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domingo, 24 de novembro de 2013
África minha
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Escrevo para esquecer
Doença é um nome feio. Mete medo e cheira a
hospital. Soa a morte prematura. Dói a quem a sente e a quem a vê. Há dias vi-a
passar à minha frente. Ia disfarçada de colega de infância. Quase não a
reconheci. Passou empurrada sobre duas rodas. Ao fim de uns segundos, exclamei
de susto: o que foi que aconteceu àquela rapariga que eu conhecia? Senti vontade
de saber mais, mas vergonha de perguntar. Para quê confirmar o que as imagens
revelam sem dó? Nunca mais falei com ela. Se antes não foi oportuno, agora
seria constrangedor. Impossível não sentir compaixão de alguém tão jovem e tão
privado de vida. A doença rouba mais que a idade. Apodera-se da beleza.
Centrifuga a pele e mastiga os ossos. É um furacão de arrancar forças e cabelos.
Por onde passa, deixa apenas os destroços e raramente uma esperança vaga de
recomeço. Espantei-me: naquele rosto não vi tristeza nem dor. Onde contava ver
desespero, observei serenidade. O ser humano habitua-se a tudo. O que não se
pode mudar, aceita-se. Adormece-se desejando acordar de um pesadelo. Há imagens
que têm eco. Por isso, escrevo para esquecer o que vi.
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Desabafos salteados,
Medo,
Morte
sábado, 16 de novembro de 2013
Ensaio sobre a cegueira
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| "Blindness", Fernando Meirelles, 2008 |
Agora que o frio convida ao aconchego, volto a pôr
a cultura cinematográfica em dia. Na data em que celebraria noventa anos de
idade, em jeito de homenagem, assisti pela primeira vez em DVD ao filme que fez
Saramago chorar na estreia. Adaptado ao cinema pelo aclamado realizador
brasileiro Fernando Meirelles, “Ensaio
sobre a cegueira”, baseado no romance homónimo do Nobel português, é um
filme chocante que decididamente nos faz abrir os olhos. Não o terá feito com essa intenção, mas ao ler as
primeiras linhas do livro, temos a sensação que José Saramago estava já a
desenhar o esboço de um filme. Toda a descrição é muito pictórica, um apelo à
visualização, quando ironicamente o tema central é a cegueira. E se, de
repente, a humanidade fosse inexplicavelmente contaminada por um estado de
cegueira? O autor parte desta premissa para ficcionar o que aconteceria. E a
resposta a que chega é o caos. Na sua mente de génio, Saramago imagina os
contaminados a serem colocados de quarentena num antigo hospital psiquiátrico,
sem as mínimas condições de higiene, privados de qualquer conforto ou contacto
com o exterior, alimentados a ração de guerra, que vai escasseando ao passo que
os contaminados aumentam. Os cegos mal se apercebem onde foram parar, mas há
uma mulher, a única que continua a ver, que tem vislumbres permanentes do apocalipse.
Quando o ser humano se vê privado das necessidades básicas, deixa de ser
racional e o instinto de sobrevivência traz ao de cima o que de mais medonho e animalesco
pode existir em nós. Quando o nosso único objectivo é sobreviver, somos capazes
de tudo. É essa a mensagem do autor, levada ao extremo pela lente do
realizador. No limite, sem escrúpulos, nem nada a perder, pessoas exploram
pessoas, cães comem as carcaças humanas que vão sobrando nas ruas. E a
felicidade pode ser reencontrada, após a fuga do cativeiro, num simples banho
de chuva tomado em liberdade. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”,
aconselha-nos Saramago na citação de abertura desta história que só a sua mente
brilhante poderia ter imaginado.
domingo, 10 de novembro de 2013
Orgulho e preconceito
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| "Pride & Prejudice", Joe Wright, 2005 |
Uma tarde
sossegada de Outono faz-me abrir a gaveta dos DVD por ver. E sou escolhida por
este filme de 2005, que há anos me persegue implorando para ser visto: “Orgulho e preconceito”. Baseado num dos
romances mais aclamados de Jane Austen, proeminente escritora inglesa do século
XIX, esta é uma história do tempo em que as mulheres casavam sobretudo por
conveniência. Mas a protagonista, Elizabeth, é uma excepção à regra e, apesar
da pressão familiar para precaver o futuro com um casamento abastado, não
consegue conceber a ideia de casar a não ser por amor. Ainda que despreocupada
com a possibilidade desse ideal não se concretizar, acaba por fixar a atenção
no arrogante e nada simpático Mr. Darcy, acabado de chegar à província. Ela é a
rapariga pobre que o vai encantando pela sua inteligência e atitude pouco
convencionais. Ele é o rapaz rico e bem parecido que se finge indiferente aos
seus encantos, por mera imposição social. Se ela é o orgulho, ele é o
preconceito. Mas a impossibilidade do verdadeiro amor acaba por ser derrubada
pela coragem de ambos, que se permitem um final feliz. Um filme simples e suave
que não deixa porém de se revelar absolutamente brilhante. Impossível não se
reparar também na lindíssima banda sonora de Dario Marianelli, por si só
carregada de emoção, e que merecidamente foi premiada com um Óscar.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Coração adiado
Não me ofereças
flores, escreve-me cartas. Oferece-me suspiros feitos de crença em mentiras
inócuas. Faz-me sentir tua. Toma-te de posses por mim, já que nada temos de
nosso a não ser isto que nos une: uma fúria divina só provada pelos que nada
temem aos céus. Até os deuses consentem, abençoando às cegas quem se quer
assim. Que mal pode fazer um amor sem fim? Talvez excessivo seja para o músculo
que bate, bate. Chegará esgotado às noites, pela arritmia dos dias, mas
adormecerá feliz, almofadado na certeza de que pulsa por alguém.
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Amor,
Desabafos salteados
domingo, 3 de novembro de 2013
O Homem de Constantinopla
José Rodrigues dos Santos é um autor best seller porque a sua escrita ensina e entretém a um ritmo compulsivo. Deseja-se virar cada página, ansiando o porvir. Foi assim, veloz e surpreendente, a minha viagem pelas quinhentas páginas de “O Homem de Constantinopla”. Guiada pelas palavras do autor, deslumbrei-me com os encantos da antiga capital do império otomano (Constantinopla), hoje a magnificente cidade de Istambul. É lá que começa a desenrolar-se a extraordinária vida do arménio Calouste Gulbenkian, aquele que viria a transformar-se no homem mais rico do planeta na primeira metade do século XX. A sua visão, precocemente estratégica, leva-o desde cedo a investigar as potencialidades do ouro negro. E será o negócio do petróleo que potenciará toda uma fortuna capaz de financiar a sua grande paixão: coleccionar arte. “O que é a beleza?”. Foi esta questão, lançada por um professor na infância, que atormentou toda a existência de Calouste Gulbenkian, levando-o a uma procura incessante do prazer por via da euforia dos sentidos. Este livro é o primeiro de dois. A conclusão desta apaixonante biografia romanceada será “Um milionário em Lisboa”, que deverá chegar em breve às livrarias. Após esta leitura, duas certezas: quero, sem dúvida, conhecer o desfecho da história de vida do “senhor cinco por cento”; e tudo farei para realizar o sonho pessoal de chegar a Istambul a bordo do mítico “Expresso do Oriente”.
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Literatura
domingo, 27 de outubro de 2013
Uma comédia pouco romântica
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| Auditório Municipal de Olhão, 26 Outubro 2013 |
Assisti ontem a
esta sátira à vida conjugal protagonizada por Maria João Abreu e Almeno
Gonçalves, totalmente desaconselhada a quem está prestes a dar o nó (sob pena
de poder arrepender-se). Nesta comédia romântica (mas pouco), o casal decide
oficializar a relação ao fim de sete anos de vida em comum, após o anúncio de
uma gravidez que não passou de uma brincadeira. E assim começa o rol de
peripécias que dão origem às cenas mais caricatas da vida de um casal. Das
discussões ao volante, passando pelos enxovalhos à sogra, até às mentiras que
se inventam ao telefone, tudo se enquadra na rotina de um casamento. Longe da
visão romântica do “felizes para sempre”, o casal mostra como se pode
sobreviver com sabedoria às armadilhas conjugais, conseguindo fazer valer a
base do sentimento que os une. Num texto, em minha opinião, algo pobre, sobressai
a experiência dos actores em palco, sobejamente capazes de o encher com o
brilho do seu desempenho, num registo permanentemente espontâneo e descontraído.
Em jeito de conclusão, esta peça revela que todo o casamento não é mais do que um
esforço continuado da congregação de vontades, tantas vezes opostas.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Há quanto tempo
Nem eu sou mais a menina, nem tu o vilão.
Eu cresci, virei senhora. E tu adocicaste os modos, aprendeste requintes de cavalheiro. Que caminhos nos levaram? Eu fui por aqui e tu por ali e notícias nunca mais. Andámos ocupados a viver. Na luta da sobrevivência, os primeiros a morrer são os sonhos. E nunca mais pensámos no que podia ter sido. Os dias que passam encarregam-se de nos oferecer confortos banais. Um prato quente à espera na mesa. O corpo adormecido que acalenta a outra metade da cama. Um abraço sempre certo na partida e na chegada. A perda do entusiasmo é-nos compensada com a alegria constante de terra à vista. Atracámos num porto seguro e por lá ficámos. Tantas vezes embatendo contra o cais. À tona, apenas uma mente que a razão jamais poderá deter.
Eu cresci, virei senhora. E tu adocicaste os modos, aprendeste requintes de cavalheiro. Que caminhos nos levaram? Eu fui por aqui e tu por ali e notícias nunca mais. Andámos ocupados a viver. Na luta da sobrevivência, os primeiros a morrer são os sonhos. E nunca mais pensámos no que podia ter sido. Os dias que passam encarregam-se de nos oferecer confortos banais. Um prato quente à espera na mesa. O corpo adormecido que acalenta a outra metade da cama. Um abraço sempre certo na partida e na chegada. A perda do entusiasmo é-nos compensada com a alegria constante de terra à vista. Atracámos num porto seguro e por lá ficámos. Tantas vezes embatendo contra o cais. À tona, apenas uma mente que a razão jamais poderá deter.
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Desabafos salteados
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Quanto vale um escritor?
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| Alice Munro (Canadiana, 82 anos) - Prémio Nobel da Literatura 2013 |
Num
passeio pelo Chiado, não resisto ao chamamento bicentenário da montra da
Bertrand. Um tapete de capas de Alice Munro cobre o
escaparate, condenando os autores circundantes ao anonimato. A curiosidade
impele-me a entrar e os meus olhos só veem Alice, Alice, Alice. O meu pensamento
anseia soletrar a escrita (até agora desconhecida) daquela mulher que acaba de
merecer o prémio máximo que um escritor pode augurar: o Nobel da Literatura. Segundos
depois, com “Fugas”
na mão, suspiro. Leio as críticas da contracapa. Admiro a fotografia da senhora
de cabelo branco e olhos claros, ruga a ruga. Julgo-a bonita apesar da idade.
Imagino-a na juventude e gabo-lhe com inveja o mérito do prémio alcançado. O
reconhecimento mundial demorou oitenta e dois anos a chegar e, de um dia para o
outro, ficou novecentos e quinze mil euros mais rica. Terá ainda tempo e saúde
suficientes para usufruir? Espero bem que sim. Se bem que o Nobel nesta idade é
mais uma pena de morte, veja-se o caso de Saramago. Hoje, uma outra mulher é
notícia no mundo da literatura. A escrita da estreante Gabriela Ruivo Trindade
valeu-lhe cem mil euros. Num primeiro romance, baseado numa história familiar, arrebata
o prémio
Leya 2013. “Uma outra voz” ergue-se por entre mais de outras quatrocentas
que não foram suficientemente fortes para se fazer ouvir. Será tudo lixo? Não
creio. Mas, nestas andanças do dom da palavra, é fácil perceber que o melhor júri
chama-se tempo e, por vezes, o veredicto faz-se demorar. Quantas vezes, o tempo de uma vida inteira.
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Cultura,
Literatura
domingo, 6 de outubro de 2013
A negação do medo
Levanto
a cabeça e olho em frente. Dou um passo de cada vez com a firmeza que só a
certeza impõe. Inspiro fundo e expiro, até respirar só pureza, até o ar ser
apenas tranquilidade. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Libertei-me daquele
que me fez refém, sem que me tivesse dado conta. Era prisioneira de anos de um
rei sem trono cuja diversão era colecionar sonhos roubados, desejos por
concretizar. Durante anos, ele foi o meu par. Já nem me lembro, quando nos
teremos cruzado, onde nos teremos conhecido. De repente, tinha-o colado a mim,
como uma segunda pele. Era uma cobertura invisível paralisante. Parece que
ainda o oiço sussurrar-me ao ouvido. Tem cuidado. Não vás. Olha que pode correr
mal. A sorte nunca te assiste. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Preciso ser
apenas eu. Se fizer como sei e sinto, serei dona da própria sorte. Meu eterno
inimigo dos passos em frente, seu teimoso travão das vontades originais, desta
vez vou rejeitar-te. Dir-te-ei não, não e não. Medo, perdoa-me, mas não te
quero mais!
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Desabafos salteados,
Medo
sábado, 21 de setembro de 2013
Depois de nós
Os filhos
Vontades próprias que nascem em nós
Jorrando sangue, rasgando carnes
Fazem-se ouvir
Num choro que abafa o grito
São alegrias de curar dor
Ecos de continuidade
Nós depois de nós
A vida que fica
Depois de sermos só silêncio
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Mães e filhos,
Poemas
sábado, 14 de setembro de 2013
O sensual “Desfado” de Ana Moura
De
vestido negro cingido, cabelo negro comprido, ela entra em palco e faz-se
silêncio, que se vai cantar o “Desfado”. Se este último álbum de Ana Moura é um
sucesso mundial, que a consagra definitivamente, não é por acaso. Num estilo
muito singular, ela consegue literalmente desconstruir a melodia tradicional do
fado, preservando a sua essência. A receita de tamanho sucesso, quanto a mim, é
uma mistura explosiva: o calor da voz grave, o jeito sensual de um corpo que se
bamboleia discretamente ao ritmo da música e uma simpatia de sorriso sempre
rasgado. A tudo isto, soma-se ainda a poesia intensa e vibrante de cada letra e, na actuação ao vivo, o mérito dos músicos que a acompanham em
palco. Além da guitarra portuguesa, um baixo, um piano e uma bateria são os
instrumentos a que voz de Ana Moura se encosta para fazer nascer canções de
indiscutível beleza, que proporcionam a quem ouve momentos de raro prazer. Ontem
à noite, no auditório municipal de Olhão, o meu corpo confirmou com arrepios o
prazer que já me tocava em afinidades com o CD que há meses me acompanha nas
viagens de carro. Se me é permitido eleger um tema deste álbum, nomeio a faixa
dez, “Fado alado”, com letra e música do não menos genial Pedro Abrunhosa.
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