Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.
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