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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O momento

O que se demora acontece de repente. Na alegria do é agora, todo o tormento da espera se esvai. Bendito seja o esquecimento! O tempo é tão relativo quando se deseja o que não chega. Cada dia pode parecer um ano, cada semana, uma eternidade. E quando surge o momento, aquele que alimentou suspiros e sonhos, faltam as palavras. A perfeição é tão efémera quanto indescritível. Quanto tempo dura a felicidade? Um momento. O beijo, até que em fim. A glória ingénua do canudo na mão. A esperança eterna do sim no altar. O choro feliz que dá à luz. O pódio. A ribalta. O suspiro que procede do livro editado. O instante em que a vida, finalmente, acontece.    

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Âmago destemido

Coração selvagem, porque não te aquietas? Porque insistes em bater dentro do peito como um punho cerrado que suplica por ajuda urgente? A fúria de cada pancada é uma dor líquida que se desfaz em sangue, que o corpo dilui e absorve como um veneno. Coração vadio, corre desalmado, por caminhos sem volta, por becos sem saída. Onde pensas que vais? Vai, perde-te, descontrola-te e volta para mim, como eras dantes: pequenino músculo, dilatado nas surpresas infantis da inocência.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um amor maior

Sinto mais do que sou. Há um amor que me transborda e transcende. Um sentimento que me esvazia e ao mesmo tempo me preenche. Prisioneira do silêncio, uma palavra tua e serei salva. Não importa onde estás e o quanto te demoras. A minha paz nasce da certeza que existes. Fecha os olhos e escuta a força do meu pensamento. Somos dois focos de luz que na mesma direcção se fundem e ampliam. Só tu me conheces. Só tu me compreendes. Só tu me podes libertar do aperto triste que o meu peito carrega. Vem abraço fraterno, princípio de tudo, que nada teme ou receia. Aperta-me confiante neste amor maior. Maior que a vida. Maior que a morte. Maior que o tempo que conta a história dos homens.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Repetidamente


Os dias passam, repetidamente, num folhear rápido de calendário. Esgota-se o tempo em noites insones e há amanhãs sonhados que teimam em não chegar. Com infinita paciência, persistem as preces repetidas aos deuses surdos-mudos. Saúde aos doentes, abundância aos carentes, curas de amor aos que não encontram remédio para as tristezas mais profundas. Os prazeres efémeros, pagos com sacrifícios extenuantes, valem o que valem. E, repetidamente, é o cansaço que toma conta de nós, numa espiral de suor e lágrimas tão inutilmente repetida.     

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Realidade sonhada

Esta noite, realizei-me num sonho. Encontrei-te num lugar incógnito a meio do sono. Abri-te a porta, estendi-te a mão e convidei-te a entrar. Num impulso, saltaste a pés juntos para dentro do meu mundo inventado. Aproximaste o sorriso e o olhar, até sermos apenas o beijo infinito, capaz de nos despertar para a vida eterna. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Destroços vitais

Olha à tua volta e repara: quantas inutilidades acumulas em teu redor? Ruínas de amores defuntos, mensagens com respostas impossíveis, objectos sem estante, roupas triplicadas eternamente sem uso. É assim a vida, sempre tão desarrumada. Ideias que não cabem em gavetas, demasiados assuntos sem espaço ou resolução. Terás sempre as janelas por onde podes escancarar-te em gritos de liberdade. Queres ser mais feliz? Rasga papel e oferece-o ao vento. Despe o guarda-roupa e agasalha os pobres. Limpa todos os teus recantos, escorraçando as estorvas memórias de pessoas e tempos irrepetíveis. Mais leve, abandonado de ruídos, caminharás no equilíbrio do silêncio e todos os teus pensamentos serão paz.  

terça-feira, 26 de abril de 2016

A justiça (não) é cega

Depois da liberdade, a justiça é a dignidade maior que um homem pode experimentar. Que a vida é injusta e que o mundo é dos espertos, somos ensinados a crer. Mas há sempre um dia em que a esperteza não chega, a astúcia é traiçoeira, a raposa cai no seu próprio ardil e se faz jus à mais inocente das criaturas. Porque a verdade é lei, a mentira deve-lhe obediência.      

sábado, 9 de abril de 2016

Redenção

Queria confessar-te que os sinos tocaram dentro de mim naquela noite. Desde o primeiro instante, olhei-te com um afecto inusitado, sem lugar para porquês. Surgiste como uma aparição. Um rosto divino tão harmonioso em todas as suas humanas imperfeições. Meio homem, meio Deus, digno de um pedestal. A ti dirijo a minha prece ajoelhada que em silêncio grita o teu nome, redentor. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

Declaração de amor maternal

Gostava de saber dizer tudo o que és e o que significas para mim. Mas todas as palavras me parecem tão pequenas que te abreviam. Ao olhar-te, neste amor crescente que só as mães conhecem, ainda me espanto com a grandeza do milagre que fui capaz de gerar. Todos os dias me ajudas a revelar o melhor de mim. Ensinas-me a paciência, ao ritmo das brincadeiras que nunca podem esperar. És criança agora e tenho de aprender a respeitar esse tempo, efémero e irrepetível, do qual vou ter tantas saudades. São as tuas prioridades que pautam as minhas rotinas. São as tuas vontades que despertam a minha energia. Todos os dias confirmo que para uma mãe não há limites de força e coragem. E quando me sinto fraquejar, és o meu ombro e o meu colo e a mão que me resgata para a vida. A paz do meu sono depende unicamente do doce respirar da tua pele. É assim que me despeço dos dias. Inalo-te e adormeço feliz, há oito anos.  

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A linguagem gestual da vida


Viajo não sei para onde, ignorando quem me espera. Só o destino saberá guiar-me. Nesta longa jornada, tantas vezes de pés descalços, incomodam-me as feridas mas não posso parar. Abrando, volta e meia, apenas para respirar tempo. E de ares renovados, sigo viagem.  Não por estrada direita, prefiro os trilhos de curva e contra curva de terra batida. Afinal, pés calejados aguentam tudo e por aqui a vida parece tão mais bonita. Tem cor e cheiro e mais sabor. Em cada árvore encontrada, provo um fruto e saboreio prazeres. Que delícia a liberdade de calcorrear a vida sem pressa nem medo. Neste constante diálogo surdo-mudo, falta-me aprender a linguagem gestual da vida. Preciso saber decifrar que respostas me revelam os silêncios com que me vou cruzando.