Os amigos
encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são
quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um
amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um
acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara
descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo
que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra
firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e
asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e
transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos
e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham
um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade.
Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as
dores que a vida teima em nos infligir. Cair nos braços de um amigo é um
descanso. É como mergulhar no mar da tranquilidade onde haverá sempre uma
jangada pronta para nos salvar. Por um amigo, esquecemos passados e inventamos
futuros. Não nos interessa quem foi nem o que fez, mas quem é e o que faz aqui
e agora. Os amigos não se esquecem uns dos outros. Apenas há pessoas que se
esquecem de si, ao permitirem ser possível que tudo se sobreponha ao prazer que
dá reencontrar um amigo. E as férias são nossas amigas porque, ao
reencontrarmo-nos, nos lembramos de como é bom ter tempo para reencontrar a
amizade.
"Terraço Pizza na Pedra", 5 Julho 2013 (foto da autora)
Procuro olhar a cidade de olhos
fechados, passeando pelas memórias da minha vivência de habitante. Aterrei aqui
há quase trinta anos e só agora pareço começar a observar com atenção o pulsar
da vida em meu redor.
Viajo de norte para sul. Lá ao
fundo, uma cordilheira recorta o céu. Como se nos vigiasse dia e noite, noite e
dia, sobranceiro e mudo, o cerro de São Miguel amuralha toda a planície urbana.
Pela fortaleza de terra abaixo
resvalam blocos de cimento. As casas, começam por ser poucas, depois são cada
vez mais e mais e mais, até serem muitas, concentradas num aglomerado de
quadradinhos no coração da cidade.
Olhão é uma terra pintada de branco
onde as casas são pequenos cubos despreocupadamente sobrepostos. São centenas
de quadrados imaculados vistos do céu. Numa harmonia do que é espontâneo, a
beleza sobrepõe-se à desordem visual caótica.
"Da minha varanda" (foto da autora)
A meio caminho entre a serra e o
mar, uma via rápida com nome de Infante deixa viaturas velozes passar num vai e
vem, cada vez menos constante, entre Espanha e todo o Algarve.
Um pouco mais abaixo, uma outra
linha de estrada, uma rua gigante que se chama nacional. Como formigas em fila
indiana, carros em câmara lenta tentam diariamente atravessar Olhão, entupindo-o
de lés-a-lés.
Ao mesmo tempo, uns quilómetros
paralelos a sul, um apito de comboio divide a cidade ao meio.
A norte, o futuro ergue-se em
direcção ao céu. Numa terra de tanto Sol, gente jovem faz crescer filhos
trancados em apartamentos. Falta-lhes espaço térreo para as brincadeiras, tal
como a mim me falta para soltar a rédea aos pensamentos. Desejo para eles (e
para mim) um amplo lugar verdejante de sombras e ar puro. Aqui já ficava bem um
parque da cidade. Tomara que as gerações vindouras tenham mais sorte. Oxalá
este sonho deixe de ser apenas uma esperança de ar livre. Porque o progresso
não se aloja em hotéis, nem se compra ou vende em centros comerciais, os
nativos carecem de mais natureza para expandir-se.
A sul, o passado repousa nas ruas.
Descendo e subindo o túnel, vizinho da biblioteca que um dia foi hospital,
abre-se diante de nós a avenida principal, guardada pelo cansaço sentado dos
velhos nos bancos de madeira do passeio central. Quase todos têm rugas de mar
estampadas no rosto e muitas histórias naufragadas para contar. Hoje, debaixo
da sombra das tardes e das boinas de fazenda, são espectadores dos transeuntes
que circulam avenida acima, avenida abaixo. Assim matam as horas que restam:
distraídos pela prosa trocada com os seus compadres e com os taxistas que por
aqui estacionam os carros de praça à espera de passageiros.
Ouve-se o badalar das horas
contadas pelo repicar do sino. O som parte do alto da igreja e projecta-se aos
quatro ventos ecoando pelo ar. Contemplativo, há um turista que se detém
estático de telemóvel em riste. A matriz da cidade, erguida à custa dos filhos
pródigos, homens do mar que aqui depositaram toda a sua fé, pedra sobre pedra,
merece ser fotografada. O olhar curioso de espanto foca-se no telhado do
templo, onde um par de cegonhas felizes se deleita no espaço escolhido para
construir o seu ninho sagrado. O castanholar pontiagudo dos seus bicos é uma
melodia cúmplice que com o hábito deixámos de apreciar.
De uma das travessas laterais à
igreja, surge uma senhora baixinha e acalorada, arrastando uma saca com
rodinhas. Segue num passo apressado. Sigo-a ao mesmo ritmo em pensamento. O
arranhar descarrilado do carrinho de compras sobre a calçada atravessa a
conhecida ruas das lojas. A senhora vai saudando vizinhos e conhecidos em vagos
acenares de mão. Não olha para os lados, nem espreita as montras cujos
manequins já conhece de cor. Vai com a ideia fixa no almoço. Espera encontrar
peixe fresco bom para assar a carvão na açoteia.
É Sábado e começam a avistar-se os
mercados. As duas torres de tijolo miudinho, alaranjadas e imponentes,
erguem-se perante o Sol da manhã. Um amontoado de chapéus-de-sol cobre de
sombra esplanadas repletas de gente. Pessoas e carros parecem atropelar-se ao
atravessar a rua. Um empregado de mesa acelerado descarrega da bandeja metálica
dois galões, uma sandes de papo-seco e um café. O intervalo que medeia o
mercado da fruta e o do peixe é atravessado por um festival de sons, tons e
cheiros que se misturam numa atmosfera peculiar. Diante de nós, revela-se a
urgência adiada de um mergulho. Num espaço de metros entre os dois edifícios,
um assomo líquido cintilante: finalmente os olhos encontram a ria, a formosa
maravilha, que contra o cais abraça o histórico caíque Bom Sucesso. Réplica das
memórias da revolta de Olhão, que por prémio real se fez vila, por recompensa heróica
aos homens que, com alma de gente e garra de bicho, expulsaram franceses e
atravessaram um oceano até ao Brasil, até o Rei ser avisado.
Para lá do horizonte, o mar, barrado pelas
ilhas, finos tapetes de areia que se espraiam serenos sobre a tranquilidade das
águas. No ar, sempre constante, um cheiro salgado que vai perfumando tudo de
fresco. Nesta cidade, que amanhece sempre de janelas escancaradas, a ria é um
espelho do céu de onde parecem chover gaivotas. Asas brancas de vento que
sopram gargalhadas enquanto disputam com os pescadores o seu sustento, numa
convivência feliz. Aqui, onde o céu é sempre muito azul, salpicado por esparsas
nuvens brancas, todas as memórias são manhãs de Sábado, tardes de praia ou
noites animadas de verão.
Nessas noites, os mercados já
fechados, vazios de peixe e fruta, trasvestem-se. Nas traseiras, um carreiro de
bares vende o prazer da ria a copo. O povo sai à rua. Na esplanada do canto,
vendem-se gelados, muitos. Há filas de gente a escolher bolas de sabores.
Casais de mãos dadas vêm tomar café e arejar a rotina. Guitarras afinadas e
vozes sobem ao palco. Uma banda local derrama sons modernos sobre a multidão
que abana a cabeça e bate o pé. Para os que ficam até mais tarde, até a noite
quase tocar o raiar do dia, as horas são segredos que só a Lua conhece e não
conta a ninguém. São olhares diluídos em cerveja, desejos de paixão revelados e
outros tantos por confessar.
Agosto chega à cidade com anúncios
de festa. Há cartazes por toda a parte e metade do jardim pescador olhanense
isolado do mundo por tapumes. Lá dentro, esconde-se um festival de marisco. Cá
fora, começam a chegar rostos bronzeados esfomeados de diversão. O tempo é de
férias e de reencontros. Entre os milhares, cruzam-se olhares por toda a parte.
Todos procuram um lugar onde pousar a caneca e o camarão, mesa e cadeiras para
que os corpos sentados possam fruir a noite ao ritmo da música e dos sorrisos.
À beira de água, anoitece. Pássaros
esvoaçam um alvoroço de pios. Procuram no escasso arvoredo um galho para
pernoitar. Quando o encontram são o silêncio camuflado numa copa qualquer.
Junto ao muro da ria, uma brisa amena atravessa-nos o pensamento e devolve-nos
a paz.
A marginal que passa frente aos
mercados envolve toda a cidade num abraço largo. Nas extremidades, rotundas.
Entra-se no ontem e sai-se no amanhã. Entra-se na pesca e sai-se no recreio.
Entra-se na doca e sai-se na marina. Entra-se na tradição e sai-se na
modernidade. Extremos que se ligam, que convivem sem se tocar. Numa ponta, do
hotel chique sai um homem fino. Na outra ponta, de uma traineira desbotada sai
um velho mestre engrossado por um copo a mais, pela vida, pelo sal e pelo Sol.
O mesmo Sol que iluminaadiante o Parque Natural
e atrás a montanha branca que anuncia as salinas. Nos entremeios, as
conserveiras - as duas que sobram, de tantas que eram – e os restaurantes, em
fileira, a crescer, porta sim, porta sim. Montras de frescura com peixe exibido
e ementasrecheadas com xarém escondido. O quê?
(que nome estranho). Xarém (repetimos o nome): as papas de milho (em árabe) que
sabem bem.
Cada vez mais amiúde, um rasgo de
trovão interrompe os sons da natureza, percorrendo o céu sobre a nossa cabeça.
São aviões de baixo custo que trazem cada vez mais turistas carentes de Sol e
de mar.
Sol e mar. A felicidade de um povo
assente num binómio. Aos olhanenses de sonhos encolhidos é tudo quanto baste
para uma vida boa. Apanhar a carreira das onze ao Domingo e passar a tarde na
ilha é a alegria de um ano inteiro. O farol não nos pertence, mas continua a
ser a nossa praia. Águas cristalinas de trópicos, ventos abafados de África, um
paraíso aqui tão perto.
Ilha do Farol (vista do barco da carreira das 11h), 28 de Julho de 2013 (foto da autora)
Regresso a terra. O meu pensamento,
cansado de recordar uma cidade tão pequena que parece imensa, vem deambulando
pelas ruelas da Barreta, o bairro mais antigo e típico da cidade. Imagino-me noutros
tempos e em ilusões oiço os cloques atrás de mim. Sou perseguida por um enigma,
uma mulher mistério que se esconde no Bioco e arrasta sapatos de ourelo*. Numa
placa de madeira, vejo esse mesmo traje, uma capa de capuz negro a anunciar uma
nova tasca. É a juventude a retomar a tradição, gente nova que, a empreender,
toma as rédeas à cidade.
Sou amiga dessa juventude. Pertenço
a esta cidade, que não me viu nascer, tal como ela já me pertence em parte. Em nome
deste amor adoptivo de filha, ofereço-te estas palavras, minha mãe, neste dia 16
de Junho em que te festejas e celebras cidade, Al-Hain**, lugar de Olham, Olhão
da Restauração.
* Sapatos de confecção
caseira, que ocupava muitas mulheres em Olhão e eram vendidos nas feiras e
mercados por todo o Algarve e em Setúbal.
**Olho de água em
árabe. Primeira designação do lugar que viria a ser Olhão.
No interior da pequena capela, que mais parece uma gruta encostada ao mar, não se vislumbra qualquer ornamento de luxo. Nem flores, nem laços, nem quaisquer outros adornos desnecessários. As paredes são feitas de beleza pura desgastada pelo tempo, como uma mulher bonita que envelhece só amadurecendo os traços.
Dentro de um fato negro, um noivo pálido não consegue esconder o nervoso miudinho da espera. Os pés dão passos miudinhos sobre os ténis vermelhos que destoam da fatiota. O noivo miudinho exibe um coração miudinho cheio de amor ao peito. O toque de originalidade cobre também o menino que está sentado no banco da frente. De fatinho e ténis e coração ao peito, aguarda com o mesmo nervoso miudinho a chegada da mãe, que hoje será a noiva. Os pescoços torcem-se em uníssono. A mulher de vestido branco chega como uma luz, como um sol que subitamente se destapa das nuvens. A menina de dentes miudinhos tem a cara feita num sorriso. De braço enfiado no cotovelo do pai, aproxima-se num passo regular erguendo um ramo de corações vermelhos que desejam encontrar o noivo de amor ao peito. Deparam-se e beijam-se antes como se já fosse depois. Um padre surpreendente quebra um quase silêncio de segredos baixinhos num sotaque latino-americano. Atrás dos noivos, uma pequena multidão de convidados de cabelos e trajes alinhados surpreende-se. As palavras obrigatórias vão atravessando ouvidos desatentos, detendo-se num ou noutro pormenor. “Deus não condena o sexo, desde que dentro do matrimónio”. O padre falou em sexo?, interroga-se a audiência, agora de orelhas empinadas. O discurso passeia-se pela capela e pousa nas mãos unidas, nas juras trocadas, nas alianças enfiadas, no beijo, depois, ainda mais forte do que antes.
A menina dos dentes miudinhos e sorriso grande e o rapaz miudinho do coração grande são agora marido e mulher. “Até que a morte os separe”, assegura o padre, abençoando todos os presentes.
O sonho acabou. A realidade começa agora.
Os noivos saem juntos, correm, atravessam um corredor de gente e fogem da chuva de arroz. A tradição mantém-se. Continua a ser bonito assistir à celebração do amor.
Se ao menos alguém me conseguisse explicar a lógica de funcionamento deste espaço chamado Mundo. Mas não, até hoje não houve vivalma que me desse uma justificação plausível para certas atitudes do ser humano. Ser humano, mas o que é isso afinal de ser humano? É ser mais do que bicho? Ser mais em que
aspecto? Não seria mais fácil limitarmo-nos a viver como a maioria dos
animais, movidos a instintos e necessidades básicas? Ah não, nós somos mais
inteligentes. Criámos regras para depois não as cumprirmos. Somos sensíveis,
pois é. Inventámos sentimentos para depois passarmos metade da vida a fugir
deles e a outra metade a escondê-los garganta abaixo ou olhos adentro, afogando
lágrimas secas que temos vergonha de despejar. Temos medo de ser apenas
o que somos. E o que somos nós? Somos aquilo em que acreditamos. Não somos o
que gostaríamos de ser ou ter sido, de fazer ou ter feito, de ter tido ou vir a
ter. Somos a soma de todas as escolhas que fazemos ou deixámos de fazer.
Vencedores ou vencidos, depende da perspectiva. Voa mais quem está no topo de
asas amarradas ou quem lá de baixo olha o céu e é livre de sonhar como
deve ser bom voar? É preciso coragem para ser livre. É preciso audácia para
escolher continuar livre, renunciando aos acenos de promessas de ouro que não
são mais que presentes envenenados à porta da prisão. O problema é que já quase
ninguém acredita em nada e por isso quaseninguém chega a ser alguém. Nascemos com a dádiva da grande
oportunidade: podemos ser o que quisermos. E no que é que nos tornamos? Naquilo
que o mundo quer fazer de nós, qual ferro malhado a quente. Impor uma vontade é
como dar um grito que ninguém quer ouvir. Dizer não, custa. O não sabe mal aos
ouvidos. Parece feito de pregos que se vão espetando a martelo. Mas quando é
essa a minha vontade e o não me sai como um alívio de gases soltos, o meu ser
dá pulos de alegria porque finalmente decidiu assumir-se. E nada mais me
importa quando consigo ser apenas tudo aquilo em que acredito.
Sevilha é uma cidade
por onde apetece passear e onde apetece viver. Logo à entrada da capital
Andaluza, há requintes de perfeição que fazem os olhos sorrir. Quem cuida da
cidade, sabe fazê-lo com mimos de mãe de menina. Como se fossem laços de
adornar cabelos, há canteiros e colunas de vasos multicoloridos em cada praceta
ou separador central da estrada que nos dá as boas vindas. O rio, de um gordo
caudal esverdeado, corta ao meio a cidade, hoje unida por pontes que ligam
passado e futuro. Ontem Bétis, de onde partiram naus rumo ao Novo Mundo, hoje
Guadalquivir, por onde se passeiam barcos que fazem encher o olhar dos turistas
de uma beleza panorâmica.
Guadalquivir
Mais do que grande, Sevilha é
grandiosa, monumental. Tanto há a visitar que um só dia não chega. Mas fica o
gosto de aperitivo. Abeirada ao rio, a Torre do Ouro ainda o vigia. Desta
atalaia garantia-se a cidade a salvo das invasões inimigas. Agora museu
marítimo, pode ser visitada e recomenda-se uma subida ao miradouro. De lá, pode
assomar-se, majestosa, a catedral em todo o esplendor dos seus pináculos
erguidos ao céu.
Catedral de Sevilha
Percorremos as ruas em modo pedestre e passam por nós bicicletas. Há ciclovias e pontos de aluguer por toda a cidade. A planura do chão convida a passeios em duas rodas. Um pouco adiante, cidade velha avante, o som monárquico dos cascos contra a calçada anuncia a passagem de mais um coche. Formosos cavalos brancos puxam elegantes carroças de estofos pretos e grandes rodas pintadas de amarelo.
Da arquitectura à paisagem, em Sevilha tudo exibe rigores de acabamento manual. Dos varandins em ferro minuciosamente trabalhados aos vasos de flores nas janelas, há uma inesgotável obsessão pelo detalhe, uma luta cega pela perfeição que todo o turista agradece. Populosa mas organizada, cosmopolita mas histórica, na cidade impera a ordem, reina a limpeza, o que enobrece a beleza de cada pormenor.
Entramos na Catedral de Sevilha. Vale a pena visitar o maior templo gótico do mundo, distinguido pela UNESCO como património da humanidade. Lá fora, ficaram mulheres com ar de ciganas que nos seduzem com rosmaninho. “Un regalo”, anunciam de raminho na mão, mirando de seguida ganhar uns trocos a ler-nos a sina. Cá dentro, sentimo-nos pequenos, esmagados pela grandiosidade das cúpulas, vitrais e peças de arte sacra feitas num tempo em que os homens não tinham pressa.
Uma pausa para almoço. Comemos paelha e filetes de pescada, para fugir às tradicionais tapas. Ao contrário do que se diz, aqui não se come mal. Só não há moderação no consumo de fritos e os nossos estômagos reclamam. O início da tarde apanha-nos de barriga cheia. De volta à rua, um calor molengão só convida à preguiça. Aqui em Sevilha, o bafo vespertino é como um sopro africano que só esmorece à sombra de uma árvore centenária ou diluído num copo de bebida gelada. E ainda só é Primavera…
Fugimos à brasa, refugiando-nos no acolhimento do Real Alcazar. O piso térreo e os jardins dos aposentos reais podem ser visitados e admirados. De inequívoca influência árabe, o palácio detém um estilo inconfundível de rara beleza.
Real Alcazar
De regresso ao ar livre, deambulamos pelos labirintos arabescos que formam as ruelas do bairro de Santa Cruz. Aqui o sol não entra. Há vielas com pouco mais de um metro de largura. O ar é mais fresco rente a estas casas de paredes brancas e janelas floridas. Aqui e acolá há lojas de portas abertas vendendo “recuerdos”. Porta sim, porta sim, há aventais aos folhos, castanholas e leques que acenam a quem passa, à espera de um freguês que os leve. Quase tudo o que podemos levar de recordação nos remete para as populares sevilhanas. As morenas “guapas” que rodopiam folhos batendo saltos, abrindo e fechando leques em trejeitos sensuais, continuam a ser o ícone da cidade.
Já falta pouco para a luz do dia começar a esmorecer, mas ainda há tempo para mais duas paragens emblemáticas. Sempre a pé, atravessamos as amplas avenidas, onde nunca faltam os espaços verdes, e chegamos à entrada do Parque Maria Luísa. Um imenso pulmão no coração da cidade, de onde emerge a monumental Praça de Espanha. Não dá para descrever, é preciso ver para dignificar o sentido do belo, a harmonia estética que, à semelhança da mãe natureza, só a arquitectura sabe conceber.
Despedimo-nos desta breve visita admirando o tesouro mais adorado de Sevilha. A virgem da esperança, designada “La Macarena”, está exposta na Basílica com o mesmo nome e só sai à rua na madrugada de sexta-feira santa, na procissão mais popular e fervorosa de Espanha.
Ainda não é noite e temos pena de partir. Ao vermos Sevilha ficar para trás sobra-nos a vontade de regressar. Esta cidade merece tempo para ser olhada e recordada até à impossibilidade do esquecimento.