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domingo, 6 de outubro de 2013

A negação do medo

 
Levanto a cabeça e olho em frente. Dou um passo de cada vez com a firmeza que só a certeza impõe. Inspiro fundo e expiro, até respirar só pureza, até o ar ser apenas tranquilidade. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Libertei-me daquele que me fez refém, sem que me tivesse dado conta. Era prisioneira de anos de um rei sem trono cuja diversão era colecionar sonhos roubados, desejos por concretizar. Durante anos, ele foi o meu par. Já nem me lembro, quando nos teremos cruzado, onde nos teremos conhecido. De repente, tinha-o colado a mim, como uma segunda pele. Era uma cobertura invisível paralisante. Parece que ainda o oiço sussurrar-me ao ouvido. Tem cuidado. Não vás. Olha que pode correr mal. A sorte nunca te assiste. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Preciso ser apenas eu. Se fizer como sei e sinto, serei dona da própria sorte. Meu eterno inimigo dos passos em frente, seu teimoso travão das vontades originais, desta vez vou rejeitar-te. Dir-te-ei não, não e não. Medo, perdoa-me, mas não te quero mais!

sábado, 21 de setembro de 2013

Depois de nós



Os filhos

Vontades próprias que nascem em nós

Jorrando sangue, rasgando carnes

Fazem-se ouvir

Num choro que abafa o grito

São alegrias de curar dor

Ecos de continuidade

Nós depois de nós

A vida que fica

Depois de sermos só silêncio

sábado, 14 de setembro de 2013

O sensual “Desfado” de Ana Moura


De vestido negro cingido, cabelo negro comprido, ela entra em palco e faz-se silêncio, que se vai cantar o “Desfado”. Se este último álbum de Ana Moura é um sucesso mundial, que a consagra definitivamente, não é por acaso. Num estilo muito singular, ela consegue literalmente desconstruir a melodia tradicional do fado, preservando a sua essência. A receita de tamanho sucesso, quanto a mim, é uma mistura explosiva: o calor da voz grave, o jeito sensual de um corpo que se bamboleia discretamente ao ritmo da música e uma simpatia de sorriso sempre rasgado. A tudo isto, soma-se ainda a poesia intensa e vibrante de cada letra e, na actuação ao vivo, o mérito dos músicos que a acompanham em palco. Além da guitarra portuguesa, um baixo, um piano e uma bateria são os instrumentos a que voz de Ana Moura se encosta para fazer nascer canções de indiscutível beleza, que proporcionam a quem ouve momentos de raro prazer. Ontem à noite, no auditório municipal de Olhão, o meu corpo confirmou com arrepios o prazer que já me tocava em afinidades com o CD que há meses me acompanha nas viagens de carro. Se me é permitido eleger um tema deste álbum, nomeio a faixa dez, “Fado alado”, com letra e música do não menos genial Pedro Abrunhosa.      





terça-feira, 10 de setembro de 2013

"O mordomo"

Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei.  

Cecil é o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama, “O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a roupa para lavar na máquina: os brancos e os de cor. Martin Luther King teve um dia “um sonho” que se tornou realidade. E a vida do mordomo Cecil deu-lhe tempo para, de lágrimas nos olhos e gravata de Kennedy ao pescoço, ter a honra de conhecer o primeiro presidente negro da história do seu país. A banda sonora do português Rodrigo Leão é sublime, jamais se sobrepondo ao protagonismo do elenco. E Oprah Winfrey, poderosa como sempre.


Título original: “The butler” (baseado numa história real)

Duração: 132 minutos

Realizador: Lee Daniels

Banda sonora: Rodrigo Leão

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., John Cusak, Robin Williams, Jane Fonda, Mariah Carey, entre muitos outros. 


       

domingo, 8 de setembro de 2013

Anos apressados


Nasci tarde demais
Num corpo de trinta anos
E eu que tinha tantos planos

Despertei tarde demais
Para desfazer desenganos
E eu que tinha tantos planos

Tantos e cada vez mais

Cresci cedo demais
A correr pelos anos
A passos largos, sem vagar
Afinal eram tantos os planos
Tantos que não podiam esperar

terça-feira, 27 de agosto de 2013

És segredo


A falta que me fazes
E que não sei explicar
É este poema

Trago um peso pendurado ao peito
Que se desprende num suspiro
E mesmo assim não conhece alívio

Continuo seguindo os teus passos
Como se te procurasse
Como se te quisesse encontrar

Em toda a parte
Vejo-te onde não existes
Reflexo omnipresente
Estás até onde não estás

Levo-te e trago-te em mim
Preso em silêncio
Mudo e secreto
Meu inconfessável amor

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Verão da amizade

Os amigos encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade. Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as dores que a vida teima em nos infligir. Cair nos braços de um amigo é um descanso. É como mergulhar no mar da tranquilidade onde haverá sempre uma jangada pronta para nos salvar. Por um amigo, esquecemos passados e inventamos futuros. Não nos interessa quem foi nem o que fez, mas quem é e o que faz aqui e agora. Os amigos não se esquecem uns dos outros. Apenas há pessoas que se esquecem de si, ao permitirem ser possível que tudo se sobreponha ao prazer que dá reencontrar um amigo. E as férias são nossas amigas porque, ao reencontrarmo-nos, nos lembramos de como é bom ter tempo para reencontrar a amizade.     

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Deserto feliz


Juro-te nunca mais
Implorando-te para sempre
Sermos esta poesia
De sangue quente
Na noite fria
Eternamente, eternamente

Quantas vezes me basta
Esse olhar, só esse olhar
Para viajar, viajar
Sem rumo nem tempo

És um destino incerto
E eu ponto de partida,
Bilhete só de ida,
Para um lugar deserto
Um futuro chamado vida

sábado, 3 de agosto de 2013

As horas


Estamos tão certos
Como dois ponteiros
Que se encontram nas horas

Somos meia-noite
Somos meio-dia
Badalamos na euforia
De estarmos de novo juntos

Ao mesmo ritmo
Contamos segundos
E sentimos mudos
A certeza que se repete
E nos une
Cantada a badaladas

Afastados, giramos
Somos dois
E depois,
Num segundo
Pára o mundo
Para num abraço
Voltarmos a ser um só

Somos meia-noite
Somos meio-dia
Somos a pura magia
Dos breves reencontros

Havemos de trocar as voltas
Às horas da vida
Para que ela nos seja longa,
Esticada, comprida
Para sermos dias e noites pegadas
Luares e alvoradas
Até ao fim

domingo, 21 de julho de 2013

Solidões


Hoje vou contar-te
O que é a solidão

São os silêncios demasiado longos
As vozes de conforto que tardam
Os abraços demorados de chegar

São as horas e os lugares preenchidos de ausência
Pessoas fora do lugar
Que não estão onde deveriam estar

É a busca permanente de uma distracção vaga
Que apenas enche o buraco
Sem nunca ser capaz de o tapar

É ser casado com quatro paredes
Filho de pais sem colo
Órfão de filhos distantes

É o corpo perdido que sente
Toda a mente ausente

É a pergunta que alguém faz
E ninguém responde
É a dúvida suspensa no ar

A solidão
Sou eu

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Amnésia nocturna


Procuro o silêncio para pensar-te


Ou busco uma melodia triste

E choro-te baixinho



Um choro escondido de ferida exposta

Um choro abafado de almofada



A dor que me rasga o peito

É o grito que não sei dar

É a música demasiado alta

Que ecoa pela caverna funda

Onde o coração encolhido se esconde



A pele é a pauta por onde dançam as notas

Como se fossem de novo teus dedos

Arrepio-me!

E o som ganha força de pranto



Penso-te e choro-te baixinho

Batendo à porta da noite

Só ela pode acolher-me

E apagar-me a memória breve

Do que não consigo esquecer

domingo, 7 de julho de 2013

Amar salgado

O mar não sabe
Que a cada onda
Rebentas em mim
Pensamento repetido

Como um Sol
Abrasas-me
Sopro de gente

Ainda te aguardo
Abraço de gelo salgado
Salva-me a vida com beijos
Sou náufraga
Deste amor intenso, imenso
Do tamanho do mar