O que se demora acontece de repente. Na alegria do é agora,
todo o tormento da espera se esvai. Bendito seja o esquecimento! O tempo é tão
relativo quando se deseja o que não chega. Cada dia pode parecer um ano, cada
semana, uma eternidade. E quando surge o momento, aquele que alimentou suspiros
e sonhos, faltam as palavras. A perfeição é tão efémera quanto indescritível.
Quanto tempo dura a felicidade? Um momento. O beijo, até que em fim. A glória
ingénua do canudo na mão. A esperança eterna do sim no altar. O choro feliz que
dá à luz. O pódio. A ribalta. O suspiro que procede do livro editado. O
instante em que a vida, finalmente, acontece.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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