Viajo
não sei para onde, ignorando quem me espera. Só o destino saberá guiar-me.
Nesta longa jornada, tantas vezes de pés descalços, incomodam-me as feridas mas
não posso parar. Abrando, volta e meia, apenas para respirar tempo. E de ares
renovados, sigo viagem. Não por estrada
direita, prefiro os trilhos de curva e contra curva de terra batida. Afinal,
pés calejados aguentam tudo e por aqui a vida parece tão mais bonita. Tem cor e
cheiro e mais sabor. Em cada árvore encontrada, provo um fruto e saboreio
prazeres. Que delícia a liberdade de calcorrear a vida sem pressa nem medo.
Neste constante diálogo surdo-mudo, falta-me aprender a linguagem gestual da
vida. Preciso saber decifrar que respostas me revelam os silêncios com que me
vou cruzando.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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