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O último dos 30


Chegar aqui sem nunca ter recorrido ao psicólogo, ou até mesmo ao psiquiatra, é uma proeza genial. Mas só atingem esse extremo da dor os que vivem apaixonadamente e sem limites. Loucos são aqueles que se aproximam dos quarenta sem histórias para contar, cicatrizes para exibir, ainda muitos sonhos por realizar… Hoje faço anos e digo trinta e nove, saboreando cada sílaba com o prazer da experiência. Digo trinta e nove, com o sorriso sereno da maturidade, aquele que já não precisa de motivo ou razão por ser tão essencial quanto respirar. Digo trinta e nove sem pressa, porque tudo tem o seu tempo e já compreendi que a minha vontade só acelera o que depende unicamente de mim. Tudo o resto é saber esperar. Digo trinta e nove com a alegria de quem, finalmente, tem amigos de verdade, daqueles que vibram com as tuas bem-aventuranças e são os primeiros a chegar quando o choro se impõe. Digo orgulhosamente trinta e nove com a certeza de que não queria ter outra idade, pois esta tem a beleza da juventude sábia e assenta-me tão bem. Digo trinta e nove com gratidão, por ainda ter pais e avós, por ter um labor que me sustenta e uma saúde tranquila, orientada pela paz que me dirige. Ao som dos grilos que pautam o silêncio noturno, antes de adormecer, grito trinta e nove contra o vento, exibindo a minha suprema de liberdade, ao começar este dia de aniversário natalício da forma mais perfeita possível: a fazer o que mais gosto – escrever.  

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RECONFINAMENTO - III

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Acabei por tornar-me naquilo que nunca quis ser: um funcionário alfanumérico de uma dessas empresas capitalistas para quem os trabalhadores são descartáveis e insignificantes. Por mais que faça, ou seja capaz de fazer, não valho muito mais que um salário mínimo. Que motivação esperar de mim superior a q.b.? Picar o ponto, numa pontualidade milimétrica, ser paciente face à impaciência alheia, e sorrir, quando nada mais puder, face à inversão dos sonhos acalentados num passado de onde ainda vislumbrava futuro. 

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Quando a minha avó me levava ao parque, eu tinha cinco anos e ainda sabia ser feliz. A avó levava sempre a minha mão bem apertada pelo medo de não me deixar fugir. Esses dias eram sempre finais de tarde de verão, daqueles que o Sol gosta de prolongar até que resolve esconder-se. Depois de jantar, lá íamos nós, rua acima, pela fresquinha – como ela dizia – agradada com a brisa que antecede o anoitecer. Lá em casa, jantávamos cedo, às seis da tarde já a comida estava na mesa. Era assim por causa do avô. Ele chegava das obras com a roupa e as botas pesadas de cimento e tomava sempre banho antes de ocupar o seu lugar cativo à mesa. Depois, com as mãos espessas e ásperas de tanto acartar baldes de massa, cortava uma fatia de pão. Vida dura a do avô. As obras começavam sempre cedo, sobretudo no verão, para fugir à braseira estival. Vida dura a da avó. Uma vida feita de espera e de cuidar dos outros. Mas nem um lamento. Daquela boca só saíam jóias e rebuçados. Daquelas mãos, só carinho. Da...