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Mensagens

Desabafos salteados

Há dias em que a vida parece tão simples. Basta respirar e saciar as necessidades. Comer, orar e amar. Fazer o que nos dá alegria e prazer. Conviver com as nossas pessoas. Pensar pouco e sentir muito. Creio que isto é saber viver.

Uma casa sem livros

Era uma casa sem livros. Estava cheia de solidão. Sobre as prateleiras não viviam vozes adormecidas à espera de uma carícia. Havia pessoas que trocavam olhares vazios. As palavras resumiam-se a monossílabos, arrotos  cerebrais espontâneos e inúteis. À noite, o burburinho que sempre emerge dos livros que nos espreitam  vigilantes, não existia. No ar, apenas solidão e silêncio, ausência e vazio, o roncar inerte de corpos sem  alma, espelhos da casa, desta casa sem livros, com portas e janelas blindadas, à prova de palavras  e  ideias, como se estas armas fossem proibidas por lei.

Continuas a fazer anos, sem envelhecer…

Não me esqueci. Como poderia esquecer-me? Hoje farias 60 anos e só o cabelo grisalho denunciaria a tua idade. Sempre pareceste muito mais novo, exibindo uma saúde férrea de espalhar inveja. Não fosse aquela maldita doença e ainda aqui estarias, a massacrar-nos com o teu mau feitio militante. Quando alguém parte cedo demais, até os defeitos deixam saudades. A implicância com coisas menores era o teu forte. Por vezes, parecias possuir superpoderes e exigias o mesmo heroísmo de todos em teu redor. Não eras o amor perfeito mas um grande companheiro de viagem. Não eras um educador exemplar mas um pai dedicado e carinhoso. Eras um pai-avô, como te autoproclamavas, depois de teres repetido a experiência pela quarta vez aos 50 anos. Nesse dia, há dez anos, visitámos o Oceanário e à saída tirei-te uma fotografia. Tinhas um bebé de três meses ao colo. De olhos cerrados, beijavas-lhe a testa, inspirando amor. Era o teu “brotinho”, dizias tu. Era o “nosso tesourinho”, dizia eu. Como o tempo pas...

Benilde ou a Virgem Mãe

A mãe e eu | 29 de setembro de 1979 És leite morno a transbordar do seio Cordão umbilical resistente ao corte És a pele que cobre o frio e o medo Fizeste-me milagre nascido da morte És o olhar vigilante que antevê a queda A mão segura, o amparo constante És colo, beijo, doce carícia pura Mesmo longe, nunca estarás distante És norte, palavra amiga, orientação O sofrimento mais alegre do mundo Coragem ímpar, força extrema És mistério sobrenatural sem explicação És filha, mãe, avó Imagem omnipresente És quem não me deixa só És quem me sente e pressente Quando a garganta dá um nó És calma e colo e silêncio O bem contra todo o mal És mãe da tua filha E mãe da tua mãe Fonte do amor incondicional És abnegação, benevolência O fim de qualquer turbulência És paciência sem fim O mar e o céu juntos Canção de embalar A ecoar, eternamente, dentro de mim. (Dedic...

Reciclagem do amor

Há uma certeza que me rasga o peito e me ata o pensamento. Eu amo-te. Estou certa disso. Sou capaz de reconhecer em cada reação do meu corpo um sintoma indicador da veracidade do meu diagnóstico. Não é a primeira vez que penso continuamente em alguém noite e dia, dia e noite, como se não houvesse intervalo possível para uma mente sempre alerta, mesmo durante o sono. A ausência de notícias é o que mais me consome. Não saber, a cada hora que passa, por onde andas, o que estás a fazer, se e quando pensarás em mim. É aqui que encontro também a razão mais plausível para desistir de ti. Se fosse para ser possível, não seria assim. Um amor que vive de pensamentos tende a morrer de saudades. O amor alimenta-se de carne, de pele, odor e calor. E eu já quase não consigo imaginar o contorno do teu rosto sem voltar uma e outra vez às fotografias que guardo no computador. Na angústia sôfrega de te querer tanto e não te ter, a certeza volta a quebrar-se em mil pedaços, transformando-se numa dúvi...

Uma dezena de milagre

11 de Março de 2008 Tento imaginar a vida sem ti, num exercício impossível de quem procura reviver uma existência passada. Tudo parece ter nascido depois de ti. Até mesmo eu. Antes, talvez apenas existisse. Só depois de experimentar a extraordinária magia da multiplicação da carne é que aprendi a viver. Minha filha, és a única. Uma dezena de anos depois, continuas a ser a única pessoa que um dia me habitou. Poupando-me a gemidos e dores, conquistaste a tua liberdade, numa irrepetível madrugada de Março, dia 11, no calendário de um primaveril 2008. Só tu me abraças como se abraça o tempo, num aperto de eterno reencontro. Só tu, versão refinada de mim, consegues ser a superação da minha limitada e frágil existência. Disfarçada de criança, és a pura beleza da inteligência ingénua. Palpitando ideias geniais, és promessa diária de futuro. Brotando como uma flor, és a certeza de um amanhã que dará árvores de fruto. Quando sorris, és a esperança renovada de dias melhores. A cada centíme...