A infância acena-me ao longe. Convida-me para brincar. Deve ter saudades minhas. E eu dela morro de saudades quando na almofada fecho os olhos. Tenho saudades de ser criança porque os meus pais eram jovens e a morte um assunto distante. Era aquele tempo no qual o tempo existia mesmo. Todas as tardes eram livres e todos os lanches leite com chocolate. Nesse tempo não me lembro de implorar abraços e o consolo chegava sempre antes das lágrimas. As únicas decisões eram escolher entre brincar à apanhada ou às escondidas. Desconhecia a matemática e era tão feliz com isso. Nem contas de somar, nem de sumir, quanto mais impostos e faturas por pagar. Os dias eram de uma leveza flutuante. Bastava deixarmo-nos levar pela corrente, a brincar ao homem morto, com a certeza de sermos salvos pelos braços do amor. Nenhum peso, nenhuma dúvida, nada pendente por resolver. Apenas a Primavera da vida, na sua harmonia amena e florida, a chilrear alegria dentro de nós.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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