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domingo, 1 de dezembro de 2013

Tempo de ser mãe

Ter filhos é inventar tempo. É deixar de conjugar o verbo viver na primeira pessoa do singular. Tu passas a ser mais importante do que eu e a minha felicidade passa a depender do teu bem-estar. Se não estiveres bem, se te pressentir um medo ou uma dor, nada mais me fará sorrir até ser capaz de te aliviar o sofrimento. Por cortesia, os meus desejos cederão o lugar às tuas vontades e só por ti serei capaz de suportar mesmo o insuportável. Aguentar horas de pé a ver-te saltar, saboreando apenas a recompensa do teu riso. Deixar para trás todos os afazeres planeados, só porque me imploras para que vá ao cinema contigo ver o filme que acabou de estrear. Desorganizar-me mentalmente, abdicando do tempo em que deveria estar a sós com o meu pensamento para fazer as pazes com as ideias de futuro que chamam por mim. Permitir-me ser a boneca humana penteada por um arrepio de duas mãos minúsculas movidas a puro amor. O resto pode esperar. O tempo não deixará de correr, mas os outros sonhos têm o dever de esperar por este. Porque ser mãe é uma missão a que um dia me propus. De mim nasceu a mais perfeita de todas as obras que um ser humano pode conceber. Talvez a única para a qual a falta de tempo não tenha jamais perdão.

domingo, 24 de novembro de 2013

Perdidos e achados

Haverá outra forma de treinar o desapego senão perdermos alguma coisa de vez em quando? Estimamos os nossos objectos como se pessoas fossem e choramo-los quando partem, como se não suportássemos a existência sem eles. E esquecemo-nos sempre que nada temos de verdadeiramente nosso. Tudo vem e vai. De tudo e de todos teremos de nos despedir um dia, para sempre. Há todo um mundo que não voltaremos a ver e que não levaremos connosco no bolso. Mas insistimos. A nossa casa. O nosso carro. Os nossos objectos pessoais. Ignoramos tufões, incêndios e terramotos. Não queremos pensar nisso. Que mau agoiro. Calamidades dos outros, imagens longínquas repetidas pela televisão. Mas pode-nos acontecer. Estaremos preparados para, a qualquer momento, recomeçar do zero sem nada do que acumulámos ao longo da vida? Ninguém está. Não há quem acredite ser capaz. Até ao dia em que a fatalidade nos invade a vida e nos troca os sonhos. Ainda ontem, depois de me sentir extraordinariamente feliz com um duche quente tomado pelo gelo das cinco e meia da manhã, acabei o dia privada de uma mochila que me acompanhava nas viagens há anos. Um táxi, do qual não fixei número, cooperativa ou nome de motorista, arrancou levando, talvez para sempre, a minha mochila. Lá dentro, banalidades: uma revista de literatura, uns óculos de sol (de marca), umas luvas em pele, o meu gorro preferido, todas as minhas chaves, “A desumanização”. Era só uma mochila, pensei, antes de me entristecer. Ainda assim, lancei o alerta pelas centrais de táxis. Ninguém deu por nada. Poderá haver um taxista sem escrúpulos uma mochila mais rico. E eu, não me sentindo mais pobre, lamento sobretudo a perda do “meu” Valter Hugo Mãe, uma prenda de alguém muito estimado cuja leitura me fica sem conclusão, a oitenta páginas do fim. Mais do que tudo, perseguir-me-á o desgosto de uma obra inacabada, que tanto prazer me estava a dar.

África minha

“Out of Africa” soundtrack, John Barry, 1985
Sem tempo para o cinema, este fim-de-semana não resisti ao apelo de uma banda sonora em promoção. Por apenas cinco euros, adquiri esta preciosidade. “Out of Africa”, na versão portuguesa “África minha”, é um grande clássico do cinema para o qual (o já falecido) John Barry compôs um conjunto memorável de temas. Para quem não conhece, partilho a faixa principal “I had a farm in Africa”, que não me canso de escutar repetidamente, sempre com a emoção à flor da pele. Deverá ser uma das músicas da minha vida! 



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Escrevo para esquecer

Doença é um nome feio. Mete medo e cheira a hospital. Soa a morte prematura. Dói a quem a sente e a quem a vê. Há dias vi-a passar à minha frente. Ia disfarçada de colega de infância. Quase não a reconheci. Passou empurrada sobre duas rodas. Ao fim de uns segundos, exclamei de susto: o que foi que aconteceu àquela rapariga que eu conhecia? Senti vontade de saber mais, mas vergonha de perguntar. Para quê confirmar o que as imagens revelam sem dó? Nunca mais falei com ela. Se antes não foi oportuno, agora seria constrangedor. Impossível não sentir compaixão de alguém tão jovem e tão privado de vida. A doença rouba mais que a idade. Apodera-se da beleza. Centrifuga a pele e mastiga os ossos. É um furacão de arrancar forças e cabelos. Por onde passa, deixa apenas os destroços e raramente uma esperança vaga de recomeço. Espantei-me: naquele rosto não vi tristeza nem dor. Onde contava ver desespero, observei serenidade. O ser humano habitua-se a tudo. O que não se pode mudar, aceita-se. Adormece-se desejando acordar de um pesadelo. Há imagens que têm eco. Por isso, escrevo para esquecer o que vi.

sábado, 16 de novembro de 2013

Ensaio sobre a cegueira

"Blindness", Fernando Meirelles, 2008
Agora que o frio convida ao aconchego, volto a pôr a cultura cinematográfica em dia. Na data em que celebraria noventa anos de idade, em jeito de homenagem, assisti pela primeira vez em DVD ao filme que fez Saramago chorar na estreia. Adaptado ao cinema pelo aclamado realizador brasileiro Fernando Meirelles, “Ensaio sobre a cegueira”, baseado no romance homónimo do Nobel português, é um filme chocante que decididamente nos faz abrir os olhos. Não o terá feito com essa intenção, mas ao ler as primeiras linhas do livro, temos a sensação que José Saramago estava já a desenhar o esboço de um filme. Toda a descrição é muito pictórica, um apelo à visualização, quando ironicamente o tema central é a cegueira. E se, de repente, a humanidade fosse inexplicavelmente contaminada por um estado de cegueira? O autor parte desta premissa para ficcionar o que aconteceria. E a resposta a que chega é o caos. Na sua mente de génio, Saramago imagina os contaminados a serem colocados de quarentena num antigo hospital psiquiátrico, sem as mínimas condições de higiene, privados de qualquer conforto ou contacto com o exterior, alimentados a ração de guerra, que vai escasseando ao passo que os contaminados aumentam. Os cegos mal se apercebem onde foram parar, mas há uma mulher, a única que continua a ver, que tem vislumbres permanentes do apocalipse. Quando o ser humano se vê privado das necessidades básicas, deixa de ser racional e o instinto de sobrevivência traz ao de cima o que de mais medonho e animalesco pode existir em nós. Quando o nosso único objectivo é sobreviver, somos capazes de tudo. É essa a mensagem do autor, levada ao extremo pela lente do realizador. No limite, sem escrúpulos, nem nada a perder, pessoas exploram pessoas, cães comem as carcaças humanas que vão sobrando nas ruas. E a felicidade pode ser reencontrada, após a fuga do cativeiro, num simples banho de chuva tomado em liberdade. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, aconselha-nos Saramago na citação de abertura desta história que só a sua mente brilhante poderia ter imaginado. 




domingo, 10 de novembro de 2013

Orgulho e preconceito

"Pride & Prejudice", Joe Wright, 2005
Uma tarde sossegada de Outono faz-me abrir a gaveta dos DVD por ver. E sou escolhida por este filme de 2005, que há anos me persegue implorando para ser visto: “Orgulho e preconceito”. Baseado num dos romances mais aclamados de Jane Austen, proeminente escritora inglesa do século XIX, esta é uma história do tempo em que as mulheres casavam sobretudo por conveniência. Mas a protagonista, Elizabeth, é uma excepção à regra e, apesar da pressão familiar para precaver o futuro com um casamento abastado, não consegue conceber a ideia de casar a não ser por amor. Ainda que despreocupada com a possibilidade desse ideal não se concretizar, acaba por fixar a atenção no arrogante e nada simpático Mr. Darcy, acabado de chegar à província. Ela é a rapariga pobre que o vai encantando pela sua inteligência e atitude pouco convencionais. Ele é o rapaz rico e bem parecido que se finge indiferente aos seus encantos, por mera imposição social. Se ela é o orgulho, ele é o preconceito. Mas a impossibilidade do verdadeiro amor acaba por ser derrubada pela coragem de ambos, que se permitem um final feliz. Um filme simples e suave que não deixa porém de se revelar absolutamente brilhante. Impossível não se reparar também na lindíssima banda sonora de Dario Marianelli, por si só carregada de emoção, e que merecidamente foi premiada com um Óscar.  





quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Coração adiado

Não me ofereças flores, escreve-me cartas. Oferece-me suspiros feitos de crença em mentiras inócuas. Faz-me sentir tua. Toma-te de posses por mim, já que nada temos de nosso a não ser isto que nos une: uma fúria divina só provada pelos que nada temem aos céus. Até os deuses consentem, abençoando às cegas quem se quer assim. Que mal pode fazer um amor sem fim? Talvez excessivo seja para o músculo que bate, bate. Chegará esgotado às noites, pela arritmia dos dias, mas adormecerá feliz, almofadado na certeza de que pulsa por alguém.    

domingo, 3 de novembro de 2013

O Homem de Constantinopla

José Rodrigues dos Santos é um autor best seller porque a sua escrita ensina e entretém a um ritmo compulsivo. Deseja-se virar cada página, ansiando o porvir. Foi assim, veloz e surpreendente, a minha viagem pelas quinhentas páginas de “O Homem de Constantinopla”. Guiada pelas palavras do autor, deslumbrei-me com os encantos da antiga capital do império otomano (Constantinopla), hoje a magnificente cidade de Istambul. É lá que começa a desenrolar-se a extraordinária vida do arménio Calouste Gulbenkian, aquele que viria a transformar-se no homem mais rico do planeta na primeira metade do século XX. A sua visão, precocemente estratégica, leva-o desde cedo a investigar as potencialidades do ouro negro. E será o negócio do petróleo que potenciará toda uma fortuna capaz de financiar a sua grande paixão: coleccionar arte. “O que é a beleza?”. Foi esta questão, lançada por um professor na infância, que atormentou toda a existência de Calouste Gulbenkian, levando-o a uma procura incessante do prazer por via da euforia dos sentidos. Este livro é o primeiro de dois. A conclusão desta apaixonante biografia romanceada será “Um milionário em Lisboa”, que deverá chegar em breve às livrarias. Após esta leitura, duas certezas: quero, sem dúvida, conhecer o desfecho da história de vida do “senhor cinco por cento”; e tudo farei para realizar o sonho pessoal de chegar a Istambul a bordo do mítico “Expresso do Oriente”. 

domingo, 27 de outubro de 2013

Uma comédia pouco romântica

Auditório Municipal de Olhão, 26 Outubro 2013
Assisti ontem a esta sátira à vida conjugal protagonizada por Maria João Abreu e Almeno Gonçalves, totalmente desaconselhada a quem está prestes a dar o nó (sob pena de poder arrepender-se). Nesta comédia romântica (mas pouco), o casal decide oficializar a relação ao fim de sete anos de vida em comum, após o anúncio de uma gravidez que não passou de uma brincadeira. E assim começa o rol de peripécias que dão origem às cenas mais caricatas da vida de um casal. Das discussões ao volante, passando pelos enxovalhos à sogra, até às mentiras que se inventam ao telefone, tudo se enquadra na rotina de um casamento. Longe da visão romântica do “felizes para sempre”, o casal mostra como se pode sobreviver com sabedoria às armadilhas conjugais, conseguindo fazer valer a base do sentimento que os une. Num texto, em minha opinião, algo pobre, sobressai a experiência dos actores em palco, sobejamente capazes de o encher com o brilho do seu desempenho, num registo permanentemente espontâneo e descontraído. Em jeito de conclusão, esta peça revela que todo o casamento não é mais do que um esforço continuado da congregação de vontades, tantas vezes opostas.  

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Há quanto tempo

Nem eu sou mais a menina, nem tu o vilão. 
Eu cresci, virei senhora. E tu adocicaste os modos, aprendeste requintes de cavalheiro. Que caminhos nos levaram? Eu fui por aqui e tu por ali e notícias nunca mais. Andámos ocupados a viver. Na luta da sobrevivência, os primeiros a morrer são os sonhos. E nunca mais pensámos no que podia ter sido. Os dias que passam encarregam-se de nos oferecer confortos banais. Um prato quente à espera na mesa. O corpo adormecido que acalenta a outra metade da cama. Um abraço sempre certo na partida e na chegada. A perda do entusiasmo é-nos compensada com a alegria constante de terra à vista. Atracámos num porto seguro e por lá ficámos. Tantas vezes embatendo contra o cais. À tona, apenas uma mente que a razão jamais poderá deter.     

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quanto vale um escritor?

Alice Munro (Canadiana, 82 anos) - Prémio Nobel da Literatura 2013
Num passeio pelo Chiado, não resisto ao chamamento bicentenário da montra da Bertrand. Um tapete de capas de Alice Munro cobre o escaparate, condenando os autores circundantes ao anonimato. A curiosidade impele-me a entrar e os meus olhos só veem Alice, Alice, Alice. O meu pensamento anseia soletrar a escrita (até agora desconhecida) daquela mulher que acaba de merecer o prémio máximo que um escritor pode augurar: o Nobel da Literatura. Segundos depois, com “Fugas” na mão, suspiro. Leio as críticas da contracapa. Admiro a fotografia da senhora de cabelo branco e olhos claros, ruga a ruga. Julgo-a bonita apesar da idade. Imagino-a na juventude e gabo-lhe com inveja o mérito do prémio alcançado. O reconhecimento mundial demorou oitenta e dois anos a chegar e, de um dia para o outro, ficou novecentos e quinze mil euros mais rica. Terá ainda tempo e saúde suficientes para usufruir? Espero bem que sim. Se bem que o Nobel nesta idade é mais uma pena de morte, veja-se o caso de Saramago. Hoje, uma outra mulher é notícia no mundo da literatura. A escrita da estreante Gabriela Ruivo Trindade valeu-lhe cem mil euros. Num primeiro romance, baseado numa história familiar, arrebata o prémio Leya 2013. “Uma outra voz” ergue-se por entre mais de outras quatrocentas que não foram suficientemente fortes para se fazer ouvir. Será tudo lixo? Não creio. Mas, nestas andanças do dom da palavra, é fácil perceber que o melhor júri chama-se tempo e, por vezes, o veredicto faz-se demorar. Quantas vezes, o tempo de uma vida inteira.

domingo, 6 de outubro de 2013

A negação do medo

 
Levanto a cabeça e olho em frente. Dou um passo de cada vez com a firmeza que só a certeza impõe. Inspiro fundo e expiro, até respirar só pureza, até o ar ser apenas tranquilidade. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Libertei-me daquele que me fez refém, sem que me tivesse dado conta. Era prisioneira de anos de um rei sem trono cuja diversão era colecionar sonhos roubados, desejos por concretizar. Durante anos, ele foi o meu par. Já nem me lembro, quando nos teremos cruzado, onde nos teremos conhecido. De repente, tinha-o colado a mim, como uma segunda pele. Era uma cobertura invisível paralisante. Parece que ainda o oiço sussurrar-me ao ouvido. Tem cuidado. Não vás. Olha que pode correr mal. A sorte nunca te assiste. Hoje tenho um desafio e vou sozinha. Preciso ser apenas eu. Se fizer como sei e sinto, serei dona da própria sorte. Meu eterno inimigo dos passos em frente, seu teimoso travão das vontades originais, desta vez vou rejeitar-te. Dir-te-ei não, não e não. Medo, perdoa-me, mas não te quero mais!