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Mensagens

Depois de nós

Os filhos Vontades próprias que nascem em nós Jorrando sangue, rasgando carnes Fazem-se ouvir Num choro que abafa o grito São alegrias de curar dor Ecos de continuidade Nós depois de nós A vida que fica Depois de sermos só silêncio

O sensual “Desfado” de Ana Moura

De vestido negro cingido, cabelo negro comprido, ela entra em palco e faz-se silêncio, que se vai cantar o “Desfado”. Se este último álbum de Ana Moura é um sucesso mundial, que a consagra definitivamente, não é por acaso. Num estilo muito singular, ela consegue literalmente desconstruir a melodia tradicional do fado, preservando a sua essência. A receita de tamanho sucesso, quanto a mim, é uma mistura explosiva: o calor da voz grave, o jeito sensual de um corpo que se bamboleia discretamente ao ritmo da música e uma simpatia de sorriso sempre rasgado. A tudo isto, soma-se ainda a poesia intensa e vibrante de cada letra e, na actuação ao vivo, o mérito dos músicos que a acompanham em palco. Além da guitarra portuguesa, um baixo, um piano e uma bateria são os instrumentos a que voz de Ana Moura se encosta para fazer nascer canções de indiscutível beleza, que proporcionam a quem ouve momentos de raro prazer. Ontem à noite, no auditório municipal de Olhão, o meu corpo confir...

"O mordomo"

Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei.   Cecil é o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama, “O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a roupa para lavar na máquina: os brancos e os ...

Anos apressados

Nasci tarde demais Num corpo de trinta anos E eu que tinha tantos planos Despertei tarde demais Para desfazer desenganos E eu que tinha tantos planos Tantos e cada vez mais Cresci cedo demais A correr pelos anos A passos largos, sem vagar Afinal eram tantos os planos Tantos que não podiam esperar

És segredo

A falta que me fazes E que não sei explicar É este poema Trago um peso pendurado ao peito Que se desprende num suspiro E mesmo assim não conhece alívio Continuo seguindo os teus passos Como se te procurasse Como se te quisesse encontrar Em toda a parte Vejo-te onde não existes Reflexo omnipresente Estás até onde não estás Levo-te e trago-te em mim Preso em silêncio Mudo e secreto Meu inconfessável amor

O Verão da amizade

Os amigos encontram-se na soma dos gestos. Uma dose de alegria e outra de sabedoria são quanto baste para que duas mãos se apertem na confiança do calor que as une. Um amigo pode nascer de uma palavra ou de um sorriso, de uma gargalhada ou de um acaso feliz. Ao encontrar um amigo há sempre uma janela que se escancara descortinando-nos a mente, permitindo que se revele o melhor de nós. Um amigo que nos descobre tem vocação de marinheiro, daqueles que ao longe avistam terra firme onde é seguro aportar. Os amigos têm mãos capazes de acariciar sonhos e asas para oferecer se quisermos voar. Um amigo é capaz de soprar até ser vento e transportar-nos mais alto ou mais longe, sempre mais e mais além. Não há amigos e amigos. Há amigos e inimigos. Os outros são conhecidos. Seres que partilham um espaço ou um tempo sem o compromisso da continuidade a que se chama amizade. Um amigo não é um ombro, é um travesseiro humano que nos embala e adormece as dores que a vida teima em nos infligir. Cair ...

Deserto feliz

Juro-te nunca mais Implorando-te para sempre Sermos esta poesia De sangue quente Na noite fria Eternamente, eternamente Quantas vezes me basta Esse olhar, só esse olhar Para viajar, viajar Sem rumo nem tempo És um destino incerto E eu ponto de partida, Bilhete só de ida, Para um lugar deserto Um futuro chamado vida