
- Não tenhas medo, querida – disse a avó Carlota – podes pegar-lhe, só tens de o fazer com as duas mãos e com muito cuidado para que não se parta. Sabes, essa peça é muito especial para mim – continuou - essa caixinha de música era da minha avó. Quando era pequenina, devia de ter mais ou menos a tua idade, também eu adorava dar-lhe corda e ficar a ver a bailarina dançar ao som desta música – concluiu, pegando ela própria na caixinha com o objectivo de lhe dar corda pela enésima vez.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Conto "Casa de Bonecas" - página 2
- Sim, Maria, acho que posso ajudar – respondeu Pedro, ainda sem saber como. Recorrer às autoridades seria a ideia mais simples e óbvia. Mas Pedro temia que a criança ficasse ainda mais assustada ao aperceber-se da gravidade da situação. E foi de repente que se lembrou:
- Tu disseste que procuravas uma casa de brinquedos?
- Sim! – Assentiu Maria, já com outro entusiasmo na voz.
- Pois olha, lembrei-me agora, sabes que a minha avó é dona de uma loja de brinquedos há já muitos anos?
- A sério? – Exclamou Maria incrédula, em jeito de interrogação.
- Sim, é verdade! É uma loja um bocado velha, cheia de brinquedos antigos, uns novos e outros usados que as pessoas vão lá vender quando já não os querem. Gostavas de ir comigo lá à loja e conhecer a minha avó? – Perguntou Pedro, sabendo de antemão qual seria a resposta.
- Sim! Claro que quero! – Gritou Maria, com os olhos a cintilar. Por momentos, o medo cedeu lugar ao entusiasmo e fez esquecer tudo o resto.
- Então vamos – disse Pedro, acompanhando as palavras com um discreto abraço sobre a pesada mochila que a menina carregava às costas. E lá foram. Lado a lado, caminhando lentamente. Maria deixou-se guiar com total confiança, embalada pela sua doce inocência infantil. Cinco minutos depois, Pedro parou frente a um edifício cor-de-rosa de dois andares que, apesar de parecer muito antigo, se apresentava em muito bom estado de conservação. Maria também parou, aguardando pacientemente o que aconteceria a seguir.
Pedro bateu à porta. Deu três toques, segurando a mãozinha metálica em forma de punho cerrado. Pouco depois, uma senhora velhota apareceu. Dona Carlota era a típica avozinha. De cabelo grisalho amarrado na nuca em forma de coque. Vestia roupa castanha e envergava sobre os ombros um xaile de lã bege. Apesar de ser viúva, Dona Carlota recusava-se a carregar o luto sob a forma de roupa preta.
Abriu a porta com um sorriso e apressou-se a abraçar Pedro.
- Oh, meu querido netinho! - Sussurrou, antes de lhe espetar um repenicado beijo na bochecha.
- Olá avó! – Cumprimentou Pedro, num tom meigo, antes de devolver o beijo. - Hoje trago companhia – avançou, antes que a avó sequer lhe perguntasse quem era a menina que vinha com ele.
- Esta é a Maria e ela adorava conhecer a tua loja, avó!
- Tu disseste que procuravas uma casa de brinquedos?
- Sim! – Assentiu Maria, já com outro entusiasmo na voz.
- Pois olha, lembrei-me agora, sabes que a minha avó é dona de uma loja de brinquedos há já muitos anos?
- A sério? – Exclamou Maria incrédula, em jeito de interrogação.
- Sim, é verdade! É uma loja um bocado velha, cheia de brinquedos antigos, uns novos e outros usados que as pessoas vão lá vender quando já não os querem. Gostavas de ir comigo lá à loja e conhecer a minha avó? – Perguntou Pedro, sabendo de antemão qual seria a resposta.
- Sim! Claro que quero! – Gritou Maria, com os olhos a cintilar. Por momentos, o medo cedeu lugar ao entusiasmo e fez esquecer tudo o resto.
- Então vamos – disse Pedro, acompanhando as palavras com um discreto abraço sobre a pesada mochila que a menina carregava às costas. E lá foram. Lado a lado, caminhando lentamente. Maria deixou-se guiar com total confiança, embalada pela sua doce inocência infantil. Cinco minutos depois, Pedro parou frente a um edifício cor-de-rosa de dois andares que, apesar de parecer muito antigo, se apresentava em muito bom estado de conservação. Maria também parou, aguardando pacientemente o que aconteceria a seguir.
Pedro bateu à porta. Deu três toques, segurando a mãozinha metálica em forma de punho cerrado. Pouco depois, uma senhora velhota apareceu. Dona Carlota era a típica avozinha. De cabelo grisalho amarrado na nuca em forma de coque. Vestia roupa castanha e envergava sobre os ombros um xaile de lã bege. Apesar de ser viúva, Dona Carlota recusava-se a carregar o luto sob a forma de roupa preta.
Abriu a porta com um sorriso e apressou-se a abraçar Pedro.
- Oh, meu querido netinho! - Sussurrou, antes de lhe espetar um repenicado beijo na bochecha.
- Olá avó! – Cumprimentou Pedro, num tom meigo, antes de devolver o beijo. - Hoje trago companhia – avançou, antes que a avó sequer lhe perguntasse quem era a menina que vinha com ele.
- Esta é a Maria e ela adorava conhecer a tua loja, avó!
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