quinta-feira, 6 de junho de 2019
Desejo transatlântico
Mergulho num desejo transatlântico que me faz ondular o sangue, ao ritmo das palavras que vão e vêm. Experimento a saudade de um futuro desconhecido que se augura risonho, pela mão de um explorador de sonhos que um dia se fez homem. Embarco sem bilhete de ida nem volta, no caminho marítimo para a felicidade. Se encontrar terra firme, um porto de abrigo, só desejo ancorar o coração.
domingo, 24 de março de 2019
Amar em silêncio
Nem sonhas quantos beijos te dei hoje. Os meus lábios já sabem desenhar o teu rosto. Mas é só um esboço, um retrato impossível que fico a imaginar. Detenho-me e demoro-me na perfeição da tua boca e sonho o perigo de um dia perder-me nos segredos dessa gruta. Preciso acreditar nos milagres que fazem o amor sempre vingar. Ainda que tenha de morrer por um abraço teu, nenhum sacrifício será maior que a penitência de continuar a viver sem respirar a tua pele.
terça-feira, 19 de março de 2019
O profeta ateu
O meu pai não se chama José, nem sequer acredita em
Deus. Mas é o ateu mais cristão que conheço e tem nome de profeta. Homem de
grandes virtudes, Eliseu demonstra mais do que diz, cumpre mais do que promete.
Podia ser mais generoso a distribuir beijos e abraços mas nem isso é defeito, é
apenas feitio. De todos os ensinamentos maiores, devo-lhe a liberdade de
escolha e de pensamento. Nunca me obrigou a ser ninguém que não sou, a fazer
nada a contragosto ou vontade. Ensinou-me sim a
liberdade, sinónimo de responsabilidade, e assim a tenho cumprido. Nunca me
impôs habilidades ou religião, curso, namorado ou profissão. Nessa tamanha
liberdade de ser, deixou-me uma só condição: se errasse, que soubesse lidar com
as consequências. Ainda assim, o desamparo nunca foi castigo e a mão invisível
de pai esteve sempre comigo, nas horas de maior aperto. Pai, és um bom homem e
um homem bom. Pai, agora grisalho, és um magnífico avô. Pai, na terra és grande
como o céu. E aqui és meu Pai, senhor Eliseu.
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Dores de crescimento
A infância acena-me ao longe. Convida-me para brincar. Deve ter saudades minhas. E eu dela morro de saudades quando na almofada fecho os olhos. Tenho saudades de ser criança porque os meus pais eram jovens e a morte um assunto distante. Era aquele tempo no qual o tempo existia mesmo. Todas as tardes eram livres e todos os lanches leite com chocolate. Nesse tempo não me lembro de implorar abraços e o consolo chegava sempre antes das lágrimas. As únicas decisões eram escolher entre brincar à apanhada ou às escondidas. Desconhecia a matemática e era tão feliz com isso. Nem contas de somar, nem de sumir, quanto mais impostos e faturas por pagar. Os dias eram de uma leveza flutuante. Bastava deixarmo-nos levar pela corrente, a brincar ao homem morto, com a certeza de sermos salvos pelos braços do amor. Nenhum peso, nenhuma dúvida, nada pendente por resolver. Apenas a Primavera da vida, na sua harmonia amena e florida, a chilrear alegria dentro de nós.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Ainda és jovem!
Ouço
repetidamente esta afirmação desde os meus 20 anos. Se é para arranjar trabalho,
ainda és jovem, dá tempo ao tempo. Se é para encontrar o amor, ainda és jovem,
há-de aparecer. Se é para ter filhos, ainda és jovem, tens a vida pela frente.
Ontem, ao escutar a homilia do Papa Francisco, dirigida a uma multidão de
jovens, no encerramento da Jornada Mundial da Juventude no Panamá, lembrei-me
desta expressão e de como fui enganada toda a vida. "Os jovens não são o futuro", dizia o Santo Padre, "são o
presente". Esperar por amanhã é um dos piores erros do ser humano. O verbo
agir soa melhor e só faz sentido no presente. Ser jovem é ter a idade certa
para ser a mudança no mundo. Se alguém me tivesse dito isto há uns anos atrás,
talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez tivesse esperado menos e agido mais.
Talvez tivesse feito parte de um qualquer grupo de jovens ativos e solidários
sempre disposto a doar-se, abraçando causas e lançando-se ao caminho. Talvez
tivesse integrado um partido político, não para garantir trabalho mas para me
orgulhar de "não ser Pilatos" e não "lavar as mãos" da
minha responsabilidade. Ser parte integrante da construção do futuro, pôr-me a
caminho, não me acomodar no conforto de ser vítima de uma sociedade contra a
qual nada podemos. Segundo o Santo Padre, "envolver-se na política é uma
obrigação para o cristão" porque "a política é uma das formas mais
elevadas da caridade", visto que "procura o bem comum". Se eu
soubesse o que sei hoje, voltaria ao tempo em que ainda era, efetivamente, jovem e faria muito mais. Porque o tempo que se perde com banalidades nunca
mais volta e cada minuto de vida tem uma utilidade preciosa. Se ainda és,
efetivamente, jovem, dá tudo o que tens, ignora os teus cansaços,
entrega-te confiante a todas as causas que te apaixonem. Não escolhas um curso
superior, opta por uma vocação. Porque se vibrares com o que fazes, vais
fazê-lo tão bem, tão bem, que alguém quererá pagar pelo teu talento. Se ainda
és jovem, não esperes por amanhã, nem por 2022, nem pela Jornada Mundial da
Juventude em Portugal. Sê hoje a mudança que queres ver no futuro.
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
A mais triste noite feliz
Um feliz Natal a todos os que não têm o que eu tenho. Começo por desejar um Natal feliz aos doentes, porque nada nos faz mais falta que a saúde, o único bem que, a par com o amor, não há dinheiro que compre. Depois, desejo um feliz Natal aos que não têm um teto, nem cama, nem sequer uma almofada onde repousar os problemas. Prossigo desejando um Natal Feliz aos que a fome faz doer o estômago e o coração. Um feliz Natal aos órfãos e aos viúvos, porque não há tristeza maior à ceia que o vazio dos lugares insubstituíveis. Um Natal feliz aos padres e a todos os outros para quem o celibato não foi uma escolha livre mas um destino. Um feliz Natal a todos os que o trabalho rouba ao conforto da família na noite mais sagrada do ano. Um Natal feliz aos que vão nascer e àqueles para quem este será o último Natal. Um feliz Natal para todos os que sentem esta noite feliz, por carência ou solidão, a noite mais triste de todas.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
Mãe
Fui
eu que te fiz mãe.
Antes de mim, eras apenas uma jovem mulher com o desejo maior de abraçar um
sonho. Fui eu que realizei o teu sonho. Um dia acordei nos teus braços e
ofereci-te a felicidade. Fui a tua boneca de brincar aos vestidinhos cor-de-rosa
e a menina-luz dos teus olhos. Depois de mim, nada como dantes. O teu coração
mudou de lado e passou a bater fora do peito. Só o medo nos separa, mãe! O medo
de perder, o medo de sofrer, o medo de não sermos tudo o que sonhámos ser
juntas. Só o medo nos trava por vezes esta amizade sem princípio nem fim. Sem
cordão umbilical, só a liberdade nos pode manter ligadas para sempre, neste
amor filial.
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
O outro lado da morte
A tua última morada foi o meu coração. À boleia da memória, é aqui que regressas, sempre que te aperta a saudade. Deixo a porta encostada, não precisas de chave, nem de hora para voltar. Bate apenas ao de leve, para que a distração não me apanhe num susto e um grito não espante os vizinhos. Às três pancadas, entra à vontade, estou sempre tua espera. És tu quem me traz flores e até aprendeste a rezar. Num reencontro de mãos dadas, agradecemos ao Pai Nosso e prometemos não chorar no adeus. Quando do teu corpo em brasa apenas restou a cinza do teu nome, guardaram-te como um tesouro num cofre. Fui poupada às romarias de finados e às lágrimas de cemitério. Agora, só choramos de alegria quando o sonho de um abraço quase parece real. Voltas a ter corpo e sorris para mim como antes. Estás na mesma. Eu envelheço mas tu não. Tomo-te as mãos num beijo e sorrio-te de volta, perguntando: Como é que consegues enganar a morte e fugir dessa prisão para me ver? Ludibriando-a, respondes, num piscar de olho. Finjo que me esqueci de um livro ou de um filme e peço licença para o vir buscar. Ela que é toda intelectual, acreditas que até me agradece? Entre suspiros e bocejos, diz que já não suporta mais o tédio ocioso da eternidade.
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Morte
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Poesia a Sul
Tudo o que buscas é a eternidade.
É por isso que insistes neste teimoso duelo com as palavras.
Queres dominá-las,
umas vezes com técnica, outras com astúcia,
sempre com sensibilidade.
E elas, as palavras, serpenteiam-te.
Mas tu, poeta, és um encantador.
Timbrando lutas e desilusões,
acaricias a realidade,
sempre convertendo tudo.
Em beleza o horror,
em música a dor,
em perfeição o amor…
Ó poeta! De onde vens?
Que angústias percorreste até aqui?
Quantos sonhos ainda trazes na mala?
Que memórias esperas daqui levar?
Nesse bolso sempre vazio, sempre roto,
onde descansa e se aquece a mão que escreve.
Que importa a pobreza, não é poeta?
Se todos te honram e batem palmas…
Foi a bordo das palavras que aqui chegaste
e será planando sobre elas que ficarás um dia,
sobrevivendo ao esquecimento.
Serás figura histórica, data centenária,
serás estátua ou nome de rua
por onde a vida continuará a passar.
E todos os anos,
numa viagem eternamente poética,
todos retornarão ao sul,
para te brindar.
É por isso que insistes neste teimoso duelo com as palavras.
Queres dominá-las,
umas vezes com técnica, outras com astúcia,
sempre com sensibilidade.
E elas, as palavras, serpenteiam-te.
Mas tu, poeta, és um encantador.
Timbrando lutas e desilusões,
acaricias a realidade,
sempre convertendo tudo.
Em beleza o horror,
em música a dor,
em perfeição o amor…
Ó poeta! De onde vens?
Que angústias percorreste até aqui?
Quantos sonhos ainda trazes na mala?
Que memórias esperas daqui levar?
Nesse bolso sempre vazio, sempre roto,
onde descansa e se aquece a mão que escreve.
Que importa a pobreza, não é poeta?
Se todos te honram e batem palmas…
Foi a bordo das palavras que aqui chegaste
e será planando sobre elas que ficarás um dia,
sobrevivendo ao esquecimento.
Serás figura histórica, data centenária,
serás estátua ou nome de rua
por onde a vida continuará a passar.
E todos os anos,
numa viagem eternamente poética,
todos retornarão ao sul,
para te brindar.
Escrito por ocasião do IV Festival
Internacional Poesia a Sul - Olhão
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sábado, 29 de setembro de 2018
O último dos 30
Chegar aqui sem nunca ter recorrido ao
psicólogo, ou até mesmo ao psiquiatra, é uma proeza genial. Mas só atingem esse
extremo da dor os que vivem apaixonadamente e sem limites. Loucos são aqueles
que se aproximam dos quarenta sem histórias para contar, cicatrizes para
exibir, ainda muitos sonhos por realizar… Hoje faço anos e digo trinta e nove,
saboreando cada sílaba com o prazer da experiência. Digo trinta e nove, com o
sorriso sereno da maturidade, aquele que já não precisa de motivo ou razão por
ser tão essencial quanto respirar. Digo trinta e nove sem pressa, porque tudo
tem o seu tempo e já compreendi que a minha vontade só acelera o que depende unicamente
de mim. Tudo o resto é saber esperar. Digo trinta e nove com a alegria de quem,
finalmente, tem amigos de verdade, daqueles que vibram com as tuas
bem-aventuranças e são os primeiros a chegar quando o choro se impõe. Digo orgulhosamente trinta e nove com a certeza de que não queria ter outra idade,
pois esta tem a beleza da juventude sábia e assenta-me tão bem. Digo trinta e
nove com gratidão, por ainda ter pais e avós, por ter um labor que me sustenta
e uma saúde tranquila, orientada pela paz que me dirige. Ao som dos grilos que
pautam o silêncio noturno, antes de adormecer, grito trinta e nove contra o
vento, exibindo a minha suprema de liberdade, ao começar este dia de
aniversário natalício da forma mais perfeita possível: a fazer o que mais gosto
– escrever.
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
Saudade sem lágrimas
O luto é o tempo que levamos a chorar
a dor. Depois, tudo se transforma em tempo e os que partiram antes de nós só
morrem no dia em que os esquecemos. Passaram três anos e ainda não há um dia
que passe sem pensar em ti. Mas já há algum tempo que deixei de chorar.
Recordo-te na memória dos bons momentos e nas tuas frases inesquecíveis. Recordo-te
no cheiro a polvo assado que fumega nas feiras e no borbulhar da cerveja sobre
a mesa do bar. Recordo-te sempre que o meu olhar se perde no mar sem princípio
nem fim, o mesmo que te levou ao fim do mundo, vezes sem conta, e te trouxe um dia de volta para mim. Recordo-te nas feições da nossa menina, retrato vivo do teu olhar.
Hoje é dia internacional da paz e dia
mundial da gratidão e faz tanto sentido teres partido nesta data. Fizemos as
pazes e serei eternamente grata pelo caminho de aprendizagem que percorremos
juntos. Não me arrependo nem lamento uma virgula, porque tudo foram tijolos na
construção da minha identidade. Devolvo-te o sorriso que me ofereces em cada
fotografia, elevo uma oração ao teu espírito, conto a tua história repetidamente e
eternizo-te assim, como se fosses um livro de cabeceira ao qual regresso sempre, folheando e
sublinhando, vincando bem as páginas, até te saber de cor. Até ter a certeza
que o futuro saberá que um dia exististe.
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Cláudia Sofia Sousa,
Desabafos salteados,
Memórias,
Morte
domingo, 9 de setembro de 2018
Desabafos salteados
Todo o escritor é sensível. Por isso, sente
mais. E, por sentir mais, sofre mais. E, por sofrer mais, chora mais. Só que
consegue converter o choro em beleza. E, em vez de lágrimas, chora palavras.
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