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sábado, 14 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 6

Entretanto, os dias no hospital passavam com um vagar pintado de infância. Sem as habituais obrigações, horários, prazos e tarefas urgentes por cumprir, consegui aperceber-me de que todos os dias têm efectivamente vinte e quatro horas, suave e lentamente contadas pelo ponteiro dos segundos que pacientemente se arrasta aos tremeliques, milhares de vezes ao longo do dia, contornando em movimentos circulares todos os números e tracinhos desenhados no relógio. As rotinas eram fixadas pela sequência de rituais que se sucediam dia após dia, após dia. Logo pela manhã, o aproximar de um tilintar metálico proveniente do corredor anunciava a chegada do pequeno-almoço. Um copo de leite morno e uma carcaça com manteiga, um menu que se repetia a meio da tarde, à hora do lanche. Quando voltei a ter apetite, estas eram as minhas refeições preferidas. Se me fosse permitido, abdicaria do almoço e do jantar, compostos habitualmente por um caldo deslavado a que chamavam sopa e um prato de carne ou peixe completamente insípidos. Estava totalmente dependente dos outros para sobreviver. Eram os enfermeiros que me levavam a comida à boca, eram também eles que diariamente me faziam a higiene. Ficava sempre constrangido cada vez que cabia a uma mulher a incumbência de me lavar as partes íntimas. Durante muito tempo usei uma algália. Sem que sentisse sequer a vontade, a urina saia-me da bexiga directamente para um saquinho que era trocado uma ou duas vezes ao dia. A saída das fezes era mais trabalhosa. Tinha que pedir a arrastadeira, uma espécie de penico que, mesmo deitado, me colocavam de amparo ao ânus. Depois, quando terminava, alguém me removia a vasilha. Era capaz de sentir o odor quente que permanecia em meu redor durante breves instantes. Era capaz de perceber sintomas de agonia no rosto de quem iria transportar os meus dejectos nauseabundos até ao destino final. Com o tempo, habituei-me. Até que tudo começou a parecer-me normal, até ao ponto de quase me conseguir esquecer de como era tudo antes de ter passado a ser assim. As noites no hospital eram longas. A partir das nove instalava-se um silêncio com rasto de solidão. Como passava grande parte do dia a dormitar, devido aos sedativos que tomava para as dores, à noite tinha dificuldade em conciliar o sono. Era então que pensava na minha mulher e sentia por ela algo que não me lembrava de sentir há muito tempo: saudades. Lá longe, na nossa casa, no nosso quarto, na cama de onde me levantei naquela fatídica manhã, conseguia imaginá-la a tentar adormecer. Sozinha e triste, agarrada à minha almofada a descarregar toda a dor sob a forma de lágrimas.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 5

- Sr. Eusébio, já acordou? – Irrompeu uma voz feminina quarto adentro. Enquanto pestanejava, esforçando-me por permanecer com os olhos abertos, vislumbrei uma mulher loira de bata branca. A enfermeira Elsa era uma jovem na casa dos trinta anos, com bons modos e muito bom aspecto. Saudei a sua presença com um gemido, a única forma confortável de me manifestar. E ela continuou a fazer-me perguntas de circunstância, sabendo de antemão que as respostas seriam pouco mais que lamentos monossilábicos. - Então, como é que se sente? Está com dores? Quer que lhe molhe os lábios? Eu assenti piscando os olhos repetidamente como se quisesse acenar com a cabeça. Tinha a boca tão seca que até a língua parecia feita de borracha. Delicadamente, ela mergulhou dentro de um copo de água a compressa enrolada num pauzinho de madeira e começou a humedecer-me os lábios. Ia começar a fazer um esforço para tentar falar quando ela me dissuadiu: - Não se canse, Sr. Eusébio. Procure descansar. Não se preocupe que nós estamos aqui para tratar de si. Depois disso, trocou a saqueta de soro, ajeitou-me os lençóis e mediu a temperatura colocando-me o termómetro digital dentro do ouvido. Vi-a tirar uma série de apontamentos, antes de se retirar. - Até já, Sr. Eusébio. Daqui a pouco o doutor já vem fazer a ronda. Aos poucos fui voltando a tomar consciência do meu corpo. Sentia os braços e as pernas amarrados. Quando o médico veio por fim visitar-me, percebi que estava parcialmente engessado. Num tom cheio de formalidades, informou-me que tinha já sido operado a múltiplas fracturas expostas e que numa delas, localizada na perna esquerda, havia uma espécie de armadura de ferros que me atravessava o osso de lado a lado. Eu estava fragilizado e os médicos esconderam-me o pior dos diagnósticos. Fiquei a saber mais tarde que todos eles achavam que eu estava condenado a ficar refém de uma cadeira de rodas para sempre. Felizmente, a medicina às vezes também se engana a nosso favor. Lá fora, no mundo real, a vida continuou sem mim. Os meus filhos regressaram à escola e a minha mulher teve que assumir o comando da nossa empresa. Que remédio, ser patrão tem por vezes um sabor agridoce. Ainda mais quando se tem um negócio de família de onde provém todo o sustento. Temos todo o poder nas mãos, mas nem quando fraquejamos o podemos largar. Se o fizermos, não há colchão que ampare a queda. Desistir nunca é uma opção. Surpreendeu-me a minha mulher. O medo fê-la superar-se pela primeira vez na vida. O medo e o amor, de mãos dadas, a provar que são as únicas alavancas que nos movem, que nos fazem tomar decisões, mesmo quando não sabemos o que fazer. Psicologicamente apoiada nos livros de auto-ajuda, que tanto gostava de ler, ela lá foi repetindo e colocando em prática as máximas que melhor se enquadravam à situação. “É melhor decidir mal do que não decidir”, repetia todos os dias, como um mantra, antes de qualquer passo mais hesitante.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 4

Imagino como deve ter reagido, ela que é tão nervosa. Pensou logo no pior, quando lhe confirmaram que eu estava nos cuidados intensivos do hospital de Beja. O que se seguiu foi toda uma família em alvoroço. Desesperada, desfeita em lágrimas, a minha mulher não tardou em buscar conforto junto de amigos chegados. Foram eles que conduziram o carro que em pouco tempo partiu acelerado rumo ao Alentejo. Lá dentro iam também os meus filhos, dois adolescentes, um rapaz e uma rapariga carregando um silêncio com sintomas de orfandade. Naquele dia, Maria e Manuel tinham, respectivamente, dezasseis e catorze anos. Eram uns miúdos porreiros, aliás, são uns miúdos porreiros estes meus filhos. Quando mais tarde tive consciência que podia tê-los deixado desamparados, que podia nunca mais tê-los visto, senti uma dor no peito. Nesse dia, pela primeira vez depois do que me aconteceu, chorei. Não sei ao certo quantas horas estive inconsciente. Apenas sei que foi o tempo suficiente para avistar a mítica luz ao fundo do túnel. Foi como se tivesse estado à porta de um outro mundo onde me recusei a entrar. Tinha demasiada gente à minha espera no planeta terra para me dar ao luxo de embarcar descomprometidamente numa viagem de longo curso. Quando me dei conta de que estava numa cama de hospital, a minha mulher já estava ao meu lado. Com uma voz sumida que mal se conseguia entender entre gemidos, abri subitamente os olhos e ao vê-la reagi: - Eu estava a sonhar que tinha tido um acidente! Com o verde do seu olhar raso de lágrimas, ela pegou-me na mão em silêncio. Devia ter um daqueles nós na garganta que bloqueiam a voz em determinadas ocasiões da vida. O calor da sua mão, o toque da sua pele, foi o suficiente para me fazer sentir seguro. Fosse o que fosse que me tivesse acontecido, ela estava ali comigo e, naquele momento, isso era quanto me bastava para voltar a adormecer tranquilo. Não sabia se tinham passado horas, dias ou meses quando finalmente despertei daquele sono profundo. Sentia-me atordoado. Primeiro que conseguisse focar com precisão qualquer ponto que os olhos fixassem, passavam alguns segundos. Estava rodeado de paredes brancas e ao perceber-me semi-nu, fui subitamente atravessado por um inusitado arrepio de frio. Tentei mexer-me mas as dores não deixaram. Deitado numa cama metálica forrada a lençóis carimbados de caracteres azuis, estava imobilizado, amarrado por cabos ligados a máquinas e tubos de por onde circulava um soro que me entrava no corpo a conta-gotas através de uma agulha espetada numa das veias da mão direita. Sem forças sequer para falar, decidi soltar uns gemidos, numa tentativa que alguém me ouvisse e pudesse acorrer em meu auxílio.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 3

Muito antes dos bombeiros chegarem ao local, houve alguém que, sem querer, acabou por ser a primeira testemunha do sinistro. Soube mais tarde que era um homem e que, para minha sorte, era médico. Não teria sobrevivido até à chegada do socorro se aquela alma não se tivesse cruzado no meu caminho. Diz ele que, por estar em choque, eu estava a sufocar com a língua. Foi ele quem ma desenrolou evitando a asfixia. Se fosse crente, teria ficado a pensar que aquele homem foi um anjo que desceu à terra naquele instante para me salvar. Um minuto a mais poderia ter feito toda a diferença. Nos momentos que sucederam o acidente, muitos foram os carros que tiveram de parar junto à berma, imagino. Os destroços estavam de tal forma atravessados na via que não permitiam a passagem de qualquer veículo. A curiosidade mórbida foi-se aproximando. Sou capaz de imaginar quantas pessoas terão saído do carro para me espreitar, para assistir ao vivo à (minha) tragédia humana. Exposto como um espantalho, não espantava ninguém. Antes pelo contrário. As pessoas pareciam querer reunir-se à minha volta como abutres que anseiam por carne fresca. Um casal que habitava a casa branca sobre o monte também desceu à estrada. Marido e mulher foram acordados por um enorme estrondo que dizem ter pensado ser o de uma bomba a rebentar. Ainda dormiam quando às oito da manhã aquele ruído estridente de súbito os sobressaltou. No meio do aparato, devo ter desmaiado, pois já só me recordo muito vagamente de acordar no hospital. Enquanto estive inconsciente, sei que vários homens tiveram que serrar os destroços do carro para me tirar lá de dentro. Nem durante, nem depois, nunca pensei em mais ninguém que não fosse a minha mulher, os meus filhos e o fornecedor que havia de estar indefinidamente à minha espera. Nunca, nem por um segundo, me ocorreu que do outro lado da estrada pudesse estar um outro homem dentro de uma outra viatura. Hoje sei que já não era bem um homem. Quando finalmente fui retirado dos destroços com vida, a pessoa que conduzia o carro que chocou de frente com o meu era já um cadáver. Eu matei um homem? Eu terei matado uma pessoa? Posso não ter morrido naquele dia, mas sei que esta dúvida vai morrer comigo e perseguir-me em sonhos até aos dias do fim. Entrei em coma a caminho do hospital. Deve ter sido nessa altura que o telefone tocou. Do outro lado da linha, alguém tinha uma notícia má para dar à minha mulher.

sábado, 7 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 2

À minha esquerda, do lado de fora da janela estilhaçada, um homem de capacete amarelo sabia o meu nome, apesar de eu não o conhecer. Por que raio haveria de querer falar comigo? E a voz voltava, sumida, longínqua, como um eco que ressoa no fundo de um poço. - Sr. Eusébio, tenha calma, que já o vamos tirar daí. Minto se afirmar que me lembro de todos estes pormenores. Talvez seja apenas o meu inconsciente a falar mais alto. Quem sabe, tudo o que julgo lembrar-me não seja mais do que um amontoado de memórias fabricadas pelas centenas de vezes que já ouvi da boca de outros a minha própria história. Dentro de mim, continuam a ecoar perguntas às quais ninguém me sabe responder: Porquê eu? Como é que aquele acidente me pôde acontecer. Nem Deus, nem nenhum santinho me havia de dar resposta até hoje. Naquela manhã de sábado, eu era ateu. E nem o que dizem ter sido um milagre me fez mudar de ideias. Prefiro acreditar que podemos ter sete vidas como os gatos. O pior é que, feitas bem as contas, eu já esgotei duas ou três. Não posso arriscar muito mais. A partir de agora tenho que medir bem os passos que dou. Passos lentos. Há muito que as minhas pernas se habituaram a medir a vida em passos menores, um de cada vez, devagarinho. Esgotei a minha primeira vida ainda não tinha completado dois anos de idade. A minha mãe costumava ferver água no fogão e nesse dia, curioso, deu-me para espreitar o que havia dentro da panela que estava ao lume. E zás. Ainda hoje a minha mãe conta que estive às portas da morte. As queimaduras eram tão graves que nem permitiam que me alimentasse. Levei meses a ingerir apenas líquidos, sorvidos a muito custo por uma palhinha. Felizmente, o tempo encarregou-se de amenizar os danos causados por aquele desastre. Não fiquei desfigurado nem coisa que o valha. Digamos que não deixei de casar por causa das três ou quatro películas de pele mais fininha que continuam a tatuar-me parte da testa, rosto e braços. Piores, muito piores foram as sequelas daquele malogrado acidente. (...)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 1

Naquela manhã, quando saí de casa, nunca imaginei que pudesse não regressar ao anoitecer. Às seis e meia daquele sábado, chovia torrencialmente quando o toque irritante do despertador de corda me fez abrir os olhos. Para meu espanto, perante tamanho ruído, lá em casa mais ninguém acordou. Ao meu lado, na cama, a minha mulher dormia com gosto. O seu rosto não exibia qualquer ruga, a sua mente adormecida não conseguia antever qualquer sobressalto iminente. Continuava a dormir e a sonhar que ainda podíamos ser felizes para sempre. Naquela manhã de Novembro, faltava um mês para o Natal. E os meus filhos, que ficaram a dormir quando sai de casa, não podiam sequer imaginar que iriam passar a consoada num local completamente diferente do habitual. Lamento profundamente nunca ter sido dado a manifestações espontâneas de carinho. Hoje, ainda me lamento por nessa manhã ter seguido viagem sem lhes dar um beijo. A minha mulher e os meus filhos haveriam de ter gostado que me despedisse deles. Tive vontade de o fazer, mas desisti logo que pensei que afinal ia só a Lisboa tratar de negócios. Para quê tanta lamechice se logo à noite estaria de volta para jantar tranquilamente com toda a família? Naquela manhã, quando bati com a porta do carro e coloquei o cinto de segurança, antes de dar à chave, eu tinha quarenta anos e era capaz de imaginar outros tantos de vida à minha frente. De pé já firme no acelerador, a estrada começou a estender-se diante dos meus olhos. Esforçava-me por seguir a orientação dos traços, ora contínuos ora descontínuos, entrecortados pelos movimentos semi-circulares dos limpa-pára-brisas, quando me apercebi que o rádio, o meu único companheiro de viagem, tinha ficado mudo. Comecei a antever trezentos quilómetros de silêncio, do Algarve à capital, com as pálpebras a pesar cada vez mais sobre os olhos ainda carregados de sono. Solidão, silêncio, a escuridão dos olhos a fechar-se, uma antevisão da morte que me espreitava ao dobrar a curva. Ao estrondo metálico de guerra seguiu-se o profundo silêncio da escuridão. Depois disso, uma súbita amnésia, um vazio total de pensamentos. Só me lembro de tentar abrir os olhos, como se quisesse gritar. Numa espécie de alucinação, na qual não me sabia acordado, tenho uma vaga ideia de ver luzes azuis intermitentes. Hoje sei que eram as sirenes a girar à minha volta. Nesse instante, o meu corpo já não era meu. Era um pedaço de carne esmagado entre um amontoado de chapa e o que restava dos estofos. Havia um homem moribundo encarcerado dentro de um carro, mas já não era eu. Tinha os braços pendidos sobre o corpo, a cabeça tombada e os óculos esmagados sobre o rosto ferido. De boca aberta, revirava os olhos indeciso entre a vida e a morte. O cenário não parecia real, mas aquele homem afinal era mesmo eu. Enquanto as dores húmidas de sangue morno me puxavam para o sono, gemia baixinho. E perdido no meio da agonia, tenho a vaga ideia de uma voz tentar insistentemente chamar-me de volta à vida. - Sr. Eusébio, consegue ouvir-me? Sr. Eusébio, se consegue ouvir-me, abra os olhos! (...)

domingo, 17 de junho de 2012

Olá minha querida!

Passávamos tardes inteiras a conversar e a beber chá. Eram sempre tardes de Domingo, fosse Verão ou Inverno. Eram sempre tardes em que eu poderia estar em qualquer outro lado a fazer qualquer outra coisa, mas preferia estar ali. A sua companhia fazia-me bem. Eu podia combinar o encontro, ou aparecer de surpresa, que ela estava sempre lá à minha espera. Tocava à campainha e podia ter que esperar mais de um minuto até que a porta se abrisse. Durante esse compasso de espera, podia imaginá-la a caminhar a custo pelo corredor. Ao contrário do cérebro, há muito que o corpo começara a sucumbir ao peso da idade. Afinal já são 91 quilos, dizia ela com graça, referindo-se aos seus longos anos de vida. Recebia-me sempre com o afecto maternal com que sabia tratar toda a gente. Talvez por nunca ter sido mãe, tinha o gesto espontâneo de adoptar todos os que lhe eram queridos. Partilhava afecto com o mesmo à vontade com que distribuía tudo o que tinha. Sem agenda, nem os lembretes electrónicos dos tempos modernos, nunca esquecia um aniversário. E quando não tinha dinheiro, oferecia objectos, um livro antigo, qualquer coisa que tivesse à mão, numa espécie de distribuição de herança antecipada. Primeiro, sentávamo-nos no sofá, lado a lado. Ela pegava-me na mão e não a largava enquanto conversávamos. E eu podia sentir a frescura da sua pele fina rente aos ossos. Volta e meia, abraçava-me, puxando-me contra o rosto. E eu podia sentir o aroma sempre asseado da sua roupa preta, de um luto que carregava há anos pelo marido. Repetia vezes sem conta, como se sentia feliz por me ver, tomada talvez pelo receio de nunca saber se aquela seria a última vez. Por volta das cinco da tarde, era a hora do chá. Fazia questão de se levantar para ir pôr o púcaro ao lume. Era um púcaro velhinho, onde colocava água e uma mistura de ervas secas a ferver. O armário da sala escondia sempre latas de bolachas e bolinhos que saltavam para a mesa com honras de festa. Muitos já sabiam a mofo, outros tinham passado da validade, mas ela nem reparava, tal era a ânsia de oferecer o que tinha. Ah, Carlota, que saudades! Há dias em que me lembro muito de si. Lembro-me de me ter telefonado naquela quinta-feira de uma tarde de Março: - Olá minha querida! Aquela saudação sempre tão simpática ainda me ecoa no pensamento. Ao ouvi-la fiquei subitamente aliviada. No início da semana tinha sonhado com um velório. Carlota estava deitada num caixão e em redor todos os amigos lamentavam a sua morte. (Nunca lhe contei isto, como é óbvio). Lembrei-me do velho ditado que aprendi na infância: sonhar com a morte, traz anos de vida para a pessoa. Na manhã seguinte, andava por casa quando o telefone tocou. Atendi. Dou outro lado, a minha mãe atalhou: - Já sabes? - O quê? – Respondi a medo, antevendo algo ruim. - Morreu a prima Carlota. Em silêncio, não consegui conter as lágrimas. Mais presente do que nunca, a voz voltava a ecoar: - Olá minha querida! Horas antes, como se pudesse pressentir a morte, ela despediu-se de mim. Dias antes, como se pudesse pressentir a morte, eu sonhei com ela. Chamávamos-lhe prima Carlota, num parentesco que se estendia por quatro gerações. Na verdade, ela era prima irmã da mãe do meu avô materno. Para mim, foi mais uma avó, sempre presente, até hoje, até sempre.

sábado, 2 de junho de 2012

Cibernóia

Na sala de espera, Diogo impacienta-se com a demora. É proibido fumar. Roer as unhas em público não é de bom-tom. Está sentado num sofá demasiado mole forrado a napa. Cruza e descruza as pernas, estala os dedos das mãos, respira fundo, vezes sem conta. E a porta do consultório continua fechada. Ao pensar na razão que o trouxe ali, um nervoso miudinho aloja-se no estômago e chega a pensar em desistir. Finta a porta de saída e está já a equacionar a fuga quando a recepcionista, após receber uma chamada telefónica, o chama: - Sr. Diogo, vamos? Ao levantar-se para o acompanhar até à porta do consultório, a recepcionista revela-se em toda a sua beleza: é alta, elegante e os seus cabelos longos e negros libertam, à sua passagem, um doce aroma floral. Dá dois toques na madeira com os nós dos dedos, antes de girar o puxador gentilmente. A porta abre-se deixando antever um homem de óculos semi-careca. Está sentado a uma secretária de estilo moderno e, sem desviar o olhar dos papéis onde está a anotar qualquer coisa, convida Diogo a entrar: - Faça favor, sente-se, sente-se! O médico só fixa Diogo pela primeira vez após ouvir a porta fechar-se num estalido seco. Vê um homem moreno, bem apessoado, na casa dos quarenta anos. A idade é denunciada pelos cabelos brancos, que ganham terreno de forma aleatória e selvagem um pouco por toda a farta cabeleira preta. - Então Diogo, o que é que o traz por cá? – Pergunta o psicanalista, puxando o início da conversa. De mãos cruzadas sobre a secretária e olhos fixos no médico, Diogo responde: - Doutor, acho que estou com um problema. Quer dizer, não é bem um problema, é se calhar uma mania, melhor dizendo, talvez seja uma obsessão. O médico permite dois segundos de silêncio, antes de levantar-se. Começa a caminhar e convida Diogo a deitar-se no divã, explicando que lá sentir-se-á mais confortável para desabafar. É um divã preto em pele, de design moderno e linhas sinuosas. Após aceder ao convite, Diogo sente-se, de facto, mais relaxado naquela posição. Fixando o olhar na imensa estante de livros, que atravessa de um extremo ao outro a parede em frente, consegue finalmente soltar a língua. - Quero lembrar-me de como era a minha vida antes… antes de aparecer o “e” azul. Sim, o “e” e agora o “f”… Diogo fala em código e o médico, apesar de não entender patavina do discurso, permanece em silêncio, receptivo para continuar a ouvir. - É pior que o fumo e o álcool juntos. Nem sei como fiquei viciado nisto. A gente vai experimentando e gostando. Volta no dia seguinte e fica mais um pouco. E vamos deixando as horas passar e deixamos o sono passar e deixamos a vida passar e não largamos o vício. Parado diante da janela, o médico vai ouvindo e analisando o discurso, apesar de achar que continua a não fazer qualquer sentido. - Deito-me com a cabeça cheia de imagens, de frases, de citações, de notícias, de coscuvilhices. Todos os dias fico a saber muito mais do que devia sobre a vida de muita gente. Partilho retalhos da minha vida ao segundo como se ao não fazê-lo deixasse de existir. Não é deliberado, mas quero que reparem em mim. Gosto de poder dizer às pessoas que me seguem onde é que estou, para onde vou, o que ando a fazer. Gosto que comentem, gosto de saber a opinião que elas têm sobre a minha pessoa e sobre tudo o que penso e digo. A opinião dos outros ajuda-me a conhecê-los melhor e até mesmo a compreender-me melhor. Gosto de fazer comparações. Analisar o comportamento dos outros reforça-me a auto-estima, faz-me sentir especial. Consigo perceber facilmente que sou mais inteligente que a maioria das pessoas com que me relaciono, que me preocupo com questões mais profundas, que leio mais livros e vejo mais filmes. Mas depois, vem o desassossego. Quero libertar-me e não consigo, é mais forte do que eu. Antes de me deitar, depois de ter estado horas agarrado ao computador, ainda espreito o telemóvel, a ver se alguém fez algum comentário. Vou à praia e tenho que mostrar que estive lá. Vou viajar e tenho que avisar toda a gente, não sei se por presunção ou por outra razão qualquer. Não sei, não sei, não sei…. Não sei porque faço isto e não me consigo lembrar como era a minha vida antes disto. Doutor, acho que preciso de ajuda! Primeiro foi só a Internet, depois o Google, agora o Facebook. Por favor, eu só quero curar-me deste vício – implora Diogo, num tom desesperado. O psicanalista olha para ele, esboçando um sorriso aliviado. - Meu amigo, o seu problema tem nome, sabe qual é? Diogo abana a cabeça, em negação. - Solidão! Vamos tratar primeiro disso e depois falamos do resto – atalha o médico, antes de dar por concluída a primeira sessão de psicanálise.

domingo, 13 de maio de 2012

O presente

Enquanto se queima um cigarro no sereno, sobra tempo para rever o dia que ficou para trás como uma página virada. A manhã começou bem cedo com a euforia que antecede uma festa. O Luís faz seis anos e todos os colegas da sala estão convidados. Para muitos uma festa de aniversário já não é novidade, mas há uma menina estreante nestas andanças que não consegue esconder o entusiasmo latente. Passeia-se pela casa de saco na mão, impaciente pela chegada da hora. “Ó mãe, vamos já?”. A mãe responde que é só mais à tardinha, à hora do lanche. No interior do saco há um presente escondido pelo papel de embrulho: uma surpresa para o Luís. Será que vai gostar? A menina questiona-se, curiosa por saber o que sairá lá de dentro, como se a prenda fosse também para ela. Todas as crianças adoram presentes. Como se nunca tivessem deixado de ser crianças, todos os adultos adoram presentes, mas habituaram-se a dizer que “não era preciso nada”. Era pois. Afinal, cada dia é uma dádiva, daí que lhe chamemos o presente. As horas parecem passar mais devagar que o habitual e a menina inquieta-se com a demora. O relógio marca por fim as cinco horas, numa tarde abafada de Primavera. O Luís já salta e brinca e ri no interior do recinto, quando os convidados começam a chegar. Como à entrada de uma mesquita, os sapatos ficam todos à porta, organizados numa estante aos quadradinhos. E, ao sentir o gosto da liberdade, os pés descalços ganham velocidade na busca cega da diversão. Há música a animar a criançada. Há balões coloridos espalhados pelo ar. Encostados à parede, há pais vigilantes com rostos cansados. Como nos casamentos de Santo António, há várias festas em simultâneo. O espaço é grande, há que rentabilizar o tempo. Num dos recantos, por essa hora, o Pedro é o rei da festa. De coroa na cabeça, está sentado numa poltrona a meio da mesa. À sua frente, um bolo colorido com velas a arder. À sua volta, um coro de vozes infantis canta os parabéns a você. Enquanto isso, a menina procura o Luís. Demora a encontrá-lo e quando o vê ele não lhe passa cartão. É um adulto que lhe sugere ao ouvido que vá cumprimentar a colega que acaba de chegar à festa. Cansado e transpirado, o menino aproxima-se a correr. Ao ver o saco na mão da menina pega nele como se só isso importasse. Apressa-se a desembrulhar o presente. Durante os segundos que fazem prolongar o suspense, larga pedaços de papel despreocupadamente pelo chão. A surpresa revela-se: é uma mota. “Mais uma mota? Está bem, vou dar à minha mãe para guardar.” E desaparece, num ápice, sem um sorriso, sem qualquer sinal de gratidão. Desprezada, a menina não se sente porque ainda não tem idade para compreender as agruras da vida. Esquece aquele momento com a pressa de brincar. Sem perder tempo, penetra num labirinto insuflável e deixa-se submergir numa piscina de bolas com a alegria de uma criança feliz.

terça-feira, 1 de maio de 2012

1º de Maio

Saímos de casa cedo, ainda pela fresquinha. Há um ânimo de férias no ar. Hoje não há escola, hoje não vamos trabalhar. É feriado e temos o dia todo por nossa conta. Como é bom ter vagar. O carro vai cheio. Vai cheio de gente, cheio de conversa solta, cheio de gargalhadas que nos saem por tudo e por nada. Rimos juntos. Trocamos sorrisos pelo retrovisor. Hoje estamos felizes. Pais, filhos, avós e netos, distraídos pela paisagem que a alta velocidade passa por nós, nem nos damos conta da perfeição do momento. Vamos passar um dia diferente, noutra terra, com outra gente. Vamos andar de mãos dadas para não nos perdermos. Vamos conciliar estômagos famintos num mesmo horário, para nos sentarmos à mesa e pedir a ementa. Vamos todos escolher uma comida de que gostamos, não vamos obrigar ninguém a comer sopa, nem brócolos. Hoje é dia de folga, à mesa não há lugar para discussões. Todos mastigamos com gosto, levamos cada garfada à boca com uma satisfação feita de apetite. Ainda comemos em restaurantes, quando muitos saqueiam hipermercados. Isto merece um brinde. Como as crianças não bebem e os adultos têm que conduzir, celebramos com uma sobremesa. Hoje cada um escolhe um doce. E, de repente, temos todos cinco anos e sentimos que um passeio em família tem sempre gosto de infância. Vamos à feira e compramos um brinquedo. Há música no ar. Há cores de festa por toda a parte. Há balões oferecidos e animais que enchem os pequenos de espanto. Cheira bosta de vaca e a lã acabada de tosquiar. São odores que nos fazem sentir mais perto da natureza. Menos humanos, mais animais, aproximamo-nos sem querer da nossa essência selvagem. Amanhã não queremos ir para a escola. Amanhã não queremos ir trabalhar. A partir de amanhã queremos que seja feriado todos os dias, indefinidamente, até ao fim das nossas vidas.

domingo, 29 de abril de 2012

Joe Black

Lá fora, o vento uiva desenfreado. Numa ira de força transparente, empurra sem piedade tudo o que se atravessa no caminho. As árvores vergam-se à sua passagem, como se numa vénia lhe concedessem obediência. O pó, feito de terra, de areia, de vestígios de erosão, passeia-se num voo que atravessa o próprio ar em ziguezagues, por vezes interrompidos por uma pausa repousada num canto qualquer. As nuvens também parecem zangadas, ficam cinzentas de raiva por não poderem repousar em paz. Nem no céu parece haver descanso. Indeciso, sem saber como se comportar, o Sol esconde-se envergonhado. Vai espreitando, introvertido, deixando escapar tímidos raios de luz por entre a espessura branda das nuvens. Os corpos que já pedem praia guardam-se em casa em lamentos resignados. Os rostos, como um espelho, reflectem a cor do dia. Semblantes cinzentos cruzam-se nas ruas, cabisbaixos. A chuva, que tanta falta faz, avança e recua hesitante, enviada a conta-gotas pela mãe natureza. Está tanto vento, mas não corre uma brisa de esperança. É aos salpicos que os homens que se arrastam vão sendo atingidos pela desgraça que parece cair do céu aos punhados. Há milhares de sonhos a esvair-se, arrastados pela chuva, empurrados pelo vento. E no meio deles, deslizam ao sabor da maré náufragos felizes. Ainda há quem consiga sorrir, ainda há quem consiga transportar uma boa notícia, quem consiga carregar no ventre uma nova vida, uma promessa de um futuro possível. A vida e a morte, o começo e o fim, as duas pontas da corda, uma sempre pronta a ser agarrada, a outra sempre prestes a ser largada, num ciclo que se repete desde ontem, hoje, amanhã e sempre, até sempre. É bonito que alguém um dia se tenha lembrado de nos fazer acreditar que a morte é um homem loiro, chamado Joe Black, que um dia nos virá buscar pela mão em clima de festa quando chegar a nossa hora. “Conhece Joe Black?”. Mais tarde ou mais cedo, todos o iremos conhecer. E que perfeito seria se, nesse preciso momento, houvesse fogo de artifício e a música de despedida fosse a banda sonora desse arrepiante filme.

sábado, 31 de março de 2012

Esta terra que me acolhe

Quantas vezes o sítio onde vivemos não é escolha mas destino? Soma de contas mal feitas, adições ou subtracções mal resolvidas, erros de cálculo, opções que sobram nos destroços, no entulho que resta de tudo o que um dia idealizámos. E aprendemos a aceitar. Que remédio. A adaptação fica-nos tão bem. É um fato engomado que nos assenta sempre bem. Adaptar-nos é a última das sortes, mesmo quando a vontade não vem, nem com o passar do tempo. O tempo, o tempo. Com ele acabamos por aceitar tudo, até a morte que sabemos certa e que nos espera a todos sem segunda opção. Hoje o vento não me está de feição. Nem esta paz fluvial que traz cheiro a maresia é capaz de me aquietar os sentidos. Da minha janela ao mar são poucos quilómetros. E isso poderia bastar-me para sorrir. O sol que raia lá fora a espaços por entre as nuvens que dançam em seu redor poderia bastar-me. O vento que passa, que assobia vaidoso poderia bastar-me. Por aqui, não há filas de carros a buzinarem-me aos ouvidos. Não há demoras para chegar ao trabalho. E isso, apenas isso, poderia bastar-me. Este paraíso da terceira idade onde habito não condiz comigo. Somos como cores diferentes mal conjugadas, somos como a bandeira, vermelho e verde, contrastamos ainda que ninguém note. Eu sou alvorada e aqui vive-se ao ritmo do pôr-do-sol. Eu sou luzes e avenidas e carros a circular com pessoas lá dentro. E sou prédios a tocar no céu e as pessoas que trabalham lá em cima e tantas outras cá em baixo a circular. E mais carros e mais pessoas, um formigueiro urbano, a vida a mover-se, a vida a acontecer, na rua o centro do mundo. Sou vida desfrutada ao limite, sorvida, sugada, escorropichada até ao fim. Quero morrer cansada, finar-me de exaustão, de solas gastas e bolsos vazios e alma cheia de gozo. A minha herança será feita de memórias. Serei recortes espalhados por álbuns e livros, folhas soltas e cadernos, vestígios de pensamentos arquivados em suportes digitais. Esta cidade é um forte, muralhas por todo o lado. Mas é a cidade que me acolhe e que me encolhe sobretudo os sonhos. Não sou rainha, nem sei se tenho rei. Nesta fortaleza há quem almeje uma invasão. E quando os portões se derrubarem, cavalos e tropas a galope, alguém vai conseguir escapar sem deixar rasto. Nesse dia, em liberdade, a gaivota criada no galinheiro vai finalmente descobrir que afinal o céu é o limite, que afinal até sabe voar.