quinta-feira, 5 de julho de 2012
Conto "Choque frontal" - página 1
Naquela manhã, quando saí de casa, nunca imaginei que pudesse não regressar ao anoitecer. Às seis e meia daquele sábado, chovia torrencialmente quando o toque irritante do despertador de corda me fez abrir os olhos. Para meu espanto, perante tamanho ruído, lá em casa mais ninguém acordou. Ao meu lado, na cama, a minha mulher dormia com gosto. O seu rosto não exibia qualquer ruga, a sua mente adormecida não conseguia antever qualquer sobressalto iminente. Continuava a dormir e a sonhar que ainda podíamos ser felizes para sempre. Naquela manhã de Novembro, faltava um mês para o Natal. E os meus filhos, que ficaram a dormir quando sai de casa, não podiam sequer imaginar que iriam passar a consoada num local completamente diferente do habitual. Lamento profundamente nunca ter sido dado a manifestações espontâneas de carinho. Hoje, ainda me lamento por nessa manhã ter seguido viagem sem lhes dar um beijo. A minha mulher e os meus filhos haveriam de ter gostado que me despedisse deles. Tive vontade de o fazer, mas desisti logo que pensei que afinal ia só a Lisboa tratar de negócios. Para quê tanta lamechice se logo à noite estaria de volta para jantar tranquilamente com toda a família? Naquela manhã, quando bati com a porta do carro e coloquei o cinto de segurança, antes de dar à chave, eu tinha quarenta anos e era capaz de imaginar outros tantos de vida à minha frente.
De pé já firme no acelerador, a estrada começou a estender-se diante dos meus olhos. Esforçava-me por seguir a orientação dos traços, ora contínuos ora descontínuos, entrecortados pelos movimentos semi-circulares dos limpa-pára-brisas, quando me apercebi que o rádio, o meu único companheiro de viagem, tinha ficado mudo. Comecei a antever trezentos quilómetros de silêncio, do Algarve à capital, com as pálpebras a pesar cada vez mais sobre os olhos ainda carregados de sono. Solidão, silêncio, a escuridão dos olhos a fechar-se, uma antevisão da morte que me espreitava ao dobrar a curva.
Ao estrondo metálico de guerra seguiu-se o profundo silêncio da escuridão. Depois disso, uma súbita amnésia, um vazio total de pensamentos. Só me lembro de tentar abrir os olhos, como se quisesse gritar. Numa espécie de alucinação, na qual não me sabia acordado, tenho uma vaga ideia de ver luzes azuis intermitentes. Hoje sei que eram as sirenes a girar à minha volta. Nesse instante, o meu corpo já não era meu. Era um pedaço de carne esmagado entre um amontoado de chapa e o que restava dos estofos. Havia um homem moribundo encarcerado dentro de um carro, mas já não era eu. Tinha os braços pendidos sobre o corpo, a cabeça tombada e os óculos esmagados sobre o rosto ferido. De boca aberta, revirava os olhos indeciso entre a vida e a morte. O cenário não parecia real, mas aquele homem afinal era mesmo eu. Enquanto as dores húmidas de sangue morno me puxavam para o sono, gemia baixinho. E perdido no meio da agonia, tenho a vaga ideia de uma voz tentar insistentemente chamar-me de volta à vida.
- Sr. Eusébio, consegue ouvir-me? Sr. Eusébio, se consegue ouvir-me, abra os olhos!
(...)
domingo, 17 de junho de 2012
Olá minha querida!
Passávamos tardes inteiras a conversar e a beber chá. Eram sempre tardes de Domingo, fosse Verão ou Inverno. Eram sempre tardes em que eu poderia estar em qualquer outro lado a fazer qualquer outra coisa, mas preferia estar ali. A sua companhia fazia-me bem. Eu podia combinar o encontro, ou aparecer de surpresa, que ela estava sempre lá à minha espera. Tocava à campainha e podia ter que esperar mais de um minuto até que a porta se abrisse. Durante esse compasso de espera, podia imaginá-la a caminhar a custo pelo corredor. Ao contrário do cérebro, há muito que o corpo começara a sucumbir ao peso da idade. Afinal já são 91 quilos, dizia ela com graça, referindo-se aos seus longos anos de vida. Recebia-me sempre com o afecto maternal com que sabia tratar toda a gente. Talvez por nunca ter sido mãe, tinha o gesto espontâneo de adoptar todos os que lhe eram queridos. Partilhava afecto com o mesmo à vontade com que distribuía tudo o que tinha. Sem agenda, nem os lembretes electrónicos dos tempos modernos, nunca esquecia um aniversário. E quando não tinha dinheiro, oferecia objectos, um livro antigo, qualquer coisa que tivesse à mão, numa espécie de distribuição de herança antecipada. Primeiro, sentávamo-nos no sofá, lado a lado. Ela pegava-me na mão e não a largava enquanto conversávamos. E eu podia sentir a frescura da sua pele fina rente aos ossos. Volta e meia, abraçava-me, puxando-me contra o rosto. E eu podia sentir o aroma sempre asseado da sua roupa preta, de um luto que carregava há anos pelo marido. Repetia vezes sem conta, como se sentia feliz por me ver, tomada talvez pelo receio de nunca saber se aquela seria a última vez. Por volta das cinco da tarde, era a hora do chá. Fazia questão de se levantar para ir pôr o púcaro ao lume. Era um púcaro velhinho, onde colocava água e uma mistura de ervas secas a ferver. O armário da sala escondia sempre latas de bolachas e bolinhos que saltavam para a mesa com honras de festa. Muitos já sabiam a mofo, outros tinham passado da validade, mas ela nem reparava, tal era a ânsia de oferecer o que tinha. Ah, Carlota, que saudades! Há dias em que me lembro muito de si. Lembro-me de me ter telefonado naquela quinta-feira de uma tarde de Março:
- Olá minha querida!
Aquela saudação sempre tão simpática ainda me ecoa no pensamento. Ao ouvi-la fiquei subitamente aliviada. No início da semana tinha sonhado com um velório. Carlota estava deitada num caixão e em redor todos os amigos lamentavam a sua morte. (Nunca lhe contei isto, como é óbvio). Lembrei-me do velho ditado que aprendi na infância: sonhar com a morte, traz anos de vida para a pessoa.
Na manhã seguinte, andava por casa quando o telefone tocou. Atendi. Dou outro lado, a minha mãe atalhou:
- Já sabes?
- O quê? – Respondi a medo, antevendo algo ruim.
- Morreu a prima Carlota.
Em silêncio, não consegui conter as lágrimas.
Mais presente do que nunca, a voz voltava a ecoar:
- Olá minha querida!
Horas antes, como se pudesse pressentir a morte, ela despediu-se de mim.
Dias antes, como se pudesse pressentir a morte, eu sonhei com ela.
Chamávamos-lhe prima Carlota, num parentesco que se estendia por quatro gerações. Na verdade, ela era prima irmã da mãe do meu avô materno. Para mim, foi mais uma avó, sempre presente, até hoje, até sempre.
sábado, 2 de junho de 2012
Cibernóia
Na sala de espera, Diogo impacienta-se com a demora. É proibido fumar. Roer as unhas em público não é de bom-tom. Está sentado num sofá demasiado mole forrado a napa. Cruza e descruza as pernas, estala os dedos das mãos, respira fundo, vezes sem conta. E a porta do consultório continua fechada. Ao pensar na razão que o trouxe ali, um nervoso miudinho aloja-se no estômago e chega a pensar em desistir. Finta a porta de saída e está já a equacionar a fuga quando a recepcionista, após receber uma chamada telefónica, o chama:
- Sr. Diogo, vamos?
Ao levantar-se para o acompanhar até à porta do consultório, a recepcionista revela-se em toda a sua beleza: é alta, elegante e os seus cabelos longos e negros libertam, à sua passagem, um doce aroma floral. Dá dois toques na madeira com os nós dos dedos, antes de girar o puxador gentilmente. A porta abre-se deixando antever um homem de óculos semi-careca. Está sentado a uma secretária de estilo moderno e, sem desviar o olhar dos papéis onde está a anotar qualquer coisa, convida Diogo a entrar:
- Faça favor, sente-se, sente-se!
O médico só fixa Diogo pela primeira vez após ouvir a porta fechar-se num estalido seco. Vê um homem moreno, bem apessoado, na casa dos quarenta anos. A idade é denunciada pelos cabelos brancos, que ganham terreno de forma aleatória e selvagem um pouco por toda a farta cabeleira preta.
- Então Diogo, o que é que o traz por cá? – Pergunta o psicanalista, puxando o início da conversa.
De mãos cruzadas sobre a secretária e olhos fixos no médico, Diogo responde:
- Doutor, acho que estou com um problema. Quer dizer, não é bem um problema, é se calhar uma mania, melhor dizendo, talvez seja uma obsessão.
O médico permite dois segundos de silêncio, antes de levantar-se. Começa a caminhar e convida Diogo a deitar-se no divã, explicando que lá sentir-se-á mais confortável para desabafar. É um divã preto em pele, de design moderno e linhas sinuosas. Após aceder ao convite, Diogo sente-se, de facto, mais relaxado naquela posição. Fixando o olhar na imensa estante de livros, que atravessa de um extremo ao outro a parede em frente, consegue finalmente soltar a língua.
- Quero lembrar-me de como era a minha vida antes… antes de aparecer o “e” azul. Sim, o “e” e agora o “f”…
Diogo fala em código e o médico, apesar de não entender patavina do discurso, permanece em silêncio, receptivo para continuar a ouvir.
- É pior que o fumo e o álcool juntos. Nem sei como fiquei viciado nisto. A gente vai experimentando e gostando. Volta no dia seguinte e fica mais um pouco. E vamos deixando as horas passar e deixamos o sono passar e deixamos a vida passar e não largamos o vício.
Parado diante da janela, o médico vai ouvindo e analisando o discurso, apesar de achar que continua a não fazer qualquer sentido.
- Deito-me com a cabeça cheia de imagens, de frases, de citações, de notícias, de coscuvilhices. Todos os dias fico a saber muito mais do que devia sobre a vida de muita gente. Partilho retalhos da minha vida ao segundo como se ao não fazê-lo deixasse de existir. Não é deliberado, mas quero que reparem em mim. Gosto de poder dizer às pessoas que me seguem onde é que estou, para onde vou, o que ando a fazer. Gosto que comentem, gosto de saber a opinião que elas têm sobre a minha pessoa e sobre tudo o que penso e digo. A opinião dos outros ajuda-me a conhecê-los melhor e até mesmo a compreender-me melhor. Gosto de fazer comparações. Analisar o comportamento dos outros reforça-me a auto-estima, faz-me sentir especial. Consigo perceber facilmente que sou mais inteligente que a maioria das pessoas com que me relaciono, que me preocupo com questões mais profundas, que leio mais livros e vejo mais filmes. Mas depois, vem o desassossego. Quero libertar-me e não consigo, é mais forte do que eu. Antes de me deitar, depois de ter estado horas agarrado ao computador, ainda espreito o telemóvel, a ver se alguém fez algum comentário. Vou à praia e tenho que mostrar que estive lá. Vou viajar e tenho que avisar toda a gente, não sei se por presunção ou por outra razão qualquer. Não sei, não sei, não sei…. Não sei porque faço isto e não me consigo lembrar como era a minha vida antes disto. Doutor, acho que preciso de ajuda! Primeiro foi só a Internet, depois o Google, agora o Facebook. Por favor, eu só quero curar-me deste vício – implora Diogo, num tom desesperado.
O psicanalista olha para ele, esboçando um sorriso aliviado.
- Meu amigo, o seu problema tem nome, sabe qual é?
Diogo abana a cabeça, em negação.
- Solidão! Vamos tratar primeiro disso e depois falamos do resto – atalha o médico, antes de dar por concluída a primeira sessão de psicanálise.
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domingo, 13 de maio de 2012
O presente
Enquanto se queima um cigarro no sereno, sobra tempo para rever o dia que ficou para trás como uma página virada. A manhã começou bem cedo com a euforia que antecede uma festa. O Luís faz seis anos e todos os colegas da sala estão convidados. Para muitos uma festa de aniversário já não é novidade, mas há uma menina estreante nestas andanças que não consegue esconder o entusiasmo latente. Passeia-se pela casa de saco na mão, impaciente pela chegada da hora. “Ó mãe, vamos já?”. A mãe responde que é só mais à tardinha, à hora do lanche. No interior do saco há um presente escondido pelo papel de embrulho: uma surpresa para o Luís. Será que vai gostar? A menina questiona-se, curiosa por saber o que sairá lá de dentro, como se a prenda fosse também para ela. Todas as crianças adoram presentes. Como se nunca tivessem deixado de ser crianças, todos os adultos adoram presentes, mas habituaram-se a dizer que “não era preciso nada”. Era pois. Afinal, cada dia é uma dádiva, daí que lhe chamemos o presente. As horas parecem passar mais devagar que o habitual e a menina inquieta-se com a demora. O relógio marca por fim as cinco horas, numa tarde abafada de Primavera. O Luís já salta e brinca e ri no interior do recinto, quando os convidados começam a chegar. Como à entrada de uma mesquita, os sapatos ficam todos à porta, organizados numa estante aos quadradinhos. E, ao sentir o gosto da liberdade, os pés descalços ganham velocidade na busca cega da diversão. Há música a animar a criançada. Há balões coloridos espalhados pelo ar. Encostados à parede, há pais vigilantes com rostos cansados. Como nos casamentos de Santo António, há várias festas em simultâneo. O espaço é grande, há que rentabilizar o tempo. Num dos recantos, por essa hora, o Pedro é o rei da festa. De coroa na cabeça, está sentado numa poltrona a meio da mesa. À sua frente, um bolo colorido com velas a arder. À sua volta, um coro de vozes infantis canta os parabéns a você. Enquanto isso, a menina procura o Luís. Demora a encontrá-lo e quando o vê ele não lhe passa cartão. É um adulto que lhe sugere ao ouvido que vá cumprimentar a colega que acaba de chegar à festa. Cansado e transpirado, o menino aproxima-se a correr. Ao ver o saco na mão da menina pega nele como se só isso importasse. Apressa-se a desembrulhar o presente. Durante os segundos que fazem prolongar o suspense, larga pedaços de papel despreocupadamente pelo chão. A surpresa revela-se: é uma mota. “Mais uma mota? Está bem, vou dar à minha mãe para guardar.” E desaparece, num ápice, sem um sorriso, sem qualquer sinal de gratidão. Desprezada, a menina não se sente porque ainda não tem idade para compreender as agruras da vida. Esquece aquele momento com a pressa de brincar. Sem perder tempo, penetra num labirinto insuflável e deixa-se submergir numa piscina de bolas com a alegria de uma criança feliz.
terça-feira, 1 de maio de 2012
1º de Maio
Saímos de casa cedo, ainda pela fresquinha. Há um ânimo de férias no ar. Hoje não há escola, hoje não vamos trabalhar. É feriado e temos o dia todo por nossa conta. Como é bom ter vagar. O carro vai cheio. Vai cheio de gente, cheio de conversa solta, cheio de gargalhadas que nos saem por tudo e por nada. Rimos juntos. Trocamos sorrisos pelo retrovisor. Hoje estamos felizes. Pais, filhos, avós e netos, distraídos pela paisagem que a alta velocidade passa por nós, nem nos damos conta da perfeição do momento. Vamos passar um dia diferente, noutra terra, com outra gente. Vamos andar de mãos dadas para não nos perdermos. Vamos conciliar estômagos famintos num mesmo horário, para nos sentarmos à mesa e pedir a ementa. Vamos todos escolher uma comida de que gostamos, não vamos obrigar ninguém a comer sopa, nem brócolos. Hoje é dia de folga, à mesa não há lugar para discussões. Todos mastigamos com gosto, levamos cada garfada à boca com uma satisfação feita de apetite. Ainda comemos em restaurantes, quando muitos saqueiam hipermercados. Isto merece um brinde. Como as crianças não bebem e os adultos têm que conduzir, celebramos com uma sobremesa. Hoje cada um escolhe um doce. E, de repente, temos todos cinco anos e sentimos que um passeio em família tem sempre gosto de infância. Vamos à feira e compramos um brinquedo. Há música no ar. Há cores de festa por toda a parte. Há balões oferecidos e animais que enchem os pequenos de espanto. Cheira bosta de vaca e a lã acabada de tosquiar. São odores que nos fazem sentir mais perto da natureza. Menos humanos, mais animais, aproximamo-nos sem querer da nossa essência selvagem. Amanhã não queremos ir para a escola. Amanhã não queremos ir trabalhar. A partir de amanhã queremos que seja feriado todos os dias, indefinidamente, até ao fim das nossas vidas.
domingo, 29 de abril de 2012
Joe Black
Lá fora, o vento uiva desenfreado. Numa ira de força transparente, empurra sem piedade tudo o que se atravessa no caminho. As árvores vergam-se à sua passagem, como se numa vénia lhe concedessem obediência. O pó, feito de terra, de areia, de vestígios de erosão, passeia-se num voo que atravessa o próprio ar em ziguezagues, por vezes interrompidos por uma pausa repousada num canto qualquer. As nuvens também parecem zangadas, ficam cinzentas de raiva por não poderem repousar em paz. Nem no céu parece haver descanso. Indeciso, sem saber como se comportar, o Sol esconde-se envergonhado. Vai espreitando, introvertido, deixando escapar tímidos raios de luz por entre a espessura branda das nuvens. Os corpos que já pedem praia guardam-se em casa em lamentos resignados. Os rostos, como um espelho, reflectem a cor do dia. Semblantes cinzentos cruzam-se nas ruas, cabisbaixos. A chuva, que tanta falta faz, avança e recua hesitante, enviada a conta-gotas pela mãe natureza. Está tanto vento, mas não corre uma brisa de esperança. É aos salpicos que os homens que se arrastam vão sendo atingidos pela desgraça que parece cair do céu aos punhados. Há milhares de sonhos a esvair-se, arrastados pela chuva, empurrados pelo vento. E no meio deles, deslizam ao sabor da maré náufragos felizes. Ainda há quem consiga sorrir, ainda há quem consiga transportar uma boa notícia, quem consiga carregar no ventre uma nova vida, uma promessa de um futuro possível. A vida e a morte, o começo e o fim, as duas pontas da corda, uma sempre pronta a ser agarrada, a outra sempre prestes a ser largada, num ciclo que se repete desde ontem, hoje, amanhã e sempre, até sempre. É bonito que alguém um dia se tenha lembrado de nos fazer acreditar que a morte é um homem loiro, chamado Joe Black, que um dia nos virá buscar pela mão em clima de festa quando chegar a nossa hora. “Conhece Joe Black?”. Mais tarde ou mais cedo, todos o iremos conhecer. E que perfeito seria se, nesse preciso momento, houvesse fogo de artifício e a música de despedida fosse a banda sonora desse arrepiante filme.
sábado, 31 de março de 2012
Esta terra que me acolhe
Quantas vezes o sítio onde vivemos não é escolha mas destino? Soma de contas mal feitas, adições ou subtracções mal resolvidas, erros de cálculo, opções que sobram nos destroços, no entulho que resta de tudo o que um dia idealizámos. E aprendemos a aceitar. Que remédio. A adaptação fica-nos tão bem. É um fato engomado que nos assenta sempre bem. Adaptar-nos é a última das sortes, mesmo quando a vontade não vem, nem com o passar do tempo. O tempo, o tempo. Com ele acabamos por aceitar tudo, até a morte que sabemos certa e que nos espera a todos sem segunda opção.
Hoje o vento não me está de feição. Nem esta paz fluvial que traz cheiro a maresia é capaz de me aquietar os sentidos. Da minha janela ao mar são poucos quilómetros. E isso poderia bastar-me para sorrir. O sol que raia lá fora a espaços por entre as nuvens que dançam em seu redor poderia bastar-me. O vento que passa, que assobia vaidoso poderia bastar-me. Por aqui, não há filas de carros a buzinarem-me aos ouvidos. Não há demoras para chegar ao trabalho. E isso, apenas isso, poderia bastar-me. Este paraíso da terceira idade onde habito não condiz comigo. Somos como cores diferentes mal conjugadas, somos como a bandeira, vermelho e verde, contrastamos ainda que ninguém note. Eu sou alvorada e aqui vive-se ao ritmo do pôr-do-sol. Eu sou luzes e avenidas e carros a circular com pessoas lá dentro. E sou prédios a tocar no céu e as pessoas que trabalham lá em cima e tantas outras cá em baixo a circular. E mais carros e mais pessoas, um formigueiro urbano, a vida a mover-se, a vida a acontecer, na rua o centro do mundo. Sou vida desfrutada ao limite, sorvida, sugada, escorropichada até ao fim. Quero morrer cansada, finar-me de exaustão, de solas gastas e bolsos vazios e alma cheia de gozo. A minha herança será feita de memórias. Serei recortes espalhados por álbuns e livros, folhas soltas e cadernos, vestígios de pensamentos arquivados em suportes digitais.
Esta cidade é um forte, muralhas por todo o lado. Mas é a cidade que me acolhe e que me encolhe sobretudo os sonhos. Não sou rainha, nem sei se tenho rei. Nesta fortaleza há quem almeje uma invasão. E quando os portões se derrubarem, cavalos e tropas a galope, alguém vai conseguir escapar sem deixar rasto. Nesse dia, em liberdade, a gaivota criada no galinheiro vai finalmente descobrir que afinal o céu é o limite, que afinal até sabe voar.
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Desabafos salteados
terça-feira, 20 de março de 2012
Companhia virtual
Eu estou aqui. E tu estás aí. Estás a ler-me? Então não estás só. Do outro lado da janela virtual, há uma mão que percorre as teclas em busca de companhia. Se o sono teima em não aparecer, na virtualidade do momento, podes enviar-me uma mensagem. Basta dizeres, “Olá, estou aqui!”. Do outro lado, à espreita, eu sou real, posso responder-te. E há toda uma cortina de esperança que se abre, um vazio de emoções que se preenche, um coração que se aquieta por encontrar um mesmo compasso. Não te conheço, não sei quem és, nem o que tens feito no mundo real. Mas tens um ar simpático. Deves ser boa pessoa, eu não tenho por hábito simpatizar com qualquer um. Gostava de saber como és. Qual é a imagem que se esconde atrás desta página em branco manchada de letras negras. Podes estar de pijama e chinelos, que eu nunca irei saber. Podes estar a fumar, a beber, podes estar até a tirar macacos do nariz, que eu, prometo, não me vou rir. Podes até estar nu, andar à vontade pela casa tal qual vieste ao mundo. Eu não vou dar por isso. Podes mentir, ou ser tu próprio, no teu mundo virtual és plenamente livre. Podes estar só, teres acabado de chegar a casa e desejar isolar-te dos aborrecimentos que te perseguiram durante todo o dia. Podes ser o pássaro nocturno que vagueia pelo corredor enquanto todos dormem: os meninos, no quarto deles, o cão, no quintal, a tua companhia de longa data, na vossa cama, aquela que já não te apetece partilhar. Podes estar num terminal de aeroporto e navegar pelo ciberespaço a trocar o tempo por letras. Podes estar num solitário quarto de hotel, a muitos quilómetros de distância, a ouvir filmes num idioma que desconheces, enquanto ligas o computador. Se me estás a ler neste momento, matas as saudades da tua terra através desta língua que partilhamos.Há um pensamento que nos une, neste momento em que me estás a ler. Eu estou a pensar em ti. Tu estás a pensar em mim. O meu coração na ponta dos dedos. O teu coração é agora um raio de luz que rasga o universo e chega até mim. Boa noite. Esta noite, eu estou aqui e tu estás aí. Esta noite, não estamos sós.
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domingo, 18 de março de 2012
Na fronteira
O Guadiana tem dois amores, duas margens que podem acenar-se, que podem trocar saudações em línguas diferentes. São dois países separados por um rio, unidos por um ferry, há uns anos também por uma ponte. Num abraço de betão estreitaram-se as margens, português e castelhano misturam-se muito mais desde então, num cocktail de vozes que não deixam as ruas silenciar-se. La chica que habla español chama-se Ayamonte. É uma terra pacata, onde os sábados despertam com a euforia do mercado. Bancadas de legumes alinhados por cores enchem os olhos de apetite. Enormes peças de pescado ainda a saltar de fresco são um convite ao convívio em redor do fogareiro. E há a carne, um regalo às pupilas, um deleite para as papilas: el cordero , el cerdo , la ternera . Nas esplanadas, a qualquer hora do dia, bebem-se cañas e picam-se tapas. E no vagar do fim-de-semana repara-se nos pés calçados de novo da senhora que acabou de sair da mítica sapataria de esquina. Nas gasolineiras, de manhã à noite, há sempre filas de carros de matrícula portuguesa que esperam o tempo que for preciso para poupar vinte ou mais cêntimos por litro. Em tempos de crise, vale tudo.
A menina que fala português desde o baptismo que se chama Vila Real (de Santo António). Terra de gente calma onde o trabalho se faz sem pressa. Talvez por isso tenham tempo para cantarolar. Em todas as frases, cada palavra tem um timbre aciganado, o eco de uma nota musical:
- “Onde vaiiiiiiis?”.
- “Vou à ruaaaaaaaa!”.
Seja Verão ou Inverno, o Sol aqui parece sempre de meio-dia. Ilumina a pique as ruas, desenhadas a régua e esquadro, que geometricamente se cruzam. À beira-rio, um marquês de pedra espreita o perigo, talvez aguarde firme e hirto até um novo terramoto. O seu nome, tatuado como um graffitti, celebra-se nas ruas, desde a Praça central à farmácia pombalina. Deve ter sido um bem-amado por cá. Na rua das lojas, as fachadas vestem-se de atoalhados. Toalhas de praia e de mesa convivem lado a lado na companhia de panos de cozinha de várias cores e motivos. Há pijamas a serpentear a cada lufada de vento e peúgas brancas (pés de gesso) aos molhos dentro de cestas. Manéis e Manolos, Marias do Carmo e Carmencitas espreitam montras e tomam cafés ao ar livre, debaixo de um céu quase sempre limpo de nuvens.
Os de cá têm saudades de lá, os de lá não conhecem a palavra saudade. A um rio de distância, o Guadiana, trocam-se juras de amor em duas línguas, experiências de vida em dois países. E enquanto houver paz, a de um rio que corre serenamente para o mar, vão continuar a comprar-se, cá e lá, bugigangas com a mesma moeda de troca.
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domingo, 11 de março de 2012
Quatro Primaveras
Sou tua mãe mas não te vi nascer. Pode parecer estranho, mas foi assim que aconteceu. Há quatro anos, era de noite. Ainda não era Primavera, mas estava um clima ameno, primaveril. No relógio de parede, o ponteiro pequeno estava fixo no número um e o grande apontava para o oito. Eram uma e quarenta da manhã de terça-feira, dia 11 de Março de 2008. Quando choraste pela primeira vez, eu não te ouvi. Ferrada num sono profundo, não te ouvi, nem te vi, nem peguei em ti ao colo, nem chorei de felicidade por sentir uma emoção nova, tão rara, que pode acontecer uma única vez, ou poucas vezes na vida. Lamento não ter sentido as dores. Lamento, ainda mais, não ter conhecido a explosão de emoções que as sucedem. Estava anestesiada, esventrada e longe do meu bebé. Lamento tudo isso, mas sei que foi por bem. Os corpos escondidos por detrás de todas aquelas batas brancas, sem nome, sem voz, quase sem rosto, salvaram-te a vida. Bendita seja a medicina. Despertei nauseada, horas depois. De um lado, estava ligada a um aparelho que de tempos a tempos me apertava o braço fazendo ecoar as batidas do meu coração num pip, pip, irritante. Do outro, um saco de soro, pendurado num cabide metálico, soltava, gota a gota, o líquido transparente que escorregava por um tubo ligado a uma agulha espetada na minha mão. Sentia-me moribunda. Num laivo de consciência, lembrei-me porque estava ali: “A bebé, será que nasceu?”. Assumi o facto de não a ter perto de mim como um mau presságio, algo de mau teria acontecido. Minutos depois, uma enfermeira entrou no quarto. Era uma senhora de cor. Ao aproximar-se, percebi que carregava um minúsculo bebé nos braços. Dirigiu-se a mim:
- “Acho que é sua filha!”.
Ainda com aquele “acho” a ecoar-me na cabeça, estendi os braços pronta para aceitar a criança. Apressei-me a tentar reconhecer qualquer parecença física. Sem demora, fixei-me nos dedos das mãos, compridos e delicados como os meus. Foi quanto bastou.
A tua cabeça, do tamanho de uma laranja, cabia-me na palma da mão. Um sopro de vento mais forte seria suficiente para te derrubar. Eras um peso pluma, chamavam-te mascote. Eras comprida e leve. Quarenta e oito centímetros vezes dois quilos e cem. Nas primeiras horas, tinha medo de pegar em ti. De súbito, o peso que se libertou do corpo alojou-se na alma. Para sempre. Em alerta permanente, o meu corpo conseguia adormecer nas duas horas que intervalavam o teu mamar. Só o corpo adormecia. O cérebro, inquieto, estreou uma vigília que dura até hoje. Que vai durar para sempre. Há quatro anos eu não sabia ser mãe. Era como se me estreasse numa nova profissão. Foi como o primeiro dia na escola primária ou o primeiro dia na universidade, ou o primeiro dia num novo emprego. Tenho mais vinte e oito anos que tu, mas há dias em que me sinto da tua idade. Antes de ti parece que não existia. Antes de ti não havia nada.
Escrevo estas palavras enquanto dormes. Escrevo estas palavras antes de cumprir o meu ritual de boa noite. Daqui a pouco, com pezinhos de lã, vou entrar no teu quarto. Vou sentar-me à beira da cama e aconchegar-te a manta. Depois, vou encostar o nariz ao teu rosto, fechar os olhos e inalar o teu cheiro, antes de selar o momento com um beijo. Esta noite, daqui a pouco, enquanto dormes, vais completar quatro anos. E eu, antes de apagar a luz do teu quarto, vou dar-te os parabéns, num sussurro baixinho, ao ouvido. E mesmo que não me oiças, mesmo que amanhã não te lembres de nada, vou pedir por ti dois desejos: que nunca pares de correr atrás da felicidade e que cresças muito, até seres do tamanho dos teus sonhos. Parabéns, querida Júlia!
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terça-feira, 6 de março de 2012
Quantos quilómetros tem uma vida?
Partida. Caminhas só no meio da multidão, isolada nos teus pensamentos. Esses anónimos não te dizem nada. Apenas guiam os teus passos como um traço contínuo, confirmando o trilho a seguir. Em jeito de distracção, decides prestar atenção aos sons que te rodeiam. Um exército de pés, passos ritmados, passos pesados, esmigalham calhaus derramados pelo tempo sobre a terra batida. Um ruído de bocas a mastigar cereais crocantes vai ecoando. As pedras rolam, as pernas rolam, vai rolando a distância debaixo dos pés. O que te move? Saberes-te capaz de atingir uma meta, de cumprir uma etapa, de chegar ao fim de um caminho qualquer. Lá ao longe, bem ao fundo, avistas o cerro. Nuvens cinzentas pairam sobre ele, cobrem-no de sombra. Circulam, parecem querer dançar: a dança da chuva. O teu coração acelera ao ritmo do cansaço. Mais uma subida ofegante. Inspiras agora a plenos pulmões e consegues farejar os odores da manhã campestre. Há ervas que libertam um cheiro verde húmido. Narinas adentro, entram vestígios de bosta, cheira a estrume. Verde, castanho, cinzento: haverá fogo? Cheira a fumo. São pastos que se queimam no vagar da manhã. Atravessas agora um troço de estrada. Um tractor, motores furiosos, passa por ti. O arame farpado que te ladeia impede-te de “caçar” laranjas. Um longo campo de laranjeiras persegue-te por minutos. Rente à estrada, na portada de casa, um idoso está na plateia. Decides oferecer-lhe um “bom dia”. Ele retribui com um “bom dia, menina”, ainda surpreso por ser o primeiro cumprimento que recebe do pelotão. Aproxima-se o fim. Últimos passos embalados pelo cantarolar de pássaros dispersos. Em coro, chilreiam celebrando a alegria de uma manhã de Sol. Numa tabuleta de madeira lê-se “9 Km”. Está quase, tu és capaz. Um derradeiro pensamento ocorre-te: E se em vez de anos, contássemos a vida em quilómetros? Tão mais interessante seria, quão mais longas iriam parecer tantas vidas de breves anos. Tão curtas seriam tantas outras, a maioria. Quantos centenários morrerão sem ter visto sequer o mar? À chegada, as pernas latejam, mas todos os caminhos vão dar à vida. E a partir daqui, à vista desarmada, ela parece-te uma longa vida.
domingo, 4 de março de 2012
Desastre celular
Caminhava completamente desengonçado, como se cada um dos ossos fosse mais disforme que o próprio rosto. Rente à estrada, debaixo de um céu pesado, carregado de chuva, caminhava de mochila às costas, meio rapaz, meio homem, meio monstro, sem idade certa. De repente, hesita o passo, pára, parece querer precipitar-se sobre a estrada. Por instantes chego a temer um suicídio. Falso alarme. Ele trava. Com olhar de louco, absorve de uma rajada todo o quarteirão. Estranho ser, carregando sobre os ombros o peso de tamanha fealdade, carga maior que a da mochila que se adivinha meio vazia. Esta figura (im)perfeita de contos de meia-noite, segue viagem, estrada fora, perco-lhe o rasto, fica-me apenas a memória. Jamais esquecerei ter visto um ser humano de traços tão contraditórios. Só por capricho, apetece-me afrontar a crença: feitos à imagem e semelhança do Senhor? Se assim fosse, porquê existir a perfeição e a aberração, o belo e o mostrengo e permitir que ambos se cruzem e convivam até ao pico da dor? Na ausência de outras respostas, o mais fácil é aceitar uma explicação natural: ao nascer, podemos resultar de uma aliança perfeita de duas células, ou sermos um perfeito desastre celular com consequências traumáticas irreversíveis.
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