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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mensagem de condolências

Perder a mãe é uma amputação. É sentir a morte arrancar-nos um membro à dentada. A partir daí, tudo será como aprender a fazer tranças com uma só mão. No início, vai parecer impossível. Será como caminhar com uma só perna. Coxeando e caindo, sem ter quem nos apare. Viver sem mãe deve parecer-se a caminhar sem chão. Escrevo no domínio da suposição, porque felizmente não sei o que isso é. Provavelmente, se a lei da vida não atraiçoar as contas, um dia essa dor irá tocar-me. Que buraco fundo a falta de um mãe consegue escavar! De um pai sente-se a falta. Muita. Mas uma mãe sai de nós como um dia saímos dela: com um grito de parto. Um dia, quase todas as mães juraram não aguentar as dores de um outro corpo a sair do seu. Assim serás, minha mãe. Quando partires, vais deixar-me de herança um longo trabalho de parto. Sozinha, terei de parir forças para suportar esta vida sem ti. Se ao menos pudesses dizer-me onde reencontrar o calor das tuas mãos… 

(Dedicado a uma mãe-coragem que ontem partiu)


quinta-feira, 10 de abril de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Desejo de renascermos juntos

Para ti, "belo adormecido".
Sinto-me como se, num dado instante, tivesses depositado em mim uma semente chamada encanto, que a cada lágrima se rega e cresce, criando rebentos que não param de ramificar. Cresces em mim como um desejo de reencontro com algo que nasci para conhecer. Se possível fosse engravidar os pensamentos, isso seria o que estou a sentir. Quanto mais penso, mais cresces em mim, como um filho que um dia terá imperativamente de nascer. Esse dia será um milagre. E nós, que não somos santos, cederemos ao prazer da carne, regressando às origens, como se a vida nos desse uma segunda chance para renascer.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

Matéria-prima

A palavra é o meu tijolo. Arremesso-a todos os dias, não para erguer muros mas para construir pontes, elos de ligação entre as pessoas. Gosto de palavras firmes que não sejam rígidas. Não gosto de palavras duras, feitas de pedra. Gosto delas suaves, parecidas com plasticina, as que se deixam moldar à situação e têm o efeito balsâmico de um abraço. Todas as palavras deveriam ser usadas para unir, erguer, construir. A amizade é uma palavra funda: dentro dela cabe um poço de palavras. O amor é uma palavra-mistério: todos o sentem, ninguém o viu. É como o vento, atravessa-nos o corpo, desarruma-nos as ideias e lá vai, voltando sempre, inesperado, voando selvagem. A palavra é o esboço de quem não sabe desenhar. Aos olhos de um escritor, todo o mundo é um puzzle de palavras encaixadas, onde sempre faltam ou sobram peças. Toda a palavra pode, toda a palavra muda. Por isso, lança as tuas palavras. Mesmo baralhadas como as cartas, elas têm poder. Ao não as usares, abdicas de ser quem és, e estarás condenado a viver escondido num buraco solitário chamado silêncio.   

quinta-feira, 27 de março de 2014

domingo, 23 de março de 2014

Dá tempo ao tempo

"About time", Richard Curtis, 2013
Um filme que vi há dias inspirou-me o tema. Até porque nunca houve conselho mais sábio que me agastasse tanto. Porque viver implica esperar, crescer para aparecer. Não somos a casa pronta, chave na mão. Nascemos um edifício vazio que a vida vai mobilando. Com a idade, nós casas, vamos crescendo, ganhamos divisões. O mobiliário, esse, vai chegando a conta-gotas, com o passar do tempo. Uma tragédia aqui, uma alegria ali, uma descoberta acolá. A aprendizagem começa por exibir-se nua e acaba fechada em gavetas, como os objectos que possuímos, muitas vezes sem saber porquê, tantas vezes sem saber para quê. Adiante, tudo acaba por fazer sentido. Nada acontece cedo nem tarde demais. Nós é que vivemos na eterna esperança em que algo nos aconteça já. Ou, por vezes, simplesmente não vivemos, temendo o que nos possa acontecer. E se pudéssemos voltar atrás, àquele instante que determinou uma mudança na nossa vida, e fazer tudo de novo, de outra maneira? É esta a pergunta que levanta o filme “Dá tempo ao tempo”, uma história que alterna, de forma equilibrada, entre a comédia e o drama, estimulando a reflexão. Ao chegar ao fim, o jovem Tim acaba por descobrir que, apesar do seu super-poder de viajante no tempo, não é preciso grandes manobras para a nossa vida ser exactamente aquilo que deveria ser: de certa forma, perfeita à sua maneira.

quinta-feira, 13 de março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Parto sem dor

11 de Março de 2008, berçário do Hospital de Santa Maria, Lisboa 
Fui a conduzir para o hospital. Não suspeitava que pudesse ter de passar lá a noite, por isso levava como única bagagem a discreta barriga de oito meses. A tensão a subir, eram só uns exames de rotina a pedido do médico, pura precaução, afinal “ainda falta muito tempo”, pensava eu. Estava longe, muito longe de imaginar que daí a poucas horas estaria em pânico com uma bebé prematura nos braços. Fui mãe sem dores de parto. Lamento até hoje desconhecer o significado de uma contracção. Fui poupada ao ridículo de me ver com uma poça de água aos pés, como se urinasse sem sentir. Não, eu não sei. Sou mãe sem conhecer os gritos de dor dos partos romanceados. Acordei de uma anestesia geral, recordando-me lentamente quem era e onde estava. E poucos minutos depois, ainda atordoada e dormente, vi entrar uma enfermeira com um bebé nos braços. “Acho que é sua!” – Disse-me, em tom de brincadeira. Sem saber ainda o que fazer ou pensar ou dizer, estendi-lhe os braços e desajeitadamente segurei-te contra o meu peito. Eras dois quilos da mais pura perfeição. E a partir desse instante, noite e dia, dia e noite, eu tinha a obrigação de zelar para que nada te faltasse. Antes de conseguir ficar feliz, tive medo: a partir de agora era a sério, ia mesmo começar a ser mãe! A tua mãe. Não fui a primeira pessoa a ver-te, mas dizem que eras um sopro de vida numa caixinha de vidro. Nem respirar ainda sabias. Eras incapaz de mamar. Manter-te viva tornou-se a minha missão. Dentro de mim batem desde então dois corações. O teu e o meu. Tudo começou, faz hoje seis anos. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Dom Casmurro

"Dom Casmurro", Machado de Assis, edição Dom Quixote
Há mais de dez anos que adiava a leitura deste livro. Sabia-o importante, mas a edição que tinha em casa era de letra miudinha, pouco convidativa aos olhos. No início do ano, esbarrei com esta capa da Dom Quixote numa prateleira da FNAC e Dom Casmurro escolheu-me: leitora, tens de me levar contigo! "Um dos 1000 livros que todos devemos ler", destacava um autocolante vermelho, a título de recomendação do "Guardian". 
Ao chegar ao fim das 309 páginas deste clássico da literatura brasileira, escrito por Machado de Assis no final do século XIX, editado em 1900, sinto-me mais culta e rica em palavras. Sem utilizar vocábulos caros, a linguagem de Machado de Assis é acessível e cativante do princípio ao fim. O romance está organizado em 148 minúsculos capítulos de 1/2 páginas, o que proporciona uma leitura fluída e contínua muito agradável. A história de amor de Bentinho e Capitú vai sendo narrada por etapas muito bem delimitadas no espaço e no tempo, fazendo-nos viajar ao lado dos personagens com atenção e deleite. Mais do que o enredo, quanto a mim básico, envolveu-me o modo de jogar com as palavras de Machado de Assis. Para todos aqueles que temem a leitura dos clássicos, por serem maçadores, recomendo que comecem por este: não será por acaso que Dom Casmurro é considerado uma obra-prima da literatura brasileira. Missão cumprida da minha parte. Já posso viajar para terras de Vera Cruz levando na bagagem cultural o conteúdo de Dom Casmurro, para discutir com algum intelectual de sotaque adocicado.   

domingo, 2 de março de 2014

Livro em branco


Era uma vez nós dois
Num encontro imprevisto
O encanto aconteceu

Não mais nos vimos depois
E a saudade foi pousando
Dor leve que vai pesando
Foi o que sentimos os dois

Treinando o esquecimento
Nossos dias vão passando
Tentando varrer soprando
O mais nobre sentimento

Era uma vez nós dois
Assim começa a história
Que nos cabe inventar
Até ao fim da memória