O QUE ANDO A PUBLICAR

sábado, 3 de agosto de 2013

As horas


Estamos tão certos
Como dois ponteiros
Que se encontram nas horas

Somos meia-noite
Somos meio-dia
Badalamos na euforia
De estarmos de novo juntos

Ao mesmo ritmo
Contamos segundos
E sentimos mudos
A certeza que se repete
E nos une
Cantada a badaladas

Afastados, giramos
Somos dois
E depois,
Num segundo
Pára o mundo
Para num abraço
Voltarmos a ser um só

Somos meia-noite
Somos meio-dia
Somos a pura magia
Dos breves reencontros

Havemos de trocar as voltas
Às horas da vida
Para que ela nos seja longa,
Esticada, comprida
Para sermos dias e noites pegadas
Luares e alvoradas
Até ao fim

domingo, 21 de julho de 2013

Solidões


Hoje vou contar-te
O que é a solidão

São os silêncios demasiado longos
As vozes de conforto que tardam
Os abraços demorados de chegar

São as horas e os lugares preenchidos de ausência
Pessoas fora do lugar
Que não estão onde deveriam estar

É a busca permanente de uma distracção vaga
Que apenas enche o buraco
Sem nunca ser capaz de o tapar

É ser casado com quatro paredes
Filho de pais sem colo
Órfão de filhos distantes

É o corpo perdido que sente
Toda a mente ausente

É a pergunta que alguém faz
E ninguém responde
É a dúvida suspensa no ar

A solidão
Sou eu

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Amnésia nocturna


Procuro o silêncio para pensar-te


Ou busco uma melodia triste

E choro-te baixinho



Um choro escondido de ferida exposta

Um choro abafado de almofada



A dor que me rasga o peito

É o grito que não sei dar

É a música demasiado alta

Que ecoa pela caverna funda

Onde o coração encolhido se esconde



A pele é a pauta por onde dançam as notas

Como se fossem de novo teus dedos

Arrepio-me!

E o som ganha força de pranto



Penso-te e choro-te baixinho

Batendo à porta da noite

Só ela pode acolher-me

E apagar-me a memória breve

Do que não consigo esquecer

domingo, 7 de julho de 2013

Amar salgado

O mar não sabe
Que a cada onda
Rebentas em mim
Pensamento repetido

Como um Sol
Abrasas-me
Sopro de gente

Ainda te aguardo
Abraço de gelo salgado
Salva-me a vida com beijos
Sou náufraga
Deste amor intenso, imenso
Do tamanho do mar

domingo, 30 de junho de 2013

Ocaso


Quase noite.

Espanto-me com a vida que me chega sem que a tenha chamado.

Espero as surpresas que ainda não sei com a certeza que vão chegar.

O meu corpo é a quietude do dia a pousar-me aos beijos.

Nos meus olhos, o retrato fixo da beleza do momento.

Será isto o presente?

Embrulhado, junto ao peito, levo-o ao colo para dentro.

Aqui e agora, neste abraço, só falta o que há-de vir.

Amanhã ou depois saberei o que é.

domingo, 16 de junho de 2013

Olhar Olhão


"Terraço Pizza na Pedra", 5 Julho 2013 (foto da autora)


Procuro olhar a cidade de olhos fechados, passeando pelas memórias da minha vivência de habitante. Aterrei aqui há quase trinta anos e só agora pareço começar a observar com atenção o pulsar da vida em meu redor.

Viajo de norte para sul. Lá ao fundo, uma cordilheira recorta o céu. Como se nos vigiasse dia e noite, noite e dia, sobranceiro e mudo, o cerro de São Miguel amuralha toda a planície urbana.
 Pela fortaleza de terra abaixo resvalam blocos de cimento. As casas, começam por ser poucas, depois são cada vez mais e mais e mais, até serem muitas, concentradas num aglomerado de quadradinhos no coração da cidade.
Olhão é uma terra pintada de branco onde as casas são pequenos cubos despreocupadamente sobrepostos. São centenas de quadrados imaculados vistos do céu. Numa harmonia do que é espontâneo, a beleza sobrepõe-se à desordem visual caótica.  

"Da minha varanda" (foto da autora)
A meio caminho entre a serra e o mar, uma via rápida com nome de Infante deixa viaturas velozes passar num vai e vem, cada vez menos constante, entre Espanha e todo o Algarve.
Um pouco mais abaixo, uma outra linha de estrada, uma rua gigante que se chama nacional. Como formigas em fila indiana, carros em câmara lenta tentam diariamente atravessar Olhão, entupindo-o de lés-a-lés.   
Ao mesmo tempo, uns quilómetros paralelos a sul, um apito de comboio divide a cidade ao meio.
A norte, o futuro ergue-se em direcção ao céu. Numa terra de tanto Sol, gente jovem faz crescer filhos trancados em apartamentos. Falta-lhes espaço térreo para as brincadeiras, tal como a mim me falta para soltar a rédea aos pensamentos. Desejo para eles (e para mim) um amplo lugar verdejante de sombras e ar puro. Aqui já ficava bem um parque da cidade. Tomara que as gerações vindouras tenham mais sorte. Oxalá este sonho deixe de ser apenas uma esperança de ar livre. Porque o progresso não se aloja em hotéis, nem se compra ou vende em centros comerciais, os nativos carecem de mais natureza para expandir-se.  
A sul, o passado repousa nas ruas. Descendo e subindo o túnel, vizinho da biblioteca que um dia foi hospital, abre-se diante de nós a avenida principal, guardada pelo cansaço sentado dos velhos nos bancos de madeira do passeio central. Quase todos têm rugas de mar estampadas no rosto e muitas histórias naufragadas para contar. Hoje, debaixo da sombra das tardes e das boinas de fazenda, são espectadores dos transeuntes que circulam avenida acima, avenida abaixo. Assim matam as horas que restam: distraídos pela prosa trocada com os seus compadres e com os taxistas que por aqui estacionam os carros de praça à espera de passageiros. 
Ouve-se o badalar das horas contadas pelo repicar do sino. O som parte do alto da igreja e projecta-se aos quatro ventos ecoando pelo ar. Contemplativo, há um turista que se detém estático de telemóvel em riste. A matriz da cidade, erguida à custa dos filhos pródigos, homens do mar que aqui depositaram toda a sua fé, pedra sobre pedra, merece ser fotografada. O olhar curioso de espanto foca-se no telhado do templo, onde um par de cegonhas felizes se deleita no espaço escolhido para construir o seu ninho sagrado. O castanholar pontiagudo dos seus bicos é uma melodia cúmplice que com o hábito deixámos de apreciar.
De uma das travessas laterais à igreja, surge uma senhora baixinha e acalorada, arrastando uma saca com rodinhas. Segue num passo apressado. Sigo-a ao mesmo ritmo em pensamento. O arranhar descarrilado do carrinho de compras sobre a calçada atravessa a conhecida ruas das lojas. A senhora vai saudando vizinhos e conhecidos em vagos acenares de mão. Não olha para os lados, nem espreita as montras cujos manequins já conhece de cor. Vai com a ideia fixa no almoço. Espera encontrar peixe fresco bom para assar a carvão na açoteia.
É Sábado e começam a avistar-se os mercados. As duas torres de tijolo miudinho, alaranjadas e imponentes, erguem-se perante o Sol da manhã. Um amontoado de chapéus-de-sol cobre de sombra esplanadas repletas de gente. Pessoas e carros parecem atropelar-se ao atravessar a rua. Um empregado de mesa acelerado descarrega da bandeja metálica dois galões, uma sandes de papo-seco e um café. O intervalo que medeia o mercado da fruta e o do peixe é atravessado por um festival de sons, tons e cheiros que se misturam numa atmosfera peculiar. Diante de nós, revela-se a urgência adiada de um mergulho. Num espaço de metros entre os dois edifícios, um assomo líquido cintilante: finalmente os olhos encontram a ria, a formosa maravilha, que contra o cais abraça o histórico caíque Bom Sucesso. Réplica das memórias da revolta de Olhão, que por prémio real se fez vila, por recompensa heróica aos homens que, com alma de gente e garra de bicho, expulsaram franceses e atravessaram um oceano até ao Brasil, até o Rei ser avisado.
Para lá do horizonte, o mar, barrado pelas ilhas, finos tapetes de areia que se espraiam serenos sobre a tranquilidade das águas. No ar, sempre constante, um cheiro salgado que vai perfumando tudo de fresco. Nesta cidade, que amanhece sempre de janelas escancaradas, a ria é um espelho do céu de onde parecem chover gaivotas. Asas brancas de vento que sopram gargalhadas enquanto disputam com os pescadores o seu sustento, numa convivência feliz. Aqui, onde o céu é sempre muito azul, salpicado por esparsas nuvens brancas, todas as memórias são manhãs de Sábado, tardes de praia ou noites animadas de verão.
Nessas noites, os mercados já fechados, vazios de peixe e fruta, trasvestem-se. Nas traseiras, um carreiro de bares vende o prazer da ria a copo. O povo sai à rua. Na esplanada do canto, vendem-se gelados, muitos. Há filas de gente a escolher bolas de sabores. Casais de mãos dadas vêm tomar café e arejar a rotina. Guitarras afinadas e vozes sobem ao palco. Uma banda local derrama sons modernos sobre a multidão que abana a cabeça e bate o pé. Para os que ficam até mais tarde, até a noite quase tocar o raiar do dia, as horas são segredos que só a Lua conhece e não conta a ninguém. São olhares diluídos em cerveja, desejos de paixão revelados e outros tantos por confessar.    
Agosto chega à cidade com anúncios de festa. Há cartazes por toda a parte e metade do jardim pescador olhanense isolado do mundo por tapumes. Lá dentro, esconde-se um festival de marisco. Cá fora, começam a chegar rostos bronzeados esfomeados de diversão. O tempo é de férias e de reencontros. Entre os milhares, cruzam-se olhares por toda a parte. Todos procuram um lugar onde pousar a caneca e o camarão, mesa e cadeiras para que os corpos sentados possam fruir a noite ao ritmo da música e dos sorrisos.
À beira de água, anoitece. Pássaros esvoaçam um alvoroço de pios. Procuram no escasso arvoredo um galho para pernoitar. Quando o encontram são o silêncio camuflado numa copa qualquer. Junto ao muro da ria, uma brisa amena atravessa-nos o pensamento e devolve-nos a paz.
A marginal que passa frente aos mercados envolve toda a cidade num abraço largo. Nas extremidades, rotundas. Entra-se no ontem e sai-se no amanhã. Entra-se na pesca e sai-se no recreio. Entra-se na doca e sai-se na marina. Entra-se na tradição e sai-se na modernidade. Extremos que se ligam, que convivem sem se tocar. Numa ponta, do hotel chique sai um homem fino. Na outra ponta, de uma traineira desbotada sai um velho mestre engrossado por um copo a mais, pela vida, pelo sal e pelo Sol. O mesmo Sol que ilumina adiante o Parque Natural e atrás a montanha branca que anuncia as salinas. Nos entremeios, as conserveiras - as duas que sobram, de tantas que eram – e os restaurantes, em fileira, a crescer, porta sim, porta sim. Montras de frescura com peixe exibido e ementas recheadas com xarém escondido. O quê? (que nome estranho). Xarém (repetimos o nome): as papas de milho (em árabe) que sabem bem.
Cada vez mais amiúde, um rasgo de trovão interrompe os sons da natureza, percorrendo o céu sobre a nossa cabeça. São aviões de baixo custo que trazem cada vez mais turistas carentes de Sol e de mar.
Sol e mar. A felicidade de um povo assente num binómio. Aos olhanenses de sonhos encolhidos é tudo quanto baste para uma vida boa. Apanhar a carreira das onze ao Domingo e passar a tarde na ilha é a alegria de um ano inteiro. O farol não nos pertence, mas continua a ser a nossa praia. Águas cristalinas de trópicos, ventos abafados de África, um paraíso aqui tão perto.        
Ilha do Farol (vista do barco da carreira das 11h), 28 de Julho de 2013 (foto da autora)
Regresso a terra. O meu pensamento, cansado de recordar uma cidade tão pequena que parece imensa, vem deambulando pelas ruelas da Barreta, o bairro mais antigo e típico da cidade. Imagino-me noutros tempos e em ilusões oiço os cloques atrás de mim. Sou perseguida por um enigma, uma mulher mistério que se esconde no Bioco e arrasta sapatos de ourelo*. Numa placa de madeira, vejo esse mesmo traje, uma capa de capuz negro a anunciar uma nova tasca. É a juventude a retomar a tradição, gente nova que, a empreender, toma as rédeas à cidade.   
Sou amiga dessa juventude. Pertenço a esta cidade, que não me viu nascer, tal como ela já me pertence em parte. Em nome deste amor adoptivo de filha, ofereço-te estas palavras, minha mãe, neste dia 16 de Junho em que te festejas e celebras cidade, Al-Hain**, lugar de Olham, Olhão da Restauração. 
* Sapatos de confecção caseira, que ocupava muitas mulheres em Olhão e eram vendidos nas feiras e mercados por todo o Algarve e em Setúbal.
**Olho de água em árabe. Primeira designação do lugar que viria a ser Olhão.
Para saber mais sobre Olhão:

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Felizes para sempre

No interior da pequena capela, que mais parece uma gruta encostada ao mar, não se vislumbra qualquer ornamento de luxo. Nem flores, nem laços, nem quaisquer outros adornos desnecessários. As paredes são feitas de beleza pura desgastada pelo tempo, como uma mulher bonita que envelhece só amadurecendo os traços.
Dentro de um fato negro, um noivo pálido não consegue esconder o nervoso miudinho da espera. Os pés dão passos miudinhos sobre os ténis vermelhos que destoam da fatiota. O noivo miudinho exibe um coração miudinho cheio de amor ao peito. O toque de originalidade cobre também o menino que está sentado no banco da frente. De fatinho e ténis e coração ao peito, aguarda com o mesmo nervoso miudinho a chegada da mãe, que hoje será a noiva. Os pescoços torcem-se em uníssono. A mulher de vestido branco chega como uma luz, como um sol que subitamente se destapa das nuvens. A menina de dentes miudinhos tem a cara feita num sorriso. De braço enfiado no cotovelo do pai, aproxima-se num passo regular erguendo um ramo de corações vermelhos que desejam encontrar o noivo de amor ao peito. Deparam-se e beijam-se antes como se já fosse depois. Um padre surpreendente quebra um quase silêncio de segredos baixinhos num sotaque latino-americano. Atrás dos noivos, uma pequena multidão de convidados de cabelos e trajes alinhados surpreende-se. As palavras obrigatórias vão atravessando ouvidos desatentos, detendo-se num ou noutro pormenor. “Deus não condena o sexo, desde que dentro do matrimónio”. O padre falou em sexo?, interroga-se a audiência, agora de orelhas empinadas. O discurso passeia-se pela capela e pousa nas mãos unidas, nas juras trocadas, nas alianças enfiadas, no beijo, depois, ainda mais forte do que antes.
A menina dos dentes miudinhos e sorriso grande e o rapaz miudinho do coração grande são agora marido e mulher. “Até que a morte os separe”, assegura o padre, abençoando todos os presentes.
O sonho acabou. A realidade começa agora.
Os noivos saem juntos, correm, atravessam um corredor de gente e fogem da chuva de arroz. A tradição mantém-se. Continua a ser bonito assistir à celebração do amor.




sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sou o que sou


Se ao menos alguém me conseguisse explicar a lógica de funcionamento deste espaço chamado Mundo. Mas não, até hoje não houve vivalma que me desse uma justificação plausível para certas atitudes do ser humano. Ser humano, mas o que é isso afinal de ser humano? É ser mais do que bicho? Ser mais em que aspecto? Não seria mais fácil limitarmo-nos a viver como a maioria dos animais, movidos a instintos e necessidades básicas? Ah não, nós somos mais inteligentes. Criámos regras para depois não as cumprirmos. Somos sensíveis, pois é. Inventámos sentimentos para depois passarmos metade da vida a fugir deles e a outra metade a escondê-los garganta abaixo ou olhos adentro, afogando lágrimas secas que temos vergonha de despejar. Temos medo de ser apenas o que somos. E o que somos nós? Somos aquilo em que acreditamos. Não somos o que gostaríamos de ser ou ter sido, de fazer ou ter feito, de ter tido ou vir a ter. Somos a soma de todas as escolhas que fazemos ou deixámos de fazer. Vencedores ou vencidos, depende da perspectiva. Voa mais quem está no topo de asas amarradas ou quem lá de baixo olha o céu e é livre de sonhar como deve ser bom voar? É preciso coragem para ser livre. É preciso audácia para escolher continuar livre, renunciando aos acenos de promessas de ouro que não são mais que presentes envenenados à porta da prisão. O problema é que já quase ninguém acredita em nada e por isso quase  ninguém chega a ser alguém. Nascemos com a dádiva da grande oportunidade: podemos ser o que quisermos. E no que é que nos tornamos? Naquilo que o mundo quer fazer de nós, qual ferro malhado a quente. Impor uma vontade é como dar um grito que ninguém quer ouvir. Dizer não, custa. O não sabe mal aos ouvidos. Parece feito de pregos que se vão espetando a martelo. Mas quando é essa a minha vontade e o não me sai como um alívio de gases soltos, o meu ser dá pulos de alegria porque finalmente decidiu assumir-se. E nada mais me importa quando consigo ser apenas tudo aquilo em que acredito.     
 

sábado, 27 de abril de 2013

Sevilha baila nas margens do Guadalquivir

Praça de Espanha


Sevilha é uma cidade por onde apetece passear e onde apetece viver. Logo à entrada da capital Andaluza, há requintes de perfeição que fazem os olhos sorrir. Quem cuida da cidade, sabe fazê-lo com mimos de mãe de menina. Como se fossem laços de adornar cabelos, há canteiros e colunas de vasos multicoloridos em cada praceta ou separador central da estrada que nos dá as boas vindas. O rio, de um gordo caudal esverdeado, corta ao meio a cidade, hoje unida por pontes que ligam passado e futuro. Ontem Bétis, de onde partiram naus rumo ao Novo Mundo, hoje Guadalquivir, por onde se passeiam barcos que fazem encher o olhar dos turistas de uma beleza panorâmica.

Guadalquivir

Mais do que grande, Sevilha é grandiosa, monumental. Tanto há a visitar que um só dia não chega. Mas fica o gosto de aperitivo. Abeirada ao rio, a Torre do Ouro ainda o vigia. Desta atalaia garantia-se a cidade a salvo das invasões inimigas. Agora museu marítimo, pode ser visitada e recomenda-se uma subida ao miradouro. De lá, pode assomar-se, majestosa, a catedral em todo o esplendor dos seus pináculos erguidos ao céu.
Catedral de Sevilha

Percorremos as ruas em modo pedestre e passam por nós bicicletas. Há ciclovias e pontos de aluguer por toda a cidade. A planura do chão convida a passeios em duas rodas. Um pouco adiante, cidade velha avante, o som monárquico dos cascos contra a calçada anuncia a passagem de mais um coche. Formosos cavalos brancos puxam elegantes carroças de estofos pretos e grandes rodas pintadas de amarelo. Da arquitectura à paisagem, em Sevilha tudo exibe rigores de acabamento manual. Dos varandins em ferro minuciosamente trabalhados aos vasos de flores nas janelas, há uma inesgotável obsessão pelo detalhe, uma luta cega pela perfeição que todo o turista agradece. Populosa mas organizada, cosmopolita mas histórica, na cidade impera a ordem, reina a limpeza, o que enobrece a beleza de cada pormenor.
 
Entramos na Catedral de Sevilha. Vale a pena visitar o maior templo gótico do mundo, distinguido pela UNESCO como património da humanidade. Lá fora, ficaram mulheres com ar de ciganas que nos seduzem com rosmaninho. “Un regalo”, anunciam de raminho na mão, mirando de seguida ganhar uns trocos a ler-nos a sina. Cá dentro, sentimo-nos pequenos, esmagados pela grandiosidade das cúpulas, vitrais e peças de arte sacra feitas num tempo em que os homens não tinham pressa. Uma pausa para almoço. Comemos paelha e filetes de pescada, para fugir às tradicionais tapas. Ao contrário do que se diz, aqui não se come mal. Só não há moderação no consumo de fritos e os nossos estômagos reclamam. O início da tarde apanha-nos de barriga cheia. De volta à rua, um calor molengão só convida à preguiça. Aqui em Sevilha, o bafo vespertino é como um sopro africano que só esmorece à sombra de uma árvore centenária ou diluído num copo de bebida gelada. E ainda só é Primavera… Fugimos à brasa, refugiando-nos no acolhimento do Real Alcazar. O piso térreo e os jardins dos aposentos reais podem ser visitados e admirados. De inequívoca influência árabe, o palácio detém um estilo inconfundível de rara beleza.



Real Alcazar
De regresso ao ar livre, deambulamos pelos labirintos arabescos que formam as ruelas do bairro de Santa Cruz. Aqui o sol não entra. Há vielas com pouco mais de um metro de largura. O ar é mais fresco rente a estas casas de paredes brancas e janelas floridas. Aqui e acolá há lojas de portas abertas vendendo “recuerdos”. Porta sim, porta sim, há aventais aos folhos, castanholas e leques que acenam a quem passa, à espera de um freguês que os leve. Quase tudo o que podemos levar de recordação nos remete para as populares sevilhanas. As morenas “guapas” que rodopiam folhos batendo saltos, abrindo e fechando leques em trejeitos sensuais, continuam a ser o ícone da cidade. Já falta pouco para a luz do dia começar a esmorecer, mas ainda há tempo para mais duas paragens emblemáticas. Sempre a pé, atravessamos as amplas avenidas, onde nunca faltam os espaços verdes, e chegamos à entrada do Parque Maria Luísa. Um imenso pulmão no coração da cidade, de onde emerge a monumental Praça de Espanha. Não dá para descrever, é preciso ver para dignificar o sentido do belo, a harmonia estética que, à semelhança da mãe natureza, só a arquitectura sabe conceber. Despedimo-nos desta breve visita admirando o tesouro mais adorado de Sevilha. A virgem da esperança, designada “La Macarena”, está exposta na Basílica com o mesmo nome e só sai à rua na madrugada de sexta-feira santa, na procissão mais popular e fervorosa de Espanha. Ainda não é noite e temos pena de partir. Ao vermos Sevilha ficar para trás sobra-nos a vontade de regressar. Esta cidade merece tempo para ser olhada e recordada até à impossibilidade do esquecimento.

domingo, 14 de abril de 2013

Primavera


Lá fora, iluminada e quente, a natureza já canta e os sorrisos regressam mascarados aos rostos saudosos de cor. Não há tristeza que se consiga impor à alegria transbordante da vida mais despida e leve. Os corpos vaidosos, mais ou menos belos, vagueiam vadios. Portas escancaradas apontam o caminho da rua como o da salvação. De todas as casas onde mora gente vêem-se sair pernas ligeiras em fuga. Rumam para algum lugar, mais longe ou mais perto, ao ar livre. São como sofridos prisioneiros libertados de um longo jejum de luz e calor. A chama renascida do sol faz explodir a vontade. Troca-se o cinzento dos dias pelo azul do céu, pelo azul do mar. Troca-se as gotas de chuva por raios de sol e os centros comerciais por esplanadas plantadas na areia. Troca-se o mau pelo bom humor e até os corpos flácidos e sedentários querem ser trocados por outros, como num truque de magia. Enquanto se abre e fecha os olhos, um todo-poderoso esvazia pneus e faz nascer músculos emergentes como cogumelos selvagens. Este tempo é doce; sabe a gelados lambidos com o prazer tranquilo das tardes grandes. Este tempo é de união; junta amigos à volta de uma mesa cheia de palavras soltas e garrafas vazias. A língua desenrola-se, a pele revela-se e os pés descalços podem voltar a pisar a areia sem medo. Os corpos libertados são mais felizes, só porque o ar se respira com conforto. Lá fora, elas já voam e nos tectos das varandas já nascem ninhos. As andorinhas não se enganam, agora é que é: chegou a Primavera.

domingo, 7 de abril de 2013

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam*


Alice acaba de ver um filme inspirador e detém-se a pensar. No conforto silencioso da sua casa, a madrugada vai entrando sem trazer o sono. Traz porém lembranças de dias distantes, que parecem agora mais próximos que nunca à meia-luz do candeeiro de canto que confere à sala um calor de lareira improvisado. A Primavera, já anunciada, faz-se demorar com requintes de malvadez, para gáudio do pijama e das meias de lã que persistem colados ao corpo como as ideias à mente. “Quantas pessoas conheço hoje que não faziam parte da minha vida há cinco anos?”, pensa subitamente Alice, de si para si, tentando vislumbrar rostos através da ténue cortina do pensamento. E não tarda em irromper uma miragem daquele sorriso, hoje tão presente, daquele semblante com cheiro a beleza que agora lhe preenche os dias. E como pipocas a saltar do tacho, começam a explodir nomes e faces e vozes de todas as pessoas que ontem não eram sequer personagens imaginárias e hoje são presenças de carne e osso. Ligadas por um traço comum, todas surgiram no seu caminho por mero acaso, reflete Alice. Sem que tivesse feito o menor esforço para as encontrar, cada uma daquelas vidas cruzou-se com a sua num qualquer instante sem hora marcada. Bastava que no dia x não tivesse escolhido o caminho z e tudo teria sido diferente. Agora, fora do tempo em que os encontros acontecem, cada uma daquelas pessoas revelava-se uma valiosa peça de um enorme puzzle em construção. Como um novelo desenrolado, as ideias foram rebolando pelas horas tardias. “Se eu não tivesse conhecido o José, não teria feito aquela viagem. E se não tivesse feito aquela viagem jamais teria conhecido a Maria que hoje me faz tão feliz”, lembra-se de ter pensado antes de cerrar as pálpebras sobre os olhos. E foi coberta pela manta de pensamentos que adormeceu desengonçada no sofá. E foi quentinha que se ergueu, livre de dores e rabugice, despertada pelos beijos da manhã, ternamente pousados no seu rosto pelos primeiros raios de sol. *José Saramago, O livro dos itinerários, epígrafe de “A viagem do elefante”.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ociosidades


Hoje serei crisálida. Vou arrancar do pulso o conta horas, libertar os pés de meias e sapatos e, como quem se alivia de um peso de chumbo, atirar o corpo inerte contra a moleza do colchão. Enquanto me esvazio de sons, vou deixar o pensamento afundar-se numa almofada de sonhos. Vou ignorar cada ruído até o ar ser só silêncio possível de respirar. Vou esconder os olhos da luz do dia e deixar correr a persiana que me separa do mundo lá fora. Ao parar de contar, começo a sentir. Duas horas de vagar são muito mais que cinco horas de pressa. O tempo espreguiça-se prolongando a tarde num dia inteiro. Sinto cada minuto durar o tempo de um prazer. E os prazeres são eternos, só eles sabem estender-se no repouso infinito da memória. Levanto-me de um sono leve oferecendo sorrisos às paredes. Ainda é dia e os móveis estão pintados de cores mais alegres a esta hora. De corpo enroscado no calor de um robe, piso o frio do chão com os bicos dos pés até às páginas de um livro abandonado. Aconchegada num conforto de sofá, sorvo cada palavra como se bebesse um saber líquido que refresca a mente e alimenta as fomes da alma. Só o escuro me lembra que o tempo existe e que insiste em passar. Aqui do casulo, onde entrei lagarta, amanhã sairei borboleta e terei aprendido a voar, um pouco mais alto, um pouco mais longe, talvez um pouco mais forte.