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O abraço

Acordei com a vontade faminta que a noite não soube adormecer. Comecei as tarefas do dia sem conseguir repousar a distracção. Estavas em cada objecto como um fantasma. Vejo-te mas não estás ali. Imagino-te apenas, mas tanto me pesa carregar-te para todo o lado. Preciso descarregar-te de mim. Hoje quero depositar-me num abraço teu, como quem cai num poço sem fundo. Vou procurar-te na surpresa que não esperas. Fazer-te borbulhar no descontrolo do medo. Vou encontrar-te na rua dos amores-perfeitos, quase às portas do céu. Vais poupar nas palavras, fixar-te na atenção dos outros sentidos. Quando me vires, serei toda contornos e cores, pele suave e cheiro doce. E tu serás a felicidade disfarçada numa vergonha infantil. No momento em que os teus olhos e os meus olhos se encontrarem num sorriso, seremos um instante para sempre. Dois corpos que se amam num alívio apertado. Um abraço que é um aperto de silêncios, o reencontro sonhado com a outra metade de nós.     

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RECONFINAMENTO - III

Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

SONHOS INVERTIDOS

Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro. 

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...