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Mensagens

Um banho de imersão com Deus

Naquele dia, dirigi-me para o jacuzzi como que em busca da salvação. Há muito que ansiava relaxar. O peso de um ano de trabalho, de problemas e obrigações parecia agora insuportável. Um saco cheio, prestes a rebentar, caso não fosse despejado a tempo. Estava no limite. Tinham acabado de se me esgotar as forças e os meus movimentos reflectiam isso. Movia-me quase em câmara lenta, como um robot cujas pilhas estão prestes a descarregar por completo. Subi os degraus e saltei sem hesitar para a abundante banheira de água quente. Ao tocar na minha pele submersa, os revoltos jactos de água cruzados provocavam-me uma estranha sensação de calma misturada com prazer. Imaginei que a cada bolha que emergia, acabando por rebentar, correspondia um problema. E eu assistia deliciada àquele espectáculo pirotécnico de bolhas de água efervescentes. Umas vezes, rebentavam ao chegar à superfície. Noutras, dissolviam-se na própria água. Por vezes, pareciam até evaporar-se através da fina cortina de vapor qu...

O lado bom da crise

Pode parecer um lugar comum, mas a vida têm-me ensinado que é nos piores momentos que se aprendem as melhores lições. Foi com base neste pressuposto que me ocorreu analisar a crise económica - de que todos falam mas poucos entendem - à luz do que, a meu ver, é realmente essencial. Na verdade, mais do que tentar perceber quem provocou a crise e como vamos sair dela, importa analisar a situação e despertar a nossa consciência para o que todos andamos a fazer de errado. Porque se queremos realmente falar de culpa, os reais culpados somos todos nós. Não sei bem há quantos anos foi - ainda por cá ando há relativamente poucos - que o ser humano deixou de assentar a construção do seu bem-estar apenas na satisfação das necessidades básicas. Houve um dia em que o homem acordou e começou a projectar no que possuía a fonte da felicidade suprema. E assim se criaram as mais variadas necessidades desnecessárias. Crianças que crescem solitárias, compensadas com milhares de brinquedos; Homens que se e...

Dia de festa na ilha do tio Jardim

Contemplo deslumbrada a chuva de cores que cai do céu. O fogo de artifício ateado sobre a baía do Funchal é, muito provavelmente, um dos mais bonitos do Mundo Os foguetes são disparados de dentro de um batelão, que quase não se vê. Por instantes, chego a pensar que o espectáculo pirotécnico nasce do fundo do mar. É de facto um presente assistir ao famoso fogo de artifício da Madeira, mesmo não sendo noite de passagem de ano. É apenas o culminar de um dia de festa, um dia muito especial para o concelho do Funchal. Hoje, dia 21 de Agosto, celebra-se o dia do Município. Descubro o programa de festas num prospecto que me chega às mãos dentro do hotel. Há muito para ver e ouvir antes que o dia se faça noite. Fixo-me num acontecimento que desperta em mim um misto de curiosidade e interesse: a cerimónia que reúne as figuras ilustres na praça do município. É lá que estará presente o grande líder madeirense. Hoje apetece-me apelidá-lo de tio Jardim. Ir à Madeira e não ver o tio Jardim é quase c...

Um pão chamado bolo

Mal acabo de me sentar à mesa para aquela que seria a minha primeira refeição na Ilha da Madeira, sou violentamente confrontada com um cesto de pão. Uma massa quente, estaladiça por fora (meio esturricada até) e fofa por dentro, emana um salivante aroma. “ É o famoso bolo do caco” – apressa-se a esclarecer o empregado de mesa, com o visível orgulho de quem introduz um ex-líbris da região a toda a gente com aspecto de turista. “Com manteiga de alho é muito bom”, acrescenta, com o seu sotaque tipicamente madeirense, enquanto aponta discretamente para uma manteigueira de loiça que se destaca sobre a mesa. Descobrirei mais tarde, após experimentar mais de uma dezena de bolos do caco, todos em sítios diferentes, que este primeiro seria o meu preferido, exactamente por não vir recheado do que quer que fosse. Serei louca por toda a minha vida ter adorado comer pão às secas? Juro que adoro, não me perguntem porquê. Chego a ficar com soluços, por empurrar com insistência, movida apenas por sali...

Uma praia de pedras rolantes

Cinco da tarde de um dia ameno de final de Agosto. No regresso ao hotel, após um dia de longos passeios pela cidade do Fuchal, improviso um novo percurso. Desemboco numa ruela que me conduz ao mar. Encostada ao corrimão cimeiro onde acaba a rua e começa a praia, assisto deslumbrada a um espectáculo inédito e gratuito. Dezenas de crianças saltam e gritam, raiando felicidade enquanto chapinham à beira-mar. Um cenário perfeitamente normal, não fosse tratar-se de uma praia onde os pés, em vez de areia macia e dourada, pisam calhaus. Duras e frias pedras vulcânicas, de tom escuro, onde se sobrepõem toalhas e corpos molhados sobre elas, como se de um confortável colchão se tratasse. Ao ver a felicidade genuína daqueles meninos, ao deixar-me contagiar por ela, consigo confirmar que de facto a felicidade vive guardada, escondida até, dentro das mais pequenas coisas. Felizes dos ignorantes, sempre ouvi dizer… e tem o seu quê de verdade. Aquela praia, a única que conhecem e que alguma vez tiver...

Noventa euros em frutos tropicais

Saborear um fruto exótico pode ser uma experiência inesquecível mas longe do alcance de todas as carteiras Há quem diga que a melhor forma de conhecer um local e as suas gentes é deambular a pé pelas ruelas que se entrecruzam à nossa volta e visitar o mercado municipal. E foi isso mesmo que fiz no primeiro dia de visita ao Funchal. Saio do hotel, localizado no coração do centro histórico, e começo a atravessar ruas aleatoriamente. Começo por seguir pela principal e depois arrisco atalhos pelas perpendiculares, à procura de pessoas e de casas com portas e janelas entreabertas por onde possa espreitar. Liberto toda a curiosidade que se esconde em mim e dou-lhe trela. Quero que seja ela a puxar por mim e por isso deixo-me guiar pelo seu instinto. Sem que tenha andado mais de 500 metros, dou comigo à entrada do mercado municipal. Na fachada leio a inscrição “Mercado dos Lavradores”, mas depressa descubro que este mercado é sobejamente conhecido pelo mercado das flores. Basta atravessar o p...

Turismo na Madeira: 5 estrelas

A primeira impressão que tive da ilha da Madeira poderia muito bem ser resumida em três palavras: organização, perfeccionismo e excelência. Os elogios não devem ser poupados quando são merecidos. E o povo madeirense merece-os todos, pelas mais variadas razões. A começar pela forma arrumada como as habitações se foram erguendo socalco sobre socalco, monte acima, compondo a enorme plateia do anfiteatro que se ergue sobre a baía do Funchal. Talhando pedra basáltica, ergueram casas, estradas, túneis e pontes. Não é de admirar por isso que a cidade esteja completamente recomposta das cheias que há seis meses varreram pessoas, casas, estradas, muros e tudo mais o que a força da água encontrou pela frente. A água mole tanto bateu na pedra dura que conseguiu provar que afinal quando pode até que fura... De cabeça erguida e mãos à obra, os madeirenses parecem não perder muito tempo a chorar. De olhos no futuro, focados no que é essencial, rapidamente deixaram afogar as mágoas na força da mar...