Lisboa
tem milhares de pernas, sempre apressadas para ir a algum lugar. Se possível
fosse silenciar outros ruídos, Lisboa seria um ecoar de passos ritmados em
marcha, um exército de pés calçados, um aplauso de solas à calçada portuguesa.
Lisboa
tem olhos distraídos de pensamentos vagos em qualquer coisa por fazer. De todos
os lados, a beleza da cidade acena e sorri. Só os turistas reparam e param para
a contemplar. Os residentes ignoram o redor, sempre cabisbaixos, com a
atenção virada para dentro, levando o desprezo de nariz de fora.
Lisboa
tem uma boca gulosa, de creme de nata e canela, de pastel quente acabado de
trincar. O beijo lisboeta sabe a bica. E toda a cidade se move a cafeína. Os
balcões já nem estranham o colar e descolar de corpos. Sai uma italiana! O
pedido é curto e bebe-se num gole.
Lisboa
tem hálito quente, temperado a sal, salpicado a sol. É Belém em frente ao Tejo,
o doce e o salgado a disputar, se a cidade é feita de nata ou se é um sonho feito de luz, numa noite pensado ao luar.
Escrevo-te
deste instante chamado presente, esperando encontrar-te numa esquina de um
futuro próximo.
Poderás
ser quem procuro, se souberes ler-me nas entrelinhas, sem demasiados pontos de
interrogação.
Serás
tu capaz de envolver-me os sentimentos sem me prender as vontades?
Ao
menos, tenta. Deixa-me ir e voltar sem pressas, aguardando-me nessa ansiedade
tranquila de coração apertado.
Desejo
um amor de ninho, não de gaiola. Consigo ver-nos juntos a construir conforto,
cada um voando por si em busca de sustento feliz. Dois pássaros que somos,
poderemos multiplicar-nos num bando, se quiseres.
Sabes,
muitas vezes fecho-me a sós com os meus pensamentos, não leves a mal. Poderás
juntar-te a nós, sempre que eu deixar a porta aberta. Se aprendermos a
adivinhar os silêncios um do outro, saberemos tudo o que mais importa.
Há
uma coisa que terás de me prometer: que os teus olhos serão capazes de me
ampliar outras qualidades, quando a beleza me fugir. Deixa lá, não prometas
nada. Se cumprires é quanto baste.
Se
me fores amável, talvez te seja sempre fiel, como um cachorro sem trela que
obedece e respeita livremente a quem só lhe quer bem.
É
assim que te desejo, travesseiro dos meus cansaços, montanha russa das minhas
euforias: que sejas a revelação de um mundo novo, livre de velhos vícios,
descortinado de novos hábitos, onde juntos seremos capazes de fintar
alegremente as tarefas da infelicidade rotineira dos casais.
Cristiano Ronaldo: o melhor futebolista do mundo e o primeiro português a ganhar duas bolas de ouro (2008, 2013)
Gostava de um dia sentir o que sentiu
hoje dona Dolores. O seu filho, um ser do seu corpo nascido, é o melhor do
mundo naquilo que faz. Haverá maior orgulho para uma mãe? Todas desejam o
melhor para os seus meninos. A maioria são mães de filhos que tentam, que se
esforçam, que quase conseguem. Mas dona Dolores é mãe de um sonho a quem um dia
chamou Ronaldo, em homenagem ao presidente americano. O menino de dona Dolores
cresceu. Cinco anos de luta fizeram dele um homem. Após a primeira bola de
ouro, Cristiano Ronaldo julgou-se capaz de tocar o céu. Aos vinte e poucos anos
estava nas nuvens e pensava que estalar um dedo bastava para subir mais alto. São
as lições que nos dão a maturidade. E as lágrimas de hoje foram as de um homem
que aprendeu a lição. Ser o melhor, não é ser o maior, é apenas ser o mais
completo. Ronaldo sabe hoje que assim é, mas aprendeu-o a custo: o sucesso dá
muito trabalho. E o homem que troca as palavras que não tem pelas lágrimas que
não consegue conter é o exemplo de que não há vitória sem sofrimento. E agora
Ronaldo, até onde vais? Correrás atrás da bola, até onde ela te guiar? Ou
voarás até ao Brasil para, num salto de gigante, nos realizares o sonho português de
um mundial?
Hoje apetece-me
dizer que a morte pode ser muito bonita quando celebrada com glória.
Num atípico dia
de reis, Portugal permitiu-se vestir um luto encarnado pelo seu “pantera negra”.
O Eusébio era nosso, um pedaço de país em corpo de homem, um nome que sozinho
nos abria fronteiras. Lembro-me de ser miúda e ouvir dizer: no dia em que o
Eusébio morrer, vai ser feriado nacional. Esse dia chegou e o país, a meia-haste, de facto parou.
Nasci demasiado
tarde para o ver jogar ao vivo, mas cedo me apercebi que o Eusébio era alguém a
respeitar. Mas ele só jogava à bola, não sabia fazer mais nada, era quase
analfabeto, porquê ser tão importante? Durante anos não percebi. Parecia-me
excessiva tamanha veneração por um mero jogador de futebol.
Hoje, ao ver as arrepiantes imagens de um estádio a aplaudir de pé um caixão, ao ver as ruas da
capital vestidas de cachecóis de todas as cores a bater palmas à passagem de um
carro funerário, ao ver estátuas coroadas de flores, entendi todos os porquês.
Não é preciso tirar
três cursos superiores, dois mestrados e um doutoramento. Não é importante ser
bem-falante, nem nascer rico, nem nascer branco. O essencial é descobrir o que
se gosta de fazer na vida e fazê-lo bem. Fazê-lo com vontade genuína, não pelo
dinheiro que dá mas pela felicidade que traz. Se a sorte, num momento de inspiração,
nos fizer geniais na nossa discreta humildade, alguém irá reparar, o aplauso
irá soar, o público irá sorrir, a história irá eternizar.
Hoje, apesar das
lágrimas, não houve tristeza. Até o céu só chorou saudade. Como se o universo,
pelos seus meios, fizesse questão de abençoar o menino que nasceu povo e foi
capaz de, humildemente, morrer rei.
“Numa escala de zero a dez, quão
satisfeito se sente com a vida no seu todo?”. É em torno desta questão que gira
toda a história narrada por Daniel, o protagonista deste que é o mais recente livro
de David Machado. O personagem - que vê a sua vida colapsar, após perder o
emprego, a casa e, consequentemente, a mulher e os filhos, que se vêem forçados
a ir viver para longe por força das circunstâncias – trava uma luta incansável
pela não resignação e resgate de toda e qualquer esperança. O que nos resta
quando perdemos os pilares da nossa existência? Será possível perder-se tudo o
que se julga indispensável e ainda assim ser-se feliz? Esta é uma obra que nos
cativa e seduz pela franqueza nua da realidade exposta e nos vai fazendo
levantar questões muito pertinentes sobre a nossa própria vida. É impossível
fechar este livro sem sentir admiração pela determinação de Daniel, um
personagem inspirador do qual nos lembraremos certamente, como uma referência,
sempre a vida se complicar. Uma obra recente, de temática muito actual, que
confirma este jovem autor como membro de uma nova geração de talentos da
literatura portuguesa. Recomendadíssimo!
Fim de ciclo. Hora de despertar e renascer. Tempo
de um novo recomeço. Um apelo à correcção de teimosos hábitos entranhados que
nos adormecem os sentidos travando a evolução. Uma nova oportunidade de partir
em busca de descobertas infinitas. As escolhas são sempre múltiplas e a aposta
nem sempre certeira. A caça é tantas vezes feita de tiros ao lado. Mas
perseguir um alvo é sempre um objectivo que nos move. Um passo em frente, um
salto adiante, um pulo mais alto, um voo mais longe. Avançar é o verbo que
sempre se impõe. Desejar. Sonhar. Lutar. Realizar. Por vezes perder.
Escorregar. Cair. Sacudir o pó. Reerguer-se. Voltar a acreditar. De novo lutar.
Esforço. Fraqueza. Quase desistir. Já falta pouco. Insiste. Se fores capaz de
continuar, um dia chegas lá. Um dia hás-de ganhar. O prémio é continuar a ter
tempo para fazer e refazer. Toda a vida, por mais longa que seja, será sempre
uma obra frustrantemente inacabada. Desliga e volta a ligar. Reinicia o contador e acelera, rumo à
próxima paragem.
"Mandela: long walk to freedom"; Realizador: Justin Chadwick;
Protagonistas: Idris Elba (Mandela), Naomi Harris (Winnie).
Fui há poucos
dias ver este filme que abrevia vinte e sete longos e tortuosos anos de
cativeiro em duas horas e meia. E saí da sala de cinema a considerar que o
realizador desta película - inspirada na autobiografia homónima de Nelson
Mandela, publicada em 1994 - aligeirou demasiado a história. Ainda que seja vincado,
quer o isolamento, quer o clima de tortura e humilhação a que Mandela foi
submetido na prisão de Robben Island, é fácil abandonar-se a sala com a vontade
de querer ver mais, de saber mais, de ler o livro que testemunha, na primeira
pessoa, o drama de quem viveu assim: abdicando da sua liberdade em prol da luta
pelo direito à igualdade social dos seus semelhantes. A surpresa do filme, para
mim, foi a revelação do papel de Winnie ao lado da luta do grande líder. A
segunda mulher de Mandela, mãe de duas filhas que cresceram sem ver o pai, é
evidenciada como o eco da voz do marido do lado de fora das grades, o pilar da
resistência que se empenhou ferozmente na disseminação das convicções
anti-apartheid. Conforme pode ver-se na película, Mandela, que afirmou estar
disposto a morrer pela sua causa, escapou à pena de morte, mas suportou, com a
maior dignidade, um terço da vida em reclusão. Com sabedoria e humildade,
ganhou o respeito universal, reconquistou a liberdade e tornou-se o primeiro
presidente negro da África do Sul. O homem que foi capaz de conquistar a
amizade dos seus carcereiros, e de lhes agradecer por o terem tornado uma
pessoa mais forte, ficará para sempre gravado, como um exemplo, na memória histórica
da humanidade. Este filme ficará como mais um documento, destacando-se o
excelente desempenho dos protagonistas. Para concluir, deixo o tema dos U2 –
“Ordinary love” - que tão bem me soou no
final do filme.
O espírito acende-se na árvore e aos poucos em cada um de nós. Não há quem lhe seja imune. Gostamos do Natal porque é uma noite sem medo, de ruas e casas muito iluminadas. De estradas desertas e casas lotadas. Uma noite onde até as solidões se confortam de azeite morno derramado no bacalhau. Porque nesta noite até os sem tecto são chamados a sentar-se à mesa diante de um prato quente. Há mais mantas para distribuir e tendas abertas ao convívio dos que se habituaram a chamar cama às pedras da calçada. É a noite mais tranquila de todas as noites porque o mundo, por umas horas, se aquieta e respira. Até os escravos da idade moderna tem ordem para partir em liberdade. Facturam até ao último instante os esquecimentos de alguém e suspiram sonhos quando chega a tão esperada hora de jantar. Os que têm a sorte de sentar-se à mesa, gostam de a ter farta das suas tradições. É a noite do vale tudo, comer e beber e repousar dos sacrifícios passados. Olhar com vagar e descobrir novas rugas nos rostos de quem há muito não se via. Sentir que cada lugar vazio ocupa todo o espaço do pensamento. Reencontrar em cada nova vida que corre pela casa a alegria que faz adormecer a saudade. Mesmo quando não há presentes, é a noite em que se desembrulham todas as lembranças: quando a avó cozinhava, quando o pai ainda estava aqui, quando era eu a criança dona de todas as euforias e risos. Quando o Natal era uma festa, eu ainda acreditava que podia tudo e que toda a gente durava para sempre. Dizia Natal com o espanto alegre de quem vê uma chuva de estrelas enquanto pede desejos. Este ano portei-me bem, mereço um presente. E mesmo quando me portava mal os presentes apareciam. A vida era a magia de ver acontecer o que se deseja. Como no circo, varinha mágica no chapéu e coelho a sair da cartola. Ainda que o Natal já não seja o que foi, será sempre uma linha imaginária que marca a mudança dos medos. Uma troca de esperanças assinalada com a troca de presentes. É tempo de reciclar objectos e sentimentos. Trocar o velho pelo novo, eliminar o que já não se quer, abrir espaço para que entre o melhor.
O que dizer de Valter Hugo Mãe, um escritor que chegou viu e venceu? Se há pessoas que nascem com o dom da palavra, ele foi um deles. Não tem, porém, uma escrita fácil nem consensual. Só um apreciador de belas artes gostará de lê-lo. A escrita de Hugo Mãe roça o surrealismo e causa por vezes estranheza, antes do verdadeiro prazer. Nunca o tinha lido enquanto romancista, confesso. Há muito que sigo as suas crónicas no Jornal de Letras e noutras publicações, apreciando-lhe o estilo: frontal e cristalino, por vezes de uma inocência infantil, sempre a prosar de olho na poética que cada entrelaçar de palavras pode encerrar. A leitura deste seu último romance - “A desumanização” – vem confirmar-me a ideia de que estamos diante de um grande escritor português, com um estilo muito vincado, onde uma obsessiva busca pela literalidade se sobrepõe sempre ao valor da história. Há momentos em que quase esquecemos o conteúdo narrado e nos deleitamos apenas a admirar a construção frásica e as analogias encontradas para nos expor diante uma imagem que contemplamos como um amante de arte. Este é um livro só para leitores maduros. Não recomendado aos que apenas lêem por mera distracção. A busca do sentido da vida por uma gémea dos fiordes islandeses, que acaba de perder a irmã que lhe servia de espelho, é um mero pano de fundo para as mil e uma divagações do autor sobre os mais diversos temas com que se confronta toda a existência humana.
“A
persistência da memória”, Daniel Oliveira, 2013
Interrompendo um ciclo de leitura de autores
premiados, decidi desanuviar com um estreante no romance: Daniel Oliveira.
Sobejamente conhecido do pequeno ecrã, este jovem comunicador de trinta e um
anos lança-se como romancista com “A persistência da memória” – nome
inspirado numa das mais célebres telas surrealistas de Salvador Dali.
Neste livro, Camila, a narradora e protagonista da
história, sofre de hipermnésia ou síndrome de memória superior, uma patologia
que a perturba e afecta, pela impossibilidade de eliminar do pensamento os
acontecimentos passados, que lhe perturbam o presente e lhe confundem o futuro.
Voando entre Lisboa, Rio de Janeiro e Nova Iorque, a personagem vai-nos
revelando os seus segredos – mesmo os mais inconfessáveis – e as passagens mais
marcantes da sua vida. Sem nunca roçar o brejeiro, nem recorrer ao vernáculo, o
autor descreve com erotismo e subtileza as cenas mais íntimas, conferindo-lhes
a dose certa de sensibilidade, intensidade e verdade para estimular a fertilidade
da imaginação do leitor. Daniel conhece bem as palavras e usa-as como pincéis
coloridos com os quais no vai pintando uma história de contornos ligeiros, mas
muito actual e carregada de mensagens com grande significado. Podia ser só mais
um best seller promovido por um rosto da TV, mas este romance é um excelente
pontapé de partida para um escritor com um enorme potencial a desenvolver.
“A
persistência da memória”, Salvador Dali, 1931, (MoMA) – Museu de Arte Moderna
de Nova Iorque
Ter filhos é inventar tempo. É deixar de conjugar o verbo viver na primeira pessoa do singular. Tu passas a ser mais importante do que eu e a minha felicidade passa a depender do teu bem-estar. Se não estiveres bem, se te pressentir um medo ou uma dor, nada mais me fará sorrir até ser capaz de te aliviar o sofrimento. Por cortesia, os meus desejos cederão o lugar às tuas vontades e só por ti serei capaz de suportar mesmo o insuportável. Aguentar horas de pé a ver-te saltar, saboreando apenas a recompensa do teu riso. Deixar para trás todos os afazeres planeados, só porque me imploras para que vá ao cinema contigo ver o filme que acabou de estrear. Desorganizar-me mentalmente, abdicando do tempo em que deveria estar a sós com o meu pensamento para fazer as pazes com as ideias de futuro que chamam por mim. Permitir-me ser a boneca humana penteada por um arrepio de duas mãos minúsculas movidas a puro amor. O resto pode esperar. O tempo não deixará de correr, mas os outros sonhos têm o dever de esperar por este. Porque ser mãe é uma missão a que um dia me propus. De mim nasceu a mais perfeita de todas as obras que um ser humano pode conceber. Talvez a única para a qual a falta de tempo não tenha jamais perdão.