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terça-feira, 10 de setembro de 2013

"O mordomo"

Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei.  

Cecil é o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama, “O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a roupa para lavar na máquina: os brancos e os de cor. Martin Luther King teve um dia “um sonho” que se tornou realidade. E a vida do mordomo Cecil deu-lhe tempo para, de lágrimas nos olhos e gravata de Kennedy ao pescoço, ter a honra de conhecer o primeiro presidente negro da história do seu país. A banda sonora do português Rodrigo Leão é sublime, jamais se sobrepondo ao protagonismo do elenco. E Oprah Winfrey, poderosa como sempre.


Título original: “The butler” (baseado numa história real)

Duração: 132 minutos

Realizador: Lee Daniels

Banda sonora: Rodrigo Leão

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., John Cusak, Robin Williams, Jane Fonda, Mariah Carey, entre muitos outros. 


       

domingo, 8 de setembro de 2013

Anos apressados


Nasci tarde demais
Num corpo de trinta anos
E eu que tinha tantos planos

Despertei tarde demais
Para desfazer desenganos
E eu que tinha tantos planos

Tantos e cada vez mais

Cresci cedo demais
A correr pelos anos
A passos largos, sem vagar
Afinal eram tantos os planos
Tantos que não podiam esperar

terça-feira, 27 de agosto de 2013

És segredo


A falta que me fazes
E que não sei explicar
É este poema

Trago um peso pendurado ao peito
Que se desprende num suspiro
E mesmo assim não conhece alívio

Continuo seguindo os teus passos
Como se te procurasse
Como se te quisesse encontrar

Em toda a parte
Vejo-te onde não existes
Reflexo omnipresente
Estás até onde não estás

Levo-te e trago-te em mim
Preso em silêncio
Mudo e secreto
Meu inconfessável amor

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Verão da amizade

Os amigos encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade. Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as dores que a vida teima em nos infligir. Cair nos braços de um amigo é um descanso. É como mergulhar no mar da tranquilidade onde haverá sempre uma jangada pronta para nos salvar. Por um amigo, esquecemos passados e inventamos futuros. Não nos interessa quem foi nem o que fez, mas quem é e o que faz aqui e agora. Os amigos não se esquecem uns dos outros. Apenas há pessoas que se esquecem de si, ao permitirem ser possível que tudo se sobreponha ao prazer que dá reencontrar um amigo. E as férias são nossas amigas porque, ao reencontrarmo-nos, nos lembramos de como é bom ter tempo para reencontrar a amizade.     

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Deserto feliz


Juro-te nunca mais
Implorando-te para sempre
Sermos esta poesia
De sangue quente
Na noite fria
Eternamente, eternamente

Quantas vezes me basta
Esse olhar, só esse olhar
Para viajar, viajar
Sem rumo nem tempo

És um destino incerto
E eu ponto de partida,
Bilhete só de ida,
Para um lugar deserto
Um futuro chamado vida

sábado, 3 de agosto de 2013

As horas


Estamos tão certos
Como dois ponteiros
Que se encontram nas horas

Somos meia-noite
Somos meio-dia
Badalamos na euforia
De estarmos de novo juntos

Ao mesmo ritmo
Contamos segundos
E sentimos mudos
A certeza que se repete
E nos une
Cantada a badaladas

Afastados, giramos
Somos dois
E depois,
Num segundo
Pára o mundo
Para num abraço
Voltarmos a ser um só

Somos meia-noite
Somos meio-dia
Somos a pura magia
Dos breves reencontros

Havemos de trocar as voltas
Às horas da vida
Para que ela nos seja longa,
Esticada, comprida
Para sermos dias e noites pegadas
Luares e alvoradas
Até ao fim

domingo, 21 de julho de 2013

Solidões


Hoje vou contar-te
O que é a solidão

São os silêncios demasiado longos
As vozes de conforto que tardam
Os abraços demorados de chegar

São as horas e os lugares preenchidos de ausência
Pessoas fora do lugar
Que não estão onde deveriam estar

É a busca permanente de uma distracção vaga
Que apenas enche o buraco
Sem nunca ser capaz de o tapar

É ser casado com quatro paredes
Filho de pais sem colo
Órfão de filhos distantes

É o corpo perdido que sente
Toda a mente ausente

É a pergunta que alguém faz
E ninguém responde
É a dúvida suspensa no ar

A solidão
Sou eu

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Amnésia nocturna


Procuro o silêncio para pensar-te


Ou busco uma melodia triste

E choro-te baixinho



Um choro escondido de ferida exposta

Um choro abafado de almofada



A dor que me rasga o peito

É o grito que não sei dar

É a música demasiado alta

Que ecoa pela caverna funda

Onde o coração encolhido se esconde



A pele é a pauta por onde dançam as notas

Como se fossem de novo teus dedos

Arrepio-me!

E o som ganha força de pranto



Penso-te e choro-te baixinho

Batendo à porta da noite

Só ela pode acolher-me

E apagar-me a memória breve

Do que não consigo esquecer

domingo, 7 de julho de 2013

Amar salgado

O mar não sabe
Que a cada onda
Rebentas em mim
Pensamento repetido

Como um Sol
Abrasas-me
Sopro de gente

Ainda te aguardo
Abraço de gelo salgado
Salva-me a vida com beijos
Sou náufraga
Deste amor intenso, imenso
Do tamanho do mar

domingo, 30 de junho de 2013

Ocaso


Quase noite.

Espanto-me com a vida que me chega sem que a tenha chamado.

Espero as surpresas que ainda não sei com a certeza que vão chegar.

O meu corpo é a quietude do dia a pousar-me aos beijos.

Nos meus olhos, o retrato fixo da beleza do momento.

Será isto o presente?

Embrulhado, junto ao peito, levo-o ao colo para dentro.

Aqui e agora, neste abraço, só falta o que há-de vir.

Amanhã ou depois saberei o que é.

domingo, 16 de junho de 2013

Olhar Olhão


"Terraço Pizza na Pedra", 5 Julho 2013 (foto da autora)


Procuro olhar a cidade de olhos fechados, passeando pelas memórias da minha vivência de habitante. Aterrei aqui há quase trinta anos e só agora pareço começar a observar com atenção o pulsar da vida em meu redor.

Viajo de norte para sul. Lá ao fundo, uma cordilheira recorta o céu. Como se nos vigiasse dia e noite, noite e dia, sobranceiro e mudo, o cerro de São Miguel amuralha toda a planície urbana.
 Pela fortaleza de terra abaixo resvalam blocos de cimento. As casas, começam por ser poucas, depois são cada vez mais e mais e mais, até serem muitas, concentradas num aglomerado de quadradinhos no coração da cidade.
Olhão é uma terra pintada de branco onde as casas são pequenos cubos despreocupadamente sobrepostos. São centenas de quadrados imaculados vistos do céu. Numa harmonia do que é espontâneo, a beleza sobrepõe-se à desordem visual caótica.  

"Da minha varanda" (foto da autora)
A meio caminho entre a serra e o mar, uma via rápida com nome de Infante deixa viaturas velozes passar num vai e vem, cada vez menos constante, entre Espanha e todo o Algarve.
Um pouco mais abaixo, uma outra linha de estrada, uma rua gigante que se chama nacional. Como formigas em fila indiana, carros em câmara lenta tentam diariamente atravessar Olhão, entupindo-o de lés-a-lés.   
Ao mesmo tempo, uns quilómetros paralelos a sul, um apito de comboio divide a cidade ao meio.
A norte, o futuro ergue-se em direcção ao céu. Numa terra de tanto Sol, gente jovem faz crescer filhos trancados em apartamentos. Falta-lhes espaço térreo para as brincadeiras, tal como a mim me falta para soltar a rédea aos pensamentos. Desejo para eles (e para mim) um amplo lugar verdejante de sombras e ar puro. Aqui já ficava bem um parque da cidade. Tomara que as gerações vindouras tenham mais sorte. Oxalá este sonho deixe de ser apenas uma esperança de ar livre. Porque o progresso não se aloja em hotéis, nem se compra ou vende em centros comerciais, os nativos carecem de mais natureza para expandir-se.  
A sul, o passado repousa nas ruas. Descendo e subindo o túnel, vizinho da biblioteca que um dia foi hospital, abre-se diante de nós a avenida principal, guardada pelo cansaço sentado dos velhos nos bancos de madeira do passeio central. Quase todos têm rugas de mar estampadas no rosto e muitas histórias naufragadas para contar. Hoje, debaixo da sombra das tardes e das boinas de fazenda, são espectadores dos transeuntes que circulam avenida acima, avenida abaixo. Assim matam as horas que restam: distraídos pela prosa trocada com os seus compadres e com os taxistas que por aqui estacionam os carros de praça à espera de passageiros. 
Ouve-se o badalar das horas contadas pelo repicar do sino. O som parte do alto da igreja e projecta-se aos quatro ventos ecoando pelo ar. Contemplativo, há um turista que se detém estático de telemóvel em riste. A matriz da cidade, erguida à custa dos filhos pródigos, homens do mar que aqui depositaram toda a sua fé, pedra sobre pedra, merece ser fotografada. O olhar curioso de espanto foca-se no telhado do templo, onde um par de cegonhas felizes se deleita no espaço escolhido para construir o seu ninho sagrado. O castanholar pontiagudo dos seus bicos é uma melodia cúmplice que com o hábito deixámos de apreciar.
De uma das travessas laterais à igreja, surge uma senhora baixinha e acalorada, arrastando uma saca com rodinhas. Segue num passo apressado. Sigo-a ao mesmo ritmo em pensamento. O arranhar descarrilado do carrinho de compras sobre a calçada atravessa a conhecida ruas das lojas. A senhora vai saudando vizinhos e conhecidos em vagos acenares de mão. Não olha para os lados, nem espreita as montras cujos manequins já conhece de cor. Vai com a ideia fixa no almoço. Espera encontrar peixe fresco bom para assar a carvão na açoteia.
É Sábado e começam a avistar-se os mercados. As duas torres de tijolo miudinho, alaranjadas e imponentes, erguem-se perante o Sol da manhã. Um amontoado de chapéus-de-sol cobre de sombra esplanadas repletas de gente. Pessoas e carros parecem atropelar-se ao atravessar a rua. Um empregado de mesa acelerado descarrega da bandeja metálica dois galões, uma sandes de papo-seco e um café. O intervalo que medeia o mercado da fruta e o do peixe é atravessado por um festival de sons, tons e cheiros que se misturam numa atmosfera peculiar. Diante de nós, revela-se a urgência adiada de um mergulho. Num espaço de metros entre os dois edifícios, um assomo líquido cintilante: finalmente os olhos encontram a ria, a formosa maravilha, que contra o cais abraça o histórico caíque Bom Sucesso. Réplica das memórias da revolta de Olhão, que por prémio real se fez vila, por recompensa heróica aos homens que, com alma de gente e garra de bicho, expulsaram franceses e atravessaram um oceano até ao Brasil, até o Rei ser avisado.
Para lá do horizonte, o mar, barrado pelas ilhas, finos tapetes de areia que se espraiam serenos sobre a tranquilidade das águas. No ar, sempre constante, um cheiro salgado que vai perfumando tudo de fresco. Nesta cidade, que amanhece sempre de janelas escancaradas, a ria é um espelho do céu de onde parecem chover gaivotas. Asas brancas de vento que sopram gargalhadas enquanto disputam com os pescadores o seu sustento, numa convivência feliz. Aqui, onde o céu é sempre muito azul, salpicado por esparsas nuvens brancas, todas as memórias são manhãs de Sábado, tardes de praia ou noites animadas de verão.
Nessas noites, os mercados já fechados, vazios de peixe e fruta, trasvestem-se. Nas traseiras, um carreiro de bares vende o prazer da ria a copo. O povo sai à rua. Na esplanada do canto, vendem-se gelados, muitos. Há filas de gente a escolher bolas de sabores. Casais de mãos dadas vêm tomar café e arejar a rotina. Guitarras afinadas e vozes sobem ao palco. Uma banda local derrama sons modernos sobre a multidão que abana a cabeça e bate o pé. Para os que ficam até mais tarde, até a noite quase tocar o raiar do dia, as horas são segredos que só a Lua conhece e não conta a ninguém. São olhares diluídos em cerveja, desejos de paixão revelados e outros tantos por confessar.    
Agosto chega à cidade com anúncios de festa. Há cartazes por toda a parte e metade do jardim pescador olhanense isolado do mundo por tapumes. Lá dentro, esconde-se um festival de marisco. Cá fora, começam a chegar rostos bronzeados esfomeados de diversão. O tempo é de férias e de reencontros. Entre os milhares, cruzam-se olhares por toda a parte. Todos procuram um lugar onde pousar a caneca e o camarão, mesa e cadeiras para que os corpos sentados possam fruir a noite ao ritmo da música e dos sorrisos.
À beira de água, anoitece. Pássaros esvoaçam um alvoroço de pios. Procuram no escasso arvoredo um galho para pernoitar. Quando o encontram são o silêncio camuflado numa copa qualquer. Junto ao muro da ria, uma brisa amena atravessa-nos o pensamento e devolve-nos a paz.
A marginal que passa frente aos mercados envolve toda a cidade num abraço largo. Nas extremidades, rotundas. Entra-se no ontem e sai-se no amanhã. Entra-se na pesca e sai-se no recreio. Entra-se na doca e sai-se na marina. Entra-se na tradição e sai-se na modernidade. Extremos que se ligam, que convivem sem se tocar. Numa ponta, do hotel chique sai um homem fino. Na outra ponta, de uma traineira desbotada sai um velho mestre engrossado por um copo a mais, pela vida, pelo sal e pelo Sol. O mesmo Sol que ilumina adiante o Parque Natural e atrás a montanha branca que anuncia as salinas. Nos entremeios, as conserveiras - as duas que sobram, de tantas que eram – e os restaurantes, em fileira, a crescer, porta sim, porta sim. Montras de frescura com peixe exibido e ementas recheadas com xarém escondido. O quê? (que nome estranho). Xarém (repetimos o nome): as papas de milho (em árabe) que sabem bem.
Cada vez mais amiúde, um rasgo de trovão interrompe os sons da natureza, percorrendo o céu sobre a nossa cabeça. São aviões de baixo custo que trazem cada vez mais turistas carentes de Sol e de mar.
Sol e mar. A felicidade de um povo assente num binómio. Aos olhanenses de sonhos encolhidos é tudo quanto baste para uma vida boa. Apanhar a carreira das onze ao Domingo e passar a tarde na ilha é a alegria de um ano inteiro. O farol não nos pertence, mas continua a ser a nossa praia. Águas cristalinas de trópicos, ventos abafados de África, um paraíso aqui tão perto.        
Ilha do Farol (vista do barco da carreira das 11h), 28 de Julho de 2013 (foto da autora)
Regresso a terra. O meu pensamento, cansado de recordar uma cidade tão pequena que parece imensa, vem deambulando pelas ruelas da Barreta, o bairro mais antigo e típico da cidade. Imagino-me noutros tempos e em ilusões oiço os cloques atrás de mim. Sou perseguida por um enigma, uma mulher mistério que se esconde no Bioco e arrasta sapatos de ourelo*. Numa placa de madeira, vejo esse mesmo traje, uma capa de capuz negro a anunciar uma nova tasca. É a juventude a retomar a tradição, gente nova que, a empreender, toma as rédeas à cidade.   
Sou amiga dessa juventude. Pertenço a esta cidade, que não me viu nascer, tal como ela já me pertence em parte. Em nome deste amor adoptivo de filha, ofereço-te estas palavras, minha mãe, neste dia 16 de Junho em que te festejas e celebras cidade, Al-Hain**, lugar de Olham, Olhão da Restauração. 
* Sapatos de confecção caseira, que ocupava muitas mulheres em Olhão e eram vendidos nas feiras e mercados por todo o Algarve e em Setúbal.
**Olho de água em árabe. Primeira designação do lugar que viria a ser Olhão.
Para saber mais sobre Olhão:

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Felizes para sempre

No interior da pequena capela, que mais parece uma gruta encostada ao mar, não se vislumbra qualquer ornamento de luxo. Nem flores, nem laços, nem quaisquer outros adornos desnecessários. As paredes são feitas de beleza pura desgastada pelo tempo, como uma mulher bonita que envelhece só amadurecendo os traços.
Dentro de um fato negro, um noivo pálido não consegue esconder o nervoso miudinho da espera. Os pés dão passos miudinhos sobre os ténis vermelhos que destoam da fatiota. O noivo miudinho exibe um coração miudinho cheio de amor ao peito. O toque de originalidade cobre também o menino que está sentado no banco da frente. De fatinho e ténis e coração ao peito, aguarda com o mesmo nervoso miudinho a chegada da mãe, que hoje será a noiva. Os pescoços torcem-se em uníssono. A mulher de vestido branco chega como uma luz, como um sol que subitamente se destapa das nuvens. A menina de dentes miudinhos tem a cara feita num sorriso. De braço enfiado no cotovelo do pai, aproxima-se num passo regular erguendo um ramo de corações vermelhos que desejam encontrar o noivo de amor ao peito. Deparam-se e beijam-se antes como se já fosse depois. Um padre surpreendente quebra um quase silêncio de segredos baixinhos num sotaque latino-americano. Atrás dos noivos, uma pequena multidão de convidados de cabelos e trajes alinhados surpreende-se. As palavras obrigatórias vão atravessando ouvidos desatentos, detendo-se num ou noutro pormenor. “Deus não condena o sexo, desde que dentro do matrimónio”. O padre falou em sexo?, interroga-se a audiência, agora de orelhas empinadas. O discurso passeia-se pela capela e pousa nas mãos unidas, nas juras trocadas, nas alianças enfiadas, no beijo, depois, ainda mais forte do que antes.
A menina dos dentes miudinhos e sorriso grande e o rapaz miudinho do coração grande são agora marido e mulher. “Até que a morte os separe”, assegura o padre, abençoando todos os presentes.
O sonho acabou. A realidade começa agora.
Os noivos saem juntos, correm, atravessam um corredor de gente e fogem da chuva de arroz. A tradição mantém-se. Continua a ser bonito assistir à celebração do amor.