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DESCONSOLOS

A vida está a entardecer e tudo em mim é dor e cansaço, mascarados de riso. Há dias em que só penso tristezas, vasculhando baús de sonhos enrugados ao abandono da esperança. As páginas da vida resumem-se a umas folhas de habilidades que de pouco ou nada valem ao sustento. Entre defuntos e furtivos, os amores não passam de promessas nómadas de felicidade. Na escassez de moeda, a riqueza mede-se em saúde e nos amigos que persistem intemporais. Do lado de fora da casa, encontro a noite soprando lá fora. E cá dentro, crepitando, um ardor sem consolo, morrerá fingindo não existir.

Leitura @ Teatro Lethes TV - 5.06.2020

Durante o isolamento social, o Teatro Lethes convidou algumas pessoas a gravar uma leitura caseira, para combater o silêncio cultural. Eis o meu contributo para a iniciativa "Estou vivo e escrevo sol", com o texto "Quando não escrevo", do meu livro "SobreViver".

Entrevista @ Rádio Ourique - 18.05.2020

Na noite de 18 de maio, estive em "Estado de Arte", a discorrer sobre a vida e a escrita, em direto, na Rádio Ourique:  https://soundcloud.com/claudia-sofia-sousa-132816475/sets/entrevista-radio-ourique

CRÓNICAS DA PANDEMIA - VII

Já nos habituámos a isto mas não queremos viver assim para sempre. Se era só um castigo para que nos portemos melhor, de agora em diante, já pode acabar, que nós prometemos cumprir. Ó vida, volta que estás perdoada e devolve-me os amigos e todos os abraços, as missas e as procissões, os jantares-convívio e as festas de aniversário, as reuniões de grupo e os festivais de  música, do marisco, da sardinha, do caracol, da cerveja, do Pontal, ou whatever... Traz-me de volta o trabalho, a sério, que isto de brincar às empresas sem clientes à procura daquilo que temos para lhes vender é um tédio. De onde é que nasce o dinheiro? Boa! Com tanta reinvenção, vai na volta, é desta que vamos todos plantar árvores das patacas... Será que os chineses já inventaram isso? Vá lá, todo o veneno tem um antídoto. Quem se lembrou de magicar este vírus está de parabéns. Que ideia brilhante, resultou! Mas agora já chega de brincadeira que nós queremos viver. Libertem lá a porra da vacina que o pes...

CRÓNICAS DA PANDEMIA - VI

Explodem-nos cravos no coração, num arrepio que antecede a lágrima, enquanto choramos em coro à janela o cântico da liberdade. O hino de uma nação em prisão domiciliária faz eco na memória, evocando pensamentos distantes. Entre a saudade do passado e a ânsia do futuro, aqui estamos, prostrados, numa resignação confinada, de olhos postos num ecrã, à espera que volte a ser Abril, à solta nas ruas.

CRÓNICAS DA PANDEMIA - V

E morrem pessoas e pessoas. Números e números. E por vezes um escritor, um médico, um artista. Hoje foi o Sepúlveda. Alguém com nome que será lembrado pelo trabalho exemplar. O resto são multidões anónimas, montanhas de números, nesta chuva de notícias que nos inunda os dias, numa primavera sem flores. Estamos todos reféns da raiva de um vírus, serial killer imprevisível e indomável, que nos retém em cativeiro, a contar caixões à distância, sem direito a despedidas, na espera infinita dos dias que ainda faltam para o recomeço do futuro.