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sábado, 19 de novembro de 2011

O corredor da vida

O som estridente assinala a rotação de números no painel. Olhos grudados nos caracteres de um vermelho luminoso evidenciam um misto de cansaço e desilusão. Ainda não chegou a minha vez, sinto-os pensar em silêncio. Uma senhora deixa escapar um suspiro. “Eu já cá estou desde as oito”, esclarece com um sorriso conformado de quem não tem alternativa. São onze da manhã dentro de um contentor improvisado, disfarçado de ala de hospital. A sala de espera transborda de gente. São muito mais pessoas que assentos. Não há aquecimento nem televisão, nem a famigerada revista cor-de-rosa que tanto aligeira o passar das horas. Aqui falta de tudo um pouco, menos gente doente. Rostos cansados, envelhecidos pela idade e pelo sentir da dor. Bocas de hálitos pesados soltam suspiros. Estômagos vazios e bexigas cheias não se movem receosos de que a vez lhes passe ao lado. Quando finalmente o número da senha coincide com o que surge no ecrã, há um corpo que se arrasta implorando por quem lhe prolongue a vida. Há luz verde para transpor a porta proibida e um longo corredor para atravessar. Os gabinetes multiplicam-se de ambos os lados. Qual viajante que procura a correspondência entre o número de voo e a porta de embarque, assim o doente procura a sua próxima paragem. Um médico desconfortável aguarda mais um paciente impaciente. Não se lembra do seu nome, nem do diagnóstico. O sistema informático é a sua cábula e um eco de modernidade que contrasta com o ambiente terceiro-mundista de tudo o resto. Sem espaço nem tempo para grandes rodeios, marcam-se mais exames no edifício lá do fundo. E, uma vez mais, os corpos enfermos arrastam-se quilómetro acima, escadarias abaixo, na esperança de um relatório simpático. As consultas invadem já as agendas do próximo ano. “Volte cá para o mês que vem”. E as pessoas voltam. “Se Deus quiser”, acrescentam sempre, na despedida.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A vida num segundo

O que estaria a pensar aquele rapaz, de ar sereno, que atravessava a passadeira no final de mais um dia de trabalho? A noite havia chegado mais cedo. Perto das seis da tarde, já era escuro como o breu. E ele, aquele rapaz sem nome, pára, olha e cruza a estrada, convicto de estar em perfeita segurança. Suspeito que estaria a pensar no filho prestes a sair da escola. Ou talvez ainda nem sequer tivesse filhos. Quem sabe, uma namorada talvez? Devia estar com fome, ansiando por uma refeição quente, quando a temperatura cá fora já vai fria. Caminha tranquilo, vestido de negro. Parece que trabalha numa dessas empresas que instalam televisão por cabo, ouvi dizer. Pára, escuta e olha. Um carro pára também. Ele atravessa. Um outro carro, em sentido contrário, não o vê. O som parece o de um pontapé, de alguém muito irritado, num pedaço de latão. Um vulto negro levanta voo e aterra violentamente à minha frente. Corpo inerte, rosto mergulhado em sangue, uma multidão que se avoluma como formigas. O homem do talho, de avental branco e facalhão em riste, detém-se no meio da estrada para se dar conta da ocorrência (amanhã terá tema de conversa todo o dia). Mais pessoas. Uma pequena multidão rodeia agora o homem que mal se consegue mexer. Por fim, lá consegue erguer do alcatrão o rosto hemorrágico. Mais um esforço. Consegue pôr-se de pé. Afinal, parece que não foi assim tão grave. Valeu o susto, um valente susto, a um condutor que num final de tarde, seguia tranquilo e sorridente ao volante do seu automóvel, cantarolando a música que passava na rádio.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Estávamos todos à tua espera

No dia em que chegaste a este mundo, estava eu numa outra festa de aniversário. No instante em que o sopro apagou as velas e um sonante aplauso ecoou na sala, não sabia sequer que já tinhas nascido. Suspeitava, porém, que isso estava prestes a acontecer. Tentava distrair-me a todo o custo. De copo na mão, quase me obrigava a abanar timidamente o tronco ao ritmo da música alegre, que contrastava de forma evidente com o meu semblante baço e distante. Queria ignorar, esquecer, apagar da minha memória o dia em que o teu pai me contou que haverias de vir ao mundo daí a poucos meses. Nunca imaginei que o nascimento de um bebé pudesse transtornar-me tanto. Nesse dia lembro-me de ter chorado. De ter chorado muito. Tanto, tanto que terá sido o suficiente para não o conseguir voltar a fazer nos meses seguintes. À enxurrada seguiu-se um longo e árido período de seca lacrimal. Hoje, à distância dos anos que nos ajudam a entender mesmo as coisas que parecem não ter justificação, arrependo-me de cada pensamento atroz, de cada momento em que cheguei a desejar que nunca tivesses chegado a nascer. Cada ser que nasce é um milagre. Que triste o mundo teria ficado se nunca tivesse chegado a ver-te. Que génio poderia ter ficado por se revelar se a tua mãe e o teu pai não tivessem cedido aos prazeres da carne por uma só noite que fosse. Talvez nunca tenhas sido desejada por pai nem mãe em pleno acto da concepção. Mas hoje, ao impores a cada dia a tua presença, ao fazeres de cada sorriso uma alegria comum, ao permitires que a tua beleza se transforme num elogio à mãe natureza, todos estamos gratos por existires. E é por isso que gritamos hoje em uníssono, neste preciso instante em que estarás, uma vez mais, a soprar as velas: obrigada por teres vindo, o mundo estava ansioso à tua espera.

sábado, 15 de outubro de 2011

A secretária

É tão bom estar aqui em silêncio. Apenas eu, o computador, o doce ruído das teclas e a nova secretária. Há muito que desejava um canto. Mesmo um recanto que fosse. Um cantinho só meu, nesta minúscula casa, onde me pudesse recolher a sós com os meus pensamentos. Um refúgio onde pudesse desembrulhar as ideias, como quem desenrola um novelo de lã. Deixar-me embalar pela Mãe noite, que na lucidez do seu silêncio, me alivia as dores, indicando-me o caminho a seguir. Amanhã, ao acordar, promete-me, o mundo parecerá melhor. E a promessa cumpre-se sempre. Mesmo quando as manhãs de chuva nos fazem resmungar muito antes de abrirmos sequer a janela para inalar a brisa matinal. O mundo, este espaço que nos acolhe os corpos, anoitece febril, adormece enfermo, mas amanhece sempre com votos de um dia feliz. E por falar em felicidade, hoje estou muito feliz com a minha nova secretária. Tão feliz que o mundo, este meu mundo que é também o vosso, me pede para partilhar este estado de graça. Sinto que chegou a hora de tirar os sonhos da gaveta. Sinto que o sonho começa aqui. O sonho começa agora.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Madeira marca a diferença

Repetir uma viagem é como rever um filme ou reler um livro. À primeira vista escapam-nos sempre os pormenores. Captamos o essencial, apreciamos o que há de belo e desejamos regressar sempre que as memórias que sobram mereçam ser guardadas para sempre. Queremos regressar, uma e outra vez, aos locais onde fomos felizes, tal como ansiamos rever as pessoas que um dia nos fizeram felizes. Talvez por isso tenhamos sido capazes de inventar a palavra saudade. Uma imperiosa necessidade de recuperar memórias de dias felizes fez-me regressar à ilha da Madeira, um ano depois de lá ter estado pela primeira vez. A euforia da chegada, que anteriormente senti, cedeu lugar à confiança de já saber onde me encontrava. O clima ameno perfeito, o mar a perder de vista e o verde tropical sempre tão eléctrico, parece querer iluminar tudo em redor. Assimilado o essencial, decidi focar-me nos pormenores. E, em tempos de crise, quando em redor da protecção dos produtos nacionais gira uma enorme celeuma, não pude deixar de notar como o povo madeirense é perito na defesa das suas marcas. Publicidade à parte, no Funchal a cerveja é Coral. E quando nos sentamos à mesa, nem nos questionam alternativas. E nós acabamos por agradecer. A qualidade da cerveja produzida desde 1969 na ilha da Madeira satisfaz até os mais exigentes apreciadores. À pressão ou engarrafada, a marca é líder em toda o canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés). Esta curiosidade levou-me a explorar a marca e a surpreender-me ainda mais. Assediada por anúncios vários, decidi provar uma Brisa maracujá - um refrigerante gasoso. Fresco, exótico, ligeiramente doce, com um toque não excessivo de gás. Descobri mais tarde, que este foi o 1º refrigerante do mundo a ser produzido à base de sumo de maracujá puro, corria então o ano de 1970. Visionários, inovadores, pode dizer-se que os madeirenses cedo souberam tirar partido do melhor que a terra tinha para lhes oferecer. A fruta da paixão, “passion fruit” como os ingleses lhe chamam, constitui um dos ex-líbris da ilha, a par com a tão aclamada banana da Madeira. A água engarrafada, que se bebe em toda a parte, também é extraída e embalada na região. Desde 2002 que a ERC (Empresa de Cervejas da Madeira) se lançou no segmento das águas. Nos dias que correm, a marca Atlântida – uma água subterrânea captada a partir de rochas basálticas - lidera o consumo a nível regional. E a identidade das marcas que definem o carácter da ilha emergem ao virar da esquina, estejam os nossos olhos bem abertos. Não há táxi que não esteja pintado de azul e amarelo, as cores da bandeira da região autónoma. E por falar em autonomia, não há lugar para a EDP nesta ilha. A energia eléctrica é garantida pela EEM – Empresa de Electricidade da Madeira, conforme se pode ler nos tampos que cobrem os buracos redondos ao longo das estradas e passeios. Numa altura em que só se fala da Madeira pelas piores razões, apetece-me enaltecer, em honra do esforçado e trabalhador povo madeirense, as marcam que marcam a diferença no panorama económico da região. Madeira: o que faz, faz bem – é o mote que desejo lançar na despedida, em jeito de estímulo para todos os que conseguem fazer da Madeira um pequeno grande paraíso, logo ali, aqui tão perto.
Nota: referência bibliográfica - www.cervejacoral.com.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A última palavra

Menção Honrosa - Modalidade Prosa (Tema: Ser jornalista por um dia) - 41º Jogos Florais Internacionais de Nossa Senhora do Carmo - Fuseta, Julho 2011 (Organização: Casa Museu Profª. Maria José Fraqueza - Poetisa e Escritora)

As mãos trémulas e cansadas, que lentamente se arrastam sobre o teclado para escrever estas linhas, já não são as mesmas que outrora seguravam firmemente a caneta, desenhando histórias sobre o papel. Ai, o bloco! Que saudades do meu velho guardião das notas, que lentamente se iam transformando em frases, que iam formando textos, que iam enchendo as páginas impressas, que preenchiam as pausas dos leitores que as iam folheando. Nesse tempo, havia vagar. As horas abriam espaço para nos sentarmos e pensarmos e desfrutarmos de cada detalhe. Os dias pareciam caminhar devagar, sem a pressa dos que hoje correm. Quem corria era eu. Recordo-me bem daquele jovem enérgico que rasgava o vento para alcançar os sonhos. E eu que sonhei um dia ser jornalista. Só para fugir daquela vida monótona que se esconde e se agacha de cócoras atrás de cada secretária. A fobia de ficar paralisado encorajava-me a arriscar. Tinha medo, tinha muito medo de um dia me sentar e ficar ali colado para sempre, sem coragem para me levantar. Sonhei fazer de cada dia uma aventura. Uma viagem que não se esgotasse na medonha rotina do simples passar das horas. Viajar, conhecer pessoas. Gente nova, gente mais velha, toda a gente que habita o mundo. Toda a gente tem uma história. E eu queria ouvi-las a todas, resumi-las, repeti-las, contá-las aos outros. E assim fui enriquecendo. Mas sem notas nem moedas, nem cifras nem cifrões. Guardei no bolso apenas a sabedoria. E quanto mais sabia, mais queria saber. E tocava, sentia, cheirava cada lugar como se lhe quisesse espremer o sumo, como se quisesse num abraço agarrar todo o mundo. Outra vez o medo. Tinha sempre medo de errar. O que é que os outros iriam pensar. Mas depois reagia. Amanhã já ninguém se irá lembrar. E a pensar sorria: não terão sequer fixado o meu nome. E o texto que me deliciei a cozinhar em lume brando, durante horas e horas, não será mais que a página rasgada, uma história assassinada a servir de agasalho a uma dúzia de castanhas quentes. Muitas vezes nem dormia, tal era a pressa de viver. Cada minuto em que fechasse os olhos seria menos um, numa acelerada contagem decrescente. Seria uma perda de tempo e eu não tinha tempo a perder. Mas o cansaço perseguia-me. Combatia-o ferozmente, consumindo cafeína a um ritmo vertiginoso, enquanto queimava teimosos cigarros que por castigo acabavam por morrer espezinhados. Fui feliz, posso dizer que fui muito feliz a fazer o que mais amava. Hoje recordo com saudade cada rosto, cada sorriso, cada lágrima impressa nas histórias que contei. Poderia ter feito melhor? Talvez, quem sabe. Ao olhar para trás, vejo estradas e mar e céu. Vejo pessoas e vidas que se perdem e se renovam a cada instante. Vejo decisões certas que traçaram rumos, escolhas erradas que serviram para ensinar alguém. Até ao dia em que os meus olhos contrariarem a minha vontade e se fecharem para sempre, vou devorar o mundo e tentar trocá-lo por miúdos para que todos os outros o fiquem a conhecer melhor. Até à última letra do alfabeto, vou continuar a gritar, até que as palavras se me esgotem de vez.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Limpeza geral

Dizem que tenho a mania das limpezas. No início, contestava. Respondia sempre que estavam a exagerar. Mas a verdade é que continuo a ser constantemente assaltada por uma estranha obsessão em arrumar, organizar e limpar tudo o que me rodeia. Desde os papéis que se amontoam velozmente sobre a secretária à roupa suja que me vai entupindo a cesta a um ritmo assustadoramente descontrolado. Aos meus olhos, a loiça suja que se avoluma na pia assemelha-se a um cenário de guerra. Todas as coisas que se vão encostando a um e outro canto, à espera do dia em que “logo se vê” o que fazer com elas, causam-me uma espécie de horror. O mundo, tudo o que o compõe e rodeia, é mais belo quando está em ordem. Contemplo deslumbrada o quarto arrumado onde, confortavelmente deitada numa cama a cheirar a limpo, me deito a devorar as páginas de um livro. O prazer que experimento depois da exaustão permite-me fruir da beleza do momento como se de uma obra de arte se tratasse. O mundo, este meu mundo, implora-me a cada instante para que o ponha no seu devido lugar. Tudo o que não cabe num espaço acaba por ser desprezado, tal como o amor que alguém nos entrega sem que o tenhamos pedido. Oiço repetidamente que a perfeição não existe. É mentira. Eu já a toquei várias vezes, ainda que não a tivesse conseguido agarrar. Ela vem e vai. Vai e vem. Mas no entretanto deixa-se cheirar e acariciar como um bebé que pegamos ao colo e que no instante seguinte já é adulto. Quando tenho as unhas arranjadas sinto-me perfeita. Quando tenho as pernas depiladas sinto-me perfeita. Quando tenho o cabelo penteado sinto-me perfeita. Atinjo a perfeição sempre que todas as peças encaixam no puzzle formando uma imagem indiscutivelmente bela. E quando me volto a perder no meio do caos, sou inesperadamente salva pelo o imenso céu azul que numa linda manhã de Sol irrompe pelo pára-brisas fazendo espelhar novamente a perfeição que deveria existir em todas as coisas.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 10

Nas paredes daquele grande salão ficaram gravadas as memórias do dia que havia de mudar o rumo de toda a sua vida. E isso inspirava Maria em cada um dos seus projectos. Sempre que necessitava de inspiração, recordava a conversa em que tinha dito a Dona Carlota que iria desenhar uma enorme casa só para si. Talvez movida pela crença de que o espírito da sua velha amiga a estaria sempre a ajudar, a inspiração acabava por surgir naturalmente, como que por magia.
Os anos foram passando: Primavera, Verão, Outono, Inverno e tudo de novo outra e outra vez. Maria tem vinte e oito anos numa tarde abafada de Verão. Está submersa em vários metros de esquiços que rascunham projectos de casas que hão-de nascer. Um pouco cansada, decide fazer uma pausa. Pega na caixinha de música que orgulhosamente exibe sobre a secretária e decide dar-lhe corda. Ao som da familiar melodia, abre a janela, deixando a brisa acariciar-lhe o rosto. Por entre as cortinas, que ficam a dançar ao ritmo do vento, Maria espreita a rua e fixa o olhar num imenso vazio. Subitamente é assaltada por uma saudade imensa da sua velha amiga. Ao mesmo tempo, sente um movimento brusco e acaricia a barriga. Maria espera para breve o nascimento do seu primeiro filho. É uma menina. E vai chamar-se Carlota.

FIM

Conto "Casa de Bonecas" - página 9

Na ausência de Dona Carlota, Pedro fez cumprir os desejos da avó e encarregou-se ele próprio de garantir que nada de essencial iria faltar a Maria. Assegurava-lhe a compra de todos os materiais escolares, inscreveu-a num centro de ocupação de tempos livres, garantindo um lugar onde poderia cumprir os deveres com o acompanhamento de que não dispunha em casa, e definiu um dia da semana para ir buscá-la à escola. Todas as quartas-feiras, estacionava o carro junto ao portão e esperava que Maria chegasse. Depois, rumavam a uma esplanada à beira-rio, fosse Verão ou Inverno, e sentavam-se a comer um gelado e a relatar tudo o que lhes tinha acontecido ao longo da semana passada.
No dia em que completou dez anos, Maria ganhou a sua primeira bicicleta. E no dia em que completou quinze, um computador. Aos dezoito, já na universidade, recebeu um cheque que serviria de passaporte à maior das ambições de quem atinge a maioridade: tirar a carta de condução. Da menina que uma noite andara perdida pelas ruas de Lisboa, pouco ou nada restava. Maria era agora uma jovem alta, esbelta, de longos cabelos negros ondulados, muito segura de si. Sabia bem o que queria e não temia esforços para chegar mais além. Nos estudos, continuava a ser exemplar. Conseguira entrar em arquitectura com média de dezanove. Era admirada por todos os que a conheciam, desde professores a colegas, como uma verdadeira menina-prodígio, que não deixava antever as suas humildes origens. Nem os gestos nem as palavras a denunciavam. Maria era uma pessoa doce de trato e sorriso fáceis, dona de um vocabulário irrepreensível.
O curso de arquitectura é concluído com sucesso. Maria tem agora 23 anos, uma casa alugada e um futuro promissor. Certo dia, numa festa organizada em casa de amigos comuns, reencontra-se com Pedro e algo de novo acontece. Ele é já um homem maduro, quinze anos mais velho. Ela, a anos-luz da menina que uma noite andava perdida, é agora uma mulher em todo o seu esplendor. E a magia acontece.
Loucamente apaixonados, apesar da diferença de idades, Pedro e Maria decidem viver juntos. Restauram a casa cor-de-rosa e mudam-se para lá. Maria decide transformar o antigo salão de exposição no seu atelier. Os antigos brinquedos há muito que foram doados a um museu da especialidade, para que todo o mundo os pudesse apreciar. Apesar das transformações estruturais, aquele espaço mantém uma energia positiva que contagia Maria.

Conto "Casa de Bonecas" - página 8

Se calhar atrasou-se, foi o seu primeiro pensamento. Poucos segundos depois chegou Pedro cabisbaixo, ao volante do seu automóvel. Parou o carro e convidou-a a entrar:
- Entra Maria, precisamos de conversar – anunciou, com uma voz trémula.
- E a Dona Carlota, porque é que ela não me veio buscar hoje? – Questionou a menina, longe de adivinhar qual seria a terrível resposta.
Pedro ficou em silêncio mais alguns segundos. Ainda não sabia bem como dar a notícia. Esperava encontrar algures no seu pensamento as palavras mais correctas para falar de morte com uma criança.
- A avó… ficou doente esta noite – avançou Pedro.
- Doente? – Interrogou Maria. – Mas doente com quê? – Quis saber a menina, forçando Pedro a rapidamente inventar o cenário menos doloroso possível:
- A avó sentiu-se mal e tivemos que chamar o doutor. Ele veio, deu-lhe um remédio e a avó ficou a dormir… - Pedro fez nova pausa, agora com os olhos rasos de água. As evidências faziam Maria começar a aperceber-se de que deveria ter acontecido algo de muito grave com a sua velha amiga.
- Mas conta Pedro, conta, onde é que está a Dona Carlota agora? – Voltou a insistir a criança, já num estado de nervosismo crescente.
Pedro fechou os olhos e respirou fundo. E por fim esclareceu:
- Maria, a avó está no céu junto aos anjinhos. Ela estava muito cansada e eles vieram buscá-la para depois a levarem para um jardim muito bonito.
Pedro nem queria acreditar no que tinha acabado de dizer. As palavras iam-lhe saindo de forma espontânea e soavam-lhe estupidamente. Sentia-se um autêntico padre, a ler um excerto de um típico sermão dominical.
- A avó Carlota morreu? – Perguntou Maria, já com as lágrimas a caírem-lhe de fio.
- Sim, Maria. É muito difícil, eu sei, também estou muito triste, mas infelizmente foi isso que aconteceu.

Passaram-se vários meses até que Maria conseguisse pensar em Dona Carlota sem chorar. Estava tudo ainda tão presente. A sua voz, as palavras que lhe dissera no dia anterior à sua partida, o seu acenar junto ao portão da escola. Aquela amizade era a melhor coisa que lhe tinha acontecido desde que se lembrava de ser gente. E logo tinha que acabar tão depressa, pensava inconsolável.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 7

Pedro sabia que não poderia fazer muito para resolver os imensos problemas em que aquela família estava mergulhada. Contudo, sentia que ao fazer algo por Maria, já estaria a dar um contributo importante à humanidade. Às vezes temos que nos conformar de que não podemos mudar o mundo, mas em contrapartida temos sempre a hipótese de mudar, por um pouco que seja, a vida de alguém, costumava opinar muitas vezes o jovem rapaz no decorrer das longas tertúlias com os amigos.
De volta à “Casa de bonecas” (nome com o qual Dona Carlota havia baptizado a sua loja na década de sessenta), Maria reencontrou na vida real o conforto que muitas vezes vivenciava nos seus sonhos. Tinha até já tomado uma decisão, muito adulta por sinal para uma criança de apenas sete anos:
- Quando for grande, vou ser arquitecta! – Afirmou, com uma convicção fora do vulgar para uma menina tão pequena. – E vou desenhar muitas casas. Uma delas só para mim, muito grande, onde eu possa ter um quarto só para mim, uma casa de banho só para mim e uma piscina só para mim – rematou, denunciando um certo egoísmo, um sentimento que nasce naturalmente nas pessoas que se vêem privadas daquilo que consideram merecer por direito, pelo simples facto de terem nascido.
- Que boa ideia, Maria! – Apoiou Dona Carlota, acabada de decidir que iria contemplar aquela doce criança no seu testamento. Estava certa de que os filhos e os netos não se iriam opor nem a condenariam por isso. Todos eles haviam sido educados com base no princípio do amor ao próximo.
Dona Carlota foi fazendo as coisas aos poucos, como se estivesse a preparar tudo para um final que se avizinhava, cada vez mais próximo, a cada dia que chegava ao fim. Abriu pessoalmente uma conta bancária a favor de Maria onde depositou o dinheiro suficiente para um dia acautelar os seus estudos. Estabeleceu que a menina só poderia gerir o seu próprio património depois de completar dezoito anos. Até lá, Pedro ficaria como seu fiel tutor.

Naquela tarde quente de Verão, Maria estranhou o facto de, pela primeira vez em mais de seis meses, não ver Dona Carlota junto ao portão da escola.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Conto "Casa de Bonecas" - página 6

- Outra tentativa… “Na minha rua há….”
- Há lá perto muitos prédios coloridos, assim aos quadradinhos cor-de-rosa, azuis, verdes e amarelos - disse, articulando as palavras tão depressa com a boca como com os gestos das mãos.
Com esta deixa fez-se luz na cabeça de Pedro. A casa da menina ficaria certamente próximo de um bairro social que havia ali perto. Decidido a confirmar a sua pista, Pedro convidou Maria a acompanhá-lo até à rua. Iria acompanhá-la a pé, até se certificar que a deixaria devidamente entregue à família. Antes de sair, Maria quis dar um beijo a Dona Carlota e dizer-lhe obrigada. Sentia que aquela velhota a tinha vindo salvar da sua pobre e triste existência. De facto, não estava muito longe da realidade. Só ainda não o sabia.
- Vamos combinar uma coisa - sugeriu Dona Carlota - a partir de amanhã eu vou buscar-te à porta da escola e depois vens para aqui comigo um bocadinho, tomas um lanche e fazes os trabalhos, antes de voltares para cada, pode ser?
- A sério? Yupi! – Explodiu Maria, num gritinho tipicamente infantil, completamente eufórica com a proposta avançada pela avó de Pedro.
No dia seguinte, pontualmente às três da tarde, lá estava Dona Carlota junto ao portão principal. Maria desceu a escadaria frontal num fôlego só. Estava eufórica por rever a sua nova (velha) amiga. E muito feliz por ela ter cumprido o que prometera na noite anterior.
- Maria! – Chamou Dona Carlota num grito, ao mesmo tempo que acenava efusivamente com o braço direito.
- Dona Carlota! – Respondeu a menina, noutro berro não menos sonoro e expressivo, correndo de braços abertos na sua direcção, deixando antever um caloroso abraço.
Já de mãos dadas, as duas caminharam tranquilamente até à casa cor-de-rosa, trocando confidências sobre o decorrer daquele dia, e claro, sobre o desfecho da noite anterior.
À chegada a casa, a mãe de Maria reagira com rispidez. Chegou a ser até um pouco desagradável com Pedro, antes de se acalmar e ouvir a versão integral do sucedido. Pedro ficou impressionado com a pobreza daquela casa e daquela gente. Chegou a questionar-se em silêncio: como pode ser possível alguém sobreviver num sítio como este? Era de facto perturbadora a forma como aquela pobreza falava directamente aos olhos atentos de Pedro. As paredes (se assim se podiam chamar) escorriam água e exibiam bolor como se de obras de arte se tratassem. O cheiro a bafio era nauseabundo, mesmo sentido apenas suavemente através da porta entreaberta. Um pequeno grupo de crianças de olhar vazio, circundavam a mãe como crias que anseiam desesperadamente pela próxima mamada. (...)