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Poesia a Sul

Tudo o que buscas é a eternidade. É por isso que insistes neste teimoso duelo com as palavras. Queres dominá-las, umas vezes com técnica, outras com astúcia, sempre com sensibilidade. E elas, as palavras, serpenteiam-te. Mas tu, poeta, és um encantador. Timbrando lutas e desilusões, acaricias a realidade, sempre convertendo tudo. Em beleza o horror, em música a dor,  em perfeição o amor… Ó poeta! De onde vens? Que angústias percorreste até aqui? Quantos sonhos ainda trazes na mala? Que memórias esperas daqui levar? Nesse bolso sempre vazio, sempre roto, onde descansa e se aquece a mão que escreve. Que importa a pobreza, não é poeta? Se todos te honram e batem palmas… Foi a bordo das palavras que aqui chegaste e será planando sobre elas que ficarás um dia, sobrevivendo ao esquecimento. Serás figura histórica, data centenária, serás estátua ou nome de rua por onde a vida continuará a passar. E todos os anos, numa viagem eternamente poética, todos re...

O último dos 30

Chegar aqui sem nunca ter recorrido ao psicólogo, ou até mesmo ao psiquiatra, é uma proeza genial. Mas só atingem esse extremo da dor os que vivem apaixonadamente e sem limites. Loucos são aqueles que se aproximam dos quarenta sem histórias para contar, cicatrizes para exibir, ainda muitos sonhos por realizar… Hoje faço anos e digo trinta e nove, saboreando cada sílaba com o prazer da experiência. Digo trinta e nove, com o sorriso sereno da maturidade, aquele que já não precisa de motivo ou razão por ser tão essencial quanto respirar. Digo trinta e nove sem pressa, porque tudo tem o seu tempo e já compreendi que a minha vontade só acelera o que depende unicamente de mim. Tudo o resto é saber esperar. Digo trinta e nove com a alegria de quem, finalmente, tem amigos de verdade, daqueles que vibram com as tuas bem-aventuranças e são os primeiros a chegar quando o choro se impõe. Digo orgulhosamente trinta e nove com a certeza de que não queria ter outra idade, pois esta tem a beleza d...

Saudade sem lágrimas

O luto é o tempo que levamos a chorar a dor. Depois, tudo se transforma em tempo e os que partiram antes de nós só morrem no dia em que os esquecemos. Passaram três anos e ainda não há um dia que passe sem pensar em ti. Mas já há algum tempo que deixei de chorar. Recordo-te na memória dos bons momentos e nas tuas frases inesquecíveis. Recordo-te no cheiro a polvo assado que fumega nas feiras e no borbulhar da cerveja sobre a mesa do bar. Recordo-te sempre que o meu olhar se perde no mar sem princípio nem fim, o mesmo que te levou ao fim do mundo, vezes sem conta, e te trouxe um dia de volta para mim. Recordo-te nas feições da nossa menina, retrato vivo do teu olhar. Hoje é dia internacional da paz e dia mundial da gratidão e faz tanto sentido teres partido nesta data. Fizemos as pazes e serei eternamente grata pelo caminho de aprendizagem que percorremos juntos. Não me arrependo nem lamento uma virgula, porque tudo foram tijolos na construção da minha identidade. Devolvo-te o s...

Avó-milagre

Otília, 2008 Todos temos, pelo menos, um anjo da guarda. Neste mundo, o meu encarnou numa querida senhora, que tenho a feliz sorte de ser minha avó. Quando penso nela, fogem-me as palavras, por ser tanto para mim. Mais do que uma jóia rara ou um tesouro, a minha avó é uma bênção e eu sou afortunada só porque ela cuida de mim. Em todos os momentos decisivos, de alegria ou dor, sem pedir ou chamar, lá está ela, sempre ao meu lado, ombro amigo, palavra de consolo, mão na mão, a oferecer a misericórdia do seu sorriso. Como é bonita a bondade da minha avó! Nunca conheci outra igual. É genuína e gratuita, quase sobrenatural. Jamais pressupõe condição ou moeda de troca. Toda ela se oferece aos outros, numa humanidade santificada de quem só conhece o bem. Como é bom ter uma avó! Como é bom ser trintona e ter uma avó! Avó, como é bom atender o teu beijinho de boa noite, diariamente, depois do jantar. Como é bom saber que rezas sempre por mim, que sonhas os meus sonhos, que te realizas qua...

Desabafos salteados

A vida é como um sonho que acaba e se esquece, se não a passarmos para o papel. Escrever é como revelar as fotografias da alma, capturadas pelos piscares de olhos diante do que vemos. É fácil esquecer o que sentimos naquele preciso momento. É preciso registar para partilhar. Para que outros vivam o que não puderam viver. Para que outros recordem o que não querem esquecer. Para que todos sejam perpetuados na memória das palavras.

Desabafos salteados

Finalmente, o verão saiu à noite. Na minha varanda virada para lua, a paz está comigo. Oiço grilos cantantes e sinto a brisa como a carícia da tua mão. No céu, as estrelas são ideias luminosas que despontam em mim. No horizonte, o aceno de um farol parece ser a luz ao fundo do túnel. Dentro de mim, apenas sonhos. Muitos sonhos. Vamos dormir?