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AMAR (ATÉ) O INIMIGO

Quarta-feira de cinzas. E ao sétimo dia a guerra continuou, apesar da quaresma anunciar um tempo de reconciliação e paz. Nada é mais certo de que somos pó e ao pó voltaremos. Todos, sem exceção. Escusado era interromper tantas vidas precocemente pela ambição cega de um só homem. Hoje, como cristã, ao receber a imposição das cinzas na Eucaristia, em sinal de arrependimento e conversão, pedi perdão por Putin e a sua conversão ao bem. Para quem não crê, parece ridículo, eu sei. Mas o caminho da paz nunca se construirá amaldiçoando o inimigo, antes invocando sobre ele o perdão, a misericórdia e a iluminação divina de que tanto precisa. Com o cérebro invadido pelas cinzas de uma Ucrânia em lágrimas, que todos os crentes sejam aliados em oração, para que a força invisível em que acreditam consiga sobrepor-se à escuridão. Enquanto o mundo for mundo, será eterna a luta do bem contra o mal. Neste perpétuo braço de ferro, façamos força do lado certo.


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RECONFINAMENTO - III

Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

SONHOS INVERTIDOS

Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro. 

Quando a avó me levava ao parque

Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...