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Mensagens

Primeiro de Janeiro

Estejas onde estiveres, assistirás aos mesmos rituais. Ao vivo ou através da televisão, um coro de vozes em contagem decrescente, descerá uma escadaria imaginária que separa o número dez do zero. Nesse preciso instante, será meia-noite. Doze badaladas de um relógio qualquer vão anunciar ao mundo que está prestes a começar a primeira hora do primeiro dia do primeiro mês de um novo ano. Alguém terá uma garrafa na mão e não tardará uma rolha de cortiça libertar-se-á num estalido seco atravessando o ar sem que ninguém saiba onde vai parar. Rostos subitamente iluminados por uma felicidade sem razão exclamarão vivas e trocarão beijos e abraços e votos de dias felizes, por entre goles de espumante ou champanhe. Os flutes preenchidos pelo líquido dourado e borbulhante elevar-se-ão várias vezes, tilintando uns nos outros em múltiplos brindes de braços entrecruzados. Sentirás na boca um gosto amargo que aos poucos será mais doce e mais doce e mais doce e caminharás rumo a um ponto onde possas...

O regresso da mana Bia

Já não me lembro do dia em que partiste para o Brasil. Tinha eu quinze anos. Entretanto, passou toda uma vida. Tenho uma vaga ideia, memórias soltas, esfumadas pelo esquecimento que a passagem dos anos nos vai impondo. Agora que tenho vagar, não são poucas as vezes que me sento, a velha caixa de sapatos sobre o colo, as mãos enrugadas folheando memórias como se fossem restos de ti, sobras da vida que não vivemos juntas. Eu cá, tu lá. Eu em Portugal. Tu no Brasil. Entre nós um Oceano de saudade. Casei-me pouco depois da tua partida. A nossa mãe, viúva, convenceu-me de que seria o melhor para mim. Até hoje, mana, duvido que as mães tenham sempre razão naquilo que dizem. Mas, ao menos, não fiquei desamparada como receava a nossa mãe. Até hoje, tenho ao meu lado um homem que me preenche os dias. Ainda que quase só de arrelias. Fomos sabendo uma da outra por carta. Era uma euforia sempre que abria a caixa do correio e via aquele envelope branco, riscado a azul e vermelho no rebordo, marca...

A noite de toda a vida

Havia dias que não trocavam uma só palavra. Comunicavam por gestos, monossílabos quase imperceptíveis, fazendo um enorme esforço para que nem os olhares se cruzassem. Estavam desavindos, de sentimentos às avessas, magoados por excessos de palavras que nunca deveriam ter dito. Depois de tantas e tantas discussões, reinava entre eles um silêncio de morte, um vácuo que encerrava uma dor profunda. Quando voltavam as costas, cada um para seu lado, não eram capazes de conter o choro. Um aperto no peito parecia ser capaz de espremer o coração que pouco a pouco se dissolvia em água. Nem um, nem outro avistavam futuro para além do dia de amanhã. Apesar de não o desejar de forma alguma, cada um à sua maneira estava certo que tudo o que um dia os unira teria chegado ao fim. E a sensação de nunca mais era insuportável. Nunca mais te vou beijar. Nunca mais te vou sentir. Nunca mais vou poder acreditar que haja o que houver ficaremos juntos para sempre. Nunca mais… Ambos estavam longe de imaginar ...

As intermitências do sentir

Os sentimentos são como as ondas do mar. Por vezes recuam, partem, libertam-se de nós e vão com vontade própria, como se nunca nos tivessem pertencido. E voltam, quando já não os esperávamos, quando já não tínhamos lugar reservado para eles. Tal como uma onda forte, rebentam sobre nós num turbilhão, podendo até derrubar-nos. Depois, voltam atrás e regressam já mais suaves, como uma carícia de espuma que apenas cobre a pele ao de leve. Há dias em que o mar está chão. Nesses dias reencontramos a paz, a doce tranquilidade de não sentir. No dia seguinte, sem aviso nem previsão possível, um marmoto. Ondas gigantes de sentimentos que nos abalam como um sismo, que fazem estremecer os pilares da nossa existência. Amar como uma onda que vai e vem, numa valsa sensual de areia e água, elementos apaixonados que se misturam mas não se podem dissolver, acabando por separar-se sempre. Os sentimentos são como as ondas do mar. Nascem de parte incerta, das profundezas de um oceano qualquer, de um pon...

Utopia

Há uma definição que ouvi há dias que não me sai da cabeça. Alguém terá dito que a utopia é como um horizonte: damos dez passos e ela afasta-se, damos mais dez, tentando aproximarmo-nos, e ela volta a afastar-se. É como um jogo do “toca e foge”, que nunca terá fim. Tal como o horizonte, a utopia é uma linha imaginária que conseguimos visualizar mas jamais poderemos tocar. Funciona porém como a cenoura atrás da qual o burro corre. A cenoura é uma qualquer utopia. O burro somos nós. Se bem que na história do burro, se o animal for persistente que baste, poderá a dada altura alcançar a cenoura e trincá-la a seu bel-prazer, celebrando vitória pela conquista do objecto desejado. Na vida dos seres humanos, aquela que se conveio designar por vida em sociedade, podem existir tantas utopias quantas mentes haja ávidas de sonhar. Se o sonho comanda a vida, como dizia o poeta, a utopia comanda a vontade de acreditar que todos os sonhos podem tornar-se realidade, mesmo que na verdade não possam. ...

O dia em que nasci

Maternidade Alfredo da Costa (MAC), Lisboa, 29 de Setembro de 1979 O mundo atravessa o ano de 1979, os calendários permanecem suspensos no mês de Setembro, enquanto a minha mãe percorre os corredores da maternidade, ainda sem saber se será menino ou menina. Já passa do tempo e eu pareço teimar em não querer nascer. Por isso, naquele dia, sou obrigada a fazê-lo à força. Naquela tarde de finais de Setembro, é uma parteira amiga da minha mãe que a conduz a Lisboa. Ainda em casa, dá-lhe uma injecção para induzir o parto, antes de a levar para o carro onde põe a tocar uma cassete de fados. É o choro das guitarras que há-de embalar a dor das primeiras contracções. Ao passar a ponte, ao cruzar o Tejo, enquanto acaricia a enorme barriga como se fosse já um bebé, a minha mãe tem mil sonhos para mim. Todos os seus pensamentos são bons. Todos os seus sonhos são possíveis. Naquele instante de infinito, ela carrega no ventre uma explosão de energia prestes a acontecer. Uma nova pessoa, uma no...

Noventa dias felizes

Volto à superfície com a urgência de uma golfada de ar. A minha cabeça irrompe da água numa aflição. Liberto a respiração, abrindo a boca e os olhos. Num gesto mecânico, passo as duas mãos pelos cabelos molhados, como se os pudesse pentear. Viro-me para terra e tudo o que vejo são restos de mais um Verão que passou: gente e mais gente, uma mancha de toalhas de todas as cores, chapéus e chapéus-de-sol que inundam um areal a perder de vista. O mesmo areal que daqui a dias não será mais que um deserto. Os grãos de areia vão sentir falta de tudo isto: dos corpos jovens, verdes, viçosos, como tenros rebentos, firmes troncos; dos corpos mais velhos, maduros, cheios de polpa, gelatinosos, desmazelados mas confiantes; dos idosos que, antes das nove, como se o mar fosse um patrão, como se o areal os aguardasse com a hora marcada de um emprego, já assentaram arraiais; das peles quentes, ardentes, suadas, salgadas, temperadas, implorando um beijo doce; saudades do aroma a creme de coco que se e...