terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
A ofegante maratona das horas
Prisioneira dos dias, vejo a vida passar em revolução. No grito que urge de cada instante, nada se queda sereno. Ainda ontem o amanhã era futuro. Hoje o sonho é tempo passado, nesta ofegante maratona das horas que faz a existência esgotar-se tão depressa.
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
Onde estás?
Procurei-te em tantas pessoas erradas. Na sombra dos versos. No avesso dos caminhos. Nas águas onde mergulha o verão. Nas manhãs desertas e nas noites fingidas. Nos bolsos e nas gavetas. Nas multidões anónimas e atrás das portas. Na terra do pecado e no país dos sonhos. Procurei-te e talvez ainda te encontre. Amanhã ou depois. Algures, num lugar sem medo, onde a vontade vence os limites e o desejo abraça quem mais se quer. Em breve, talvez ainda te encontre.
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
A vida é uma menina que corre
A vida corre. Como corria
aquela menina de olhos cor de esperança que adentrava os campos e trepava as
árvores. Eram anos duros mas leves, rigorosos mas despreocupados. A menina
tinha uma idade na qual não cabiam problemas e o ar puro entrava-lhe a plenos
pulmões. Dormia o sono angelical dos pássaros e raiava como um sol ao
alvorecer. A escola era uma lonjura solitária calcorreada na alegria inocente
de quem nada teme. O mal não existe para quem o desconhece. E aquela menina era
uma bondade só. Do campo para a cidade, de Portugal para o estrangeiro, o bom
dia virou bonjour e passou a ir à l'école. Cette petite fille cresceu emigrante
e regressava princesa aos bailes de Verão. Foi aí que um dia o príncipe a
convidou para dançar. Era um jovem rebelde e destemido com aspirações políticas e um encanto singular. Era alto, esguio, calças à boca de sino e cabeleira a
condizer com os 70's. Encantada, ela rendeu-se e o coração não parou de crescer
desde esse dia. Bateu, bateu, bateu, até que lhe saltou do peito duas vezes e
passou a bater do lado de fora. Vestido de noiva, duas crianças ao colo,
trabalho, trabalho e a vida a correr sem piedade. Hoje é uma senhora. Já não
corre porque os livros ensinam que devemos andar mais devagar. Chegou à idade
da sabedoria, trepando dores e driblando adversidades. Mais firme e mais forte
do que nunca, ainda é filha, sendo mãe e avó. De todos cuida, a todos vigia, a
todos ampara e protege. O amor move-lhe a vida e afasta-a da idade. Hoje faz
anos apenas porque a vida corre. Mas o espírito ascende gradualmente em
alegria, na glória da continuidade do dom que certo dia, neste dia, recebeu.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Desvirtualizar
Andamos ocupados demais. Precisamos parar e olhar mais uns para os outros. Todos os dias nos nascem rugas sem que uma carícia as confirme. Não há dia que passe sem que, na imensidão imparável de objetivos e metas, haja um momento no qual nos sentimos irremediavelmente sós. Quantos dias terminamos sem um abraço, sem um desabafo chorado ao ombro, sem uma gargalhada coberta pelos lençóis? Precisamos parar mais, frente a frente, olhos nos olhos, mãos nas mãos, nariz na pele, ofegantes, boca a boca. Desvirtualizar a vida e voltarmos a ser, simplesmente, o que nascemos para ser: humanos.
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Domingos idosos
Passos vagarosos arrastam-se pelas margens da vida, nas tardes litorais de domingo. Nada os consegue apressar, na secreta esperança de chegarem atrasados ao fim do tempo. Vão de braços entrelaçados, bengalas humanas uns dos outros, contando a miudeza das pegadas invisíveis. Nas breves tardes que espreitam o inverno, o sol hiberna e o peso dos agasalhos, somado à idade, sobrecarrega quem já nada pode. Nos rostos, destinos desenhados a dor. E no olhar, apenas o mar, na serenidade acabada de beber. À espera de uma ordem divina, morte certa por marcação, continuam na incerteza do caminho, com a garantia de que o futuro será beco sem saída.
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quarta-feira, 16 de outubro de 2019
V Encontro Internacional Poesia a Sul - Olhão - 18 a 27 outubro 2019
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| Cartaz oficial 2019 |
Prestes a cumprir-se a 5ª Edição, o Encontro Internacional Poesia a Sul está consolidado e tem vida própria. Mas importa não esquecer que partiu da ideia de um homem, também poeta, que um dia sonhou trazer à sua pequena cidade (Olhão) a poesia de todo o mundo.
Fernando Cabrita, consagrado poeta e advogado olhanense, é e será sempre a alma deste evento, ímpar em Portugal, e cada vez mais reconhecido um pouco por todo o mundo.
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| Fernando Cabrita, poeta mentor do Poesia a Sul - créditos da foto: Município de Olhão |
Espetadora desde a primeira hora, e participante na 2ª edição em 2017, saliento o espírito fraterno do convívio multicultural que se experimenta na partilha do dom da palavra nas mais diversas línguas.
Poetas vão, poetas vêm, poetas retornam e tornam-se imortais nas páginas dos "cadernos Poesia a Sul" e, a partir deste ano, também na nova coleção de livros "Autores do Poesia a Sul".
Inma Luna (Espanha) com Edifício Nautilus (nº1), Chi Trung (Vietname) com Ventos (nº2) e Fernando Cabrita (Portugal) com Missa Branca (nº3), são os pioneiros da coleção que promete continuar.
Tanto os cadernos de poesia, como os novos livros, terão distribuição gratuita durante o evento, num ato de democratização da cultura.
De 18 a 27 de outubro, a poesia vai andar à solta a Sul (Algarve, Alentejo e Espanha), com a maioria dos eventos a acontecer em Olhão, conforme o programa que pode ser consultado aqui.
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domingo, 29 de setembro de 2019
A vida começa agora
A data diz-me que cheguei aos quarenta.
Mas o espelho e a balança do tempo não o confirmam. Ainda experimento, vejo e
sinto uma estranha leveza. Os anos ainda não me pesam e o que a idade me
ofereceu é tanto mais do que a passagem do tempo naturalmente me roubou.
Aceitar deixou de ser um verbo de conjugação resignada: agora é sinónimo de
sabedoria. Tenho tanto para fazer, tanto para dar, tanto que ainda gostaria de
receber. Mas os dias cavalgam a uma velocidade furiosa e eu já só procuro a
harmonia suave e perfeita de cada instante. Mais dia, menos dia, mais ano,
menos ano, tudo irá conspirar para que a minha missão se cumpra. Se não foi,
não era para ser. Se não acontece é porque não tinha de acontecer. Caminho para
um tempo no qual até o caos é perfeição, se observado à lupa da serenidade do olhar.
A vida não se acalmou. A quietude é que me abraça os gestos, agora fortalecida
pelos ensinamentos. Nesta juventude tardia da existência, estabilidade continua
a ser um conceito abstrato, tão difícil de concretizar. Amor, família, trabalho
e prosperidade são realizações quase incompatíveis. Quando se alcança uma, há
outra que nos foge e sempre teremos de correr atrás daquela que nos é
prioritária. Ser respeitada por quem sou e pelo que faço é a maior conquista
desta idade. Aos quarenta ser feliz é sinónimo de estar em paz. É poder viver
pacificamente com as escolhas que se impõem a cada dia. É saber dizer não muitas
vezes, sem medo, porque um sim contrariado sempre terá consequências piores. É
encontrar a direção espiritual que nos permite assomar o passado e espreitar o
futuro, sem desfocar do presente. É praticar a paciência, a resiliência, a persistência,
em prol da superação. É olhar fundo para dentro até descobrirmos a nossa melhor
versão e a partir da auto-estima nos revelarmos no outro. É discernir antes e
depois de tudo e perder o hábito da precipitação. É descobrir e aprender a usar
as ferramentas da vida, sem vergonha de falhar e recomeçar sempre que preciso. Para
esta nova década da existência, lanço-me um desafio especial: Quero ser mais
alegre para ser mais feliz!
sábado, 21 de setembro de 2019
Terreno fértil
Não sou tão forte como imaginas.
Aliás, eu não sou nada do que imaginas.
Sou apenas eu:
Uma mulher simples que busca a cada instante o conforto dos afetos e o êxtase das realizações. Tão simplesmente isso. Nada de extraordinário, pois não?
Que mais te poderei dizer sobre mim?
Que choro muitas vezes, sempre às escondidas e em silêncio, só para não explodir e incomodar alguém? Que o riso me nasce com a mesma força, de origem espontânea, e esse não consigo conter? É que a alegria, quando me vem, transborda-me. E não tenho outra hipótese senão espalhá-la, partilhá-la, multiplicá-la em meu redor. Parece-me justo: ser egoísta na tristeza, guardá-la só para mim, e caridosa na alegria, repartindo-a com o mundo.
Não sou um ser imaginário e intocável. Sou apenas semente. Se eu quiser e deixar, podes tocar-me, plantar-me, regar-me. Se tiveres esse dom de lavrador, estou certa, no nosso cantinho de terra, amanhã ou depois, hão-de nascer maravilhas.
Aliás, eu não sou nada do que imaginas.
Sou apenas eu:
Uma mulher simples que busca a cada instante o conforto dos afetos e o êxtase das realizações. Tão simplesmente isso. Nada de extraordinário, pois não?
Que mais te poderei dizer sobre mim?
Que choro muitas vezes, sempre às escondidas e em silêncio, só para não explodir e incomodar alguém? Que o riso me nasce com a mesma força, de origem espontânea, e esse não consigo conter? É que a alegria, quando me vem, transborda-me. E não tenho outra hipótese senão espalhá-la, partilhá-la, multiplicá-la em meu redor. Parece-me justo: ser egoísta na tristeza, guardá-la só para mim, e caridosa na alegria, repartindo-a com o mundo.
Não sou um ser imaginário e intocável. Sou apenas semente. Se eu quiser e deixar, podes tocar-me, plantar-me, regar-me. Se tiveres esse dom de lavrador, estou certa, no nosso cantinho de terra, amanhã ou depois, hão-de nascer maravilhas.
sábado, 3 de agosto de 2019
Banho de sol
Despida do pesar dos dias
Procuro o tempo e a brisa
Onde o ócio de faz prazer
Procuro o tempo e a brisa
Onde o ócio de faz prazer
Ferro em brasa
Fundo-me com as marés
E renasço espuma
Fundo-me com as marés
E renasço espuma
Na pureza cristalina do pensamento
A levitar na surdez dos sentidos
Grita-me na pele o sol do meio-dia
Mas nos búzios só oiço mar
Submersa nesta onda de paz
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domingo, 7 de julho de 2019
Bons ventos
Vem, vento da mudança
varrendo as memórias
que já não têm espaço em mim.
varrendo as memórias
que já não têm espaço em mim.
Sopra-me o espanto
das alegrias simples,
abraços e mãos entrelaçadas,
brilhos espelhados no olhar,
sonos profundos sem pesadelos,
numa realidade que supere o sonho.
das alegrias simples,
abraços e mãos entrelaçadas,
brilhos espelhados no olhar,
sonos profundos sem pesadelos,
numa realidade que supere o sonho.
quarta-feira, 19 de junho de 2019
Desabafos salteados
Repito-me
para me aperfeiçoar. Reitero-me para me confirmar. Sou pleonasmo, redundância,
rotina perseverante em tudo o que me faz bem. Posso alimentar-me todos os dias
do mesmo sabor, usar o mesmo perfume, amar a mesma pessoa. Porque nada do que
me agrada me enjoa. O tédio nasce da repetição do desagrado.
quinta-feira, 6 de junho de 2019
Desejo transatlântico
Mergulho num desejo transatlântico que me faz ondular o sangue, ao ritmo das palavras que vão e vêm. Experimento a saudade de um futuro desconhecido que se augura risonho, pela mão de um explorador de sonhos que um dia se fez homem. Embarco sem bilhete de ida nem volta, no caminho marítimo para a felicidade. Se encontrar terra firme, um porto de abrigo, só desejo ancorar o coração.
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