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| "Dica da Semana", edição regional Algarve, 13 de Março de 2014 |
quinta-feira, 13 de março de 2014
Reportagem # 1
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terça-feira, 11 de março de 2014
Parto sem dor
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| 11 de Março de 2008, berçário do Hospital de Santa Maria, Lisboa |
Fui a conduzir para o hospital.
Não suspeitava que pudesse ter de passar lá a noite, por isso levava como única
bagagem a discreta barriga de oito meses. A tensão a subir, eram só uns
exames de rotina a pedido do médico, pura precaução, afinal “ainda falta muito
tempo”, pensava eu. Estava longe, muito longe de imaginar que daí a poucas
horas estaria em pânico com uma bebé prematura nos braços. Fui mãe sem dores de
parto. Lamento até hoje desconhecer o significado de uma contracção. Fui
poupada ao ridículo de me ver com uma poça de água aos pés, como se urinasse
sem sentir. Não, eu não sei. Sou mãe sem conhecer os gritos de dor dos partos
romanceados. Acordei de uma anestesia geral, recordando-me
lentamente quem era e onde estava. E poucos minutos depois, ainda atordoada e
dormente, vi entrar uma enfermeira com um bebé nos braços. “Acho que é sua!” – Disse-me,
em tom de brincadeira. Sem saber ainda o que fazer ou pensar ou dizer,
estendi-lhe os braços e desajeitadamente segurei-te contra o meu peito. Eras
dois quilos da mais pura perfeição. E a partir desse instante, noite e dia, dia
e noite, eu tinha a obrigação de zelar para que nada te faltasse. Antes de
conseguir ficar feliz, tive medo: a partir de agora era a sério, ia mesmo
começar a ser mãe! A tua mãe. Não fui a primeira pessoa a
ver-te, mas dizem que eras um sopro de vida numa caixinha de vidro. Nem
respirar ainda sabias. Eras incapaz de mamar. Manter-te viva tornou-se a minha
missão. Dentro de mim batem desde então dois corações. O teu e o meu. Tudo
começou, faz hoje seis anos.
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segunda-feira, 10 de março de 2014
Dom Casmurro
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| "Dom Casmurro", Machado de Assis, edição Dom Quixote |
Há mais de dez anos que adiava a leitura deste livro. Sabia-o
importante, mas a edição que tinha em casa era de letra miudinha, pouco
convidativa aos olhos. No início do ano, esbarrei com esta capa da Dom Quixote
numa prateleira da FNAC e Dom Casmurro escolheu-me: leitora, tens de me levar
contigo! "Um dos 1000 livros que todos devemos ler", destacava um
autocolante vermelho, a título de recomendação do "Guardian".
Ao chegar ao fim das 309 páginas deste clássico da literatura
brasileira, escrito por Machado de Assis no final do século XIX, editado em
1900, sinto-me mais culta e rica em palavras. Sem utilizar vocábulos caros, a
linguagem de Machado de Assis é acessível e cativante do princípio ao fim. O
romance está organizado em 148 minúsculos capítulos de 1/2 páginas, o que
proporciona uma leitura fluída e contínua muito agradável. A história de amor
de Bentinho e Capitú vai sendo narrada por etapas muito bem delimitadas no
espaço e no tempo, fazendo-nos viajar ao lado dos personagens com atenção e
deleite. Mais do que o enredo, quanto a mim básico, envolveu-me o modo de jogar
com as palavras de Machado de Assis. Para todos aqueles que temem a leitura dos
clássicos, por serem maçadores, recomendo que comecem por este: não será por
acaso que Dom Casmurro é considerado uma obra-prima da literatura brasileira.
Missão cumprida da minha parte. Já posso viajar para terras de Vera Cruz
levando na bagagem cultural o conteúdo de Dom Casmurro, para discutir com algum
intelectual de sotaque adocicado.
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domingo, 2 de março de 2014
Livro em branco
Era uma vez nós dois
Num encontro imprevisto
O encanto aconteceu
Não mais nos vimos depois
E a saudade foi pousando
Dor leve que vai pesando
Foi o que sentimos os dois
Treinando o esquecimento
Nossos dias vão passando
Tentando varrer soprando
O mais nobre sentimento
Era uma vez nós dois
Assim começa a história
Que nos cabe inventar
Até ao fim da memória
sábado, 15 de fevereiro de 2014
O abraço
Acordei com a vontade faminta que a noite não
soube adormecer. Comecei as tarefas do dia sem conseguir repousar a distracção.
Estavas em cada objecto como um fantasma. Vejo-te mas não estás ali. Imagino-te
apenas, mas tanto me pesa carregar-te para todo o lado. Preciso descarregar-te
de mim. Hoje quero depositar-me num abraço teu, como quem cai num poço sem
fundo. Vou procurar-te na surpresa que não esperas. Fazer-te borbulhar no
descontrolo do medo. Vou encontrar-te na rua dos amores-perfeitos, quase às
portas do céu. Vais poupar nas palavras, fixar-te na atenção dos outros sentidos.
Quando me vires, serei toda contornos e cores, pele suave e cheiro doce. E tu
serás a felicidade disfarçada numa vergonha infantil. No momento em que os
teus olhos e os meus olhos se encontrarem num sorriso, seremos um instante para
sempre. Dois corpos que se amam num alívio apertado. Um abraço que é um aperto
de silêncios, o reencontro sonhado com a outra metade de nós.
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Diário de uma ninfomaníaca
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| "Diario de una ninfómana", Christian Molina, 2008 |
Não se deixe impressionar pelo título:
o que vou escrever a seguir não é susceptível de bolinha vermelha no canto
superior do ecrã. Este é apenas o nome de um livro - que nunca li mas já tinha
ouvido falar - que o realizador espanhol Christian Molina transformou em filme
em 2008. Há dias, num “zapping” pelo videoclube, por curiosidade, arrisquei ver
esta película. Ao contrário do que à partida imaginei, “Diário de uma
ninfomaníaca” é um filme que pouco tem de pornográfico. É antes uma
desconcertante exposição sobre a confusão dos sentimentos humanos e a sua
relação com os comportamentos sexuais. Perturbadores e comoventes, muitas
mulheres podem identificar-se com os pensamentos confessados por Valérie (a
protagonista) no seu diário. Esta obra revelou-se, para mim, um importante
retrato do pensamento feminino reprimido pelas duras regras do socialmente
aceite. E se me é permitida uma opinião, em pleno século XXI não faz qualquer
sentido continuar a educar as mulheres para não gostarem de sexo, quando isso é
um direito nato ao prazer. E o próprio corpo é, e será sempre, a mais pura,
natural e próxima fonte de o buscar. Se ficou curioso, veja o filme, que é
breve e vale bem a pena.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Quadras aos namorados
Porque
te demoras amor?
Quando
o tempo é tão breve
O
que tem de ser não se espera
Antes
que a vida nos leve
Antes que a vida nos leve
Temos mil sonhos a cumprir
Corre para o primeiro,
abraça-me
Vamos juntos sorrir
Vamos juntos sorrir
De mãos dadas ao luar
É o que fazem os namorados
Mesmo depois de casar
Mesmo depois de casar
Há quem saiba ser feliz
Aprender a arte de amar
É tudo o que sempre quis
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Sabor a Lisboa
Lisboa tem milhares de pernas, sempre apressadas para ir a algum lugar. Se possível fosse silenciar outros ruídos, Lisboa seria um ecoar de passos ritmados em marcha, um exército de pés calçados, um aplauso de solas à calçada portuguesa.
Lisboa
tem olhos distraídos de pensamentos vagos em qualquer coisa por fazer. De todos
os lados, a beleza da cidade acena e sorri. Só os turistas reparam e param para
a contemplar. Os residentes ignoram o redor, sempre cabisbaixos, com a
atenção virada para dentro, levando o desprezo de nariz de fora.
Lisboa
tem uma boca gulosa, de creme de nata e canela, de pastel quente acabado de
trincar. O beijo lisboeta sabe a bica. E toda a cidade se move a cafeína. Os
balcões já nem estranham o colar e descolar de corpos. Sai uma italiana! O
pedido é curto e bebe-se num gole.
Lisboa
tem hálito quente, temperado a sal, salpicado a sol. É Belém em frente ao Tejo,
o doce e o salgado a disputar, se a cidade é feita de nata ou se é um sonho feito de luz, numa noite pensado ao luar.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Carta ao meu futuro amor
Escrevo-te
deste instante chamado presente, esperando encontrar-te numa esquina de um
futuro próximo.
Poderás
ser quem procuro, se souberes ler-me nas entrelinhas, sem demasiados pontos de
interrogação.
Serás
tu capaz de envolver-me os sentimentos sem me prender as vontades?
Ao
menos, tenta. Deixa-me ir e voltar sem pressas, aguardando-me nessa ansiedade
tranquila de coração apertado.
Desejo
um amor de ninho, não de gaiola. Consigo ver-nos juntos a construir conforto,
cada um voando por si em busca de sustento feliz. Dois pássaros que somos,
poderemos multiplicar-nos num bando, se quiseres.
Sabes,
muitas vezes fecho-me a sós com os meus pensamentos, não leves a mal. Poderás
juntar-te a nós, sempre que eu deixar a porta aberta. Se aprendermos a
adivinhar os silêncios um do outro, saberemos tudo o que mais importa.
Há
uma coisa que terás de me prometer: que os teus olhos serão capazes de me
ampliar outras qualidades, quando a beleza me fugir. Deixa lá, não prometas
nada. Se cumprires é quanto baste.
Se
me fores amável, talvez te seja sempre fiel, como um cachorro sem trela que
obedece e respeita livremente a quem só lhe quer bem.
É
assim que te desejo, travesseiro dos meus cansaços, montanha russa das minhas
euforias: que sejas a revelação de um mundo novo, livre de velhos vícios,
descortinado de novos hábitos, onde juntos seremos capazes de fintar
alegremente as tarefas da infelicidade rotineira dos casais.
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Desabafos salteados
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Menino de ouro
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| Cristiano Ronaldo: o melhor futebolista do mundo e o primeiro português a ganhar duas bolas de ouro (2008, 2013) |
Gostava de um dia sentir o que sentiu
hoje dona Dolores. O seu filho, um ser do seu corpo nascido, é o melhor do
mundo naquilo que faz. Haverá maior orgulho para uma mãe? Todas desejam o
melhor para os seus meninos. A maioria são mães de filhos que tentam, que se
esforçam, que quase conseguem. Mas dona Dolores é mãe de um sonho a quem um dia
chamou Ronaldo, em homenagem ao presidente americano. O menino de dona Dolores
cresceu. Cinco anos de luta fizeram dele um homem. Após a primeira bola de
ouro, Cristiano Ronaldo julgou-se capaz de tocar o céu. Aos vinte e poucos anos
estava nas nuvens e pensava que estalar um dedo bastava para subir mais alto. São
as lições que nos dão a maturidade. E as lágrimas de hoje foram as de um homem
que aprendeu a lição. Ser o melhor, não é ser o maior, é apenas ser o mais
completo. Ronaldo sabe hoje que assim é, mas aprendeu-o a custo: o sucesso dá
muito trabalho. E o homem que troca as palavras que não tem pelas lágrimas que
não consegue conter é o exemplo de que não há vitória sem sofrimento. E agora
Ronaldo, até onde vais? Correrás atrás da bola, até onde ela te guiar? Ou
voarás até ao Brasil para, num salto de gigante, nos realizares o sonho português de
um mundial?
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Voa, pantera negra
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| Eusébio da Silva Ferreira, 1942-2014 |
Hoje apetece-me
dizer que a morte pode ser muito bonita quando celebrada com glória.
Num atípico dia
de reis, Portugal permitiu-se vestir um luto encarnado pelo seu “pantera negra”.
O Eusébio era nosso, um pedaço de país em corpo de homem, um nome que sozinho
nos abria fronteiras. Lembro-me de ser miúda e ouvir dizer: no dia em que o
Eusébio morrer, vai ser feriado nacional. Esse dia chegou e o país, a meia-haste, de facto parou.
Nasci demasiado
tarde para o ver jogar ao vivo, mas cedo me apercebi que o Eusébio era alguém a
respeitar. Mas ele só jogava à bola, não sabia fazer mais nada, era quase
analfabeto, porquê ser tão importante? Durante anos não percebi. Parecia-me
excessiva tamanha veneração por um mero jogador de futebol.
Hoje, ao ver as arrepiantes imagens de um estádio a aplaudir de pé um caixão, ao ver as ruas da
capital vestidas de cachecóis de todas as cores a bater palmas à passagem de um
carro funerário, ao ver estátuas coroadas de flores, entendi todos os porquês.
Não é preciso tirar
três cursos superiores, dois mestrados e um doutoramento. Não é importante ser
bem-falante, nem nascer rico, nem nascer branco. O essencial é descobrir o que
se gosta de fazer na vida e fazê-lo bem. Fazê-lo com vontade genuína, não pelo
dinheiro que dá mas pela felicidade que traz. Se a sorte, num momento de inspiração,
nos fizer geniais na nossa discreta humildade, alguém irá reparar, o aplauso
irá soar, o público irá sorrir, a história irá eternizar.
Hoje, apesar das
lágrimas, não houve tristeza. Até o céu só chorou saudade. Como se o universo,
pelos seus meios, fizesse questão de abençoar o menino que nasceu povo e foi
capaz de, humildemente, morrer rei.
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Eusébio,
Morte
sábado, 4 de janeiro de 2014
Índice médio de felicidade
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| "Índice médio de felicidade", David Machado, 2013 |
“Numa escala de zero a dez, quão
satisfeito se sente com a vida no seu todo?”. É em torno desta questão que gira
toda a história narrada por Daniel, o protagonista deste que é o mais recente livro
de David Machado. O personagem - que vê a sua vida colapsar, após perder o
emprego, a casa e, consequentemente, a mulher e os filhos, que se vêem forçados
a ir viver para longe por força das circunstâncias – trava uma luta incansável
pela não resignação e resgate de toda e qualquer esperança. O que nos resta
quando perdemos os pilares da nossa existência? Será possível perder-se tudo o
que se julga indispensável e ainda assim ser-se feliz? Esta é uma obra que nos
cativa e seduz pela franqueza nua da realidade exposta e nos vai fazendo
levantar questões muito pertinentes sobre a nossa própria vida. É impossível
fechar este livro sem sentir admiração pela determinação de Daniel, um
personagem inspirador do qual nos lembraremos certamente, como uma referência,
sempre a vida se complicar. Uma obra recente, de temática muito actual, que
confirma este jovem autor como membro de uma nova geração de talentos da
literatura portuguesa. Recomendadíssimo!
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