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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A mulher de 35 anos

Esperavas aqui chegar uma senhora de saltos altos, mas dás-te conta que ainda és apenas uma menina em bicos dos pés, tentando revelar talentos. Já não corres como aos vinte; o corpo deixou de acompanhar a pressa dos sonhos por realizar. A espera tem agora a serenidade que só a idade ensina: tudo tem o seu tempo. Não adianta desejar o que não estamos preparados para receber. Quando já esperavas só certezas, sobram-te as dúvidas. Paras mais vezes para pensar, mas a dificuldade reside numa questão sem resposta: é o mundo que muda depressa demais ou teu pensamento? Mil ideias, mil vontades, mil vezes mil pensamentos te invadem a cada instante. O que está certo ou errado, já devias saber de cor. Não te aflijas! Ninguém sabe ao certo, ainda que diga que sim. A vida é esta constante aprendizagem que não se limita à infância. No que toca a saber viver, somos crianças até à morte. Ao chegares aqui, o amor já deveria ser aquele lugar seguro aonde não chega o medo. Gostavas que fosse terra firme, pegada certa num só chão. Mas o amor é feito de emoções movediças, num vaivém de marés que arrasta sentimentos definitivos. Com cada vez menos porquês, já entendes que há pessoas que são lições de vida. Entram em nós para revelar caminhos, para nos espelhar defeitos a corrigir. E podem ficar uma vida ou partir depressa. O tempo da aula depende do tamanho da lição. Estás a meio de um caminho sem volta. Se, por um lado, sobes tentando atingir um topo, por outro, estás cada vez mais perto da meta final. Por isso, pensas: vai mais devagar. Contempla mais, respira mais, sente mais. O caminho não te foge. E mesmo que tenda a desviar-se, haverá sempre um atalho de reencontro mais adiante. És uma mulher de trinta e cinco anos. Rosto de menina com traços vincados de senhora. Atitudes infantis com requintes de adulto. Medos humanos camuflados numa força bruta animal.     

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Opinião # 1

Jornal J - Juventude, Artes e Ideias - Município de Olhão - Edição 15 de Setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Para onde vão os guarda-chuvas

"Para onde vão os guarda-chuvas", Afonso Cruz, Alfaguara
Demorei uns três meses a ler este livro. Não que fosse aborrecido, mas demasiado extenso para os meus curtos tempos livres. O tamanho e peso da obra também não fazem dela a melhor companhia de passeio: 620 páginas de papel ainda pesam. Já sei, há os e-books… Mas ainda não consegui converter-me. Não há prazer igual ao de folhear e cheirar papel. Agora, o conteúdo. Não destaco o tema, mas o estilo. Afonso Cruz joga xadrez com as palavras. Põe e dispõe delas com a inteligência de um jogador de tabuleiro. A sua escrita é gráfica, feita de explicações desenhadas, ora preto no branco, ora vice-versa. O autor repete-nos incansável, como um aviso: tudo na vida são contrastes: “lágrimas seguidas de risos, euforias precedidas de desgostos”. Este escritor, que integra a nova geração de ouro da literatura portuguesa, é já um monstro literário. Num tom muito próprio, usa uma voz grossa para nos gritar palavras meigas. É senhor de uma escrita sem regras. Solta o freio às palavras e deixa-as conjugar-se de forma selvagem, contando uma história lógica de uma forma por vezes abstracta. Longo mas nada maçador, “Para onde vão os guarda-chuvas” é uma leitura obrigatória para quem gosta de ler mas, essencialmente, para quem gosta de escrever e procura um autor de referência que lhe sirva de inspiração. De que fala o livro? De um Oriente efabulado onde um pai que perde o filho tenta sobreviver à perda adoptando outra criança...

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Férias para sempre

Eu e tu, em 1980.
Há quem parta sem dizer adeus. Não por indelicadeza, mas por desconhecimento. Ninguém pensa fazer uma viagem só de ida. Voltar está sempre nos planos de quem vai a algum lugar. Regressar a casa e aos braços de quem nos espera sempre, faz parte do prazer de ir. Mas, desta vez, foste e não voltaste. Estavas de férias em Espanha e essa será para sempre a tua última memória. Imagino-te feliz, a falar sempre muito com um sorriso maior que o rosto. Tento recordar-me da última vez que nos encontrámos, sem nunca pensarmos que fosse a última. Eu acabava de ser mãe e tu nem querias acreditar como o tempo voa. Com a minha filha nos braços, olhavas-me recordando-me com cinco anos, quando fui ao teu casamento. Tínhamos vinte anos de diferença, mas não se notava. Talvez por eu parecer mais velha, talvez por tu manteres um corpo e um espírito sempre tão jovens. Eras fresca e iluminada. Raiavas alegria por onde passavas, mesmo que chorasses por dentro. Tu, São, eras assim… Um rosto de menina alegre. E assim quero eternizar a tua memória, ignorando os destroços do carro desfeito que te roubou a vida. Alguém terá dito que “a vida é uma festa que às vezes acaba cedo demais”. Infelizmente, foi o caso da tua.  

Em memória da São e do Sérgio

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

quinta-feira, 17 de julho de 2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Mulher (im)possível


Desejo-me sábia e serena
A mulher dos teus sonhos
Com voz fluente de pausas
E olhar firme de certezas
A tocar-te com palavras
Feitas de pele macia
Não serei mais a tempestade
Que irrompe na madrugada
Serei só um corpo em brasa
Um incêndio em teus lençóis
Serei sempre a tua casa
Serás sempre a minha âncora
Juntos seremos heróis