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Mensagens

Canção de embarcar

3º Prémio - Modalidade Prosa - Concurso Literário "Cantar Portugal em Prosa e Verso" do Elos Clube de Faro Do alto de um imenso rochedo, avisto um mar imenso, de um azul intenso, a perder de vista. Antes de se esconder de vez, o Sol beija o mar, ao de leve, com respeito. E eu espreito, por cima do ombro, enquanto suspeito que o perigo se aproxima. É apenas o medo. Do alto deste imenso rochedo, sou Infante, eterno gigante, saudoso das ondas vencidas, memórias perdidas no fundo do mar. Longe vão os tempos em que fui herói. Fui exemplo seguido por pegadas anónimas, que livremente decidiram acompanhar-me rumo ao desconhecido. Hoje sou mera lembrança, recorte de esperança, que serve de consolo a quem já nada tem, nem sonha, nem sente. Quando mais nada nos resta, sobra-nos o mar. Esse eterno meio de fuga que leva gente e traz saudade. Saudade, essa palavra tão vasta, nefasta, que é só nossa, que nos pertence como um fado que temos de carregar. Um fardo, pesado, demasiado grande par...

O Meu Pai

Lembro-me de como me acordavas, de forma irritante, puxando-me os dedos dos pés. Era uma forma original de dizer em silêncio “salta da cama”. Aliás, os teus silêncios sempre me disseram mais que as tuas palavras parcas, nem sempre muito doces. As nossas conversas sempre foram pontuais, casuais mas sempre muito regeneradoras das feridas causadas pelos percalços da vida. As tuas palavras, meu Pai, as tuas poucas palavras sempre foram sábias. Sempre tiveste explicação e solução para tudo. Quando eu tinha uns dez anos, recordo-me de ter dificuldade em adormecer. Temia o simples facto de fechar os olhos. Tinha medo de adormecer e morrer durante o sono. E depois, lutava contra o cansaço, ao ponto de ficar acordada, depois de toda a família ter já adormecido. Em pânico, rumava ao vosso quarto e tentava acordar-vos, de mansinho, sem sobressaltos. “Mãe, Pai, está toda a gente a dormir e eu estou sozinha no mundo!” – soluçava, entre uma e outra lágrima que me escorria pelo rosto. Foi numa dessas...

New York, I Love You – Day 5 – The last day

O último dia de uma viagem é sempre carregado de alguma melancolia. Uma saudade antecipada do que se vai deixar para trás. Uma saudade incontrolável de quem espera por nós. E sempre a incerteza sobre se a viagem de regresso irá terminar bem. Depois de sermos pais, penso que o maior medo é o de nunca mais voltarmos a ver os nossos filhos. Durante esta viagem pensei nisto milhares de vezes. Há que abandonar o hotel até ao meio-dia. Faço o check-out por volta das nove e peço para me guardarem a mala até às 13h, altura em que terei obrigatoriamente que partir rumo ao aeroporto. Entretanto, ainda tenho tempo para tomar um café, dar mais um passeio e almoçar perto do hotel. Decido experimentar o “Bubba Gump” – um restaurante inspirado no filme de 1994 “Forrest Gump”, brilhantemente protagonizado por Tom Hanks, merecidamente galardoado com um Óscar da Academia. Este restaurante, cuja especialidade é marisco, oferece um vasto menu de iguarias, desde o camarão frito a uma fantástica sopa chama...

New York, I Love You – Day 4

Acordo para o quarto dia quase sem sentir as pernas. Conhecer boa parte da cidade sempre a pé começa a abalar, ainda que de forma ligeira, a minha resistência física. Nada que possa fazer esmorecer o entusiasmo crescente que esta cidade desperta em mim. Hoje vou à zona chique. Subo a famosa 5ª avenida em direcção ao Central Parque. Pelo caminho, vou parando embasbacada frente a algumas imagens que sempre inundaram o meu imaginário, graças ao que vejo nos filmes. Passo em frente ao Waldorf Astoria, o hotel mais emblemático da cidade, a par com o Plazza. Vislumbro lustres que caem dos tectos das suites centenárias e sonho um dia voltar a Nova Iorque, podendo pernoitar num destes palácios onde se pode alugar um retiro de luxo por uma ou várias noites. Começam a surgir as lojas dos grandes criadores. Passo pela casa Channel, Louis Vuitton, Dior… As lojas têm à porta seguranças disfarçados de mordomos, o suficiente para afugentar qualquer curioso cujo recheio da carteira não cumpra os requi...

New York, I Love You – Day 3

Cabem muitas cidades dentro da cidade de Nova Iorque. Hoje vou explorar uma dessas “cidades”. Apanho um Yellow Cab – um típico táxi nova-iorquino – e indico como destino a Canal Street , junto à Chinatown . Não foi por acaso que assim foi baptizada essa zona da cidade. Um emaranhado de prédios baixos, lojas e letreiros com caracteres chineses desenhados lembram-nos que estamos em território de uma tribo alheia. Uma numerosa comunidade de imigrantes chineses que assentou arraiais na zona baixa da Big Apple . Desço do táxi e, ainda antes de conseguir assentar o pé direito no chão, sou abordada por uma senhora chinesa que literalmente me esbarra a passagem. Repetindo continuamente, num inglês mal arranhado, “purse, wallet, Louis Vuitton”, enquanto exibe uma folha impressa com vários modelos da marca, persegue-me ainda uns metros até desistir de me vender o que quer que seja. Enquanto circulo pelas ruas, vai passando por mim, em câmara lenta, uma sequência quase interminável de lojas de bu...

New York, I Love You – Day 2

Tento fingir que o jet-lag não passa de uma expressão chique inventada por quem viaja muito, mas a verdade é que são cinco da manhã em Nova Iorque e não consigo mais pregar olho. Em Portugal, o relógio marca mais cinco horas e o Sol já vai alto. Tenho tempo para pensar em quem deixei para trás. Os mesmos que estarão à minha espera quando regressar a casa. Desisto. Se não consigo dormir, o melhor é aproveitar o dia que desperta do lado de fora da janela. Às sete da manhã, quando saio do hotel, estão 6º C negativos e penso nunca ter sentido tanto frio na minha vida. O frio glaciar soprado pelo vento gela-me o rosto, mas não é suficiente para arrefecer o meu entusiasmo. Preciso urgentemente de um bom pequeno-almoço para retemperar energias. O bar da esquina oferece um extenso buffet e apresenta-se como um refúgio para escapar por uns minutos ao frio que me persegue. Hoje é dia de shopping. Um dos grandes atractivos de Nova Iorque nesta época do ano. Estão a decorrer os chamados “after Chr...

New York, I Love You - Day 1

Aterro no Newark Liberty a meio de uma tarde fria de Janeiro. Apesar da baixa temperatura, o céu está limpo. Pela primeira vez, antes do trem de aterragem raspar o solo, consigo avistar os arranha-céus que me acenam do outro lado do rio Hudson. As dezenas de passageiros que há instantes entupiam os estreitos corredores do avião, vão saindo a conta-gotas pela manga que se estende até ao interior do aeroporto. Os semblantes espelham alívio e liberdade. Terminou finalmente o cativeiro de quase sete horas sobre as nuvens. A claustrofobia latente dá lugar a uma onda de libertação. Esta sensação de liberdade dura não mais que uns breves segundos - uma fila quase interminável aguarda por nós nos serviços de imigração. Decorrida uma meia hora e ultrapassada a barreira fronteiriça, recheada de interrogatórios e digitalizações de palmas de mãos e dedos polegares, consigo avistar a rua e entrar num dos muitos táxis que anseiam pôr o taxímetro a facturar. O taxista negro que me conduz exibe orgulh...