De
vestido negro cingido, cabelo negro comprido, ela entra em palco e faz-se
silêncio, que se vai cantar o “Desfado”. Se este último álbum de Ana Moura é um
sucesso mundial, que a consagra definitivamente, não é por acaso. Num estilo
muito singular, ela consegue literalmente desconstruir a melodia tradicional do
fado, preservando a sua essência. A receita de tamanho sucesso, quanto a mim, é
uma mistura explosiva: o calor da voz grave, o jeito sensual de um corpo que se
bamboleia discretamente ao ritmo da música e uma simpatia de sorriso sempre
rasgado. A tudo isto, soma-se ainda a poesia intensa e vibrante de cada letra e, na actuação ao vivo, o mérito dos músicos que a acompanham em
palco. Além da guitarra portuguesa, um baixo, um piano e uma bateria são os
instrumentos a que voz de Ana Moura se encosta para fazer nascer canções de
indiscutível beleza, que proporcionam a quem ouve momentos de raro prazer. Ontem
à noite, no auditório municipal de Olhão, o meu corpo confirmou com arrepios o
prazer que já me tocava em afinidades com o CD que há meses me acompanha nas
viagens de carro. Se me é permitido eleger um tema deste álbum, nomeio a faixa
dez, “Fado alado”, com letra e música do não menos genial Pedro Abrunhosa.
Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei.
Cecil é
o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do
menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão
branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos
forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel
de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura
irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo
meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro
na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama,
“O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo
o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a
roupa para lavar na máquina: os brancos e os de cor. Martin Luther King teve um
dia “um sonho” que se tornou realidade. E a vida do mordomo Cecil deu-lhe tempo
para, de lágrimas nos olhos e gravata de Kennedy ao pescoço, ter a honra de conhecer o primeiro presidente negro
da história do seu país. A banda sonora do português Rodrigo Leão é sublime,
jamais se sobrepondo ao protagonismo do elenco. E Oprah Winfrey, poderosa como
sempre.
Título
original: “The butler” (baseado numa história real)
Duração:
132 minutos
Realizador:
Lee Daniels
Banda
sonora: Rodrigo Leão
Elenco:
Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., John Cusak, Robin Williams,
Jane Fonda, Mariah Carey, entre muitos outros.
Os amigos
encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são
quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um
amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um
acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara
descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo
que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra
firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e
asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e
transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos
e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham
um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade.
Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as
dores que a vida teima em nos infligir. Cair nos braços de um amigo é um
descanso. É como mergulhar no mar da tranquilidade onde haverá sempre uma
jangada pronta para nos salvar. Por um amigo, esquecemos passados e inventamos
futuros. Não nos interessa quem foi nem o que fez, mas quem é e o que faz aqui
e agora. Os amigos não se esquecem uns dos outros. Apenas há pessoas que se
esquecem de si, ao permitirem ser possível que tudo se sobreponha ao prazer que
dá reencontrar um amigo. E as férias são nossas amigas porque, ao
reencontrarmo-nos, nos lembramos de como é bom ter tempo para reencontrar a
amizade.
"Terraço Pizza na Pedra", 5 Julho 2013 (foto da autora)
Procuro olhar a cidade de olhos
fechados, passeando pelas memórias da minha vivência de habitante. Aterrei aqui
há quase trinta anos e só agora pareço começar a observar com atenção o pulsar
da vida em meu redor.
Viajo de norte para sul. Lá ao
fundo, uma cordilheira recorta o céu. Como se nos vigiasse dia e noite, noite e
dia, sobranceiro e mudo, o cerro de São Miguel amuralha toda a planície urbana.
Pela fortaleza de terra abaixo
resvalam blocos de cimento. As casas, começam por ser poucas, depois são cada
vez mais e mais e mais, até serem muitas, concentradas num aglomerado de
quadradinhos no coração da cidade.
Olhão é uma terra pintada de branco
onde as casas são pequenos cubos despreocupadamente sobrepostos. São centenas
de quadrados imaculados vistos do céu. Numa harmonia do que é espontâneo, a
beleza sobrepõe-se à desordem visual caótica.
"Da minha varanda" (foto da autora)
A meio caminho entre a serra e o
mar, uma via rápida com nome de Infante deixa viaturas velozes passar num vai e
vem, cada vez menos constante, entre Espanha e todo o Algarve.
Um pouco mais abaixo, uma outra
linha de estrada, uma rua gigante que se chama nacional. Como formigas em fila
indiana, carros em câmara lenta tentam diariamente atravessar Olhão, entupindo-o
de lés-a-lés.
Ao mesmo tempo, uns quilómetros
paralelos a sul, um apito de comboio divide a cidade ao meio.
A norte, o futuro ergue-se em
direcção ao céu. Numa terra de tanto Sol, gente jovem faz crescer filhos
trancados em apartamentos. Falta-lhes espaço térreo para as brincadeiras, tal
como a mim me falta para soltar a rédea aos pensamentos. Desejo para eles (e
para mim) um amplo lugar verdejante de sombras e ar puro. Aqui já ficava bem um
parque da cidade. Tomara que as gerações vindouras tenham mais sorte. Oxalá
este sonho deixe de ser apenas uma esperança de ar livre. Porque o progresso
não se aloja em hotéis, nem se compra ou vende em centros comerciais, os
nativos carecem de mais natureza para expandir-se.
A sul, o passado repousa nas ruas.
Descendo e subindo o túnel, vizinho da biblioteca que um dia foi hospital,
abre-se diante de nós a avenida principal, guardada pelo cansaço sentado dos
velhos nos bancos de madeira do passeio central. Quase todos têm rugas de mar
estampadas no rosto e muitas histórias naufragadas para contar. Hoje, debaixo
da sombra das tardes e das boinas de fazenda, são espectadores dos transeuntes
que circulam avenida acima, avenida abaixo. Assim matam as horas que restam:
distraídos pela prosa trocada com os seus compadres e com os taxistas que por
aqui estacionam os carros de praça à espera de passageiros.
Ouve-se o badalar das horas
contadas pelo repicar do sino. O som parte do alto da igreja e projecta-se aos
quatro ventos ecoando pelo ar. Contemplativo, há um turista que se detém
estático de telemóvel em riste. A matriz da cidade, erguida à custa dos filhos
pródigos, homens do mar que aqui depositaram toda a sua fé, pedra sobre pedra,
merece ser fotografada. O olhar curioso de espanto foca-se no telhado do
templo, onde um par de cegonhas felizes se deleita no espaço escolhido para
construir o seu ninho sagrado. O castanholar pontiagudo dos seus bicos é uma
melodia cúmplice que com o hábito deixámos de apreciar.
De uma das travessas laterais à
igreja, surge uma senhora baixinha e acalorada, arrastando uma saca com
rodinhas. Segue num passo apressado. Sigo-a ao mesmo ritmo em pensamento. O
arranhar descarrilado do carrinho de compras sobre a calçada atravessa a
conhecida ruas das lojas. A senhora vai saudando vizinhos e conhecidos em vagos
acenares de mão. Não olha para os lados, nem espreita as montras cujos
manequins já conhece de cor. Vai com a ideia fixa no almoço. Espera encontrar
peixe fresco bom para assar a carvão na açoteia.
É Sábado e começam a avistar-se os
mercados. As duas torres de tijolo miudinho, alaranjadas e imponentes,
erguem-se perante o Sol da manhã. Um amontoado de chapéus-de-sol cobre de
sombra esplanadas repletas de gente. Pessoas e carros parecem atropelar-se ao
atravessar a rua. Um empregado de mesa acelerado descarrega da bandeja metálica
dois galões, uma sandes de papo-seco e um café. O intervalo que medeia o
mercado da fruta e o do peixe é atravessado por um festival de sons, tons e
cheiros que se misturam numa atmosfera peculiar. Diante de nós, revela-se a
urgência adiada de um mergulho. Num espaço de metros entre os dois edifícios,
um assomo líquido cintilante: finalmente os olhos encontram a ria, a formosa
maravilha, que contra o cais abraça o histórico caíque Bom Sucesso. Réplica das
memórias da revolta de Olhão, que por prémio real se fez vila, por recompensa heróica
aos homens que, com alma de gente e garra de bicho, expulsaram franceses e
atravessaram um oceano até ao Brasil, até o Rei ser avisado.
Para lá do horizonte, o mar, barrado pelas
ilhas, finos tapetes de areia que se espraiam serenos sobre a tranquilidade das
águas. No ar, sempre constante, um cheiro salgado que vai perfumando tudo de
fresco. Nesta cidade, que amanhece sempre de janelas escancaradas, a ria é um
espelho do céu de onde parecem chover gaivotas. Asas brancas de vento que
sopram gargalhadas enquanto disputam com os pescadores o seu sustento, numa
convivência feliz. Aqui, onde o céu é sempre muito azul, salpicado por esparsas
nuvens brancas, todas as memórias são manhãs de Sábado, tardes de praia ou
noites animadas de verão.
Nessas noites, os mercados já
fechados, vazios de peixe e fruta, trasvestem-se. Nas traseiras, um carreiro de
bares vende o prazer da ria a copo. O povo sai à rua. Na esplanada do canto,
vendem-se gelados, muitos. Há filas de gente a escolher bolas de sabores.
Casais de mãos dadas vêm tomar café e arejar a rotina. Guitarras afinadas e
vozes sobem ao palco. Uma banda local derrama sons modernos sobre a multidão
que abana a cabeça e bate o pé. Para os que ficam até mais tarde, até a noite
quase tocar o raiar do dia, as horas são segredos que só a Lua conhece e não
conta a ninguém. São olhares diluídos em cerveja, desejos de paixão revelados e
outros tantos por confessar.
Agosto chega à cidade com anúncios
de festa. Há cartazes por toda a parte e metade do jardim pescador olhanense
isolado do mundo por tapumes. Lá dentro, esconde-se um festival de marisco. Cá
fora, começam a chegar rostos bronzeados esfomeados de diversão. O tempo é de
férias e de reencontros. Entre os milhares, cruzam-se olhares por toda a parte.
Todos procuram um lugar onde pousar a caneca e o camarão, mesa e cadeiras para
que os corpos sentados possam fruir a noite ao ritmo da música e dos sorrisos.
À beira de água, anoitece. Pássaros
esvoaçam um alvoroço de pios. Procuram no escasso arvoredo um galho para
pernoitar. Quando o encontram são o silêncio camuflado numa copa qualquer.
Junto ao muro da ria, uma brisa amena atravessa-nos o pensamento e devolve-nos
a paz.
A marginal que passa frente aos
mercados envolve toda a cidade num abraço largo. Nas extremidades, rotundas.
Entra-se no ontem e sai-se no amanhã. Entra-se na pesca e sai-se no recreio.
Entra-se na doca e sai-se na marina. Entra-se na tradição e sai-se na
modernidade. Extremos que se ligam, que convivem sem se tocar. Numa ponta, do
hotel chique sai um homem fino. Na outra ponta, de uma traineira desbotada sai
um velho mestre engrossado por um copo a mais, pela vida, pelo sal e pelo Sol.
O mesmo Sol que iluminaadiante o Parque Natural
e atrás a montanha branca que anuncia as salinas. Nos entremeios, as
conserveiras - as duas que sobram, de tantas que eram – e os restaurantes, em
fileira, a crescer, porta sim, porta sim. Montras de frescura com peixe exibido
e ementasrecheadas com xarém escondido. O quê?
(que nome estranho). Xarém (repetimos o nome): as papas de milho (em árabe) que
sabem bem.
Cada vez mais amiúde, um rasgo de
trovão interrompe os sons da natureza, percorrendo o céu sobre a nossa cabeça.
São aviões de baixo custo que trazem cada vez mais turistas carentes de Sol e
de mar.
Sol e mar. A felicidade de um povo
assente num binómio. Aos olhanenses de sonhos encolhidos é tudo quanto baste
para uma vida boa. Apanhar a carreira das onze ao Domingo e passar a tarde na
ilha é a alegria de um ano inteiro. O farol não nos pertence, mas continua a
ser a nossa praia. Águas cristalinas de trópicos, ventos abafados de África, um
paraíso aqui tão perto.
Ilha do Farol (vista do barco da carreira das 11h), 28 de Julho de 2013 (foto da autora)
Regresso a terra. O meu pensamento,
cansado de recordar uma cidade tão pequena que parece imensa, vem deambulando
pelas ruelas da Barreta, o bairro mais antigo e típico da cidade. Imagino-me noutros
tempos e em ilusões oiço os cloques atrás de mim. Sou perseguida por um enigma,
uma mulher mistério que se esconde no Bioco e arrasta sapatos de ourelo*. Numa
placa de madeira, vejo esse mesmo traje, uma capa de capuz negro a anunciar uma
nova tasca. É a juventude a retomar a tradição, gente nova que, a empreender,
toma as rédeas à cidade.
Sou amiga dessa juventude. Pertenço
a esta cidade, que não me viu nascer, tal como ela já me pertence em parte. Em nome
deste amor adoptivo de filha, ofereço-te estas palavras, minha mãe, neste dia 16
de Junho em que te festejas e celebras cidade, Al-Hain**, lugar de Olham, Olhão
da Restauração.
* Sapatos de confecção
caseira, que ocupava muitas mulheres em Olhão e eram vendidos nas feiras e
mercados por todo o Algarve e em Setúbal.
**Olho de água em
árabe. Primeira designação do lugar que viria a ser Olhão.