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domingo, 29 de dezembro de 2013

Quilómetro zero

Fim de ciclo. Hora de despertar e renascer. Tempo de um novo recomeço. Um apelo à correcção de teimosos hábitos entranhados que nos adormecem os sentidos travando a evolução. Uma nova oportunidade de partir em busca de descobertas infinitas. As escolhas são sempre múltiplas e a aposta nem sempre certeira. A caça é tantas vezes feita de tiros ao lado. Mas perseguir um alvo é sempre um objectivo que nos move. Um passo em frente, um salto adiante, um pulo mais alto, um voo mais longe. Avançar é o verbo que sempre se impõe. Desejar. Sonhar. Lutar. Realizar. Por vezes perder. Escorregar. Cair. Sacudir o pó. Reerguer-se. Voltar a acreditar. De novo lutar. Esforço. Fraqueza. Quase desistir. Já falta pouco. Insiste. Se fores capaz de continuar, um dia chegas lá. Um dia hás-de ganhar. O prémio é continuar a ter tempo para fazer e refazer. Toda a vida, por mais longa que seja, será sempre uma obra frustrantemente inacabada. Desliga e volta a ligar. Reinicia o contador e acelera, rumo à próxima paragem.   

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Mandela: longo caminho para a liberdade

"Mandela: long walk to freedom"; Realizador: Justin Chadwick;
Protagonistas: Idris Elba (Mandela), Naomi Harris (Winnie).
Fui há poucos dias ver este filme que abrevia vinte e sete longos e tortuosos anos de cativeiro em duas horas e meia. E saí da sala de cinema a considerar que o realizador desta película - inspirada na autobiografia homónima de Nelson Mandela, publicada em 1994 - aligeirou demasiado a história. Ainda que seja vincado, quer o isolamento, quer o clima de tortura e humilhação a que Mandela foi submetido na prisão de Robben Island, é fácil abandonar-se a sala com a vontade de querer ver mais, de saber mais, de ler o livro que testemunha, na primeira pessoa, o drama de quem viveu assim: abdicando da sua liberdade em prol da luta pelo direito à igualdade social dos seus semelhantes. A surpresa do filme, para mim, foi a revelação do papel de Winnie ao lado da luta do grande líder. A segunda mulher de Mandela, mãe de duas filhas que cresceram sem ver o pai, é evidenciada como o eco da voz do marido do lado de fora das grades, o pilar da resistência que se empenhou ferozmente na disseminação das convicções anti-apartheid. Conforme pode ver-se na película, Mandela, que afirmou estar disposto a morrer pela sua causa, escapou à pena de morte, mas suportou, com a maior dignidade, um terço da vida em reclusão. Com sabedoria e humildade, ganhou o respeito universal, reconquistou a liberdade e tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul. O homem que foi capaz de conquistar a amizade dos seus carcereiros, e de lhes agradecer por o terem tornado uma pessoa mais forte, ficará para sempre gravado, como um exemplo, na memória histórica da humanidade. Este filme ficará como mais um documento, destacando-se o excelente desempenho dos protagonistas. Para concluir, deixo o tema dos U2 – “Ordinary love” -  que tão bem me soou no final do filme. 


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Noite feliz

O espírito acende-se na árvore e aos poucos em cada um de nós. Não há quem lhe seja imune. Gostamos do Natal porque é uma noite sem medo, de ruas e casas muito iluminadas. De estradas desertas e casas lotadas. Uma noite onde até as solidões se confortam de azeite morno derramado no bacalhau. Porque nesta noite até os sem tecto são chamados a sentar-se à mesa diante de um prato quente. Há mais mantas para distribuir e tendas abertas ao convívio dos que se habituaram a chamar cama às pedras da calçada. É a noite mais tranquila de todas as noites porque o mundo, por umas horas, se aquieta e respira. Até os escravos da idade moderna tem ordem para partir em liberdade. Facturam até ao último instante os esquecimentos de alguém e suspiram sonhos quando chega a tão esperada hora de jantar. Os que têm a sorte de sentar-se à mesa, gostam de a ter farta das suas tradições. É a noite do vale tudo, comer e beber e repousar dos sacrifícios passados. Olhar com vagar e descobrir novas rugas nos rostos de quem há muito não se via. Sentir que cada lugar vazio ocupa todo o espaço do pensamento. Reencontrar em cada nova vida que corre pela casa a alegria que faz adormecer a saudade. Mesmo quando não há presentes, é a noite em que se desembrulham todas as lembranças: quando a avó cozinhava, quando o pai ainda estava aqui, quando era eu a criança dona de todas as euforias e risos. Quando o Natal era uma festa, eu ainda acreditava que podia tudo e que toda a gente durava para sempre. Dizia Natal com o espanto alegre de quem vê uma chuva de estrelas enquanto pede desejos. Este ano portei-me bem, mereço um presente. E mesmo quando me portava mal os presentes apareciam. A vida era a magia de ver acontecer o que se deseja. Como no circo, varinha mágica no chapéu e coelho a sair da cartola. Ainda que o Natal já não seja o que foi, será sempre uma linha imaginária que marca a mudança dos medos. Uma troca de esperanças assinalada com a troca de presentes. É tempo de reciclar objectos e sentimentos. Trocar o velho pelo novo, eliminar o que já não se quer, abrir espaço para que entre o melhor.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A desumanização

“A desumanização”, Valter Hugo Mãe, 2013
O que dizer de Valter Hugo Mãe, um escritor que chegou viu e venceu? Se há pessoas que nascem com o dom da palavra, ele foi um deles. Não tem, porém, uma escrita fácil nem consensual. Só um apreciador de belas artes gostará de lê-lo. A escrita de Hugo Mãe roça o surrealismo e causa por vezes estranheza, antes do verdadeiro prazer. Nunca o tinha lido enquanto romancista, confesso. Há muito que sigo as suas crónicas no Jornal de Letras e noutras publicações, apreciando-lhe o estilo: frontal e cristalino, por vezes de uma inocência infantil, sempre a prosar de olho na poética que cada entrelaçar de palavras pode encerrar. A leitura deste seu último romance - “A desumanização” – vem confirmar-me a ideia de que estamos diante de um grande escritor português, com um estilo muito vincado, onde uma obsessiva busca pela literalidade se sobrepõe sempre ao valor da história. Há momentos em que quase esquecemos o conteúdo narrado e nos deleitamos apenas a admirar a construção frásica e as analogias encontradas para nos expor diante uma imagem que contemplamos como um amante de arte. Este é um livro só para leitores maduros. Não recomendado aos que apenas lêem por mera distracção.  A busca do sentido da vida por uma gémea dos fiordes islandeses, que acaba de perder a irmã que lhe servia de espelho, é um mero pano de fundo para as mil e uma divagações do autor sobre os mais diversos temas com que se confronta toda a existência humana. 

sábado, 7 de dezembro de 2013

A persistência da memória

“A persistência da memória”, Daniel Oliveira, 2013
Interrompendo um ciclo de leitura de autores premiados, decidi desanuviar com um estreante no romance: Daniel Oliveira. Sobejamente conhecido do pequeno ecrã, este jovem comunicador de trinta e um anos lança-se como romancista com “A persistência da memória” – nome inspirado numa das mais célebres telas surrealistas de Salvador Dali.
Neste livro, Camila, a narradora e protagonista da história, sofre de hipermnésia ou síndrome de memória superior, uma patologia que a perturba e afecta, pela impossibilidade de eliminar do pensamento os acontecimentos passados, que lhe perturbam o presente e lhe confundem o futuro. Voando entre Lisboa, Rio de Janeiro e Nova Iorque, a personagem vai-nos revelando os seus segredos – mesmo os mais inconfessáveis – e as passagens mais marcantes da sua vida. Sem nunca roçar o brejeiro, nem recorrer ao vernáculo, o autor descreve com erotismo e subtileza as cenas mais íntimas, conferindo-lhes a dose certa de sensibilidade, intensidade e verdade para estimular a fertilidade da imaginação do leitor. Daniel conhece bem as palavras e usa-as como pincéis coloridos com os quais no vai pintando uma história de contornos ligeiros, mas muito actual e carregada de mensagens com grande significado. Podia ser só mais um best seller promovido por um rosto da TV, mas este romance é um excelente pontapé de partida para um escritor com um enorme potencial a desenvolver.    
  
“A persistência da memória”, Salvador Dali, 1931, (MoMA) – Museu de Arte Moderna de Nova Iorque

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tempo de ser mãe

Ter filhos é inventar tempo. É deixar de conjugar o verbo viver na primeira pessoa do singular. Tu passas a ser mais importante do que eu e a minha felicidade passa a depender do teu bem-estar. Se não estiveres bem, se te pressentir um medo ou uma dor, nada mais me fará sorrir até ser capaz de te aliviar o sofrimento. Por cortesia, os meus desejos cederão o lugar às tuas vontades e só por ti serei capaz de suportar mesmo o insuportável. Aguentar horas de pé a ver-te saltar, saboreando apenas a recompensa do teu riso. Deixar para trás todos os afazeres planeados, só porque me imploras para que vá ao cinema contigo ver o filme que acabou de estrear. Desorganizar-me mentalmente, abdicando do tempo em que deveria estar a sós com o meu pensamento para fazer as pazes com as ideias de futuro que chamam por mim. Permitir-me ser a boneca humana penteada por um arrepio de duas mãos minúsculas movidas a puro amor. O resto pode esperar. O tempo não deixará de correr, mas os outros sonhos têm o dever de esperar por este. Porque ser mãe é uma missão a que um dia me propus. De mim nasceu a mais perfeita de todas as obras que um ser humano pode conceber. Talvez a única para a qual a falta de tempo não tenha jamais perdão.

domingo, 24 de novembro de 2013

Perdidos e achados

Haverá outra forma de treinar o desapego senão perdermos alguma coisa de vez em quando? Estimamos os nossos objectos como se pessoas fossem e choramo-los quando partem, como se não suportássemos a existência sem eles. E esquecemo-nos sempre que nada temos de verdadeiramente nosso. Tudo vem e vai. De tudo e de todos teremos de nos despedir um dia, para sempre. Há todo um mundo que não voltaremos a ver e que não levaremos connosco no bolso. Mas insistimos. A nossa casa. O nosso carro. Os nossos objectos pessoais. Ignoramos tufões, incêndios e terramotos. Não queremos pensar nisso. Que mau agoiro. Calamidades dos outros, imagens longínquas repetidas pela televisão. Mas pode-nos acontecer. Estaremos preparados para, a qualquer momento, recomeçar do zero sem nada do que acumulámos ao longo da vida? Ninguém está. Não há quem acredite ser capaz. Até ao dia em que a fatalidade nos invade a vida e nos troca os sonhos. Ainda ontem, depois de me sentir extraordinariamente feliz com um duche quente tomado pelo gelo das cinco e meia da manhã, acabei o dia privada de uma mochila que me acompanhava nas viagens há anos. Um táxi, do qual não fixei número, cooperativa ou nome de motorista, arrancou levando, talvez para sempre, a minha mochila. Lá dentro, banalidades: uma revista de literatura, uns óculos de sol (de marca), umas luvas em pele, o meu gorro preferido, todas as minhas chaves, “A desumanização”. Era só uma mochila, pensei, antes de me entristecer. Ainda assim, lancei o alerta pelas centrais de táxis. Ninguém deu por nada. Poderá haver um taxista sem escrúpulos uma mochila mais rico. E eu, não me sentindo mais pobre, lamento sobretudo a perda do “meu” Valter Hugo Mãe, uma prenda de alguém muito estimado cuja leitura me fica sem conclusão, a oitenta páginas do fim. Mais do que tudo, perseguir-me-á o desgosto de uma obra inacabada, que tanto prazer me estava a dar.

África minha

“Out of Africa” soundtrack, John Barry, 1985
Sem tempo para o cinema, este fim-de-semana não resisti ao apelo de uma banda sonora em promoção. Por apenas cinco euros, adquiri esta preciosidade. “Out of Africa”, na versão portuguesa “África minha”, é um grande clássico do cinema para o qual (o já falecido) John Barry compôs um conjunto memorável de temas. Para quem não conhece, partilho a faixa principal “I had a farm in Africa”, que não me canso de escutar repetidamente, sempre com a emoção à flor da pele. Deverá ser uma das músicas da minha vida! 



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Escrevo para esquecer

Doença é um nome feio. Mete medo e cheira a hospital. Soa a morte prematura. Dói a quem a sente e a quem a vê. Há dias vi-a passar à minha frente. Ia disfarçada de colega de infância. Quase não a reconheci. Passou empurrada sobre duas rodas. Ao fim de uns segundos, exclamei de susto: o que foi que aconteceu àquela rapariga que eu conhecia? Senti vontade de saber mais, mas vergonha de perguntar. Para quê confirmar o que as imagens revelam sem dó? Nunca mais falei com ela. Se antes não foi oportuno, agora seria constrangedor. Impossível não sentir compaixão de alguém tão jovem e tão privado de vida. A doença rouba mais que a idade. Apodera-se da beleza. Centrifuga a pele e mastiga os ossos. É um furacão de arrancar forças e cabelos. Por onde passa, deixa apenas os destroços e raramente uma esperança vaga de recomeço. Espantei-me: naquele rosto não vi tristeza nem dor. Onde contava ver desespero, observei serenidade. O ser humano habitua-se a tudo. O que não se pode mudar, aceita-se. Adormece-se desejando acordar de um pesadelo. Há imagens que têm eco. Por isso, escrevo para esquecer o que vi.

sábado, 16 de novembro de 2013

Ensaio sobre a cegueira

"Blindness", Fernando Meirelles, 2008
Agora que o frio convida ao aconchego, volto a pôr a cultura cinematográfica em dia. Na data em que celebraria noventa anos de idade, em jeito de homenagem, assisti pela primeira vez em DVD ao filme que fez Saramago chorar na estreia. Adaptado ao cinema pelo aclamado realizador brasileiro Fernando Meirelles, “Ensaio sobre a cegueira”, baseado no romance homónimo do Nobel português, é um filme chocante que decididamente nos faz abrir os olhos. Não o terá feito com essa intenção, mas ao ler as primeiras linhas do livro, temos a sensação que José Saramago estava já a desenhar o esboço de um filme. Toda a descrição é muito pictórica, um apelo à visualização, quando ironicamente o tema central é a cegueira. E se, de repente, a humanidade fosse inexplicavelmente contaminada por um estado de cegueira? O autor parte desta premissa para ficcionar o que aconteceria. E a resposta a que chega é o caos. Na sua mente de génio, Saramago imagina os contaminados a serem colocados de quarentena num antigo hospital psiquiátrico, sem as mínimas condições de higiene, privados de qualquer conforto ou contacto com o exterior, alimentados a ração de guerra, que vai escasseando ao passo que os contaminados aumentam. Os cegos mal se apercebem onde foram parar, mas há uma mulher, a única que continua a ver, que tem vislumbres permanentes do apocalipse. Quando o ser humano se vê privado das necessidades básicas, deixa de ser racional e o instinto de sobrevivência traz ao de cima o que de mais medonho e animalesco pode existir em nós. Quando o nosso único objectivo é sobreviver, somos capazes de tudo. É essa a mensagem do autor, levada ao extremo pela lente do realizador. No limite, sem escrúpulos, nem nada a perder, pessoas exploram pessoas, cães comem as carcaças humanas que vão sobrando nas ruas. E a felicidade pode ser reencontrada, após a fuga do cativeiro, num simples banho de chuva tomado em liberdade. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, aconselha-nos Saramago na citação de abertura desta história que só a sua mente brilhante poderia ter imaginado. 




domingo, 10 de novembro de 2013

Orgulho e preconceito

"Pride & Prejudice", Joe Wright, 2005
Uma tarde sossegada de Outono faz-me abrir a gaveta dos DVD por ver. E sou escolhida por este filme de 2005, que há anos me persegue implorando para ser visto: “Orgulho e preconceito”. Baseado num dos romances mais aclamados de Jane Austen, proeminente escritora inglesa do século XIX, esta é uma história do tempo em que as mulheres casavam sobretudo por conveniência. Mas a protagonista, Elizabeth, é uma excepção à regra e, apesar da pressão familiar para precaver o futuro com um casamento abastado, não consegue conceber a ideia de casar a não ser por amor. Ainda que despreocupada com a possibilidade desse ideal não se concretizar, acaba por fixar a atenção no arrogante e nada simpático Mr. Darcy, acabado de chegar à província. Ela é a rapariga pobre que o vai encantando pela sua inteligência e atitude pouco convencionais. Ele é o rapaz rico e bem parecido que se finge indiferente aos seus encantos, por mera imposição social. Se ela é o orgulho, ele é o preconceito. Mas a impossibilidade do verdadeiro amor acaba por ser derrubada pela coragem de ambos, que se permitem um final feliz. Um filme simples e suave que não deixa porém de se revelar absolutamente brilhante. Impossível não se reparar também na lindíssima banda sonora de Dario Marianelli, por si só carregada de emoção, e que merecidamente foi premiada com um Óscar.  





quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Coração adiado

Não me ofereças flores, escreve-me cartas. Oferece-me suspiros feitos de crença em mentiras inócuas. Faz-me sentir tua. Toma-te de posses por mim, já que nada temos de nosso a não ser isto que nos une: uma fúria divina só provada pelos que nada temem aos céus. Até os deuses consentem, abençoando às cegas quem se quer assim. Que mal pode fazer um amor sem fim? Talvez excessivo seja para o músculo que bate, bate. Chegará esgotado às noites, pela arritmia dos dias, mas adormecerá feliz, almofadado na certeza de que pulsa por alguém.