"Terraço Pizza na Pedra", 5 Julho 2013 (foto da autora)
Procuro olhar a cidade de olhos
fechados, passeando pelas memórias da minha vivência de habitante. Aterrei aqui
há quase trinta anos e só agora pareço começar a observar com atenção o pulsar
da vida em meu redor.
Viajo de norte para sul. Lá ao
fundo, uma cordilheira recorta o céu. Como se nos vigiasse dia e noite, noite e
dia, sobranceiro e mudo, o cerro de São Miguel amuralha toda a planície urbana.
Pela fortaleza de terra abaixo
resvalam blocos de cimento. As casas, começam por ser poucas, depois são cada
vez mais e mais e mais, até serem muitas, concentradas num aglomerado de
quadradinhos no coração da cidade.
Olhão é uma terra pintada de branco
onde as casas são pequenos cubos despreocupadamente sobrepostos. São centenas
de quadrados imaculados vistos do céu. Numa harmonia do que é espontâneo, a
beleza sobrepõe-se à desordem visual caótica.
"Da minha varanda" (foto da autora)
A meio caminho entre a serra e o
mar, uma via rápida com nome de Infante deixa viaturas velozes passar num vai e
vem, cada vez menos constante, entre Espanha e todo o Algarve.
Um pouco mais abaixo, uma outra
linha de estrada, uma rua gigante que se chama nacional. Como formigas em fila
indiana, carros em câmara lenta tentam diariamente atravessar Olhão, entupindo-o
de lés-a-lés.
Ao mesmo tempo, uns quilómetros
paralelos a sul, um apito de comboio divide a cidade ao meio.
A norte, o futuro ergue-se em
direcção ao céu. Numa terra de tanto Sol, gente jovem faz crescer filhos
trancados em apartamentos. Falta-lhes espaço térreo para as brincadeiras, tal
como a mim me falta para soltar a rédea aos pensamentos. Desejo para eles (e
para mim) um amplo lugar verdejante de sombras e ar puro. Aqui já ficava bem um
parque da cidade. Tomara que as gerações vindouras tenham mais sorte. Oxalá
este sonho deixe de ser apenas uma esperança de ar livre. Porque o progresso
não se aloja em hotéis, nem se compra ou vende em centros comerciais, os
nativos carecem de mais natureza para expandir-se.
A sul, o passado repousa nas ruas.
Descendo e subindo o túnel, vizinho da biblioteca que um dia foi hospital,
abre-se diante de nós a avenida principal, guardada pelo cansaço sentado dos
velhos nos bancos de madeira do passeio central. Quase todos têm rugas de mar
estampadas no rosto e muitas histórias naufragadas para contar. Hoje, debaixo
da sombra das tardes e das boinas de fazenda, são espectadores dos transeuntes
que circulam avenida acima, avenida abaixo. Assim matam as horas que restam:
distraídos pela prosa trocada com os seus compadres e com os taxistas que por
aqui estacionam os carros de praça à espera de passageiros.
Ouve-se o badalar das horas
contadas pelo repicar do sino. O som parte do alto da igreja e projecta-se aos
quatro ventos ecoando pelo ar. Contemplativo, há um turista que se detém
estático de telemóvel em riste. A matriz da cidade, erguida à custa dos filhos
pródigos, homens do mar que aqui depositaram toda a sua fé, pedra sobre pedra,
merece ser fotografada. O olhar curioso de espanto foca-se no telhado do
templo, onde um par de cegonhas felizes se deleita no espaço escolhido para
construir o seu ninho sagrado. O castanholar pontiagudo dos seus bicos é uma
melodia cúmplice que com o hábito deixámos de apreciar.
De uma das travessas laterais à
igreja, surge uma senhora baixinha e acalorada, arrastando uma saca com
rodinhas. Segue num passo apressado. Sigo-a ao mesmo ritmo em pensamento. O
arranhar descarrilado do carrinho de compras sobre a calçada atravessa a
conhecida ruas das lojas. A senhora vai saudando vizinhos e conhecidos em vagos
acenares de mão. Não olha para os lados, nem espreita as montras cujos
manequins já conhece de cor. Vai com a ideia fixa no almoço. Espera encontrar
peixe fresco bom para assar a carvão na açoteia.
É Sábado e começam a avistar-se os
mercados. As duas torres de tijolo miudinho, alaranjadas e imponentes,
erguem-se perante o Sol da manhã. Um amontoado de chapéus-de-sol cobre de
sombra esplanadas repletas de gente. Pessoas e carros parecem atropelar-se ao
atravessar a rua. Um empregado de mesa acelerado descarrega da bandeja metálica
dois galões, uma sandes de papo-seco e um café. O intervalo que medeia o
mercado da fruta e o do peixe é atravessado por um festival de sons, tons e
cheiros que se misturam numa atmosfera peculiar. Diante de nós, revela-se a
urgência adiada de um mergulho. Num espaço de metros entre os dois edifícios,
um assomo líquido cintilante: finalmente os olhos encontram a ria, a formosa
maravilha, que contra o cais abraça o histórico caíque Bom Sucesso. Réplica das
memórias da revolta de Olhão, que por prémio real se fez vila, por recompensa heróica
aos homens que, com alma de gente e garra de bicho, expulsaram franceses e
atravessaram um oceano até ao Brasil, até o Rei ser avisado.
Para lá do horizonte, o mar, barrado pelas
ilhas, finos tapetes de areia que se espraiam serenos sobre a tranquilidade das
águas. No ar, sempre constante, um cheiro salgado que vai perfumando tudo de
fresco. Nesta cidade, que amanhece sempre de janelas escancaradas, a ria é um
espelho do céu de onde parecem chover gaivotas. Asas brancas de vento que
sopram gargalhadas enquanto disputam com os pescadores o seu sustento, numa
convivência feliz. Aqui, onde o céu é sempre muito azul, salpicado por esparsas
nuvens brancas, todas as memórias são manhãs de Sábado, tardes de praia ou
noites animadas de verão.
Nessas noites, os mercados já
fechados, vazios de peixe e fruta, trasvestem-se. Nas traseiras, um carreiro de
bares vende o prazer da ria a copo. O povo sai à rua. Na esplanada do canto,
vendem-se gelados, muitos. Há filas de gente a escolher bolas de sabores.
Casais de mãos dadas vêm tomar café e arejar a rotina. Guitarras afinadas e
vozes sobem ao palco. Uma banda local derrama sons modernos sobre a multidão
que abana a cabeça e bate o pé. Para os que ficam até mais tarde, até a noite
quase tocar o raiar do dia, as horas são segredos que só a Lua conhece e não
conta a ninguém. São olhares diluídos em cerveja, desejos de paixão revelados e
outros tantos por confessar.
Agosto chega à cidade com anúncios
de festa. Há cartazes por toda a parte e metade do jardim pescador olhanense
isolado do mundo por tapumes. Lá dentro, esconde-se um festival de marisco. Cá
fora, começam a chegar rostos bronzeados esfomeados de diversão. O tempo é de
férias e de reencontros. Entre os milhares, cruzam-se olhares por toda a parte.
Todos procuram um lugar onde pousar a caneca e o camarão, mesa e cadeiras para
que os corpos sentados possam fruir a noite ao ritmo da música e dos sorrisos.
À beira de água, anoitece. Pássaros
esvoaçam um alvoroço de pios. Procuram no escasso arvoredo um galho para
pernoitar. Quando o encontram são o silêncio camuflado numa copa qualquer.
Junto ao muro da ria, uma brisa amena atravessa-nos o pensamento e devolve-nos
a paz.
A marginal que passa frente aos
mercados envolve toda a cidade num abraço largo. Nas extremidades, rotundas.
Entra-se no ontem e sai-se no amanhã. Entra-se na pesca e sai-se no recreio.
Entra-se na doca e sai-se na marina. Entra-se na tradição e sai-se na
modernidade. Extremos que se ligam, que convivem sem se tocar. Numa ponta, do
hotel chique sai um homem fino. Na outra ponta, de uma traineira desbotada sai
um velho mestre engrossado por um copo a mais, pela vida, pelo sal e pelo Sol.
O mesmo Sol que iluminaadiante o Parque Natural
e atrás a montanha branca que anuncia as salinas. Nos entremeios, as
conserveiras - as duas que sobram, de tantas que eram – e os restaurantes, em
fileira, a crescer, porta sim, porta sim. Montras de frescura com peixe exibido
e ementasrecheadas com xarém escondido. O quê?
(que nome estranho). Xarém (repetimos o nome): as papas de milho (em árabe) que
sabem bem.
Cada vez mais amiúde, um rasgo de
trovão interrompe os sons da natureza, percorrendo o céu sobre a nossa cabeça.
São aviões de baixo custo que trazem cada vez mais turistas carentes de Sol e
de mar.
Sol e mar. A felicidade de um povo
assente num binómio. Aos olhanenses de sonhos encolhidos é tudo quanto baste
para uma vida boa. Apanhar a carreira das onze ao Domingo e passar a tarde na
ilha é a alegria de um ano inteiro. O farol não nos pertence, mas continua a
ser a nossa praia. Águas cristalinas de trópicos, ventos abafados de África, um
paraíso aqui tão perto.
Ilha do Farol (vista do barco da carreira das 11h), 28 de Julho de 2013 (foto da autora)
Regresso a terra. O meu pensamento,
cansado de recordar uma cidade tão pequena que parece imensa, vem deambulando
pelas ruelas da Barreta, o bairro mais antigo e típico da cidade. Imagino-me noutros
tempos e em ilusões oiço os cloques atrás de mim. Sou perseguida por um enigma,
uma mulher mistério que se esconde no Bioco e arrasta sapatos de ourelo*. Numa
placa de madeira, vejo esse mesmo traje, uma capa de capuz negro a anunciar uma
nova tasca. É a juventude a retomar a tradição, gente nova que, a empreender,
toma as rédeas à cidade.
Sou amiga dessa juventude. Pertenço
a esta cidade, que não me viu nascer, tal como ela já me pertence em parte. Em nome
deste amor adoptivo de filha, ofereço-te estas palavras, minha mãe, neste dia 16
de Junho em que te festejas e celebras cidade, Al-Hain**, lugar de Olham, Olhão
da Restauração.
* Sapatos de confecção
caseira, que ocupava muitas mulheres em Olhão e eram vendidos nas feiras e
mercados por todo o Algarve e em Setúbal.
**Olho de água em
árabe. Primeira designação do lugar que viria a ser Olhão.
No interior da pequena capela, que mais parece uma gruta encostada ao mar, não se vislumbra qualquer ornamento de luxo. Nem flores, nem laços, nem quaisquer outros adornos desnecessários. As paredes são feitas de beleza pura desgastada pelo tempo, como uma mulher bonita que envelhece só amadurecendo os traços.
Dentro de um fato negro, um noivo pálido não consegue esconder o nervoso miudinho da espera. Os pés dão passos miudinhos sobre os ténis vermelhos que destoam da fatiota. O noivo miudinho exibe um coração miudinho cheio de amor ao peito. O toque de originalidade cobre também o menino que está sentado no banco da frente. De fatinho e ténis e coração ao peito, aguarda com o mesmo nervoso miudinho a chegada da mãe, que hoje será a noiva. Os pescoços torcem-se em uníssono. A mulher de vestido branco chega como uma luz, como um sol que subitamente se destapa das nuvens. A menina de dentes miudinhos tem a cara feita num sorriso. De braço enfiado no cotovelo do pai, aproxima-se num passo regular erguendo um ramo de corações vermelhos que desejam encontrar o noivo de amor ao peito. Deparam-se e beijam-se antes como se já fosse depois. Um padre surpreendente quebra um quase silêncio de segredos baixinhos num sotaque latino-americano. Atrás dos noivos, uma pequena multidão de convidados de cabelos e trajes alinhados surpreende-se. As palavras obrigatórias vão atravessando ouvidos desatentos, detendo-se num ou noutro pormenor. “Deus não condena o sexo, desde que dentro do matrimónio”. O padre falou em sexo?, interroga-se a audiência, agora de orelhas empinadas. O discurso passeia-se pela capela e pousa nas mãos unidas, nas juras trocadas, nas alianças enfiadas, no beijo, depois, ainda mais forte do que antes.
A menina dos dentes miudinhos e sorriso grande e o rapaz miudinho do coração grande são agora marido e mulher. “Até que a morte os separe”, assegura o padre, abençoando todos os presentes.
O sonho acabou. A realidade começa agora.
Os noivos saem juntos, correm, atravessam um corredor de gente e fogem da chuva de arroz. A tradição mantém-se. Continua a ser bonito assistir à celebração do amor.
Se ao menos alguém me conseguisse explicar a lógica de funcionamento deste espaço chamado Mundo. Mas não, até hoje não houve vivalma que me desse uma justificação plausível para certas atitudes do ser humano. Ser humano, mas o que é isso afinal de ser humano? É ser mais do que bicho? Ser mais em que
aspecto? Não seria mais fácil limitarmo-nos a viver como a maioria dos
animais, movidos a instintos e necessidades básicas? Ah não, nós somos mais
inteligentes. Criámos regras para depois não as cumprirmos. Somos sensíveis,
pois é. Inventámos sentimentos para depois passarmos metade da vida a fugir
deles e a outra metade a escondê-los garganta abaixo ou olhos adentro, afogando
lágrimas secas que temos vergonha de despejar. Temos medo de ser apenas
o que somos. E o que somos nós? Somos aquilo em que acreditamos. Não somos o
que gostaríamos de ser ou ter sido, de fazer ou ter feito, de ter tido ou vir a
ter. Somos a soma de todas as escolhas que fazemos ou deixámos de fazer.
Vencedores ou vencidos, depende da perspectiva. Voa mais quem está no topo de
asas amarradas ou quem lá de baixo olha o céu e é livre de sonhar como
deve ser bom voar? É preciso coragem para ser livre. É preciso audácia para
escolher continuar livre, renunciando aos acenos de promessas de ouro que não
são mais que presentes envenenados à porta da prisão. O problema é que já quase
ninguém acredita em nada e por isso quaseninguém chega a ser alguém. Nascemos com a dádiva da grande
oportunidade: podemos ser o que quisermos. E no que é que nos tornamos? Naquilo
que o mundo quer fazer de nós, qual ferro malhado a quente. Impor uma vontade é
como dar um grito que ninguém quer ouvir. Dizer não, custa. O não sabe mal aos
ouvidos. Parece feito de pregos que se vão espetando a martelo. Mas quando é
essa a minha vontade e o não me sai como um alívio de gases soltos, o meu ser
dá pulos de alegria porque finalmente decidiu assumir-se. E nada mais me
importa quando consigo ser apenas tudo aquilo em que acredito.
Sevilha é uma cidade
por onde apetece passear e onde apetece viver. Logo à entrada da capital
Andaluza, há requintes de perfeição que fazem os olhos sorrir. Quem cuida da
cidade, sabe fazê-lo com mimos de mãe de menina. Como se fossem laços de
adornar cabelos, há canteiros e colunas de vasos multicoloridos em cada praceta
ou separador central da estrada que nos dá as boas vindas. O rio, de um gordo
caudal esverdeado, corta ao meio a cidade, hoje unida por pontes que ligam
passado e futuro. Ontem Bétis, de onde partiram naus rumo ao Novo Mundo, hoje
Guadalquivir, por onde se passeiam barcos que fazem encher o olhar dos turistas
de uma beleza panorâmica.
Guadalquivir
Mais do que grande, Sevilha é
grandiosa, monumental. Tanto há a visitar que um só dia não chega. Mas fica o
gosto de aperitivo. Abeirada ao rio, a Torre do Ouro ainda o vigia. Desta
atalaia garantia-se a cidade a salvo das invasões inimigas. Agora museu
marítimo, pode ser visitada e recomenda-se uma subida ao miradouro. De lá, pode
assomar-se, majestosa, a catedral em todo o esplendor dos seus pináculos
erguidos ao céu.
Catedral de Sevilha
Percorremos as ruas em modo pedestre e passam por nós bicicletas. Há ciclovias e pontos de aluguer por toda a cidade. A planura do chão convida a passeios em duas rodas. Um pouco adiante, cidade velha avante, o som monárquico dos cascos contra a calçada anuncia a passagem de mais um coche. Formosos cavalos brancos puxam elegantes carroças de estofos pretos e grandes rodas pintadas de amarelo.
Da arquitectura à paisagem, em Sevilha tudo exibe rigores de acabamento manual. Dos varandins em ferro minuciosamente trabalhados aos vasos de flores nas janelas, há uma inesgotável obsessão pelo detalhe, uma luta cega pela perfeição que todo o turista agradece. Populosa mas organizada, cosmopolita mas histórica, na cidade impera a ordem, reina a limpeza, o que enobrece a beleza de cada pormenor.
Entramos na Catedral de Sevilha. Vale a pena visitar o maior templo gótico do mundo, distinguido pela UNESCO como património da humanidade. Lá fora, ficaram mulheres com ar de ciganas que nos seduzem com rosmaninho. “Un regalo”, anunciam de raminho na mão, mirando de seguida ganhar uns trocos a ler-nos a sina. Cá dentro, sentimo-nos pequenos, esmagados pela grandiosidade das cúpulas, vitrais e peças de arte sacra feitas num tempo em que os homens não tinham pressa.
Uma pausa para almoço. Comemos paelha e filetes de pescada, para fugir às tradicionais tapas. Ao contrário do que se diz, aqui não se come mal. Só não há moderação no consumo de fritos e os nossos estômagos reclamam. O início da tarde apanha-nos de barriga cheia. De volta à rua, um calor molengão só convida à preguiça. Aqui em Sevilha, o bafo vespertino é como um sopro africano que só esmorece à sombra de uma árvore centenária ou diluído num copo de bebida gelada. E ainda só é Primavera…
Fugimos à brasa, refugiando-nos no acolhimento do Real Alcazar. O piso térreo e os jardins dos aposentos reais podem ser visitados e admirados. De inequívoca influência árabe, o palácio detém um estilo inconfundível de rara beleza.
Real Alcazar
De regresso ao ar livre, deambulamos pelos labirintos arabescos que formam as ruelas do bairro de Santa Cruz. Aqui o sol não entra. Há vielas com pouco mais de um metro de largura. O ar é mais fresco rente a estas casas de paredes brancas e janelas floridas. Aqui e acolá há lojas de portas abertas vendendo “recuerdos”. Porta sim, porta sim, há aventais aos folhos, castanholas e leques que acenam a quem passa, à espera de um freguês que os leve. Quase tudo o que podemos levar de recordação nos remete para as populares sevilhanas. As morenas “guapas” que rodopiam folhos batendo saltos, abrindo e fechando leques em trejeitos sensuais, continuam a ser o ícone da cidade.
Já falta pouco para a luz do dia começar a esmorecer, mas ainda há tempo para mais duas paragens emblemáticas. Sempre a pé, atravessamos as amplas avenidas, onde nunca faltam os espaços verdes, e chegamos à entrada do Parque Maria Luísa. Um imenso pulmão no coração da cidade, de onde emerge a monumental Praça de Espanha. Não dá para descrever, é preciso ver para dignificar o sentido do belo, a harmonia estética que, à semelhança da mãe natureza, só a arquitectura sabe conceber.
Despedimo-nos desta breve visita admirando o tesouro mais adorado de Sevilha. A virgem da esperança, designada “La Macarena”, está exposta na Basílica com o mesmo nome e só sai à rua na madrugada de sexta-feira santa, na procissão mais popular e fervorosa de Espanha.
Ainda não é noite e temos pena de partir. Ao vermos Sevilha ficar para trás sobra-nos a vontade de regressar. Esta cidade merece tempo para ser olhada e recordada até à impossibilidade do esquecimento.
Lá fora, iluminada e quente, a natureza já canta e os sorrisos regressam mascarados aos rostos saudosos de cor. Não há tristeza que se consiga impor à alegria transbordante da vida mais despida e leve. Os corpos vaidosos, mais ou menos belos, vagueiam vadios. Portas escancaradas apontam o caminho da rua como o da salvação. De todas as casas onde mora gente vêem-se sair pernas ligeiras em fuga. Rumam para algum lugar, mais longe ou mais perto, ao ar livre. São como sofridos prisioneiros libertados de um longo jejum de luz e calor. A chama renascida do sol faz explodir a vontade. Troca-se o cinzento dos dias pelo azul do céu, pelo azul do mar. Troca-se as gotas de chuva por raios de sol e os centros comerciais por esplanadas plantadas na areia. Troca-se o mau pelo bom humor e até os corpos flácidos e sedentários querem ser trocados por outros, como num truque de magia. Enquanto se abre e fecha os olhos, um todo-poderoso esvazia pneus e faz nascer músculos emergentes como cogumelos selvagens. Este tempo é doce; sabe a gelados lambidos com o prazer tranquilo das tardes grandes. Este tempo é de união; junta amigos à volta de uma mesa cheia de palavras soltas e garrafas vazias. A língua desenrola-se, a pele revela-se e os pés descalços podem voltar a pisar a areia sem medo. Os corpos libertados são mais felizes, só porque o ar se respira com conforto. Lá fora, elas já voam e nos tectos das varandas já nascem ninhos. As andorinhas não se enganam, agora é que é: chegou a Primavera.
Alice acaba de ver um filme inspirador e detém-se a pensar.
No conforto silencioso da sua casa, a madrugada vai entrando sem trazer o sono. Traz porém lembranças de dias distantes, que parecem agora mais próximos que nunca à meia-luz do candeeiro de canto que confere à sala um calor de lareira improvisado. A Primavera, já anunciada, faz-se demorar com requintes de malvadez, para gáudio do pijama e das meias de lã que persistem colados ao corpo como as ideias à mente.
“Quantas pessoas conheço hoje que não faziam parte da minha vida há cinco anos?”, pensa subitamente Alice, de si para si, tentando vislumbrar rostos através da ténue cortina do pensamento. E não tarda em irromper uma miragem daquele sorriso, hoje tão presente, daquele semblante com cheiro a beleza que agora lhe preenche os dias. E como pipocas a saltar do tacho, começam a explodir nomes e faces e vozes de todas as pessoas que ontem não eram sequer personagens imaginárias e hoje são presenças de carne e osso. Ligadas por um traço comum, todas surgiram no seu caminho por mero acaso, reflete Alice. Sem que tivesse feito o menor esforço para as encontrar, cada uma daquelas vidas cruzou-se com a sua num qualquer instante sem hora marcada. Bastava que no dia x não tivesse escolhido o caminho z e tudo teria sido diferente. Agora, fora do tempo em que os encontros acontecem, cada uma daquelas pessoas revelava-se uma valiosa peça de um enorme puzzle em construção.
Como um novelo desenrolado, as ideias foram rebolando pelas horas tardias. “Se eu não tivesse conhecido o José, não teria feito aquela viagem. E se não tivesse feito aquela viagem jamais teria conhecido a Maria que hoje me faz tão feliz”, lembra-se de ter pensado antes de cerrar as pálpebras sobre os olhos. E foi coberta pela manta de pensamentos que adormeceu desengonçada no sofá. E foi quentinha que se ergueu, livre de dores e rabugice, despertada pelos beijos da manhã, ternamente pousados no seu rosto pelos primeiros raios de sol.
*José Saramago, O livro dos itinerários, epígrafe de “A viagem do elefante”.
Hoje serei crisálida. Vou arrancar do pulso o conta horas, libertar os pés de meias e sapatos e, como quem se alivia de um peso de chumbo, atirar o corpo inerte contra a moleza do colchão. Enquanto me esvazio de sons, vou deixar o pensamento afundar-se numa almofada de sonhos. Vou ignorar cada ruído até o ar ser só silêncio possível de respirar. Vou esconder os olhos da luz do dia e deixar correr a persiana que me separa do mundo lá fora. Ao parar de contar, começo a sentir. Duas horas de vagar são muito mais que cinco horas de pressa. O tempo espreguiça-se prolongando a tarde num dia inteiro. Sinto cada minuto durar o tempo de um prazer. E os prazeres são eternos, só eles sabem estender-se no repouso infinito da memória. Levanto-me de um sono leve oferecendo sorrisos às paredes. Ainda é dia e os móveis estão pintados de cores mais alegres a esta hora. De corpo enroscado no calor de um robe, piso o frio do chão com os bicos dos pés até às páginas de um livro abandonado. Aconchegada num conforto de sofá, sorvo cada palavra como se bebesse um saber líquido que refresca a mente e alimenta as fomes da alma. Só o escuro me lembra que o tempo existe e que insiste em passar. Aqui do casulo, onde entrei lagarta, amanhã sairei borboleta e terei aprendido a voar, um pouco mais alto, um pouco mais longe, talvez um pouco mais forte.
A linha não é recta. São ziguezagues, pontos unidos por linhas acima e abaixo. Os picos são os momentos em que o coração parece querer saltar do peito. Aquele beijo que eu te dei e que tu me deste de volta no momento em que queríamos os dois. A alma a desprender-se do corpo num arrepio quando a tua boca olha a minha enquanto os teus olhos a beijam como se fossem lábios. Um aplauso sonoro, o reconhecimento de que tudo o que fizeste e choraste não foi em vão. A felicidade não se mede em tamanho nem peso. Ser feliz é ser desmesurado. Não medir, nem esperar, saltar mais alto e mais longe, sem temer o limite ou a dor. Ser feliz é um voo em queda em livre de olhos fechados e braços abertos e sorriso esborrachado contra o vento. É um mergulho que se dá sem roupa, deixando as carnes livremente flutuar. Ser feliz é não ter vergonha nem medo. Fazer o tempo todo o que se quer e não apenas o que o mundo diz que se pode. Ser feliz é simplesmente permitir-se. Felicidade é a alma gémea da liberdade.
Quando fui a Roma não vi o Papa.
Ardiam os primeiros dias de Agosto e Sua Santidade havia-se retirado para a residência de férias em Castel Gandolfo, um pequeno paraíso rural nas margens do Lago Albano, a meia hora da capital. Foi lá que se deixou avistar, numa celebração dominical do Angelus.
O recém-chegado Papa pouco tinha de novo. Bento XVI, um septuagenário, por todos era visto como “um Papa de transição”. Um Santo Padre alemão, de ar grave e austero, somava simpatias sempre que derramava a voz sobre os fiéis. Num tom de veludo, um italiano esforçado derrubava o alemão entranhado nas cordas vocais e espalhava-se pela multidão como um bálsamo.
Os instantes que antecedem o momento de avistar o Papa são de grande emoção, mesmo para um não crente. Há algo de paternal naquela figura branca de braços erguidos ao céu. Até o ateu mais convicto aceita a bênção papal com a maior paz de espírito. As mensagens de fé renovam esperanças e devolvem tranquilidade aos espíritos mais inquietos. São minutos de um calor humano quase etéreo, a multidão de olhos fixos no mesmo ponto, de ouvidos a aspirar as mesmas palavras carregadas de bem-querer. Com a força de um vírus, há uma energia que não se vê nem se explica mas que contagia sempre toda a massa humana em redor.
Quatro meses antes, nos primeiros dias de Abril de 2005, num inusitado início de Primavera triste, o mundo chorava a morte de João Paulo II. O Papa que conhecera toda a minha vida como o único, nunca mais iria aparecer na televisão. Guiada pelo histerismo mediático criado em redor, deixei-me contaminar pela tristeza da saudade imediata de quem perde um ente querido. “Morreu João Paulo II”, anunciou o jornalista. E, no instante seguinte, no meu peito despontou uma dor fininha, a garganta apertou-se de nós e os olhos inundaram-se de comoção.
Oito anos depois, a chaminé do Vaticano voltou a cuspir fumo. “É branco”, gritavam vozes eufóricas em várias línguas na ansiedade de conhecer um rosto. O resignado Bento XVI, remeteu-se ao retiro espiritual, deixando o lugar vago a um novo nome, a uma nova voz. O novo comandante da igreja católica estava eleito e em breve iria acenar da famosa janela da basílica de São Pedro. “Habemos Papam” precede o anúncio de Francisco, que surpreende tanto pelo nome como pela origem. Sorridente, o Papa jesuíta que veio da Argentina diz que o foram buscar “ao fim do mundo”. A multidão rejubila, numa empatia imediata e feliz.
Hoje, 19 de Março de 2013, a data da entronização do novo Papa Francisco coincide com a celebração do dia do pai. A ele, que não sendo pai de ninguém pode sentir-se pai de todos, os votos de um pontificado norteado pelos valores basilares da paternidade, num tempo em que esta humanidade órfã, onde me incluo, bem está carente do aconchego de um Santo Pai.
Quem nos visse juntas julgava-nos irmãs. A mesma estatura, os mesmos cabelos longos, o mesmo estilo de vestir, Levi’s e All Star de todas as cores, os mesmos ideais. Sonhávamos ser arquitectas e estudávamos para isso. Noites e noites em claro, a mesa coberta de folhas A3, lápis de várias durezas a rolar sobre o papel, borrachas brancas, réguas, esquadros e compassos misturados, os teus e os meus. Toda a geometria descritiva começava numa linha de terra de onde sabíamos fazer crescer polígonos. Régua e esquadro alinhados, lápis bem afiados, um ponto que se ligava a outro multiplicando a magia traço a traço. A cada exercício perfeito, esboçávamos sorrisos tão imaculados quanto as folhas limpas de borrões. Ouvíamos músicas calmas e nos intervalos desabafávamos os desamores. Lembras-te daquele meu primeiro amor que se apaixonou por ti enquanto tu não conseguias esquecer aquele rapaz que namorava com a miúda mais gira da escola? Porque é que os amores andam sempre tão desencontrados, perguntávamos uma à outra como se alguma de nós pudesse saber a resposta. A vida é mesmo assim, começámos a aprender naquele tempo em que tínhamos dezasseis anos. Ainda acreditávamos que podíamos ser tudo o que quiséssemos e que nada nem ninguém nos poderia travar. Acreditávamos tanto nos sonhos como na nossa amizade que julgávamos eterna. Um dia, chegámos a idealizar um pacto de sangue. Uma agulha, os nossos dedos picados a pingar gotas vermelhas, as nossas impressões digitais a carimbar um documento que garantisse a eternidade do que sentíamos uma pela outra. Aconteça o que acontecer, nunca nos iremos separar, prometíamos repetidamente. E sempre que ouvíamos os adultos contar histórias de amigos perdidos no tempo, jurávamos que isso nunca nos iria suceder. Julgávamo-nos abençoadas, amigas para sempre, só a morte teria coragem de nos apartar. Enganámo-nos. A vida enganou-nos. Trocou-nos as voltas e empurrou-nos para caminhos tão distantes e opostos que se viram incapazes de se cruzar. Não chegaste a ser arquitecta. Eu também não. Os nossos sonhos maiores desmoronaram-se como castelos de cartas ao menor sopro de vento. As casas que idealizávamos construir hoje são ruínas que ninguém quer ver. De volta ao ponto de partida, na cidade onde há muitos anos brincámos pela primeira vez, no primeiro dia da escola primária, espero por ti. Os meus olhos adultos aguardam rever o teu rosto de menina num corpo de mulher. Quando esse momento chegar, teremos trocado um punhado de juventude por dois de sabedoria. A máquina do tempo será capaz de nos fazer regressar ao passado, àquele ponto de charneira onde nos voltámos de costas para seguir em frente. Quem sabe agora voltemos a ser capazes de traçar uma linha paralela, como nos velhos tempos, uma espécie de corrimão que possa guiar-nos para prosseguirmos viagem, desta vez lado a lado.
Tarde demais. Sobravam-lhe algumas horas ou poucos minutos talvez. Ninguém sabia ao certo quanto tempo lhe restava. Nos seus olhos, dois pontos de luz, cintilava ainda uma esperança vaga e fosca em sabe-se lá o quê. Quando aquele vulto amado atravessou a porta do quarto, ela reconheceu-o logo. Por instantes, a consciência dopada em delírio voltou a si, capaz de arrancar de um rosto moribundo um último sorriso triste. Ela sabia que era chegada a hora de dizer adeus. Não era um final feliz, porque os finais nunca podem ser felizes quando alguém parte de vez. Queria ser capaz de falar. Se o conseguisse, dir-lhe-ia adeus meu amor. Mas as palavras morrem muito antes de o coração parar de bater. Ficam presas na garganta e ajudam o travar da respiração. A mão viva sobre a mão morta devolve-lhe um pensamento quente: a memória de um instante feliz. Voltar a ver aqueles olhos e sentir de novo o coração a bater, tambor descompassado, na ilusão de poder renascer. A respiração sôfrega de quem precisa de um beijo urgente e um lamento infinito: tenho de ir com vontade de ficar. Nunca soube bem se vi em ti desgraça ou sorte. Sei apenas o que senti. Uma vontade galopante de mais e mais. Hoje só queria mais tempo, mais uma noite ou apenas uma tarde daquelas em que esquecíamos o mundo debaixo dos lençóis. O meu rosto no teu peito, o cheiro a nós colado à pele e depois entranhado nas almofadas dias e dias sem fim. Os teus olhos, amor, dizem-me o que não quero ouvir. Não temos mais tempo. Não haverá mais tardes nem noites nem madrugadas. Amanhã serei nada e tu apenas silêncio vagueando pelas memórias do que fomos. Um dia fomos nós. Vidas entrelaçadas como as nossas mãos agora. Está na hora. Agora vai. Aproveita que ainda podes ser feliz. Esgota o teu tempo com sensações boas. Procura sempre a emoção. Não chores por mim, não aqui, não agora. Podes fazê-lo mais tarde, se quiseres, quando eu já não estiver a ver.