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domingo, 3 de novembro de 2013

O Homem de Constantinopla

José Rodrigues dos Santos é um autor best seller porque a sua escrita ensina e entretém a um ritmo compulsivo. Deseja-se virar cada página, ansiando o porvir. Foi assim, veloz e surpreendente, a minha viagem pelas quinhentas páginas de “O Homem de Constantinopla”. Guiada pelas palavras do autor, deslumbrei-me com os encantos da antiga capital do império otomano (Constantinopla), hoje a magnificente cidade de Istambul. É lá que começa a desenrolar-se a extraordinária vida do arménio Calouste Gulbenkian, aquele que viria a transformar-se no homem mais rico do planeta na primeira metade do século XX. A sua visão, precocemente estratégica, leva-o desde cedo a investigar as potencialidades do ouro negro. E será o negócio do petróleo que potenciará toda uma fortuna capaz de financiar a sua grande paixão: coleccionar arte. “O que é a beleza?”. Foi esta questão, lançada por um professor na infância, que atormentou toda a existência de Calouste Gulbenkian, levando-o a uma procura incessante do prazer por via da euforia dos sentidos. Este livro é o primeiro de dois. A conclusão desta apaixonante biografia romanceada será “Um milionário em Lisboa”, que deverá chegar em breve às livrarias. Após esta leitura, duas certezas: quero, sem dúvida, conhecer o desfecho da história de vida do “senhor cinco por cento”; e tudo farei para realizar o sonho pessoal de chegar a Istambul a bordo do mítico “Expresso do Oriente”. 

domingo, 27 de outubro de 2013

Uma comédia pouco romântica

Auditório Municipal de Olhão, 26 Outubro 2013
Assisti ontem a esta sátira à vida conjugal protagonizada por Maria João Abreu e Almeno Gonçalves, totalmente desaconselhada a quem está prestes a dar o nó (sob pena de poder arrepender-se). Nesta comédia romântica (mas pouco), o casal decide oficializar a relação ao fim de sete anos de vida em comum, após o anúncio de uma gravidez que não passou de uma brincadeira. E assim começa o rol de peripécias que dão origem às cenas mais caricatas da vida de um casal. Das discussões ao volante, passando pelos enxovalhos à sogra, até às mentiras que se inventam ao telefone, tudo se enquadra na rotina de um casamento. Longe da visão romântica do “felizes para sempre”, o casal mostra como se pode sobreviver com sabedoria às armadilhas conjugais, conseguindo fazer valer a base do sentimento que os une. Num texto, em minha opinião, algo pobre, sobressai a experiência dos actores em palco, sobejamente capazes de o encher com o brilho do seu desempenho, num registo permanentemente espontâneo e descontraído. Em jeito de conclusão, esta peça revela que todo o casamento não é mais do que um esforço continuado da congregação de vontades, tantas vezes opostas.  

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Há quanto tempo

Nem eu sou mais a menina, nem tu o vilão. 
Eu cresci, virei senhora. E tu adocicaste os modos, aprendeste requintes de cavalheiro. Que caminhos nos levaram? Eu fui por aqui e tu por ali e notícias nunca mais. Andámos ocupados a viver. Na luta da sobrevivência, os primeiros a morrer são os sonhos. E nunca mais pensámos no que podia ter sido. Os dias que passam encarregam-se de nos oferecer confortos banais. Um prato quente à espera na mesa. O corpo adormecido que acalenta a outra metade da cama. Um abraço sempre certo na partida e na chegada. A perda do entusiasmo é-nos compensada com a alegria constante de terra à vista. Atracámos num porto seguro e por lá ficámos. Tantas vezes embatendo contra o cais. À tona, apenas uma mente que a razão jamais poderá deter.     

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quanto vale um escritor?

Alice Munro (Canadiana, 82 anos) - Prémio Nobel da Literatura 2013
Num passeio pelo Chiado, não resisto ao chamamento bicentenário da montra da Bertrand. Um tapete de capas de Alice Munro cobre o escaparate, condenando os autores circundantes ao anonimato. A curiosidade impele-me a entrar e os meus olhos só veem Alice, Alice, Alice. O meu pensamento anseia soletrar a escrita (até agora desconhecida) daquela mulher que acaba de merecer o prémio máximo que um escritor pode augurar: o Nobel da Literatura. Segundos depois, com “Fugas” na mão, suspiro. Leio as críticas da contracapa. Admiro a fotografia da senhora de cabelo branco e olhos claros, ruga a ruga. Julgo-a bonita apesar da idade. Imagino-a na juventude e gabo-lhe com inveja o mérito do prémio alcançado. O reconhecimento mundial demorou oitenta e dois anos a chegar e, de um dia para o outro, ficou novecentos e quinze mil euros mais rica. Terá ainda tempo e saúde suficientes para usufruir? Espero bem que sim. Se bem que o Nobel nesta idade é mais uma pena de morte, veja-se o caso de Saramago. Hoje, uma outra mulher é notícia no mundo da literatura. A escrita da estreante Gabriela Ruivo Trindade valeu-lhe cem mil euros. Num primeiro romance, baseado numa história familiar, arrebata o prémio Leya 2013. “Uma outra voz” ergue-se por entre mais de outras quatrocentas que não foram suficientemente fortes para se fazer ouvir. Será tudo lixo? Não creio. Mas, nestas andanças do dom da palavra, é fácil perceber que o melhor júri chama-se tempo e, por vezes, o veredicto faz-se demorar. Quantas vezes, o tempo de uma vida inteira.

domingo, 6 de outubro de 2013

A negação do medo

 
Levanto a cabeça e olho em frente. Dou um passo de cada vez com a firmeza que só a certeza impõe. Inspiro fundo e expiro, até respirar só pureza, até o ar ser apenas tranquilidade. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Libertei-me daquele que me fez refém, sem que me tivesse dado conta. Era prisioneira de anos de um rei sem trono cuja diversão era colecionar sonhos roubados, desejos por concretizar. Durante anos, ele foi o meu par. Já nem me lembro, quando nos teremos cruzado, onde nos teremos conhecido. De repente, tinha-o colado a mim, como uma segunda pele. Era uma cobertura invisível paralisante. Parece que ainda o oiço sussurrar-me ao ouvido. Tem cuidado. Não vás. Olha que pode correr mal. A sorte nunca te assiste. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Preciso ser apenas eu. Se fizer como sei e sinto, serei dona da própria sorte. Meu eterno inimigo dos passos em frente, seu teimoso travão das vontades originais, desta vez vou rejeitar-te. Dir-te-ei não, não e não. Medo, perdoa-me, mas não te quero mais!

sábado, 21 de setembro de 2013

Depois de nós



Os filhos

Vontades próprias que nascem em nós

Jorrando sangue, rasgando carnes

Fazem-se ouvir

Num choro que abafa o grito

São alegrias de curar dor

Ecos de continuidade

Nós depois de nós

A vida que fica

Depois de sermos só silêncio

sábado, 14 de setembro de 2013

O sensual “Desfado” de Ana Moura


De vestido negro cingido, cabelo negro comprido, ela entra em palco e faz-se silêncio, que se vai cantar o “Desfado”. Se este último álbum de Ana Moura é um sucesso mundial, que a consagra definitivamente, não é por acaso. Num estilo muito singular, ela consegue literalmente desconstruir a melodia tradicional do fado, preservando a sua essência. A receita de tamanho sucesso, quanto a mim, é uma mistura explosiva: o calor da voz grave, o jeito sensual de um corpo que se bamboleia discretamente ao ritmo da música e uma simpatia de sorriso sempre rasgado. A tudo isto, soma-se ainda a poesia intensa e vibrante de cada letra e, na actuação ao vivo, o mérito dos músicos que a acompanham em palco. Além da guitarra portuguesa, um baixo, um piano e uma bateria são os instrumentos a que voz de Ana Moura se encosta para fazer nascer canções de indiscutível beleza, que proporcionam a quem ouve momentos de raro prazer. Ontem à noite, no auditório municipal de Olhão, o meu corpo confirmou com arrepios o prazer que já me tocava em afinidades com o CD que há meses me acompanha nas viagens de carro. Se me é permitido eleger um tema deste álbum, nomeio a faixa dez, “Fado alado”, com letra e música do não menos genial Pedro Abrunhosa.      





terça-feira, 10 de setembro de 2013

"O mordomo"

Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei.  

Cecil é o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama, “O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a roupa para lavar na máquina: os brancos e os de cor. Martin Luther King teve um dia “um sonho” que se tornou realidade. E a vida do mordomo Cecil deu-lhe tempo para, de lágrimas nos olhos e gravata de Kennedy ao pescoço, ter a honra de conhecer o primeiro presidente negro da história do seu país. A banda sonora do português Rodrigo Leão é sublime, jamais se sobrepondo ao protagonismo do elenco. E Oprah Winfrey, poderosa como sempre.


Título original: “The butler” (baseado numa história real)

Duração: 132 minutos

Realizador: Lee Daniels

Banda sonora: Rodrigo Leão

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., John Cusak, Robin Williams, Jane Fonda, Mariah Carey, entre muitos outros. 


       

domingo, 8 de setembro de 2013

Anos apressados


Nasci tarde demais
Num corpo de trinta anos
E eu que tinha tantos planos

Despertei tarde demais
Para desfazer desenganos
E eu que tinha tantos planos

Tantos e cada vez mais

Cresci cedo demais
A correr pelos anos
A passos largos, sem vagar
Afinal eram tantos os planos
Tantos que não podiam esperar

terça-feira, 27 de agosto de 2013

És segredo


A falta que me fazes
E que não sei explicar
É este poema

Trago um peso pendurado ao peito
Que se desprende num suspiro
E mesmo assim não conhece alívio

Continuo seguindo os teus passos
Como se te procurasse
Como se te quisesse encontrar

Em toda a parte
Vejo-te onde não existes
Reflexo omnipresente
Estás até onde não estás

Levo-te e trago-te em mim
Preso em silêncio
Mudo e secreto
Meu inconfessável amor

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Verão da amizade

Os amigos encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade. Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as dores que a vida teima em nos infligir. Cair nos braços de um amigo é um descanso. É como mergulhar no mar da tranquilidade onde haverá sempre uma jangada pronta para nos salvar. Por um amigo, esquecemos passados e inventamos futuros. Não nos interessa quem foi nem o que fez, mas quem é e o que faz aqui e agora. Os amigos não se esquecem uns dos outros. Apenas há pessoas que se esquecem de si, ao permitirem ser possível que tudo se sobreponha ao prazer que dá reencontrar um amigo. E as férias são nossas amigas porque, ao reencontrarmo-nos, nos lembramos de como é bom ter tempo para reencontrar a amizade.     

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Deserto feliz


Juro-te nunca mais
Implorando-te para sempre
Sermos esta poesia
De sangue quente
Na noite fria
Eternamente, eternamente

Quantas vezes me basta
Esse olhar, só esse olhar
Para viajar, viajar
Sem rumo nem tempo

És um destino incerto
E eu ponto de partida,
Bilhete só de ida,
Para um lugar deserto
Um futuro chamado vida