O QUE ANDO A PUBLICAR

terça-feira, 19 de março de 2013

Dia do (Santo) Pai


Quando fui a Roma não vi o Papa. Ardiam os primeiros dias de Agosto e Sua Santidade havia-se retirado para a residência de férias em Castel Gandolfo, um pequeno paraíso rural nas margens do Lago Albano, a meia hora da capital. Foi lá que se deixou avistar, numa celebração dominical do Angelus. O recém-chegado Papa pouco tinha de novo. Bento XVI, um septuagenário, por todos era visto como “um Papa de transição”. Um Santo Padre alemão, de ar grave e austero, somava simpatias sempre que derramava a voz sobre os fiéis. Num tom de veludo, um italiano esforçado derrubava o alemão entranhado nas cordas vocais e espalhava-se pela multidão como um bálsamo. Os instantes que antecedem o momento de avistar o Papa são de grande emoção, mesmo para um não crente. Há algo de paternal naquela figura branca de braços erguidos ao céu. Até o ateu mais convicto aceita a bênção papal com a maior paz de espírito. As mensagens de fé renovam esperanças e devolvem tranquilidade aos espíritos mais inquietos. São minutos de um calor humano quase etéreo, a multidão de olhos fixos no mesmo ponto, de ouvidos a aspirar as mesmas palavras carregadas de bem-querer. Com a força de um vírus, há uma energia que não se vê nem se explica mas que contagia sempre toda a massa humana em redor. Quatro meses antes, nos primeiros dias de Abril de 2005, num inusitado início de Primavera triste, o mundo chorava a morte de João Paulo II. O Papa que conhecera toda a minha vida como o único, nunca mais iria aparecer na televisão. Guiada pelo histerismo mediático criado em redor, deixei-me contaminar pela tristeza da saudade imediata de quem perde um ente querido. “Morreu João Paulo II”, anunciou o jornalista. E, no instante seguinte, no meu peito despontou uma dor fininha, a garganta apertou-se de nós e os olhos inundaram-se de comoção. Oito anos depois, a chaminé do Vaticano voltou a cuspir fumo. “É branco”, gritavam vozes eufóricas em várias línguas na ansiedade de conhecer um rosto. O resignado Bento XVI, remeteu-se ao retiro espiritual, deixando o lugar vago a um novo nome, a uma nova voz. O novo comandante da igreja católica estava eleito e em breve iria acenar da famosa janela da basílica de São Pedro. “Habemos Papam” precede o anúncio de Francisco, que surpreende tanto pelo nome como pela origem. Sorridente, o Papa jesuíta que veio da Argentina diz que o foram buscar “ao fim do mundo”. A multidão rejubila, numa empatia imediata e feliz. Hoje, 19 de Março de 2013, a data da entronização do novo Papa Francisco coincide com a celebração do dia do pai. A ele, que não sendo pai de ninguém pode sentir-se pai de todos, os votos de um pontificado norteado pelos valores basilares da paternidade, num tempo em que esta humanidade órfã, onde me incluo, bem está carente do aconchego de um Santo Pai.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Irmãs de sangue


Quem nos visse juntas julgava-nos irmãs. A mesma estatura, os mesmos cabelos longos, o mesmo estilo de vestir, Levi’s e All Star de todas as cores, os mesmos ideais. Sonhávamos ser arquitectas e estudávamos para isso. Noites e noites em claro, a mesa coberta de folhas A3, lápis de várias durezas a rolar sobre o papel, borrachas brancas, réguas, esquadros e compassos misturados, os teus e os meus. Toda a geometria descritiva começava numa linha de terra de onde sabíamos fazer crescer polígonos. Régua e esquadro alinhados, lápis bem afiados, um ponto que se ligava a outro multiplicando a magia traço a traço. A cada exercício perfeito, esboçávamos sorrisos tão imaculados quanto as folhas limpas de borrões. Ouvíamos músicas calmas e nos intervalos desabafávamos os desamores. Lembras-te daquele meu primeiro amor que se apaixonou por ti enquanto tu não conseguias esquecer aquele rapaz que namorava com a miúda mais gira da escola? Porque é que os amores andam sempre tão desencontrados, perguntávamos uma à outra como se alguma de nós pudesse saber a resposta. A vida é mesmo assim, começámos a aprender naquele tempo em que tínhamos dezasseis anos. Ainda acreditávamos que podíamos ser tudo o que quiséssemos e que nada nem ninguém nos poderia travar. Acreditávamos tanto nos sonhos como na nossa amizade que julgávamos eterna. Um dia, chegámos a idealizar um pacto de sangue. Uma agulha, os nossos dedos picados a pingar gotas vermelhas, as nossas impressões digitais a carimbar um documento que garantisse a eternidade do que sentíamos uma pela outra. Aconteça o que acontecer, nunca nos iremos separar, prometíamos repetidamente. E sempre que ouvíamos os adultos contar histórias de amigos perdidos no tempo, jurávamos que isso nunca nos iria suceder. Julgávamo-nos abençoadas, amigas para sempre, só a morte teria coragem de nos apartar. Enganámo-nos. A vida enganou-nos. Trocou-nos as voltas e empurrou-nos para caminhos tão distantes e opostos que se viram incapazes de se cruzar. Não chegaste a ser arquitecta. Eu também não. Os nossos sonhos maiores desmoronaram-se como castelos de cartas ao menor sopro de vento. As casas que idealizávamos construir hoje são ruínas que ninguém quer ver. De volta ao ponto de partida, na cidade onde há muitos anos brincámos pela primeira vez, no primeiro dia da escola primária, espero por ti. Os meus olhos adultos aguardam rever o teu rosto de menina num corpo de mulher. Quando esse momento chegar, teremos trocado um punhado de juventude por dois de sabedoria. A máquina do tempo será capaz de nos fazer regressar ao passado, àquele ponto de charneira onde nos voltámos de costas para seguir em frente. Quem sabe agora voltemos a ser capazes de traçar uma linha paralela, como nos velhos tempos, uma espécie de corrimão que possa guiar-nos para prosseguirmos viagem, desta vez lado a lado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Eterno até ao fim


Tarde demais. Sobravam-lhe algumas horas ou poucos minutos talvez. Ninguém sabia ao certo quanto tempo lhe restava. Nos seus olhos, dois pontos de luz, cintilava ainda uma esperança vaga e fosca em sabe-se lá o quê. Quando aquele vulto amado atravessou a porta do quarto, ela reconheceu-o logo. Por instantes, a consciência dopada em delírio voltou a si, capaz de arrancar de um rosto moribundo um último sorriso triste. Ela sabia que era chegada a hora de dizer adeus. Não era um final feliz, porque os finais nunca podem ser felizes quando alguém parte de vez. Queria ser capaz de falar. Se o conseguisse, dir-lhe-ia adeus meu amor. Mas as palavras morrem muito antes de o coração parar de bater. Ficam presas na garganta e ajudam o travar da respiração. A mão viva sobre a mão morta devolve-lhe um pensamento quente: a memória de um instante feliz. Voltar a ver aqueles olhos e sentir de novo o coração a bater, tambor descompassado, na ilusão de poder renascer. A respiração sôfrega de quem precisa de um beijo urgente e um lamento infinito: tenho de ir com vontade de ficar. Nunca soube bem se vi em ti desgraça ou sorte. Sei apenas o que senti. Uma vontade galopante de mais e mais. Hoje só queria mais tempo, mais uma noite ou apenas uma tarde daquelas em que esquecíamos o mundo debaixo dos lençóis. O meu rosto no teu peito, o cheiro a nós colado à pele e depois entranhado nas almofadas dias e dias sem fim. Os teus olhos, amor, dizem-me o que não quero ouvir. Não temos mais tempo. Não haverá mais tardes nem noites nem madrugadas. Amanhã serei nada e tu apenas silêncio vagueando pelas memórias do que fomos. Um dia fomos nós. Vidas entrelaçadas como as nossas mãos agora. Está na hora. Agora vai. Aproveita que ainda podes ser feliz. Esgota o teu tempo com sensações boas. Procura sempre a emoção. Não chores por mim, não aqui, não agora. Podes fazê-lo mais tarde, se quiseres, quando eu já não estiver a ver.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Faz acontecer

Aqui, onde tudo parece feito de gelo, os dias arrastam-se vagarosos, como se não quisessem passar. No fundo, eles até têm pressa, mas correr cansa e os dias não estão para isso. Preferem rastejar como cobras que, sem hora marcada, um dia chegarão ao destino. Cada dia a mais é um dia a menos. Numa folha branca colada na parede, vêem-se pauzinhos riscados, de cinco em cinco, como os desenhados por um presidiário que conta os dias que faltam para a liberdade. Acordar e esperar. Trabalhar e esperar. Voltar e esperar. E ver a noite chegar, entrando pela janela, cada vez mais escura e fria, como uma punição. E antes que o dia volte a nascer, claro e quente, o desespero bate à porta e alguém o convida a entrar. Silencioso, ninguém dá por ele. Fica sentado no sofá, como um fiel cão de guarda que sabe lamber a ferida aberta que dói e faz chorar. A música que toca é sempre a mesma. A letra de cada canção conta uma história que não é a nossa, mas podia ser. Um cantor espanhol grita palavras bonitas num ritmo cigano. E tu, e tu aí. E eu, e eu aqui, tão longe e tão perto de ti. Há um livro abandonado a um canto faz dias. No seu silêncio de objecto consegue ouvir o pensamento de quem não o lê. Ideias cruzadas à velocidade da luz geram curto-circuitos mentais. O cinzeiro reclama de sujo. Cada cigarro, esmagado com a fúria com que se mata um insecto, depois de apagado não incomoda mais. Tantos canais e nada para ver. A televisão é só um conjunto de vozes que enche a casa, num cochicho que faz companhia. As ideias não fluem mais entre quatro paredes. Neste lugar claustrofóbico chamado casa, não há mais espaço para a falta de soluções. Basta! Não aguento mais. Amanhã vou entrar em acção.

domingo, 27 de janeiro de 2013

As mães nunca morrem


Dormes. Dentro do quarto, só o silêncio quebrado pela tua respiração. Entro a pés descalços e sento-me a teu lado. Ver-te dormir devolve-me a paz. Queria ter poderes mágicos para eternizar este momento. Gostava que fosses para sempre menina e eu para sempre jovem, para poder estar sempre a teu lado. Imaginar que um dia este encontro vai deixar de ser possível é a base de um desassossego que me consome. Inspiro a doçura do teu rosto, pedaço de mim. E, nesse instante, na escuridão dos meus olhos fechados, há universos que se abrem até ao infinito. Voamos juntas de mãos dadas e somos imortais. No meu sonho somos felizes na alegre ilusão de que o nosso tempo não irá passar, que este tempo alegre da tua infância e da minha juventude não irá acabar nunca. Não falo em morte. Não gosto de falar do que não conheço. E tu não irias entender o que é. Para nós, aqui e agora, tudo é vida, alegria feita de mimos e gargalhadas que nos fazem sentir bem. Porém, na inocência dos teus quase cinco anos, já pairam fantasmas vindos não sei de onde, nem sei porquê. Hoje, ainda há pouco, quando estavas acordada, paraste junto a mim e a tua mão pequena procurou o meu cabelo. Querias descobrir cabelos brancos. Mas não os encontraste. Aliviada, garantiste que eu nunca iria morrer. As pessoas de cabelos brancos é que vão morrer, afirmaste. Tu não tens cabelos brancos, não vais morrer, continuaste. As mamãs nunca morrem. Vais ficar comigo para sempre. Detive-me silenciosa e imóvel diante da tua certeza. Sem saber o que responder, cheguei a acreditar nas tuas palavras. Ainda em silêncio, jurei guardar um segredo: nunca saberás que pinto os cabelos, que escondo os cabelos brancos com tinta de outras cores. Que me disfarço de jovem todos os dias, para continuar a ser a mamã que os teus olhos de bebé viram ao nascer. Ser mãe é saber disfarçar. É fingir que está tudo bem mesmo que o mundo esteja para acabar. Uma mãe é como uma mão aberta, sempre pronta a dar. Mão e mãe podiam ser palavras gémeas. Há sempre uma mão que se agiganta por onde passa uma mãe. Há sempre um toque mais suave, uma cabeça em busca de afago, dois braços que se estendem na disponibilidade de um colo. Agora que continuas a dormir como uma anjo, penso com calma na resposta que amanhã te darei. Sim minha filha, é verdade, as mães nunca morrem. Cada mãe é infinita e, como um pedaço de véu, irá pairar para sempre sobre os filhos, cobrindo-os, protegendo-os e aconchegando-os, onde quer que vão.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dá-me a tua mão


Não quero juras, nem promessas sequer. Só saberemos se foi para sempre quando chegarmos ao fim do caminho e a minha mão for a última que largares. Para já, apenas sente. Fecha os olhos e coloca as tuas mãos sobre as minhas mãos abertas. O calor da minha pele será o calor da tua pele convertido no arrepio que nos atravessa o corpo por dentro. Muitas vezes terás dúvidas se o ar que respiras é o teu ou meu. Cada vez que inspirares, serei todo o oxigénio de que precisas para viver. Quando voltarmos a abrir os olhos, estaremos diante um do outro. A distância que nos separa será cada vez mais curta. Entraremos no pensamento um do outro apenas com o olhar. E veremos estrelas, mesmo que seja dia. E veremos o sol, mesmo que seja noite. E haverá flores por toda a parte, mesmo que estejamos no deserto. E o céu será sempre azul, mesmo que uma tempestade desabe sobre nós. E não teremos fome, nem sono, nem frio, porque estaremos perdidos no tempo. Todos os relógios do mundo vão parar em simultâneo. E nós, diante um do outro, seremos os últimos habitantes de um planeta vazio. Parados num espaço sem tempo, viajaremos juntos de mãos dadas até ao infinito. Irás perguntar-me o que estou a sentir, mas não terei resposta para te dar. Qualquer palavra seria menor e não quero reduzir o que sinto. Abraças-me e fico sem saber se o coração que bate acelerado é o teu ou o meu. O que importa é o ritmo. Olho-te. Olhas-me. Somos um espelho diante de um espelho. Só teremos olhos um para o outro e tudo o que veremos parecerá perfeito. Serás a coisa mais linda. Serei a coisa mais linda. Seremos tudo o que temos e o que sonhamos ter. Não desejaremos mudar uma vírgula à história do dia em que nos conhecemos. Daqui em diante, o caminho parecerá mais direito, o futuro parecerá mais perto, a vida voltará a fazer sentido porque tu estarás aí e eu estarei aqui e seremos sempre a primeira pessoa de quem nos vamos lembrar ao adormecer e ao acordar.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Primeiro de Janeiro

Estejas onde estiveres, assistirás aos mesmos rituais. Ao vivo ou através da televisão, um coro de vozes em contagem decrescente, descerá uma escadaria imaginária que separa o número dez do zero. Nesse preciso instante, será meia-noite. Doze badaladas de um relógio qualquer vão anunciar ao mundo que está prestes a começar a primeira hora do primeiro dia do primeiro mês de um novo ano. Alguém terá uma garrafa na mão e não tardará uma rolha de cortiça libertar-se-á num estalido seco atravessando o ar sem que ninguém saiba onde vai parar. Rostos subitamente iluminados por uma felicidade sem razão exclamarão vivas e trocarão beijos e abraços e votos de dias felizes, por entre goles de espumante ou champanhe. Os flutes preenchidos pelo líquido dourado e borbulhante elevar-se-ão várias vezes, tilintando uns nos outros em múltiplos brindes de braços entrecruzados. Sentirás na boca um gosto amargo que aos poucos será mais doce e mais doce e mais doce e caminharás rumo a um ponto onde possas avistar a noite. Ao longe, uma faixa de céu a estalar em pontos de luz coloridos será uma festa para os teus olhos. Ao mesmo tempo, buzinas, sirenes, risos e gritos misturar-se-ão no ar até se desfazerem em cacos como os copos de vidro que alguém irá atirar de um janela. Haverá uma corrente de alegria capaz de atravessar toda a gente, por um minuto que seja. O minuto vazio que antecede todos os pensamentos. Quando a euforia começar a esmorecer, serás atravessado pelas memórias. Recordarás o ano que passou numa sequência alucinante de imagens e lembrar-te-ás mesmo do que já julgavas ter esquecido. Mesmo que estejas rodeado de gente, sentirás uma súbita solidão e saudades quem já não está. Sentirás falta de quem está longe e não podes abraçar e nesse instante terás o impulso de procurar um telefone e marcar um número para ouvir a voz daquela pessoa especial. Depois de risos e beijos e lágrimas, nascerão os desejos. É preciso voltar a acreditar que o amor é possível. É preciso voltar a acreditar que de hoje em diante serás capaz de passar mais tempo a fazer o que mais gostas. É preciso voltar a acreditar que poderás passar mais tempo ao lado que quem é mais importante para ti. É preciso voltar a acreditar que a vida ainda te pode surpreender e levar por caminhos desconhecidos rumo ao que sempre procuraste. Se te deixares levar, se te entregares à vida, se tiveres coragem para dar largas à imaginação, podes ter a certeza que a vida te conduzirá a um novo ponto de partida. Ainda que não possas nascer de novo, podes sempre sonhar e acreditar que hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O regresso da mana Bia

Já não me lembro do dia em que partiste para o Brasil. Tinha eu quinze anos. Entretanto, passou toda uma vida. Tenho uma vaga ideia, memórias soltas, esfumadas pelo esquecimento que a passagem dos anos nos vai impondo. Agora que tenho vagar, não são poucas as vezes que me sento, a velha caixa de sapatos sobre o colo, as mãos enrugadas folheando memórias como se fossem restos de ti, sobras da vida que não vivemos juntas. Eu cá, tu lá. Eu em Portugal. Tu no Brasil. Entre nós um Oceano de saudade. Casei-me pouco depois da tua partida. A nossa mãe, viúva, convenceu-me de que seria o melhor para mim. Até hoje, mana, duvido que as mães tenham sempre razão naquilo que dizem. Mas, ao menos, não fiquei desamparada como receava a nossa mãe. Até hoje, tenho ao meu lado um homem que me preenche os dias. Ainda que quase só de arrelias. Fomos sabendo uma da outra por carta. Era uma euforia sempre que abria a caixa do correio e via aquele envelope branco, riscado a azul e vermelho no rebordo, marcado a carimbo “via aérea”. Primeiro, os filhos foram casando. Depois, os netos foram chegando. E tu, minha irmã, ias envelhecendo a cada fotografia. E a cada carta trocada ia-se desvanecendo a esperança de um reencontro possível. Recordo ainda hoje o desgosto da nossa mãe que fechou os olhos para sempre sem nunca mais te ver. Foi como se tivesses morrido aos quarenta anos e nós tivéssemos tido que carregar uma vida inteira o luto de uma partida prematura. Durante o longo mês que demorou a viagem de navio, sonhavas com o el dourado, encontravas na esperança de uma vida melhor o conforto possível. Nas tuas preces silenciosas à luz do luar, agradecias ter encontrado uma fuga para os teus filhos, que escaparam por um fio a um destino inevitável: a guerra colonial. Sem ouvir sequer a tua voz, passei a década de cinquenta, passei toda a década de sessenta. Nessa época, emigrei também. Aprendi francês na casa de senhores onde servia. Eu, que nem a quarta classe tinha, falava estrangeiro, sabia pedir na língua deles o pão e a fruta e a carne no supermercado. Quando consegui juntar dinheiro para uma casa, regressei a Portugal. E de ti, nada. A vida não melhorava como tinhas esperado, conforme tinhas desejado. Não sobrava nada que chegasse para voltar. Na década de setenta, já na casa nova, pudemos voltar a ouvir-nos. Do outro lado da linha, nos Natais, Páscoas e aniversários, surgias com uma nova voz, num tom adocicado perguntavas à nossa mãe: “como vai a senhóra?”. Ó mana, não existe outra palavra: que saudades me deixaste. As águas que te levaram nunca mais te trouxeram. Largaste o teu corpo noutro país. Deixaste-te enterrar noutro chão, noutra terra, que te acolheu nunca sendo tua. A morte corta o cordão umbilical que nos amarra à vida. Quando partiste, há já uns anos, a nossa conexão foi interrompida. O pouco que ia sabendo de ti, tornou-se cada vez menos, até ser nada. Há dias, o futuro devolveu-nos o passado. Num milagre tecnológico, de repente, a minha neta encontrou os teus netos e começaram logo a falar online. Sabes o que é isso, mana? Não deves saber. Não é do teu tempo. Mas o melhor ainda está por vir. O sangue do teu sangue vem a caminho. Regressas com o nome de Alberto, o mesmo que deste ao teu filho e que hoje é o teu neto.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A noite de toda a vida

Havia dias que não trocavam uma só palavra. Comunicavam por gestos, monossílabos quase imperceptíveis, fazendo um enorme esforço para que nem os olhares se cruzassem. Estavam desavindos, de sentimentos às avessas, magoados por excessos de palavras que nunca deveriam ter dito. Depois de tantas e tantas discussões, reinava entre eles um silêncio de morte, um vácuo que encerrava uma dor profunda. Quando voltavam as costas, cada um para seu lado, não eram capazes de conter o choro. Um aperto no peito parecia ser capaz de espremer o coração que pouco a pouco se dissolvia em água. Nem um, nem outro avistavam futuro para além do dia de amanhã. Apesar de não o desejar de forma alguma, cada um à sua maneira estava certo que tudo o que um dia os unira teria chegado ao fim. E a sensação de nunca mais era insuportável. Nunca mais te vou beijar. Nunca mais te vou sentir. Nunca mais vou poder acreditar que haja o que houver ficaremos juntos para sempre. Nunca mais… Ambos estavam longe de imaginar que muito em breve teriam de viajar juntos. O trabalho era já o único laço que os unia. Dever é dever, por isso partiram, em silêncio, lado a lado. Enquanto os corpos se elevavam, o solo ia ficando para trás, cada vez mais lá em baixo, casas e pessoas, miniaturas mil, iam perdendo a cor e a forma até não serem mais que uma mancha, contornos de um mapa sem legenda. Aterraram num país distante após duas horas de cerrado silêncio. Podiam ouvir e sentir a respiração quente um do outro e isso era incómodo. Tal como a presença do cheiro. Tinham descoberto que se amavam quando perceberam que não podiam passar sem o odor um do outro. Era uma espécie de droga, um vício insaciável que os consumia, que obrigava os corpos a consumir-se. Mal tiveram tempo para parar no hotel. Havia reuniões marcadas e nos negócios nunca há tempo a perder. Tempo perdido é dinheiro perdido. E o trabalho ajuda sempre a esquecer os males de amor. Quanto pior se sentiam, mais entusiasmo eram capazes de projectar nos objectivos profissionais que os moviam e que tanto gozo lhes davam. Ela gostava de o ouvir falar inglês na perfeição. Fitava-o com um misto de atenção e orgulho nas suas exibições públicas. Era um homem muito inteligente e admirava-o por isso. Já tinha aprendido muito com ele e isso nunca havia de esquecer. Ele fixava-se na beleza dela. Costumava dizer-lhe ao ouvido que era a mulher mais bela que alguma vez vira. Disfarçava bem, mas sempre que outro homem se aproximava com sorrisos ou algum gesto mais próximo, de embevecido passava subitamente a enraivecido. Não suportava vê-la demasiado perto de outro alguém. Chegou a noite e depois do jantar cada um rumou ao seu quarto. Lado a lado, os quartos de hotel tocavam-se no limite das paredes. Cada um imaginava o que o outro estaria a fazer. Ele ligava logo a televisão. Ela gostava de se refrescar, acarinhar-se de cremes e cheiros bons, antes de se enfiar na cama. Vou apagar a luz, pensava ela desejando ouvir bater na porta. Preciso dela, pensava ele, enquanto ganhava coragem para sair do quarto. E ele acabou por bater à porta. E ela acabou por abrir. Sem hesitar. E antes que pudessem trocar uma só palavra, as bocas colaram-se e calaram-se num beijo que durou um momento sem fim. Respiravam-se, transpiravam-se, corpo com corpo, pele com pele, numa atracção quase fatal. Na penumbra do quarto, eram duas sombras que se moviam a contra-luz. Tacteavam os contornos um do outro, como se pudessem ter um dom que fosse capaz de fixar aquela memória visual na ponta dos dedos, que em vez de efémera pudesse ser eterna, que pudesse perdurar para além dos limites da memória. Amo-te, pensou ela, sem ser capaz de o dizer. Amo-te, afirmou ele corajoso, certo de que o silêncio dela confirmava o que não precisava ouvir. No mês seguinte, as regras não se cumpriram. Nove luas depois um milagre havia de suceder.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

As intermitências do sentir

Os sentimentos são como as ondas do mar. Por vezes recuam, partem, libertam-se de nós e vão com vontade própria, como se nunca nos tivessem pertencido. E voltam, quando já não os esperávamos, quando já não tínhamos lugar reservado para eles. Tal como uma onda forte, rebentam sobre nós num turbilhão, podendo até derrubar-nos. Depois, voltam atrás e regressam já mais suaves, como uma carícia de espuma que apenas cobre a pele ao de leve. Há dias em que o mar está chão. Nesses dias reencontramos a paz, a doce tranquilidade de não sentir. No dia seguinte, sem aviso nem previsão possível, um marmoto. Ondas gigantes de sentimentos que nos abalam como um sismo, que fazem estremecer os pilares da nossa existência. Amar como uma onda que vai e vem, numa valsa sensual de areia e água, elementos apaixonados que se misturam mas não se podem dissolver, acabando por separar-se sempre. Os sentimentos são como as ondas do mar. Nascem de parte incerta, das profundezas de um oceano qualquer, de um ponto invisível de um horizonte longínquo. Sem regra ou rumo ou sorte definida, crescem a toda a fúria, erguem-se a ritmos destemidos e acabam por desfalecer miseráveis, esquecidos do seu real propósito, significado ou razão.

sábado, 20 de outubro de 2012

Utopia

Há uma definição que ouvi há dias que não me sai da cabeça. Alguém terá dito que a utopia é como um horizonte: damos dez passos e ela afasta-se, damos mais dez, tentando aproximarmo-nos, e ela volta a afastar-se. É como um jogo do “toca e foge”, que nunca terá fim. Tal como o horizonte, a utopia é uma linha imaginária que conseguimos visualizar mas jamais poderemos tocar. Funciona porém como a cenoura atrás da qual o burro corre. A cenoura é uma qualquer utopia. O burro somos nós. Se bem que na história do burro, se o animal for persistente que baste, poderá a dada altura alcançar a cenoura e trincá-la a seu bel-prazer, celebrando vitória pela conquista do objecto desejado. Na vida dos seres humanos, aquela que se conveio designar por vida em sociedade, podem existir tantas utopias quantas mentes haja ávidas de sonhar. Se o sonho comanda a vida, como dizia o poeta, a utopia comanda a vontade de acreditar que todos os sonhos podem tornar-se realidade, mesmo que na verdade não possam. Muitos ficam no limbo. A realidade sonhada é perfeita, dá gosto pensar nela. Respiramos fundo e por instantes temos a sensação que tudo é possivelmente maravilhoso, que nada ficará desarrumado, que todas as peças encaixarão no puzzle, completando um desenho que no final será uma obra de arte. Gosto de utopias. Gosto de acreditar que um dia as utopias vão deixar de ser utopias para se tornarem realidades possíveis. Gosto de construir utopias, sonhar com elas e persegui-las a passos largos, ainda que teimem em afastar-se, dez passos e mais dez passos e mais dez passos. Hoje, amanhã e sempre, tudo farei para preservar a minha natureza utópica, a principal alavanca de tudo o que faço e sou. Manterei sempre um punho cerrado disposto a cair sobre a mesa. Nunca hei-de arrumar as botas, baixar os braços ou enterrar a cabeça na areia. Quem desiste sem tentar, será esquecido. Quem vai à luta, mesmo que não vença, será lembrado. A minha boca continuará a abrir-se de espanto, pasmada com a força que magicamente me renasce das veias quando já a sabia esgotada. Sempre que algo ou alguém me empurrar ao chão, haverá uma garra de leão, um fúria de viver que nascerá do desejo de manter-me de pé e de assim permanecer, até morrer, assim de pé, como só as árvores podem.

sábado, 29 de setembro de 2012

O dia em que nasci


Maternidade Alfredo da Costa (MAC), Lisboa, 29 de Setembro de 1979
O mundo atravessa o ano de 1979, os calendários permanecem suspensos no mês de Setembro, enquanto a minha mãe percorre os corredores da maternidade, ainda sem saber se será menino ou menina. Já passa do tempo e eu pareço teimar em não querer nascer. Por isso, naquele dia, sou obrigada a fazê-lo à força. Naquela tarde de finais de Setembro, é uma parteira amiga da minha mãe que a conduz a Lisboa. Ainda em casa, dá-lhe uma injecção para induzir o parto, antes de a levar para o carro onde põe a tocar uma cassete de fados. É o choro das guitarras que há-de embalar a dor das primeiras contracções. Ao passar a ponte, ao cruzar o Tejo, enquanto acaricia a enorme barriga como se fosse já um bebé, a minha mãe tem mil sonhos para mim. Todos os seus pensamentos são bons. Todos os seus sonhos são possíveis. Naquele instante de infinito, ela carrega no ventre uma explosão de energia prestes a acontecer. Uma nova pessoa, uma nova vida, como um novo universo pronto a eclodir. É sexta-feira, a última do mês de Setembro e o Outono leva de mansinho os últimos vestígios de Verão. Aos poucos, o Sol esmorece num céu muito azul salpicado de nuvens brancas. O meu pai está longe e é a minha avó que o chama, fazendo girar o dedo indicador por entre os números do velhinho telefone preto que está sobre a sapateira no hall de entrada: "Ela já foi para a maternidade". A frase atravessa quilómetros através da linha telefónica e chega ao ouvido do meu pai num tom de urgência, como um grito de aflição. Do outro lado, o meu pai é um homem nervoso, ainda de cabelo muito negro, ainda com cara de menino. Aos vinte e cinco anos vai ser pai pela primeira vez. E por mais que deseje aquele momento é impossível conter a ansiedade. A partir de agora é que vou ser um homem, pensa enquanto caminha apressado rumo à estação dos comboios. Na maternidade, a minha mãe aguarda. Espera pelas dores, espera pelo meu pai e espera ver-me pela primeira vez. Cada minuto parece conter todos os nove meses. Não se adivinha um parto fácil e acabo por ser sugada do interior da minha mãe por uma ventosa. Desperto para a vida já na madrugada de Sábado, 29 de Setembro. Não vejo a luz do dia porque ainda é noite escura. À uma e trinta e cinco da manhã a minha mãe está exausta e eu choro porque ainda não sei falar, porque ainda não aprendi a dizer: "Estou aqui mãe, já cheguei, estás feliz"? O seu sorriso lavado em lágrimas tem todas as respostas do mundo. Sim, ela está feliz porque acaba de realizar o sonho de uma vida. Agora já pode dizer: Sou mãe. A viagem nocturna do meu pai é feita de trezentos quilómetros de insónia. Solavanco após solavanco, pouca terra, pouca terra, mil pensamentos atravessam o seu olhar, ora de olhos fechados, ora de olhar fixo na paisagem de noite escura feita de sombras e raios de luz intermitentes. “É uma menina!”, anuncia a minha avó feliz à sua chegada. Dentro de um silêncio de olhar vidrado, o meu pai é finalmente um homem, um homem feliz. Manhã de Sábado, dia de Sol, Lisboa parece uma cidade coberta por um manto de felicidade. Os olhos escuros do meu pai reflectem e espalham alegria por toda a parte. Os mesmos olhos procuram uma loja de roupa para bebé. Os mesmos olhos encontram-na. É de uma pequena loja de uma grande avenida da capital que sai o meu primeiro vestido de menina, dentro de um saco que o meu pai transporta feliz. O vestido é branco, feito de malha à moda antiga, e tem riscas cor-de-rosa na zona do peito. O meu primeiro vestido tem também uma touca a condizer. O meu pai caminha na direcção da maternidade, com o saco na mão e comigo no pensamento. Antes de entrar, tira uma fotografia ao edifício. Quer eternizar o momento, expandir os horizontes da memória, contar a história do dia em que nasci. Estou deitada ao lado da minha mãe numa cama de ferro desgastada pelo tempo e pelo choro de milhares de bebés que por ali passaram antes de mim. Dizem que sou um bebé muito perfeitinho, de carinha muito redonda e muito rosadinha. O meu pai entra no quarto, beija a minha mãe e pousa os olhos em mim pela primeira vez como uma carícia.
O meu pai  e eu
Nesse preciso instante, dentro do quarto, eu sou o vértice de um harmonioso triângulo invisível que nos transforma de repente num só: agora somos uma família. Lá fora, o mundo não pára. A minha avó, mãe da minha mãe, secretamente deseja mas ainda não sabe que iremos ser muito amigas. O meu avô, que tem pavor de hospitais, está desapontado por eu não ser um rapaz e afoga os nervos com os amigos num café, enquanto espera ver-me em casa. O meu irmão ainda não existe e ninguém suspeita sequer que virá juntar-se a nós daqui a dois anos. Ninguém imagina que irá chamar-se Miguel, nome do santo padroeiro do dia em que nasci. Lá fora, o mundo não pára. Corre o ano de 1979 e Portugal é governado por uma mulher, a primeira e única até hoje: Maria de Lurdes Pintassilgo. Francisco Sá Carneiro já tem vontade, mas ainda não tem a certeza que será o senhor que se segue. Na televisão, o Papa João Paulo II ainda parece jovem e acena ao mundo dentro das suas vestes brancas. A madre Teresa de Calcutá, ainda é viva e receberá dentro de dias o prémio Nobel da Paz. E eu acabo de nascer e sou registada. Transformo-me numa pessoa. Cláudia Sofia é o meu nome. É o nome que nome que os meus pais em conjunto escolheram para mim, em homenagem a duas beldades italianas da época: Cláudia Cardinale e Sophia Loren. Espero estar à altura de tamanho tributo. Hoje, trinta e três anos depois, continuam ambas a ser muito belas. Hoje, como nunca antes, entendo o significado do passar dos anos: envelhecer é apenas saber apreciar cada vez melhor o tempo presente. Hoje, nesta data querida, em que as pessoas que me viram nascer ainda estão vivas e vão cantar-me os parabéns a você, dedico estas palavras a todas elas em geral e a uma em particular: Mãe, obrigada por me teres dado a vida.