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Mensagens

Ainda és jovem!

Ouço repetidamente esta afirmação desde os meus 20 anos. Se é para arranjar trabalho, ainda és jovem, dá tempo ao tempo. Se é para encontrar o amor, ainda és jovem, há-de aparecer. Se é para ter filhos, ainda és jovem, tens a vida pela frente. Ontem, ao escutar a homilia do Papa Francisco, dirigida a uma multidão de jovens, no encerramento da Jornada Mundial da Juventude no Panamá, lembrei-me desta expressão e de como fui enganada toda a vida. "Os jovens não sã o o futuro", dizia o Santo Padre, "são o presente". Esperar por amanhã é um dos piores erros do ser humano. O verbo agir soa melhor e só faz sentido no presente. Ser jovem é ter a idade certa para ser a mudança no mundo. Se alguém me tivesse dito isto há uns anos atrás, talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez tivesse esperado menos e agido mais. Talvez tivesse feito parte de um qualquer grupo de jovens ativos e solidários sempre disposto a doar-se, abraçando causas e lançando-se ao caminho. Talvez tive...

A mais triste noite feliz

Um feliz Natal a todos os que não têm o que eu tenho. Começo por desejar um Natal feliz aos doentes, porque nada nos faz mais falta que a saúde, o único bem que, a par com o amor, não há dinheiro que compre. Depois, desejo um feliz Natal aos que não têm um teto, nem cama, nem sequer uma almofada onde repousar os problemas. Prossigo desejando um Natal Feliz aos que a fome  faz doer o estômago e o coração. Um feliz Natal aos órfãos e aos viúvos, porque não há tristeza maior à ceia que o vazio dos lugares insubstituíveis. Um Natal feliz aos padres e a todos os outros para quem o celibato não foi uma escolha livre mas um destino. Um feliz Natal a todos os que o trabalho rouba ao conforto da família na noite mais sagrada do ano. Um Natal feliz aos que vão nascer e àqueles para quem este será o último Natal. Um feliz Natal para todos os que sentem esta noite feliz, por carência ou solidão, a noite mais triste de todas. 

Mãe

Fui eu que te fiz mãe.  Antes de mim, eras apenas uma jovem mulher com o desejo maior de abraçar um sonho. Fui eu que realizei o teu sonho. Um dia acordei nos teus braços e ofereci-te a felicidade. Fui a tua boneca de brincar aos vestidinhos cor-de-rosa e a menina-luz dos teus olhos. Depois de mim, nada como dantes. O teu coração mudou de lado e passou a bater fora do peito. Só o medo nos separa, mãe! O medo de perder, o medo de sofrer, o medo de não sermos tudo o que sonhámos ser juntas. Só o medo nos trava por vezes esta amizade sem princípio nem fim. Sem cordão umbilical, só a liberdade nos pode manter ligadas para sempre, neste amor filial.

O outro lado da morte

A tua última morada foi o meu coração. À boleia da memória, é aqui que regressas, sempre que te aperta a saudade. Deixo a porta encostada, não precisas de chave, nem de hora para voltar. Bate apenas ao de leve, para que a distração não me apanhe num susto e um grito não espante os vizinhos. Às três pancadas, entra à vontade, estou sempre tua espera. És tu quem me traz flores e até aprendeste a rezar. Num reencontro de mãos dadas, agradecemos ao Pai Nosso  e prometemos não chorar no adeus. Quando do teu corpo em brasa apenas restou a cinza do teu nome, guardaram-te como um tesouro num cofre. Fui poupada às romarias de finados e às lágrimas de cemitério. Agora, só choramos de alegria quando o sonho de um abraço quase parece real. Voltas a ter corpo e sorris para mim como antes. Estás na mesma. Eu envelheço mas tu não. Tomo-te as mãos num beijo e sorrio-te de volta, perguntando: Como é que consegues enganar a morte e fugir dessa prisão para me ver? Ludibriando-a, respondes, num pisca...

Poesia a Sul

Tudo o que buscas é a eternidade. É por isso que insistes neste teimoso duelo com as palavras. Queres dominá-las, umas vezes com técnica, outras com astúcia, sempre com sensibilidade. E elas, as palavras, serpenteiam-te. Mas tu, poeta, és um encantador. Timbrando lutas e desilusões, acaricias a realidade, sempre convertendo tudo. Em beleza o horror, em música a dor,  em perfeição o amor… Ó poeta! De onde vens? Que angústias percorreste até aqui? Quantos sonhos ainda trazes na mala? Que memórias esperas daqui levar? Nesse bolso sempre vazio, sempre roto, onde descansa e se aquece a mão que escreve. Que importa a pobreza, não é poeta? Se todos te honram e batem palmas… Foi a bordo das palavras que aqui chegaste e será planando sobre elas que ficarás um dia, sobrevivendo ao esquecimento. Serás figura histórica, data centenária, serás estátua ou nome de rua por onde a vida continuará a passar. E todos os anos, numa viagem eternamente poética, todos re...

O último dos 30

Chegar aqui sem nunca ter recorrido ao psicólogo, ou até mesmo ao psiquiatra, é uma proeza genial. Mas só atingem esse extremo da dor os que vivem apaixonadamente e sem limites. Loucos são aqueles que se aproximam dos quarenta sem histórias para contar, cicatrizes para exibir, ainda muitos sonhos por realizar… Hoje faço anos e digo trinta e nove, saboreando cada sílaba com o prazer da experiência. Digo trinta e nove, com o sorriso sereno da maturidade, aquele que já não precisa de motivo ou razão por ser tão essencial quanto respirar. Digo trinta e nove sem pressa, porque tudo tem o seu tempo e já compreendi que a minha vontade só acelera o que depende unicamente de mim. Tudo o resto é saber esperar. Digo trinta e nove com a alegria de quem, finalmente, tem amigos de verdade, daqueles que vibram com as tuas bem-aventuranças e são os primeiros a chegar quando o choro se impõe. Digo orgulhosamente trinta e nove com a certeza de que não queria ter outra idade, pois esta tem a beleza d...

Saudade sem lágrimas

O luto é o tempo que levamos a chorar a dor. Depois, tudo se transforma em tempo e os que partiram antes de nós só morrem no dia em que os esquecemos. Passaram três anos e ainda não há um dia que passe sem pensar em ti. Mas já há algum tempo que deixei de chorar. Recordo-te na memória dos bons momentos e nas tuas frases inesquecíveis. Recordo-te no cheiro a polvo assado que fumega nas feiras e no borbulhar da cerveja sobre a mesa do bar. Recordo-te sempre que o meu olhar se perde no mar sem princípio nem fim, o mesmo que te levou ao fim do mundo, vezes sem conta, e te trouxe um dia de volta para mim. Recordo-te nas feições da nossa menina, retrato vivo do teu olhar. Hoje é dia internacional da paz e dia mundial da gratidão e faz tanto sentido teres partido nesta data. Fizemos as pazes e serei eternamente grata pelo caminho de aprendizagem que percorremos juntos. Não me arrependo nem lamento uma virgula, porque tudo foram tijolos na construção da minha identidade. Devolvo-te o s...