A vida é como um sonho que acaba e se esquece,
se não a passarmos para o papel. Escrever é como revelar as fotografias da
alma, capturadas pelos piscares de olhos diante do que vemos. É fácil esquecer
o que sentimos naquele preciso momento. É preciso registar para partilhar. Para
que outros vivam o que não puderam viver. Para que outros recordem o que não
querem esquecer. Para que todos sejam perpetuados na memória das palavras.
sábado, 14 de julho de 2018
sábado, 7 de julho de 2018
Desabafos salteados
Finalmente, o verão saiu à noite. Na minha
varanda virada para lua, a paz está comigo. Oiço grilos cantantes e sinto a
brisa como a carícia da tua mão. No céu, as estrelas são ideias luminosas que
despontam em mim. No horizonte, o aceno de um farol parece ser a luz ao fundo
do túnel. Dentro de mim, apenas sonhos. Muitos sonhos. Vamos dormir?
sábado, 30 de junho de 2018
Desabafos salteados
Há dias em que a vida parece tão simples. Basta
respirar e saciar as necessidades. Comer, orar e amar. Fazer o que nos dá
alegria e prazer. Conviver com as nossas pessoas. Pensar pouco e sentir muito.
Creio que isto é saber viver.
quinta-feira, 21 de junho de 2018
Desabafos salteados
O silêncio não é resposta. A fuga não é
solução. Assumir e enfrentar são verbos a conjugar diariamente quando
descobrimos que a felicidade é o caminho.
terça-feira, 19 de junho de 2018
Uma casa sem livros
Era uma casa sem livros.
Estava cheia de solidão.
Sobre as prateleiras não viviam vozes adormecidas à espera de uma carícia.
Havia pessoas que trocavam olhares vazios. As palavras resumiam-se a
monossílabos, arrotos cerebrais espontâneos e inúteis. À noite, o burburinho
que sempre emerge dos livros que nos espreitam vigilantes, não existia. No ar, apenas
solidão e silêncio, ausência e vazio, o roncar inerte de corpos sem alma,
espelhos da casa, desta casa sem livros, com portas e janelas blindadas, à
prova de palavras e ideias, como se estas armas fossem proibidas por lei.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
Continuas a fazer anos, sem envelhecer…
Não me
esqueci. Como poderia esquecer-me? Hoje farias 60 anos e só o cabelo grisalho
denunciaria a tua idade. Sempre pareceste muito mais novo, exibindo uma saúde
férrea de espalhar inveja. Não fosse aquela maldita doença e ainda aqui
estarias, a massacrar-nos com o teu mau feitio militante. Quando alguém parte
cedo demais, até os defeitos deixam saudades. A implicância com coisas menores
era o teu forte. Por vezes, parecias possuir superpoderes e exigias o mesmo
heroísmo de todos em teu redor. Não eras o amor perfeito mas um grande
companheiro de viagem. Não eras um educador exemplar mas um pai dedicado e
carinhoso. Eras um pai-avô, como te autoproclamavas, depois de teres repetido a
experiência pela quarta vez aos 50 anos. Nesse dia, há dez anos, visitámos o
Oceanário e à saída tirei-te uma fotografia. Tinhas um bebé de três meses ao
colo. De olhos cerrados, beijavas-lhe a testa, inspirando amor. Era o teu
“brotinho”, dizias tu. Era o “nosso tesourinho”, dizia eu. Como o tempo passa.
Já tem dez anos a nossa menina e está a ficar uma mulher. E foi ela quem
decidiu que continuas a fazer anos. “Sim, sim! Os mortos também fazem anos,
mamã”, disse-me um dia. E quem sou eu para contrariar a magia do inocente
imaginário infantil? Por isso, neste dia, continuas a fazer anos e nós a
celebrar a tua existência. Agora, sem bolo nem velas mas com a memória acesa
pela eterna chama do nosso amor.
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Morte
domingo, 6 de maio de 2018
Benilde ou a Virgem Mãe
![]() |
| A mãe e eu | 29 de setembro de 1979 |
És leite morno a transbordar do seio
Cordão umbilical resistente ao corte
És a pele que cobre o frio e o medo
Fizeste-me milagre nascido da morte
És o olhar vigilante que antevê a queda
A mão segura, o amparo constante
És colo, beijo, doce carícia pura
Mesmo longe, nunca estarás distante
És norte, palavra amiga, orientação
O sofrimento mais alegre do mundo
Coragem ímpar, força extrema
És mistério sobrenatural sem explicação
És filha, mãe, avó
Imagem omnipresente
És quem não me deixa só
És quem me sente e pressente
Quando a garganta dá um nó
És calma e colo e silêncio
O bem contra todo o mal
És mãe da tua filha
E mãe da tua mãe
Fonte do amor incondicional
És abnegação, benevolência
O fim de qualquer turbulência
És paciência sem fim
O mar e o céu juntos
Canção de embalar
A ecoar, eternamente, dentro de mim.
(Dedicado à minha Benilde, minha Mãe.)
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Poemas
terça-feira, 1 de maio de 2018
Reciclagem do amor
Há uma certeza que me rasga o peito e me ata o pensamento. Eu
amo-te. Estou certa disso. Sou capaz de reconhecer em cada reação do meu
corpo um sintoma indicador da veracidade do meu diagnóstico. Não é a primeira
vez que penso continuamente em alguém noite e dia, dia e noite, como se não
houvesse intervalo possível para uma mente sempre alerta, mesmo durante o sono.
A ausência de notícias é o que mais me consome. Não saber, a cada hora que
passa, por onde andas, o que estás a fazer, se e quando pensarás em mim. É aqui
que encontro também a razão mais plausível para desistir de ti. Se fosse para
ser possível, não seria assim. Um amor que vive de pensamentos tende a morrer
de saudades. O amor alimenta-se de carne, de pele, odor e calor. E eu já
quase não consigo imaginar o contorno do teu rosto sem voltar uma e outra vez
às fotografias que guardo no computador. Na angústia sôfrega de te querer tanto
e não te ter, a certeza volta a quebrar-se em mil pedaços, transformando-se
numa dúvida existencial: O que fazer com o amor que sentimos, quando não o
podemos viver? Haverá, algures, uma reciclagem do amor?
domingo, 11 de março de 2018
Uma dezena de milagre
![]() |
| 11 de Março de 2008 |
Tento imaginar a vida sem ti,
num exercício impossível de quem procura reviver uma existência passada. Tudo
parece ter nascido depois de ti. Até mesmo eu. Antes, talvez apenas existisse. Só
depois de experimentar a extraordinária magia da multiplicação da carne é que aprendi
a viver. Minha filha, és a única. Uma dezena de anos depois, continuas a ser a
única pessoa que um dia me habitou. Poupando-me a gemidos e dores, conquistaste
a tua liberdade, numa irrepetível madrugada de Março, dia 11, no calendário de
um primaveril 2008. Só tu me abraças como se abraça o tempo, num aperto de
eterno reencontro. Só tu, versão refinada de mim, consegues ser a superação da
minha limitada e frágil existência. Disfarçada de criança, és a pura beleza da inteligência
ingénua. Palpitando ideias geniais, és promessa diária de futuro. Brotando como
uma flor, és a certeza de um amanhã que dará árvores de fruto. Quando sorris,
és a esperança renovada de dias melhores. A cada centímetro do teu crescer, em
tamanho, graça e sabedoria, és evolução, és prolongamento, és continuidade, és
progresso, plenitude e eternidade. Na transcendência da minha mortalidade, és o
melhor de mim. Se pudesse pedir um só desejo, queria reviver tudo de novo. Ver-te
emergir das minhas entranhas e amar-te mais e mais e ainda mais. Devagar. Bem
mais devagar. Ao ritmo de uma câmara lenta. Outra e outra vez.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Fast Love
Plim!
Conheceram se online
E houve logo um clique
Primeiras mensagens
Sorrisos acesos
A esperança a renascer
A solidão a desvanecer
A esperança a renascer
A solidão a desvanecer
Na virtualidade dos dias
Intervalos felizes
Um entusiasmo desperto
No adormecer das dores da vida
Intervalos felizes
Um entusiasmo desperto
No adormecer das dores da vida
Despertares enérgicos
E tarefas velozes
Na ânsia de palavras cruzadas
Cliques poéticos de adivinhar sonhos
A mesma canção a convidar para dançar
E tarefas velozes
Na ânsia de palavras cruzadas
Cliques poéticos de adivinhar sonhos
A mesma canção a convidar para dançar
A promessa de um abraço embrulhado no calor de uma mantinha...
A utopia de um amor perfeito!
A utopia de um amor perfeito!
O teclado apressa se
Na urgência de um encontro
Já só querem fugir
Para os braços um do outro
Num divertido toca e foge
Entre o desejo e o medo
Na urgência de um encontro
Já só querem fugir
Para os braços um do outro
Num divertido toca e foge
Entre o desejo e o medo
Finalmente, um convite:
Jantamos?
Sim, claro, porque não?
Dizem que a realidade supera a ficção
Porque não? Porque não? Porque não?
Jantamos?
Sim, claro, porque não?
Dizem que a realidade supera a ficção
Porque não? Porque não? Porque não?
Sim, vamos!
Encontram se num abraço
Afinal, são de carne e osso
Confirmam se
Existem mesmo
São reais e estão tão vivos!
Encontram se num abraço
Afinal, são de carne e osso
Confirmam se
Existem mesmo
São reais e estão tão vivos!
Viagem de olhares e silêncios risonhos
Abraços, abraços, abraços...
Os olfatos a tatearem se
Em busca de sintonia
Sim! Gosto! Bom apetite!
Abraços, abraços, abraços...
Os olfatos a tatearem se
Em busca de sintonia
Sim! Gosto! Bom apetite!
As bocas alimentam se
Antes de se provar
Uma troca de garfadas românticas
Antes da coragem do beijo
Antes do princípio do fim
No limite da dúvida
Será bom?
Antes de se provar
Uma troca de garfadas românticas
Antes da coragem do beijo
Antes do princípio do fim
No limite da dúvida
Será bom?
É tão bom, não foi?
O desejo acelera a digestão
A viagem de regresso é veloz
Os corpos rendem se à vontade
Enquanto os problemas do mundo
Caem no esquecimento
O desejo acelera a digestão
A viagem de regresso é veloz
Os corpos rendem se à vontade
Enquanto os problemas do mundo
Caem no esquecimento
Para onde foi o frio?
São duas fontes de calor
A serpentear, serpentear, serpentear...
São duas fontes de calor
A serpentear, serpentear, serpentear...
Beijos redondos
Abraços infinitos
Pensamentos vazios
Uma explosão de prazer imediato!
Abraços infinitos
Pensamentos vazios
Uma explosão de prazer imediato!
E depois?
Depois?
Foi estranho, não sei.
É melhor não. Vamos fugir?
Não queremos repetir.
Afinal, a beleza é efémera
E não permite consumos rápidos.
Depois?
Foi estranho, não sei.
É melhor não. Vamos fugir?
Não queremos repetir.
Afinal, a beleza é efémera
E não permite consumos rápidos.
Oh pah! É tão bom, não foi?
Pois, temos pena!
Fim de conversa.
Ponto final, parágrafo.
Mudar de linha. Virar a página.
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Pois, temos pena!
Fim de conversa.
Ponto final, parágrafo.
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Clique - Wireless - offline.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
Medo de ser feliz
Os hábitos moldam-nos. Limitam-nos os desejos e as vontades.
Nada é mais seguro e tranquilo que viver no casulo. Mas o Mundo gira, o tempo
voa e sempre chega a hora da borboleta. Chama-se efémera, o nome do tempo que
dura a felicidade. Descobre que voar tem tanto de mágico como de assustador.
Mas ser feliz é planar em equilíbrio, aquele ponto no qual estamos alinhados
com o universo, não pendemos para lado nenhum, a não ser para o nosso centro
vital, onde um coração, no compasso certo, conta o tempo mais devagar. Não
tenhas medo, lagarta! Ainda que venhas a ser efémera, terás conhecido o voo da
felicidade.
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Getsémani
Onde fica o teu monte das
oliveiras?
O teu oratório de agonias e
prantos?
O calvário onde morres todos
os dias
Antes da diária ressurreição?
Diz-me, onde fica o teu
refúgio sagrado?
Onde o silêncio te habita
No confortável embalo
Do colo invisível que te purifica
Onde aguardas vigilante
O dia mais esperado?
O momento do reencontro
com a verdade da vida?
Diz-me, onde choras e oras?
Rogando que chegue o instante
da harmoniosa eternidade
O ponto de partida para a paz
em liberdade
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