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Mensagens

O presente

Enquanto se queima um cigarro no sereno, sobra tempo para rever o dia que ficou para trás como uma página virada. A manhã começou bem cedo com a euforia que antecede uma festa. O Luís faz seis anos e todos os colegas da sala estão convidados. Para muitos uma festa de aniversário já não é novidade, mas há uma menina estreante nestas andanças que não consegue esconder o entusiasmo latente. Passeia-se pela casa de saco na mão, impaciente pela chegada da hora. “Ó mãe, vamos já?”. A mãe responde que é só mais à tardinha, à hora do lanche. No interior do saco há um presente escondido pelo papel de embrulho: uma surpresa para o Luís. Será que vai gostar? A menina questiona-se, curiosa por saber o que sairá lá de dentro, como se a prenda fosse também para ela. Todas as crianças adoram presentes. Como se nunca tivessem deixado de ser crianças, todos os adultos adoram presentes, mas habituaram-se a dizer que “não era preciso nada”. Era pois. Afinal, cada dia é uma dádiva, daí que lhe chamemos ...

1º de Maio

Saímos de casa cedo, ainda pela fresquinha. Há um ânimo de férias no ar. Hoje não há escola, hoje não vamos trabalhar. É feriado e temos o dia todo por nossa conta. Como é bom ter vagar. O carro vai cheio. Vai cheio de gente, cheio de conversa solta, cheio de gargalhadas que nos saem por tudo e por nada. Rimos juntos. Trocamos sorrisos pelo retrovisor. Hoje estamos felizes. Pais, filhos, avós e netos, distraídos pela paisagem que a alta velocidade passa por nós, nem nos damos conta da perfeição do momento. Vamos passar um dia diferente, noutra terra, com outra gente. Vamos andar de mãos dadas para não nos perdermos. Vamos conciliar estômagos famintos num mesmo horário, para nos sentarmos à mesa e pedir a ementa. Vamos todos escolher uma comida de que gostamos, não vamos obrigar ninguém a comer sopa, nem brócolos. Hoje é dia de folga, à mesa não há lugar para discussões. Todos mastigamos com gosto, levamos cada garfada à boca com uma satisfação feita de apetite. Ainda comemos em resta...

Joe Black

Lá fora, o vento uiva desenfreado. Numa ira de força transparente, empurra sem piedade tudo o que se atravessa no caminho. As árvores vergam-se à sua passagem, como se numa vénia lhe concedessem obediência. O pó, feito de terra, de areia, de vestígios de erosão, passeia-se num voo que atravessa o próprio ar em ziguezagues, por vezes interrompidos por uma pausa repousada num canto qualquer. As nuvens também parecem zangadas, ficam cinzentas de raiva por não poderem repousar em paz. Nem no céu parece haver descanso. Indeciso, sem saber como se comportar, o Sol esconde-se envergonhado. Vai espreitando, introvertido, deixando escapar tímidos raios de luz por entre a espessura branda das nuvens. Os corpos que já pedem praia guardam-se em casa em lamentos resignados. Os rostos, como um espelho, reflectem a cor do dia. Semblantes cinzentos cruzam-se nas ruas, cabisbaixos. A chuva, que tanta falta faz, avança e recua hesitante, enviada a conta-gotas pela mãe natureza. Está tanto vento, mas n...

Esta terra que me acolhe

Quantas vezes o sítio onde vivemos não é escolha mas destino? Soma de contas mal feitas, adições ou subtracções mal resolvidas, erros de cálculo, opções que sobram nos destroços, no entulho que resta de tudo o que um dia idealizámos. E aprendemos a aceitar. Que remédio. A adaptação fica-nos tão bem. É um fato engomado que nos assenta sempre bem. Adaptar-nos é a última das sortes, mesmo quando a vontade não vem, nem com o passar do tempo. O tempo, o tempo. Com ele acabamos por aceitar tudo, até a morte que sabemos certa e que nos espera a todos sem segunda opção. Hoje o vento não me está de feição. Nem esta paz fluvial que traz cheiro a maresia é capaz de me aquietar os sentidos. Da minha janela ao mar são poucos quilómetros. E isso poderia bastar-me para sorrir. O sol que raia lá fora a espaços por entre as nuvens que dançam em seu redor poderia bastar-me. O vento que passa, que assobia vaidoso poderia bastar-me. Por aqui, não há filas de carros a buzinarem-me aos ouvidos. Não há d...

Companhia virtual

Eu estou aqui. E tu estás aí. Estás a ler-me? Então não estás só. Do outro lado da janela virtual, há uma mão que percorre as teclas em busca de companhia. Se o sono teima em não aparecer, na virtualidade do momento, podes enviar-me uma mensagem. Basta dizeres, “Olá, estou aqui!”. Do outro lado, à espreita, eu sou real, posso responder-te. E há toda uma cortina de esperança que se abre, um vazio de emoções que se preenche, um coração que se aquieta por encontrar um mesmo compasso. Não te conheço, não sei quem és, nem o que tens feito no mundo real. Mas tens um ar simpático. Deves ser boa pessoa, eu não tenho por hábito simpatizar com qualquer um. Gostava de saber como és. Qual é a imagem que se esconde atrás desta página em branco manchada de letras negras. Podes estar de pijama e chinelos, que eu nunca irei saber. Podes estar a fumar, a beber, podes estar até a tirar macacos do nariz, que eu, prometo, não me vou rir. Podes até estar nu, andar à vontade pela casa tal qual vieste ao m...

Na fronteira

O Guadiana tem dois amores, duas margens que podem acenar-se, que podem trocar saudações em línguas diferentes. São dois países separados por um rio, unidos por um ferry, há uns anos também por uma ponte. Num abraço de betão estreitaram-se as margens, português e castelhano misturam-se muito mais desde então, num cocktail de vozes que não deixam as ruas silenciar-se. La chica que habla español chama-se Ayamonte. É uma terra pacata, onde os sábados despertam com a euforia do mercado. Bancadas de legumes alinhados por cores enchem os olhos de apetite. Enormes peças de pescado ainda a saltar de fresco são um convite ao convívio em redor do fogareiro. E há a carne, um regalo às pupilas, um deleite para as papilas: el cordero , el cerdo , la ternera . Nas esplanadas, a qualquer hora do dia, bebem-se cañas e picam-se tapas. E no vagar do fim-de-semana repara-se nos pés calçados de novo da senhora que acabou de sair da mítica sapataria de esquina. Nas gasolineiras, de manhã à noite, há sem...

Quatro Primaveras

Sou tua mãe mas não te vi nascer. Pode parecer estranho, mas foi assim que aconteceu. Há quatro anos, era de noite. Ainda não era Primavera, mas estava um clima ameno, primaveril. No relógio de parede, o ponteiro pequeno estava fixo no número um e o grande apontava para o oito. Eram uma e quarenta da manhã de terça-feira, dia 11 de Março de 2008. Quando choraste pela primeira vez, eu não te ouvi. Ferrada num sono profundo, não te ouvi, nem te vi, nem peguei em ti ao colo, nem chorei de felicidade por sentir uma emoção nova, tão rara, que pode acontecer uma única vez, ou poucas vezes na vida. Lamento não ter sentido as dores. Lamento, ainda mais, não ter conhecido a explosão de emoções que as sucedem. Estava anestesiada, esventrada e longe do meu bebé. Lamento tudo isso, mas sei que foi por bem. Os corpos escondidos por detrás de todas aquelas batas brancas, sem nome, sem voz, quase sem rosto, salvaram-te a vida. Bendita seja a medicina. Despertei nauseada, horas depois. De um lado, e...