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"O mordomo"

Nota: Não sendo este o cartaz promocional português, foi o que mais gostei.  

Cecil é o narrador da sua própria história. Em analepse, recorda a longa jornada do menino negro que, após assistir ao brutal assassinato do pai, pelo gatilho do patrão branco, lhe cabe em sorte passar a ser “preto de casa”. Poupado aos trabalhos forçados dos campos de algodão, o rapaz esmera-se em aprumos na serventia doméstica. E será por mérito reconhecido a olho nu que, mais tarde, num hotel de luxo, alguém o referenciará para servir a Casa Branca. Com uma postura irrepreensível, será o fiel mordomo de oito presidentes dos Estados Unidos. Pelo meio, vive desavindo com um filho que luta pelos seus direitos e perde o outro na guerra do Vietname. Dos anos vinte do século passado até à eleição de Obama, “O mordomo” é uma breve lição da história recente dos Estados Unidos, com todo o enfoque no conflito racial, que dividia as pessoas como hoje separamos a roupa para lavar na máquina: os brancos e os de cor. Martin Luther King teve um dia “um sonho” que se tornou realidade. E a vida do mordomo Cecil deu-lhe tempo para, de lágrimas nos olhos e gravata de Kennedy ao pescoço, ter a honra de conhecer o primeiro presidente negro da história do seu país. A banda sonora do português Rodrigo Leão é sublime, jamais se sobrepondo ao protagonismo do elenco. E Oprah Winfrey, poderosa como sempre.


Título original: “The butler” (baseado numa história real)

Duração: 132 minutos

Realizador: Lee Daniels

Banda sonora: Rodrigo Leão

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Cuba Gooding Jr., John Cusak, Robin Williams, Jane Fonda, Mariah Carey, entre muitos outros. 


       

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