De
repente, pareceste-me tão pequeno. Era como se tivesses encolhido e voltado a
ser criança. Ali, aninhado no meu colo, com o peso dos problemas suspenso no
meu regaço, ressonavas baixinho, inspirando tranquilidade. Nunca tínhamos estado
tão perto do amor. Eu podia tocá-lo ao de leve com a ponta dos dedos. Desenhava-lhe
todas as formas, contornando-as. Queria fixá-lo para sempre na forma dos teus
lábios, no desalinho das tuas sobrancelhas, na suavidade tenra das tuas orelhas
adormecidas. De quando em vez, vergava a minha boca ao encontro da tua testa,
fazendo um beijo tocar-lhe como uma pena. Respirava-te e suspirava, na certeza
do fim iminente daquela paz tão confortável, tão difícil de manter. Dorme um
sono grande, meu menino. Em mim, sem pressa e sem medo, poderás sempre
repousar.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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