Levanto
a cabeça e olho em frente. Dou um passo de cada vez com a firmeza que só a
certeza impõe. Inspiro fundo e expiro, até respirar só pureza, até o ar ser
apenas tranquilidade. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Libertei-me daquele
que me fez refém, sem que me tivesse dado conta. Era prisioneira de anos de um
rei sem trono cuja diversão era colecionar sonhos roubados, desejos por
concretizar. Durante anos, ele foi o meu par. Já nem me lembro, quando nos
teremos cruzado, onde nos teremos conhecido. De repente, tinha-o colado a mim,
como uma segunda pele. Era uma cobertura invisível paralisante. Parece que
ainda o oiço sussurrar-me ao ouvido. Tem cuidado. Não vás. Olha que pode correr
mal. A sorte nunca te assiste. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Preciso ser
apenas eu. Se fizer como sei e sinto, serei dona da própria sorte. Meu eterno
inimigo dos passos em frente, seu teimoso travão das vontades originais, desta
vez vou rejeitar-te. Dir-te-ei não, não e não. Medo, perdoa-me, mas não te
quero mais!
domingo, 6 de outubro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
Depois de nós
Os filhos
Vontades próprias que nascem em nós
Jorrando sangue, rasgando carnes
Fazem-se ouvir
Num choro que abafa o grito
São alegrias de curar dor
Ecos de continuidade
Nós depois de nós
A vida que fica
Depois de sermos só silêncio
Etiquetas:
Mães e filhos,
Poemas
sábado, 14 de setembro de 2013
O sensual “Desfado” de Ana Moura
De
vestido negro cingido, cabelo negro comprido, ela entra em palco e faz-se
silêncio, que se vai cantar o “Desfado”. Se este último álbum de Ana Moura é um
sucesso mundial, que a consagra definitivamente, não é por acaso. Num estilo
muito singular, ela consegue literalmente desconstruir a melodia tradicional do
fado, preservando a sua essência. A receita de tamanho sucesso, quanto a mim, é
uma mistura explosiva: o calor da voz grave, o jeito sensual de um corpo que se
bamboleia discretamente ao ritmo da música e uma simpatia de sorriso sempre
rasgado. A tudo isto, soma-se ainda a poesia intensa e vibrante de cada letra e, na actuação ao vivo, o mérito dos músicos que a acompanham em
palco. Além da guitarra portuguesa, um baixo, um piano e uma bateria são os
instrumentos a que voz de Ana Moura se encosta para fazer nascer canções de
indiscutível beleza, que proporcionam a quem ouve momentos de raro prazer. Ontem
à noite, no auditório municipal de Olhão, o meu corpo confirmou com arrepios o
prazer que já me tocava em afinidades com o CD que há meses me acompanha nas
viagens de carro. Se me é permitido eleger um tema deste álbum, nomeio a faixa
dez, “Fado alado”, com letra e música do não menos genial Pedro Abrunhosa.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
"O mordomo"
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| Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei. |
Cecil é o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama, “O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a roupa para lavar na máquina: os brancos e os de cor. Martin Luther King teve um dia “um sonho” que se tornou realidade. E a vida do mordomo Cecil deu-lhe tempo para, de lágrimas nos olhos e gravata de Kennedy ao pescoço, ter a honra de conhecer o primeiro presidente negro da história do seu país. A banda sonora do português Rodrigo Leão é sublime, jamais se sobrepondo ao protagonismo do elenco. E Oprah Winfrey, poderosa como sempre.
Título
original: “The butler” (baseado numa história real)
Duração:
132 minutos
Realizador:
Lee Daniels
Banda
sonora: Rodrigo Leão
Elenco:
Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., John Cusak, Robin Williams,
Jane Fonda, Mariah Carey, entre muitos outros.
domingo, 8 de setembro de 2013
Anos apressados
Nasci tarde
demais
Num corpo de
trinta anos
E eu que tinha
tantos planos
Despertei tarde
demais
Para desfazer
desenganos
E eu que tinha
tantos planos
Tantos e cada vez
mais
Cresci cedo
demais
A correr pelos
anos
A passos largos,
sem vagar
Afinal eram tantos
os planos
Tantos que não
podiam esperar
terça-feira, 27 de agosto de 2013
És segredo
A
falta que me fazes
E
que não sei explicar
É
este poema
Trago
um peso pendurado ao peito
Que
se desprende num suspiro
E
mesmo assim não conhece alívio
Continuo
seguindo os teus passos
Como
se te procurasse
Como
se te quisesse encontrar
Em
toda a parte
Vejo-te
onde não existes
Reflexo
omnipresente
Estás
até onde não estás
Levo-te
e trago-te em mim
Preso
em silêncio
Mudo
e secreto
Meu
inconfessável amor
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
O Verão da amizade
Os amigos
encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são
quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um
amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um
acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara
descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo
que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra
firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e
asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e
transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos
e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham
um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade.
Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as
dores que a vida teima em nos infligir. Cair nos braços de um amigo é um
descanso. É como mergulhar no mar da tranquilidade onde haverá sempre uma
jangada pronta para nos salvar. Por um amigo, esquecemos passados e inventamos
futuros. Não nos interessa quem foi nem o que fez, mas quem é e o que faz aqui
e agora. Os amigos não se esquecem uns dos outros. Apenas há pessoas que se
esquecem de si, ao permitirem ser possível que tudo se sobreponha ao prazer que
dá reencontrar um amigo. E as férias são nossas amigas porque, ao
reencontrarmo-nos, nos lembramos de como é bom ter tempo para reencontrar a
amizade.
Etiquetas:
amizade,
Desabafos salteados,
Verão
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Deserto feliz
Juro-te nunca mais
Implorando-te para sempre
Sermos esta poesia
De sangue quente
Na noite fria
Eternamente, eternamente
Quantas vezes me basta
Esse olhar, só esse olhar
Para viajar, viajar
Sem rumo nem tempo
És um destino incerto
E eu ponto de partida,
Bilhete só de ida,
Para um lugar deserto
Um futuro chamado vida
sábado, 3 de agosto de 2013
As horas
Estamos tão certos
Como dois ponteiros
Que se encontram nas horas
Somos meia-noite
Somos meio-dia
Badalamos na euforia
De estarmos de novo juntos
Ao mesmo ritmo
Contamos segundos
E sentimos mudos
A certeza que se repete
E nos une
Cantada a badaladas
Afastados, giramos
Somos dois
E depois,
Num segundo
Pára o mundo
Para num abraço
Voltarmos a ser um só
Somos meia-noite
Somos meio-dia
Somos a pura magia
Dos breves reencontros
Havemos de trocar as voltas
Às horas da vida
Para que ela nos seja longa,
Esticada, comprida
Para sermos dias e noites pegadas
Luares e alvoradas
Até ao fim
domingo, 21 de julho de 2013
Solidões

Hoje vou contar-te
O que é a solidão
São os silêncios demasiado longos
As vozes de conforto que tardam
Os abraços demorados de chegar
São as horas e os lugares preenchidos de
ausência
Pessoas fora do lugar
Que não estão onde deveriam estar
É a busca permanente de uma distracção
vaga
Que apenas enche o buraco
Sem nunca ser capaz de o tapar
É ser casado com quatro paredes
Filho de pais sem colo
Órfão de filhos distantes
É o corpo perdido que sente
Toda a mente ausente
É a pergunta que alguém faz
E ninguém responde
É a dúvida suspensa no ar
A solidão
Sou eu
Sempre que tu não estás
Versão audio por João Pereira:
https://soundcloud.com/jpolhao-1/solidoes-claudia-sofia?utm_source=soundcloud&utm_campaign=share&utm_medium=facebook
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
Amnésia nocturna
Procuro o silêncio para pensar-te
Ou busco uma melodia triste
E choro-te baixinho
Um choro escondido de ferida exposta
Um choro abafado de almofada
A dor que me rasga o peito
É o grito que não sei dar
É a música demasiado alta
Que ecoa pela caverna funda
Onde o coração encolhido se esconde
A pele é a pauta por onde dançam as notas
Como se fossem de novo teus dedos
Arrepio-me!
E o som ganha força de pranto
Penso-te e choro-te baixinho
Batendo à porta da noite
Só ela pode acolher-me
E apagar-me a memória breve
Do que não consigo esquecer
domingo, 7 de julho de 2013
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