Lá fora, iluminada e quente, a natureza já canta e os sorrisos regressam mascarados aos rostos saudosos de cor. Não há tristeza que se consiga impor à alegria transbordante da vida mais despida e leve. Os corpos vaidosos, mais ou menos belos, vagueiam vadios. Portas escancaradas apontam o caminho da rua como o da salvação. De todas as casas onde mora gente vêem-se sair pernas ligeiras em fuga. Rumam para algum lugar, mais longe ou mais perto, ao ar livre. São como sofridos prisioneiros libertados de um longo jejum de luz e calor. A chama renascida do sol faz explodir a vontade. Troca-se o cinzento dos dias pelo azul do céu, pelo azul do mar. Troca-se as gotas de chuva por raios de sol e os centros comerciais por esplanadas plantadas na areia. Troca-se o mau pelo bom humor e até os corpos flácidos e sedentários querem ser trocados por outros, como num truque de magia. Enquanto se abre e fecha os olhos, um todo-poderoso esvazia pneus e faz nascer músculos emergentes como cogumelos selvagens. Este tempo é doce; sabe a gelados lambidos com o prazer tranquilo das tardes grandes. Este tempo é de união; junta amigos à volta de uma mesa cheia de palavras soltas e garrafas vazias. A língua desenrola-se, a pele revela-se e os pés descalços podem voltar a pisar a areia sem medo. Os corpos libertados são mais felizes, só porque o ar se respira com conforto. Lá fora, elas já voam e nos tectos das varandas já nascem ninhos. As andorinhas não se enganam, agora é que é: chegou a Primavera.
domingo, 14 de abril de 2013
Primavera
domingo, 7 de abril de 2013
Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam*
Alice acaba de ver um filme inspirador e detém-se a pensar.
No conforto silencioso da sua casa, a madrugada vai entrando sem trazer o sono. Traz porém lembranças de dias distantes, que parecem agora mais próximos que nunca à meia-luz do candeeiro de canto que confere à sala um calor de lareira improvisado. A Primavera, já anunciada, faz-se demorar com requintes de malvadez, para gáudio do pijama e das meias de lã que persistem colados ao corpo como as ideias à mente.
“Quantas pessoas conheço hoje que não faziam parte da minha vida há cinco anos?”, pensa subitamente Alice, de si para si, tentando vislumbrar rostos através da ténue cortina do pensamento. E não tarda em irromper uma miragem daquele sorriso, hoje tão presente, daquele semblante com cheiro a beleza que agora lhe preenche os dias. E como pipocas a saltar do tacho, começam a explodir nomes e faces e vozes de todas as pessoas que ontem não eram sequer personagens imaginárias e hoje são presenças de carne e osso. Ligadas por um traço comum, todas surgiram no seu caminho por mero acaso, reflete Alice. Sem que tivesse feito o menor esforço para as encontrar, cada uma daquelas vidas cruzou-se com a sua num qualquer instante sem hora marcada. Bastava que no dia x não tivesse escolhido o caminho z e tudo teria sido diferente. Agora, fora do tempo em que os encontros acontecem, cada uma daquelas pessoas revelava-se uma valiosa peça de um enorme puzzle em construção.
Como um novelo desenrolado, as ideias foram rebolando pelas horas tardias. “Se eu não tivesse conhecido o José, não teria feito aquela viagem. E se não tivesse feito aquela viagem jamais teria conhecido a Maria que hoje me faz tão feliz”, lembra-se de ter pensado antes de cerrar as pálpebras sobre os olhos. E foi coberta pela manta de pensamentos que adormeceu desengonçada no sofá. E foi quentinha que se ergueu, livre de dores e rabugice, despertada pelos beijos da manhã, ternamente pousados no seu rosto pelos primeiros raios de sol.
*José Saramago, O livro dos itinerários, epígrafe de “A viagem do elefante”.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Ociosidades
Hoje serei crisálida. Vou arrancar do pulso o conta horas, libertar os pés de meias e sapatos e, como quem se alivia de um peso de chumbo, atirar o corpo inerte contra a moleza do colchão. Enquanto me esvazio de sons, vou deixar o pensamento afundar-se numa almofada de sonhos. Vou ignorar cada ruído até o ar ser só silêncio possível de respirar. Vou esconder os olhos da luz do dia e deixar correr a persiana que me separa do mundo lá fora. Ao parar de contar, começo a sentir. Duas horas de vagar são muito mais que cinco horas de pressa. O tempo espreguiça-se prolongando a tarde num dia inteiro. Sinto cada minuto durar o tempo de um prazer. E os prazeres são eternos, só eles sabem estender-se no repouso infinito da memória. Levanto-me de um sono leve oferecendo sorrisos às paredes. Ainda é dia e os móveis estão pintados de cores mais alegres a esta hora. De corpo enroscado no calor de um robe, piso o frio do chão com os bicos dos pés até às páginas de um livro abandonado. Aconchegada num conforto de sofá, sorvo cada palavra como se bebesse um saber líquido que refresca a mente e alimenta as fomes da alma. Só o escuro me lembra que o tempo existe e que insiste em passar. Aqui do casulo, onde entrei lagarta, amanhã sairei borboleta e terei aprendido a voar, um pouco mais alto, um pouco mais longe, talvez um pouco mais forte.
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quarta-feira, 20 de março de 2013
O caminho da felicidade
A linha não é recta. São ziguezagues, pontos unidos por linhas acima e abaixo. Os picos são os momentos em que o coração parece querer saltar do peito. Aquele beijo que eu te dei e que tu me deste de volta no momento em que queríamos os dois. A alma a desprender-se do corpo num arrepio quando a tua boca olha a minha enquanto os teus olhos a beijam como se fossem lábios. Um aplauso sonoro, o reconhecimento de que tudo o que fizeste e choraste não foi em vão. A felicidade não se mede em tamanho nem peso. Ser feliz é ser desmesurado. Não medir, nem esperar, saltar mais alto e mais longe, sem temer o limite ou a dor. Ser feliz é um voo em queda em livre de olhos fechados e braços abertos e sorriso esborrachado contra o vento. É um mergulho que se dá sem roupa, deixando as carnes livremente flutuar. Ser feliz é não ter vergonha nem medo. Fazer o tempo todo o que se quer e não apenas o que o mundo diz que se pode. Ser feliz é simplesmente permitir-se. Felicidade é a alma gémea da liberdade.
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terça-feira, 19 de março de 2013
Dia do (Santo) Pai
Quando fui a Roma não vi o Papa.
Ardiam os primeiros dias de Agosto e Sua Santidade havia-se retirado para a residência de férias em Castel Gandolfo, um pequeno paraíso rural nas margens do Lago Albano, a meia hora da capital. Foi lá que se deixou avistar, numa celebração dominical do Angelus.
O recém-chegado Papa pouco tinha de novo. Bento XVI, um septuagenário, por todos era visto como “um Papa de transição”. Um Santo Padre alemão, de ar grave e austero, somava simpatias sempre que derramava a voz sobre os fiéis. Num tom de veludo, um italiano esforçado derrubava o alemão entranhado nas cordas vocais e espalhava-se pela multidão como um bálsamo.
Os instantes que antecedem o momento de avistar o Papa são de grande emoção, mesmo para um não crente. Há algo de paternal naquela figura branca de braços erguidos ao céu. Até o ateu mais convicto aceita a bênção papal com a maior paz de espírito. As mensagens de fé renovam esperanças e devolvem tranquilidade aos espíritos mais inquietos. São minutos de um calor humano quase etéreo, a multidão de olhos fixos no mesmo ponto, de ouvidos a aspirar as mesmas palavras carregadas de bem-querer. Com a força de um vírus, há uma energia que não se vê nem se explica mas que contagia sempre toda a massa humana em redor.
Quatro meses antes, nos primeiros dias de Abril de 2005, num inusitado início de Primavera triste, o mundo chorava a morte de João Paulo II. O Papa que conhecera toda a minha vida como o único, nunca mais iria aparecer na televisão. Guiada pelo histerismo mediático criado em redor, deixei-me contaminar pela tristeza da saudade imediata de quem perde um ente querido. “Morreu João Paulo II”, anunciou o jornalista. E, no instante seguinte, no meu peito despontou uma dor fininha, a garganta apertou-se de nós e os olhos inundaram-se de comoção.
Oito anos depois, a chaminé do Vaticano voltou a cuspir fumo. “É branco”, gritavam vozes eufóricas em várias línguas na ansiedade de conhecer um rosto. O resignado Bento XVI, remeteu-se ao retiro espiritual, deixando o lugar vago a um novo nome, a uma nova voz. O novo comandante da igreja católica estava eleito e em breve iria acenar da famosa janela da basílica de São Pedro. “Habemos Papam” precede o anúncio de Francisco, que surpreende tanto pelo nome como pela origem. Sorridente, o Papa jesuíta que veio da Argentina diz que o foram buscar “ao fim do mundo”. A multidão rejubila, numa empatia imediata e feliz.
Hoje, 19 de Março de 2013, a data da entronização do novo Papa Francisco coincide com a celebração do dia do pai. A ele, que não sendo pai de ninguém pode sentir-se pai de todos, os votos de um pontificado norteado pelos valores basilares da paternidade, num tempo em que esta humanidade órfã, onde me incluo, bem está carente do aconchego de um Santo Pai.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
Irmãs de sangue
Quem nos visse juntas julgava-nos irmãs. A mesma estatura, os mesmos cabelos longos, o mesmo estilo de vestir, Levi’s e All Star de todas as cores, os mesmos ideais. Sonhávamos ser arquitectas e estudávamos para isso. Noites e noites em claro, a mesa coberta de folhas A3, lápis de várias durezas a rolar sobre o papel, borrachas brancas, réguas, esquadros e compassos misturados, os teus e os meus. Toda a geometria descritiva começava numa linha de terra de onde sabíamos fazer crescer polígonos. Régua e esquadro alinhados, lápis bem afiados, um ponto que se ligava a outro multiplicando a magia traço a traço. A cada exercício perfeito, esboçávamos sorrisos tão imaculados quanto as folhas limpas de borrões. Ouvíamos músicas calmas e nos intervalos desabafávamos os desamores. Lembras-te daquele meu primeiro amor que se apaixonou por ti enquanto tu não conseguias esquecer aquele rapaz que namorava com a miúda mais gira da escola? Porque é que os amores andam sempre tão desencontrados, perguntávamos uma à outra como se alguma de nós pudesse saber a resposta. A vida é mesmo assim, começámos a aprender naquele tempo em que tínhamos dezasseis anos. Ainda acreditávamos que podíamos ser tudo o que quiséssemos e que nada nem ninguém nos poderia travar. Acreditávamos tanto nos sonhos como na nossa amizade que julgávamos eterna. Um dia, chegámos a idealizar um pacto de sangue. Uma agulha, os nossos dedos picados a pingar gotas vermelhas, as nossas impressões digitais a carimbar um documento que garantisse a eternidade do que sentíamos uma pela outra. Aconteça o que acontecer, nunca nos iremos separar, prometíamos repetidamente. E sempre que ouvíamos os adultos contar histórias de amigos perdidos no tempo, jurávamos que isso nunca nos iria suceder. Julgávamo-nos abençoadas, amigas para sempre, só a morte teria coragem de nos apartar. Enganámo-nos. A vida enganou-nos. Trocou-nos as voltas e empurrou-nos para caminhos tão distantes e opostos que se viram incapazes de se cruzar. Não chegaste a ser arquitecta. Eu também não. Os nossos sonhos maiores desmoronaram-se como castelos de cartas ao menor sopro de vento. As casas que idealizávamos construir hoje são ruínas que ninguém quer ver. De volta ao ponto de partida, na cidade onde há muitos anos brincámos pela primeira vez, no primeiro dia da escola primária, espero por ti. Os meus olhos adultos aguardam rever o teu rosto de menina num corpo de mulher. Quando esse momento chegar, teremos trocado um punhado de juventude por dois de sabedoria. A máquina do tempo será capaz de nos fazer regressar ao passado, àquele ponto de charneira onde nos voltámos de costas para seguir em frente. Quem sabe agora voltemos a ser capazes de traçar uma linha paralela, como nos velhos tempos, uma espécie de corrimão que possa guiar-nos para prosseguirmos viagem, desta vez lado a lado.
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Eterno até ao fim
Tarde demais. Sobravam-lhe algumas horas ou poucos minutos talvez. Ninguém sabia ao certo quanto tempo lhe restava. Nos seus olhos, dois pontos de luz, cintilava ainda uma esperança vaga e fosca em sabe-se lá o quê. Quando aquele vulto amado atravessou a porta do quarto, ela reconheceu-o logo. Por instantes, a consciência dopada em delírio voltou a si, capaz de arrancar de um rosto moribundo um último sorriso triste. Ela sabia que era chegada a hora de dizer adeus. Não era um final feliz, porque os finais nunca podem ser felizes quando alguém parte de vez. Queria ser capaz de falar. Se o conseguisse, dir-lhe-ia adeus meu amor. Mas as palavras morrem muito antes de o coração parar de bater. Ficam presas na garganta e ajudam o travar da respiração. A mão viva sobre a mão morta devolve-lhe um pensamento quente: a memória de um instante feliz. Voltar a ver aqueles olhos e sentir de novo o coração a bater, tambor descompassado, na ilusão de poder renascer. A respiração sôfrega de quem precisa de um beijo urgente e um lamento infinito: tenho de ir com vontade de ficar. Nunca soube bem se vi em ti desgraça ou sorte. Sei apenas o que senti. Uma vontade galopante de mais e mais. Hoje só queria mais tempo, mais uma noite ou apenas uma tarde daquelas em que esquecíamos o mundo debaixo dos lençóis. O meu rosto no teu peito, o cheiro a nós colado à pele e depois entranhado nas almofadas dias e dias sem fim. Os teus olhos, amor, dizem-me o que não quero ouvir. Não temos mais tempo. Não haverá mais tardes nem noites nem madrugadas. Amanhã serei nada e tu apenas silêncio vagueando pelas memórias do que fomos. Um dia fomos nós. Vidas entrelaçadas como as nossas mãos agora. Está na hora. Agora vai. Aproveita que ainda podes ser feliz. Esgota o teu tempo com sensações boas. Procura sempre a emoção. Não chores por mim, não aqui, não agora. Podes fazê-lo mais tarde, se quiseres, quando eu já não estiver a ver.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Faz acontecer
Aqui, onde tudo parece feito de gelo, os dias arrastam-se vagarosos, como se não quisessem passar. No fundo, eles até têm pressa, mas correr cansa e os dias não estão para isso. Preferem rastejar como cobras que, sem hora marcada, um dia chegarão ao destino. Cada dia a mais é um dia a menos. Numa folha branca colada na parede, vêem-se pauzinhos riscados, de cinco em cinco, como os desenhados por um presidiário que conta os dias que faltam para a liberdade. Acordar e esperar. Trabalhar e esperar. Voltar e esperar. E ver a noite chegar, entrando pela janela, cada vez mais escura e fria, como uma punição. E antes que o dia volte a nascer, claro e quente, o desespero bate à porta e alguém o convida a entrar. Silencioso, ninguém dá por ele. Fica sentado no sofá, como um fiel cão de guarda que sabe lamber a ferida aberta que dói e faz chorar. A música que toca é sempre a mesma. A letra de cada canção conta uma história que não é a nossa, mas podia ser. Um cantor espanhol grita palavras bonitas num ritmo cigano. E tu, e tu aí. E eu, e eu aqui, tão longe e tão perto de ti. Há um livro abandonado a um canto faz dias. No seu silêncio de objecto consegue ouvir o pensamento de quem não o lê. Ideias cruzadas à velocidade da luz geram curto-circuitos mentais. O cinzeiro reclama de sujo. Cada cigarro, esmagado com a fúria com que se mata um insecto, depois de apagado não incomoda mais. Tantos canais e nada para ver. A televisão é só um conjunto de vozes que enche a casa, num cochicho que faz companhia. As ideias não fluem mais entre quatro paredes. Neste lugar claustrofóbico chamado casa, não há mais espaço para a falta de soluções. Basta! Não aguento mais. Amanhã vou entrar em acção.
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domingo, 27 de janeiro de 2013
As mães nunca morrem
Dormes. Dentro do quarto, só o silêncio quebrado pela tua respiração. Entro a pés descalços e sento-me a teu lado. Ver-te dormir devolve-me a paz. Queria ter poderes mágicos para eternizar este momento. Gostava que fosses para sempre menina e eu para sempre jovem, para poder estar sempre a teu lado. Imaginar que um dia este encontro vai deixar de ser possível é a base de um desassossego que me consome. Inspiro a doçura do teu rosto, pedaço de mim. E, nesse instante, na escuridão dos meus olhos fechados, há universos que se abrem até ao infinito. Voamos juntas de mãos dadas e somos imortais. No meu sonho somos felizes na alegre ilusão de que o nosso tempo não irá passar, que este tempo alegre da tua infância e da minha juventude não irá acabar nunca. Não falo em morte. Não gosto de falar do que não conheço. E tu não irias entender o que é. Para nós, aqui e agora, tudo é vida, alegria feita de mimos e gargalhadas que nos fazem sentir bem. Porém, na inocência dos teus quase cinco anos, já pairam fantasmas vindos não sei de onde, nem sei porquê. Hoje, ainda há pouco, quando estavas acordada, paraste junto a mim e a tua mão pequena procurou o meu cabelo. Querias descobrir cabelos brancos. Mas não os encontraste. Aliviada, garantiste que eu nunca iria morrer. As pessoas de cabelos brancos é que vão morrer, afirmaste. Tu não tens cabelos brancos, não vais morrer, continuaste. As mamãs nunca morrem. Vais ficar comigo para sempre. Detive-me silenciosa e imóvel diante da tua certeza. Sem saber o que responder, cheguei a acreditar nas tuas palavras. Ainda em silêncio, jurei guardar um segredo: nunca saberás que pinto os cabelos, que escondo os cabelos brancos com tinta de outras cores. Que me disfarço de jovem todos os dias, para continuar a ser a mamã que os teus olhos de bebé viram ao nascer. Ser mãe é saber disfarçar. É fingir que está tudo bem mesmo que o mundo esteja para acabar. Uma mãe é como uma mão aberta, sempre pronta a dar. Mão e mãe podiam ser palavras gémeas. Há sempre uma mão que se agiganta por onde passa uma mãe. Há sempre um toque mais suave, uma cabeça em busca de afago, dois braços que se estendem na disponibilidade de um colo. Agora que continuas a dormir como uma anjo, penso com calma na resposta que amanhã te darei. Sim minha filha, é verdade, as mães nunca morrem. Cada mãe é infinita e, como um pedaço de véu, irá pairar para sempre sobre os filhos, cobrindo-os, protegendo-os e aconchegando-os, onde quer que vão.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Dá-me a tua mão
Não quero juras, nem promessas sequer. Só saberemos se foi para sempre quando chegarmos ao fim do caminho e a minha mão for a última que largares. Para já, apenas sente. Fecha os olhos e coloca as tuas mãos sobre as minhas mãos abertas. O calor da minha pele será o calor da tua pele convertido no arrepio que nos atravessa o corpo por dentro. Muitas vezes terás dúvidas se o ar que respiras é o teu ou meu. Cada vez que inspirares, serei todo o oxigénio de que precisas para viver. Quando voltarmos a abrir os olhos, estaremos diante um do outro. A distância que nos separa será cada vez mais curta. Entraremos no pensamento um do outro apenas com o olhar. E veremos estrelas, mesmo que seja dia. E veremos o sol, mesmo que seja noite. E haverá flores por toda a parte, mesmo que estejamos no deserto. E o céu será sempre azul, mesmo que uma tempestade desabe sobre nós. E não teremos fome, nem sono, nem frio, porque estaremos perdidos no tempo. Todos os relógios do mundo vão parar em simultâneo. E nós, diante um do outro, seremos os últimos habitantes de um planeta vazio. Parados num espaço sem tempo, viajaremos juntos de mãos dadas até ao infinito. Irás perguntar-me o que estou a sentir, mas não terei resposta para te dar. Qualquer palavra seria menor e não quero reduzir o que sinto. Abraças-me e fico sem saber se o coração que bate acelerado é o teu ou o meu. O que importa é o ritmo. Olho-te. Olhas-me. Somos um espelho diante de um espelho. Só teremos olhos um para o outro e tudo o que veremos parecerá perfeito. Serás a coisa mais linda. Serei a coisa mais linda. Seremos tudo o que temos e o que sonhamos ter. Não desejaremos mudar uma vírgula à história do dia em que nos conhecemos. Daqui em diante, o caminho parecerá mais direito, o futuro parecerá mais perto, a vida voltará a fazer sentido porque tu estarás aí e eu estarei aqui e seremos sempre a primeira pessoa de quem nos vamos lembrar ao adormecer e ao acordar. domingo, 30 de dezembro de 2012
Primeiro de Janeiro
Estejas onde estiveres, assistirás aos mesmos rituais. Ao vivo ou através da televisão, um coro de vozes em contagem decrescente, descerá uma escadaria imaginária que separa o número dez do zero. Nesse preciso instante, será meia-noite. Doze badaladas de um relógio qualquer vão anunciar ao mundo que está prestes a começar a primeira hora do primeiro dia do primeiro mês de um novo ano. Alguém terá uma garrafa na mão e não tardará uma rolha de cortiça libertar-se-á num estalido seco atravessando o ar sem que ninguém saiba onde vai parar. Rostos subitamente iluminados por uma felicidade sem razão exclamarão vivas e trocarão beijos e abraços e votos de dias felizes, por entre goles de espumante ou champanhe. Os flutes preenchidos pelo líquido dourado e borbulhante elevar-se-ão várias vezes, tilintando uns nos outros em múltiplos brindes de braços entrecruzados. Sentirás na boca um gosto amargo que aos poucos será mais doce e mais doce e mais doce e caminharás rumo a um ponto onde possas avistar a noite. Ao longe, uma faixa de céu a estalar em pontos de luz coloridos será uma festa para os teus olhos. Ao mesmo tempo, buzinas, sirenes, risos e gritos misturar-se-ão no ar até se desfazerem em cacos como os copos de vidro que alguém irá atirar de um janela. Haverá uma corrente de alegria capaz de atravessar toda a gente, por um minuto que seja. O minuto vazio que antecede todos os pensamentos. Quando a euforia começar a esmorecer, serás atravessado pelas memórias. Recordarás o ano que passou numa sequência alucinante de imagens e lembrar-te-ás mesmo do que já julgavas ter esquecido. Mesmo que estejas rodeado de gente, sentirás uma súbita solidão e saudades quem já não está. Sentirás falta de quem está longe e não podes abraçar e nesse instante terás o impulso de procurar um telefone e marcar um número para ouvir a voz daquela pessoa especial. Depois de risos e beijos e lágrimas, nascerão os desejos. É preciso voltar a acreditar que o amor é possível. É preciso voltar a acreditar que de hoje em diante serás capaz de passar mais tempo a fazer o que mais gostas. É preciso voltar a acreditar que poderás passar mais tempo ao lado que quem é mais importante para ti. É preciso voltar a acreditar que a vida ainda te pode surpreender e levar por caminhos desconhecidos rumo ao que sempre procuraste. Se te deixares levar, se te entregares à vida, se tiveres coragem para dar largas à imaginação, podes ter a certeza que a vida te conduzirá a um novo ponto de partida. Ainda que não possas nascer de novo, podes sempre sonhar e acreditar que hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
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Primeiro de Janeiro
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
O regresso da mana Bia
Já não me lembro do dia em que partiste para o Brasil. Tinha eu quinze anos. Entretanto, passou toda uma vida. Tenho uma vaga ideia, memórias soltas, esfumadas pelo esquecimento que a passagem dos anos nos vai impondo. Agora que tenho vagar, não são poucas as vezes que me sento, a velha caixa de sapatos sobre o colo, as mãos enrugadas folheando memórias como se fossem restos de ti, sobras da vida que não vivemos juntas. Eu cá, tu lá. Eu em Portugal. Tu no Brasil. Entre nós um Oceano de saudade. Casei-me pouco depois da tua partida. A nossa mãe, viúva, convenceu-me de que seria o melhor para mim. Até hoje, mana, duvido que as mães tenham sempre razão naquilo que dizem. Mas, ao menos, não fiquei desamparada como receava a nossa mãe. Até hoje, tenho ao meu lado um homem que me preenche os dias. Ainda que quase só de arrelias. Fomos sabendo uma da outra por carta. Era uma euforia sempre que abria a caixa do correio e via aquele envelope branco, riscado a azul e vermelho no rebordo, marcado a carimbo “via aérea”. Primeiro, os filhos foram casando. Depois, os netos foram chegando. E tu, minha irmã, ias envelhecendo a cada fotografia. E a cada carta trocada ia-se desvanecendo a esperança de um reencontro possível. Recordo ainda hoje o desgosto da nossa mãe que fechou os olhos para sempre sem nunca mais te ver. Foi como se tivesses morrido aos quarenta anos e nós tivéssemos tido que carregar uma vida inteira o luto de uma partida prematura. Durante o longo mês que demorou a viagem de navio, sonhavas com o el dourado, encontravas na esperança de uma vida melhor o conforto possível. Nas tuas preces silenciosas à luz do luar, agradecias ter encontrado uma fuga para os teus filhos, que escaparam por um fio a um destino inevitável: a guerra colonial. Sem ouvir sequer a tua voz, passei a década de cinquenta, passei toda a década de sessenta. Nessa época, emigrei também. Aprendi francês na casa de senhores onde servia. Eu, que nem a quarta classe tinha, falava estrangeiro, sabia pedir na língua deles o pão e a fruta e a carne no supermercado. Quando consegui juntar dinheiro para uma casa, regressei a Portugal. E de ti, nada. A vida não melhorava como tinhas esperado, conforme tinhas desejado. Não sobrava nada que chegasse para voltar. Na década de setenta, já na casa nova, pudemos voltar a ouvir-nos. Do outro lado da linha, nos Natais, Páscoas e aniversários, surgias com uma nova voz, num tom adocicado perguntavas à nossa mãe: “como vai a senhóra?”.
Ó mana, não existe outra palavra: que saudades me deixaste. As águas que te levaram nunca mais te trouxeram. Largaste o teu corpo noutro país. Deixaste-te enterrar noutro chão, noutra terra, que te acolheu nunca sendo tua. A morte corta o cordão umbilical que nos amarra à vida. Quando partiste, há já uns anos, a nossa conexão foi interrompida. O pouco que ia sabendo de ti, tornou-se cada vez menos, até ser nada. Há dias, o futuro devolveu-nos o passado. Num milagre tecnológico, de repente, a minha neta encontrou os teus netos e começaram logo a falar online. Sabes o que é isso, mana? Não deves saber. Não é do teu tempo. Mas o melhor ainda está por vir. O sangue do teu sangue vem a caminho. Regressas com o nome de Alberto, o mesmo que deste ao teu filho e que hoje é o teu neto.
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