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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A noite de toda a vida

Havia dias que não trocavam uma só palavra. Comunicavam por gestos, monossílabos quase imperceptíveis, fazendo um enorme esforço para que nem os olhares se cruzassem. Estavam desavindos, de sentimentos às avessas, magoados por excessos de palavras que nunca deveriam ter dito. Depois de tantas e tantas discussões, reinava entre eles um silêncio de morte, um vácuo que encerrava uma dor profunda. Quando voltavam as costas, cada um para seu lado, não eram capazes de conter o choro. Um aperto no peito parecia ser capaz de espremer o coração que pouco a pouco se dissolvia em água. Nem um, nem outro avistavam futuro para além do dia de amanhã. Apesar de não o desejar de forma alguma, cada um à sua maneira estava certo que tudo o que um dia os unira teria chegado ao fim. E a sensação de nunca mais era insuportável. Nunca mais te vou beijar. Nunca mais te vou sentir. Nunca mais vou poder acreditar que haja o que houver ficaremos juntos para sempre. Nunca mais… Ambos estavam longe de imaginar que muito em breve teriam de viajar juntos. O trabalho era já o único laço que os unia. Dever é dever, por isso partiram, em silêncio, lado a lado. Enquanto os corpos se elevavam, o solo ia ficando para trás, cada vez mais lá em baixo, casas e pessoas, miniaturas mil, iam perdendo a cor e a forma até não serem mais que uma mancha, contornos de um mapa sem legenda. Aterraram num país distante após duas horas de cerrado silêncio. Podiam ouvir e sentir a respiração quente um do outro e isso era incómodo. Tal como a presença do cheiro. Tinham descoberto que se amavam quando perceberam que não podiam passar sem o odor um do outro. Era uma espécie de droga, um vício insaciável que os consumia, que obrigava os corpos a consumir-se. Mal tiveram tempo para parar no hotel. Havia reuniões marcadas e nos negócios nunca há tempo a perder. Tempo perdido é dinheiro perdido. E o trabalho ajuda sempre a esquecer os males de amor. Quanto pior se sentiam, mais entusiasmo eram capazes de projectar nos objectivos profissionais que os moviam e que tanto gozo lhes davam. Ela gostava de o ouvir falar inglês na perfeição. Fitava-o com um misto de atenção e orgulho nas suas exibições públicas. Era um homem muito inteligente e admirava-o por isso. Já tinha aprendido muito com ele e isso nunca havia de esquecer. Ele fixava-se na beleza dela. Costumava dizer-lhe ao ouvido que era a mulher mais bela que alguma vez vira. Disfarçava bem, mas sempre que outro homem se aproximava com sorrisos ou algum gesto mais próximo, de embevecido passava subitamente a enraivecido. Não suportava vê-la demasiado perto de outro alguém. Chegou a noite e depois do jantar cada um rumou ao seu quarto. Lado a lado, os quartos de hotel tocavam-se no limite das paredes. Cada um imaginava o que o outro estaria a fazer. Ele ligava logo a televisão. Ela gostava de se refrescar, acarinhar-se de cremes e cheiros bons, antes de se enfiar na cama. Vou apagar a luz, pensava ela desejando ouvir bater na porta. Preciso dela, pensava ele, enquanto ganhava coragem para sair do quarto. E ele acabou por bater à porta. E ela acabou por abrir. Sem hesitar. E antes que pudessem trocar uma só palavra, as bocas colaram-se e calaram-se num beijo que durou um momento sem fim. Respiravam-se, transpiravam-se, corpo com corpo, pele com pele, numa atracção quase fatal. Na penumbra do quarto, eram duas sombras que se moviam a contra-luz. Tacteavam os contornos um do outro, como se pudessem ter um dom que fosse capaz de fixar aquela memória visual na ponta dos dedos, que em vez de efémera pudesse ser eterna, que pudesse perdurar para além dos limites da memória. Amo-te, pensou ela, sem ser capaz de o dizer. Amo-te, afirmou ele corajoso, certo de que o silêncio dela confirmava o que não precisava ouvir. No mês seguinte, as regras não se cumpriram. Nove luas depois um milagre havia de suceder.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

As intermitências do sentir

Os sentimentos são como as ondas do mar. Por vezes recuam, partem, libertam-se de nós e vão com vontade própria, como se nunca nos tivessem pertencido. E voltam, quando já não os esperávamos, quando já não tínhamos lugar reservado para eles. Tal como uma onda forte, rebentam sobre nós num turbilhão, podendo até derrubar-nos. Depois, voltam atrás e regressam já mais suaves, como uma carícia de espuma que apenas cobre a pele ao de leve. Há dias em que o mar está chão. Nesses dias reencontramos a paz, a doce tranquilidade de não sentir. No dia seguinte, sem aviso nem previsão possível, um marmoto. Ondas gigantes de sentimentos que nos abalam como um sismo, que fazem estremecer os pilares da nossa existência. Amar como uma onda que vai e vem, numa valsa sensual de areia e água, elementos apaixonados que se misturam mas não se podem dissolver, acabando por separar-se sempre. Os sentimentos são como as ondas do mar. Nascem de parte incerta, das profundezas de um oceano qualquer, de um ponto invisível de um horizonte longínquo. Sem regra ou rumo ou sorte definida, crescem a toda a fúria, erguem-se a ritmos destemidos e acabam por desfalecer miseráveis, esquecidos do seu real propósito, significado ou razão.

sábado, 20 de outubro de 2012

Utopia

Há uma definição que ouvi há dias que não me sai da cabeça. Alguém terá dito que a utopia é como um horizonte: damos dez passos e ela afasta-se, damos mais dez, tentando aproximarmo-nos, e ela volta a afastar-se. É como um jogo do “toca e foge”, que nunca terá fim. Tal como o horizonte, a utopia é uma linha imaginária que conseguimos visualizar mas jamais poderemos tocar. Funciona porém como a cenoura atrás da qual o burro corre. A cenoura é uma qualquer utopia. O burro somos nós. Se bem que na história do burro, se o animal for persistente que baste, poderá a dada altura alcançar a cenoura e trincá-la a seu bel-prazer, celebrando vitória pela conquista do objecto desejado. Na vida dos seres humanos, aquela que se conveio designar por vida em sociedade, podem existir tantas utopias quantas mentes haja ávidas de sonhar. Se o sonho comanda a vida, como dizia o poeta, a utopia comanda a vontade de acreditar que todos os sonhos podem tornar-se realidade, mesmo que na verdade não possam. Muitos ficam no limbo. A realidade sonhada é perfeita, dá gosto pensar nela. Respiramos fundo e por instantes temos a sensação que tudo é possivelmente maravilhoso, que nada ficará desarrumado, que todas as peças encaixarão no puzzle, completando um desenho que no final será uma obra de arte. Gosto de utopias. Gosto de acreditar que um dia as utopias vão deixar de ser utopias para se tornarem realidades possíveis. Gosto de construir utopias, sonhar com elas e persegui-las a passos largos, ainda que teimem em afastar-se, dez passos e mais dez passos e mais dez passos. Hoje, amanhã e sempre, tudo farei para preservar a minha natureza utópica, a principal alavanca de tudo o que faço e sou. Manterei sempre um punho cerrado disposto a cair sobre a mesa. Nunca hei-de arrumar as botas, baixar os braços ou enterrar a cabeça na areia. Quem desiste sem tentar, será esquecido. Quem vai à luta, mesmo que não vença, será lembrado. A minha boca continuará a abrir-se de espanto, pasmada com a força que magicamente me renasce das veias quando já a sabia esgotada. Sempre que algo ou alguém me empurrar ao chão, haverá uma garra de leão, um fúria de viver que nascerá do desejo de manter-me de pé e de assim permanecer, até morrer, assim de pé, como só as árvores podem.

sábado, 29 de setembro de 2012

O dia em que nasci


Maternidade Alfredo da Costa (MAC), Lisboa, 29 de Setembro de 1979
O mundo atravessa o ano de 1979, os calendários permanecem suspensos no mês de Setembro, enquanto a minha mãe percorre os corredores da maternidade, ainda sem saber se será menino ou menina. Já passa do tempo e eu pareço teimar em não querer nascer. Por isso, naquele dia, sou obrigada a fazê-lo à força. Naquela tarde de finais de Setembro, é uma parteira amiga da minha mãe que a conduz a Lisboa. Ainda em casa, dá-lhe uma injecção para induzir o parto, antes de a levar para o carro onde põe a tocar uma cassete de fados. É o choro das guitarras que há-de embalar a dor das primeiras contracções. Ao passar a ponte, ao cruzar o Tejo, enquanto acaricia a enorme barriga como se fosse já um bebé, a minha mãe tem mil sonhos para mim. Todos os seus pensamentos são bons. Todos os seus sonhos são possíveis. Naquele instante de infinito, ela carrega no ventre uma explosão de energia prestes a acontecer. Uma nova pessoa, uma nova vida, como um novo universo pronto a eclodir. É sexta-feira, a última do mês de Setembro e o Outono leva de mansinho os últimos vestígios de Verão. Aos poucos, o Sol esmorece num céu muito azul salpicado de nuvens brancas. O meu pai está longe e é a minha avó que o chama, fazendo girar o dedo indicador por entre os números do velhinho telefone preto que está sobre a sapateira no hall de entrada: "Ela já foi para a maternidade". A frase atravessa quilómetros através da linha telefónica e chega ao ouvido do meu pai num tom de urgência, como um grito de aflição. Do outro lado, o meu pai é um homem nervoso, ainda de cabelo muito negro, ainda com cara de menino. Aos vinte e cinco anos vai ser pai pela primeira vez. E por mais que deseje aquele momento é impossível conter a ansiedade. A partir de agora é que vou ser um homem, pensa enquanto caminha apressado rumo à estação dos comboios. Na maternidade, a minha mãe aguarda. Espera pelas dores, espera pelo meu pai e espera ver-me pela primeira vez. Cada minuto parece conter todos os nove meses. Não se adivinha um parto fácil e acabo por ser sugada do interior da minha mãe por uma ventosa. Desperto para a vida já na madrugada de Sábado, 29 de Setembro. Não vejo a luz do dia porque ainda é noite escura. À uma e trinta e cinco da manhã a minha mãe está exausta e eu choro porque ainda não sei falar, porque ainda não aprendi a dizer: "Estou aqui mãe, já cheguei, estás feliz"? O seu sorriso lavado em lágrimas tem todas as respostas do mundo. Sim, ela está feliz porque acaba de realizar o sonho de uma vida. Agora já pode dizer: Sou mãe. A viagem nocturna do meu pai é feita de trezentos quilómetros de insónia. Solavanco após solavanco, pouca terra, pouca terra, mil pensamentos atravessam o seu olhar, ora de olhos fechados, ora de olhar fixo na paisagem de noite escura feita de sombras e raios de luz intermitentes. “É uma menina!”, anuncia a minha avó feliz à sua chegada. Dentro de um silêncio de olhar vidrado, o meu pai é finalmente um homem, um homem feliz. Manhã de Sábado, dia de Sol, Lisboa parece uma cidade coberta por um manto de felicidade. Os olhos escuros do meu pai reflectem e espalham alegria por toda a parte. Os mesmos olhos procuram uma loja de roupa para bebé. Os mesmos olhos encontram-na. É de uma pequena loja de uma grande avenida da capital que sai o meu primeiro vestido de menina, dentro de um saco que o meu pai transporta feliz. O vestido é branco, feito de malha à moda antiga, e tem riscas cor-de-rosa na zona do peito. O meu primeiro vestido tem também uma touca a condizer. O meu pai caminha na direcção da maternidade, com o saco na mão e comigo no pensamento. Antes de entrar, tira uma fotografia ao edifício. Quer eternizar o momento, expandir os horizontes da memória, contar a história do dia em que nasci. Estou deitada ao lado da minha mãe numa cama de ferro desgastada pelo tempo e pelo choro de milhares de bebés que por ali passaram antes de mim. Dizem que sou um bebé muito perfeitinho, de carinha muito redonda e muito rosadinha. O meu pai entra no quarto, beija a minha mãe e pousa os olhos em mim pela primeira vez como uma carícia.
O meu pai  e eu
Nesse preciso instante, dentro do quarto, eu sou o vértice de um harmonioso triângulo invisível que nos transforma de repente num só: agora somos uma família. Lá fora, o mundo não pára. A minha avó, mãe da minha mãe, secretamente deseja mas ainda não sabe que iremos ser muito amigas. O meu avô, que tem pavor de hospitais, está desapontado por eu não ser um rapaz e afoga os nervos com os amigos num café, enquanto espera ver-me em casa. O meu irmão ainda não existe e ninguém suspeita sequer que virá juntar-se a nós daqui a dois anos. Ninguém imagina que irá chamar-se Miguel, nome do santo padroeiro do dia em que nasci. Lá fora, o mundo não pára. Corre o ano de 1979 e Portugal é governado por uma mulher, a primeira e única até hoje: Maria de Lurdes Pintassilgo. Francisco Sá Carneiro já tem vontade, mas ainda não tem a certeza que será o senhor que se segue. Na televisão, o Papa João Paulo II ainda parece jovem e acena ao mundo dentro das suas vestes brancas. A madre Teresa de Calcutá, ainda é viva e receberá dentro de dias o prémio Nobel da Paz. E eu acabo de nascer e sou registada. Transformo-me numa pessoa. Cláudia Sofia é o meu nome. É o nome que nome que os meus pais em conjunto escolheram para mim, em homenagem a duas beldades italianas da época: Cláudia Cardinale e Sophia Loren. Espero estar à altura de tamanho tributo. Hoje, trinta e três anos depois, continuam ambas a ser muito belas. Hoje, como nunca antes, entendo o significado do passar dos anos: envelhecer é apenas saber apreciar cada vez melhor o tempo presente. Hoje, nesta data querida, em que as pessoas que me viram nascer ainda estão vivas e vão cantar-me os parabéns a você, dedico estas palavras a todas elas em geral e a uma em particular: Mãe, obrigada por me teres dado a vida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Noventa dias felizes

Volto à superfície com a urgência de uma golfada de ar. A minha cabeça irrompe da água numa aflição. Liberto a respiração, abrindo a boca e os olhos. Num gesto mecânico, passo as duas mãos pelos cabelos molhados, como se os pudesse pentear. Viro-me para terra e tudo o que vejo são restos de mais um Verão que passou: gente e mais gente, uma mancha de toalhas de todas as cores, chapéus e chapéus-de-sol que inundam um areal a perder de vista. O mesmo areal que daqui a dias não será mais que um deserto. Os grãos de areia vão sentir falta de tudo isto: dos corpos jovens, verdes, viçosos, como tenros rebentos, firmes troncos; dos corpos mais velhos, maduros, cheios de polpa, gelatinosos, desmazelados mas confiantes; dos idosos que, antes das nove, como se o mar fosse um patrão, como se o areal os aguardasse com a hora marcada de um emprego, já assentaram arraiais; das peles quentes, ardentes, suadas, salgadas, temperadas, implorando um beijo doce; saudades do aroma a creme de coco que se espalha pelo corpo e depois pelo ar, levado pelo vento suão; saudades do som metálico do desembrulhar das sandes que cheiram a manteiga e chourição; saudades da boca que fala cheia de pão e manteiga e chourição, conversas soltas, assuntos leves, histórias de Verão. Estou certa que os grãos de areia vão morrer de saudades das gargalhadas libertadas em inglês, francês e espanhol, que se cruzam e acabam por se entender numa linguagem universal; vão morrer de saudades dos gritinhos infantis que rebentam como ondas gigantes nos ouvidos de quem procura o silêncio nas páginas de um livro; saudades do estalido seco da bola, ora aqui, ora ali, agora nesta, depois na outra raquete; saudades do homem das bolinhas de Berlim e do seu célebre pregão; das avionetas que voam baixinho embandeirando faixas brancas que anunciam feiras e festas e concertos e muita animação; saudades dos pardais que saltitam de grão em grão, em busca de migalhas perdidas. Saudade, saudade, saudade, é tudo o que os grãos de areia vão sentir daqui em diante. Vão recordar que Junho passou apressado sem que ninguém se desse conta: abriu as portas, deixou o Verão entrar e foi-se embora dizendo “agora, só para o ano”. Vão lembrar-se mais de Julho que entrou deixando-se ficar; mais vaidoso, gosta de ser apreciado: abriu as hostes por entre os silêncios e sussurrou-lhes ao ouvido “é tempo de fruir”. Em Agosto, os grãos de areia já sabem: é quando tudo acontece. E depressa tudo acaba; numa rima inevitável, confirmam: é o mês do desgosto. Discreta e lentamente, a contra-gosto, fecham-se os chapéus-de-sol, secam-se os corpos e arrumam-se as toalhas. Para trás, milhares de pegadas na areia que aos poucos o mar vai apagar. Mas a memória dos grãos de areia, não vai com as ondas, permanece intacta. Se eu fosse um grão de areia, também morreria de saudades do Verão, ainda que morresse feliz: haverá melhor sítio para se morrer do que na praia?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Bela adormecida

Era uma noite de janelas abertas e muita falta de ar. Ela deambulava pela casa suspirante, sem rumo certo, ora pelo corredor, ora pelo quarto, ora pela sala, sem encontrar o poiso certo. Era como se lhe apetecesse algo que não tem nome, que não se entende, que não se pode explicar. Um lugar, um objecto, uma pessoa? Ou talvez nada. Ou talvez um pouco de tudo isso. Era como se tudo tivesse e ainda assim tudo lhe faltasse. Tinha talvez o essencial. Talvez lhe faltasse o acessório. Aquela, a tal, a peça fundamental para completar o puzzle tantas vezes imaginado em sonhos. Sonhos secretos. Ligou a TV. Percorreu todos os canais. E nada. Tentou a aparelhagem. Na rádio não conseguiu sintonizar-se com qualquer melodia. Pegou num livro. Folheou. Cheirou o rasto do restolhar das páginas. Desistiu antes de começar. Esquecia-se da segunda palavra antes de fixar os olhos na terceira. Toda a sua atenção estava desfocada por ideias desalinhadas que se entrecruzavam aleatoriamente. Na cabeça, milhares de pensamentos soltos sem rédea saltavam desarrumadas como papéis antigos que transbordam de gavetas escancaradas. A noite é boa conselheira. Decidiu por isso passear-se pela varanda de pele desnudada. Sob o olhar atento da Lua deixou-se contemplar à luz da noite escura pelos olhos perdidos de ninguém. Talvez ao longe, lá muito longe, alguém a espreitasse com um olhar parado e silencioso enfiado nuns binóculos. Um ponto no centro do universo, foi assim que subitamente se sentiu. Foi assim que se reencontrou. Inspirou a plenos pulmões o ar quente e denso da noite longa de Agosto, bocejou e percebeu que na verdade nada no mundo lhe fazia mais falta que uma bela noite de sono.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Tempo para viver

Um dia vendo o carro e a casa e mudo de vida. É só uma questão de coragem. Audácia para abdicar deste conforto que me paralisa os sentidos. Não sei o que é ter fome ou frio. A cama onde me deito não me faz doer os ossos. Tenho o armário cheio de roupa e ainda assim julgo ter tão pouco, quase nada para vestir. Os orientais é que têm razão: no ocidente passamos a vida a preparar-nos para a vida. Suportamos horas intermináveis de trabalhos infelizes porque temos um sonho. Porque temos muitos sonhos. E porque onde acaba um começa outro e todos se podem comprar. Há muito que deixámos de sonhar sonhos que não se vendem, que não há nas lojas, que não se podem trazer para casa por serem demasiado grandes, porque vivem na rua, lá fora onde deixámos de os procurar. Andamos todos tão distraídos com as nossas vidinhas fúteis, inúteis, comezinhas. Trabalhamos tanto para que nada nos falte que acaba por nos faltar o que mais falta nos faz: energia para desfrutar. Perdemos a vontade de acordar cedo só para ver o sol nascer. Já não nos lembramos de como é boa a sensação simples de enterrar os pés na areia fresca de uma praia ao amanhecer. Não temos tempo para repousar o corpo à sombra de uma árvore quando é isso que ele nos pede. Que vida é esta que nos faz tão infelizes? É a vida que escolhemos. É a vida a que nos habituámos. É a vida que queremos? Se não for, talvez haja uma saída. Se a vida é a viagem, não haverá só uma estrada. Vamos sempre a tempo de inverter a marcha e cortar caminho, escolher um outro atalho. Em vez da auto-estrada, segura, confortável, monótona, talvez nos calhe um mato por desbravar. Vamos correr riscos, encarar o perigo de frente, ter de deitar a cabeça sobre um ou outro calhau. Mas ao voltar a bater, o coração vai lembrar-nos que somos feitos de sangue, que nos corre nas veias. Que a energia que nos move é um combustível que, ao contrário dos outros, aqueles que se vendem nas bombas a preço de ouro, não custa dinheiro, não se compra nem se vende, procura-se e só assim o conseguiremos encontrar. As férias dão-me para isto. Tenho mais tempo para pensar. Por fim, encontro paz, uma paz feita de tempo, um tempo feito de liberdade, uma liberdade feita de tempo para viver.

domingo, 29 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 10

Eu não morri, por isso tornei-me mais forte. E, contrariando todos os médicos nos seus piores vaticínios, voltei a andar pelo meu próprio pé, pouco mais de um ano após o acidente. Também voltei a conduzir. Comprei um carro novo e afoitei-me logo à estrada, recusando-me prontamente a guardar qualquer espécie de trauma. Em vez de traumatizado, fiquei foi frustrado por tudo aquilo que deixei de poder fazer. Por inúmeras vezes, dei comigo a sonhar acordado: recordava aquele jovem atlético que corria na praia cortando o vento, que praticava judo derrubando astutamente o adversário, que podia dançar toda a noite nos bailes de Verão, que tinha duas pernas ágeis e saudáveis que o poderiam transportar velozmente mundo fora. Depois, olhava-me ao espelho e era apenas o reflexo de um homem sofrido a coxear rumo à velhice, apoiado por uma bota ortopédica compensada e uma muleta. FIM

terça-feira, 24 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 9

- Sr. Eusébio, é hoje o grande dia! Vamos lá pôr de pé e dar uns passinhos. Senti automaticamente um nervoso miudinho, medo e adrenalina misturados numa emoção que me atravessava o corpo. Era como se fosse aprender a dar os primeiros passos e não tivesse a certeza de ser capaz de o fazer. Com o apoio de um andarilho, consegui manter-me em pé. A força com que os meus braços agarravam o metal era tanta que todo o corpo parecia estremecer. O impulso que se seguiu fez-me dar um passo em frente. A família aplaudiu emocionada. Até os olhos do fisioterapeuta deixaram transparecer uma emoção feita de vitória. Aquele foi o primeiro passo do resto da minha vida. Não tardei em poder descer o elevador para ir tomar o café à rua. Já não suportava a bica fria que me traziam diariamente tapada com o pires. A tentativa era boa, mas não resultava. O café estava invariavelmente frio quando me tocava os lábios. Sentava-me perto do balcão e conseguia automaticamente perceber surpresa e curiosidade nos olhares que me fitavam de alto a baixo. - Olha o coxo! – Saiu-se uma vez um amigo, assim que me viu, pensando estar a utilizar um adjectivo carinhosamente brincalhão. Aquele “coxo” teve o sabor metálico de uma espada que se alojou no peito. Ainda assim, sorri, como faço sempre que não me apetece responder a quente e dizer a primeira asneira que me vem à cabeça. Há muito que me habituara a sorrir sempre que me apetecia chorar. A minha mulher só teve coragem de me mostrar as fotografias do carro quase um ano depois. Tinham sido tiradas no dia em que acompanhou a peritagem da seguradora realizada na sucata. Naquele cemitério de carros havia vestígios de morte, destroços de vidas interrompidas por toda a parte. Tive dificuldade em reconhecer naquela lata branca amolgada algo que me fizesse lembrar o meu carro. Fiquei absorto em cada detalhe revelado em cada uma das fotografias. A minha filha, que também tinha estado presente naquela ida à sucata, enumerou os objectos que ainda conseguiu salvar do interior da viatura: uma moeda de cem escudos e uma caneta de estimação que eu carregava sempre dentro do bolso da camisa. Tal como há um ano atrás, a mãe repreendeu-a por considerar um perfeito disparate querer preservar recordações de um acontecimento tão trágico. Mas a menina, teimosa, levou a sua avante e guardou numa caixinha secreta aqueles seus tesouros. Maria acreditava que devemos acarinhar tudo o que nos acontece na vida: os bons e os maus momentos são os responsáveis por aquilo em que nos tornamos, daí que mereçam todos, sem excepção, ser lembrados.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 8

Regressei a casa já num novo ano. Como a maca convencional não cabia no elevador, tive que ser transportado a ombros pelos bombeiros numa maca móvel feita de pano. Quando chegaram ao sexto andar, os dois homens estavam extenuados e eu contorcia-me com dores. A proximidade da minha cama parecia uma miragem. Quando por fim me instalaram numa posição confortável, senti-me aliviado. Aquele quarto passou a ser todo o meu mundo durante os meses que se seguiram. O cheiro a feridas ainda em sangue foi-se entranhando, primeiro na roupa, depois nos móveis, por fim um pouco por toda a casa, até ser aceite por toda a família como normal. Eu era um acamado, palavra horrível para quem diz, pior ainda para quem sente. Sempre me intrigou como seria a vida sexual de um paraplégico. Infelizmente, não tardei em tornar-me especialista na matéria. Eu e a minha mulher tentámos retomar o contacto físico, logo que as dores no corpo se tornaram suportáveis. Ela estava bem mais hesitante que eu. Temia que qualquer movimento mal calculado me pudesse aleijar. Eu parecia um Cristo, todo em chagas, mas estava ansioso por perceber se não tinha perdido todas as minhas capacidades. Ela ficava sempre por cima e esforçava-se o mais que podia, mas não havia nada de natural naquele acto. Ainda assim, eu tinha sempre prazer. Ela só muito raramente. Sei que só o fazia naquelas circunstâncias porque me amava de verdade. E era mesmo isso que eu queria que ela me provasse: que continuava a gostar de mim, apesar do que me tinha acontecido. Aproveitávamos as folgas de sexta ou sábado à noite, quando os nossos filhos adolescentes descobriam os encantos da vida nocturna, o efeito anestesiante do álcool e o entusiasmo dos primeiros amores. Naqueles momentos em que tentava voltar a sentir-me vivo, tinha uma inveja imensa dos meus filhos, donos da juventude e do vigor, locais longínquos aonde eu jamais poderia regressar. Passaram mais de seis meses até que voltasse a conseguir pôr-me de pé. Foi uma longa caminhada feita de sessões caseiras de fisioterapia. Primeiro, na cama, comecei com movimentos simples, como tentar mexer os dedos dos pés. Mais tarde, o fisioterapeuta instalou, a partir do tecto, uma espécie de roldana com uma corda, que me permitia elevar à vez cada uma das pernas. A falta de estímulos musculares fez com que as minhas pernas atrofiassem. No dia em que reaprendi a andar, a minha família ficou boquiaberta ao notar a fraqueza das minhas pernas. Pareciam as de um miúdo subnutrido do continente africano. Algum tempo antes, comecei a fazer progressos. Já conseguia permanecer sentado e com o apoio de uma cadeira de rodas pude voltar a circular pela casa. Com muitas limitações, é certo. Num apartamento minúsculo, as portas tiveram que ser removidas afim de eu poder passar. Ainda assim, era maravilhoso sair do quarto, ainda que fosse apenas para chegar perto da janela, espreitar o dia e voltar para trás. Foi numa manhã de Verão que o fisioterapeuta chegou acalorado anunciando a boa-nova.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 7

Depois, rezava. Ao contrário de mim, ela tinha uma fé inabalável. Sucumbia ao cansaço e acabava por adormecer, sempre de luz acesa, confidenciou-me mais tarde. Só quando deixei de correr perigo de vida é que fui transferido para o hospital da minha área de residência. No hospital de Faro, os meus filhos aguardavam, ansiosos, o nosso reencontro. Uma visita de cada vez, primeiro entrou a minha mulher, depois o meu filho e, por fim, a minha filha. Foi ela a única capaz de me contar mais tarde o que sentiu ao ver-me naquele estado. Disse-me que estava desfigurado, meio amarelado e fez-lhe imensa confusão ver-me sem óculos e sem dentes. Até a placa que eu usava na altura ficou danificada devido ao acidente. Segundo me disse, como não conseguia falar muito, fiz-lhe festas na mão que ela apoiara sobre a cama. E ficámos ali, escassos minutos, somente a contemplar o olhar um do outro, como se em silêncio fossemos capazes de dizer todo o amor que sentíamos. Os dias pareciam anos e a esse mesmo ritmo eu ia melhorando. O ciclo da vida continuava todos os dias do lado de fora da janela do hospital. E sem que me desse conta da azáfama habitual, chegou a noite de Natal. Reunidos num quarto de hospital, não houve festa nem trocámos presentes, mas estávamos ali os quatro, unidos, todos vivos. E apesar da tristeza, que se impunha como uma cortina no lugar onde nos encontrávamos, sei que naquela noite todos reconsiderámos a importância de estar em família nas épocas festivas. Sem o brilho da árvore a cintilar, sem a mesa repleta de iguarias, sem amontoados de fitas coloridas e papel de embrulho, brindámos ao Natal com sorrisos sinceros e votos renovados de esperança num amanhã melhor. Quando comecei a poder receber outras visitas, as tardes passavam mais depressa. Pessoas de quem eu já nem me lembrava foram aparecendo. Gostava de ser acarinhado, mas questionava-me muitas vezes sobre o sentimento que movia toda aquela gente até ali. Muitas daquelas pessoas nunca tiveram disponibilidade para uma visita de cortesia durante todo o tempo em que estava feliz, ágil, enérgico, cheio de vontade de conversar com alguém. No entanto, assim que algo de ruim me aconteceu, acorreram rapidamente, como se tivessem medo que me fosse embora de vez sem me despedir.

sábado, 14 de julho de 2012

Conto "Choque frontal" - página 6

Entretanto, os dias no hospital passavam com um vagar pintado de infância. Sem as habituais obrigações, horários, prazos e tarefas urgentes por cumprir, consegui aperceber-me de que todos os dias têm efectivamente vinte e quatro horas, suave e lentamente contadas pelo ponteiro dos segundos que pacientemente se arrasta aos tremeliques, milhares de vezes ao longo do dia, contornando em movimentos circulares todos os números e tracinhos desenhados no relógio. As rotinas eram fixadas pela sequência de rituais que se sucediam dia após dia, após dia. Logo pela manhã, o aproximar de um tilintar metálico proveniente do corredor anunciava a chegada do pequeno-almoço. Um copo de leite morno e uma carcaça com manteiga, um menu que se repetia a meio da tarde, à hora do lanche. Quando voltei a ter apetite, estas eram as minhas refeições preferidas. Se me fosse permitido, abdicaria do almoço e do jantar, compostos habitualmente por um caldo deslavado a que chamavam sopa e um prato de carne ou peixe completamente insípidos. Estava totalmente dependente dos outros para sobreviver. Eram os enfermeiros que me levavam a comida à boca, eram também eles que diariamente me faziam a higiene. Ficava sempre constrangido cada vez que cabia a uma mulher a incumbência de me lavar as partes íntimas. Durante muito tempo usei uma algália. Sem que sentisse sequer a vontade, a urina saia-me da bexiga directamente para um saquinho que era trocado uma ou duas vezes ao dia. A saída das fezes era mais trabalhosa. Tinha que pedir a arrastadeira, uma espécie de penico que, mesmo deitado, me colocavam de amparo ao ânus. Depois, quando terminava, alguém me removia a vasilha. Era capaz de sentir o odor quente que permanecia em meu redor durante breves instantes. Era capaz de perceber sintomas de agonia no rosto de quem iria transportar os meus dejectos nauseabundos até ao destino final. Com o tempo, habituei-me. Até que tudo começou a parecer-me normal, até ao ponto de quase me conseguir esquecer de como era tudo antes de ter passado a ser assim. As noites no hospital eram longas. A partir das nove instalava-se um silêncio com rasto de solidão. Como passava grande parte do dia a dormitar, devido aos sedativos que tomava para as dores, à noite tinha dificuldade em conciliar o sono. Era então que pensava na minha mulher e sentia por ela algo que não me lembrava de sentir há muito tempo: saudades. Lá longe, na nossa casa, no nosso quarto, na cama de onde me levantei naquela fatídica manhã, conseguia imaginá-la a tentar adormecer. Sozinha e triste, agarrada à minha almofada a descarregar toda a dor sob a forma de lágrimas.