E morrem pessoas e pessoas. Números e
números. E por vezes um escritor, um médico, um artista. Hoje foi o Sepúlveda.
Alguém com nome que será lembrado pelo trabalho exemplar. O resto são multidões
anónimas, montanhas de números, nesta chuva de notícias que nos inunda os dias,
numa primavera sem flores. Estamos todos reféns da raiva de um vírus, serial
killer imprevisível e indomável, que nos retém em cativeiro, a contar caixões à
distância, sem direito a despedidas, na espera infinita dos dias que ainda
faltam para o recomeço do futuro.
Os dias passam velozes mas o tempo parece não avançar. As soluções demoram, ninguém trava a morte, o cárcere dos dias é uma asfixia doméstica sem direito a balões de oxigénio. Resta-nos fechar os olhos e apelar à imaginação: estar aonde não estamos, ir aonde não vamos. O pensamento pode ser o pior ou o nosso melhor aliado. As saudades têm nome e rosto e os beijos e abraços são promessas dolorosas por cumprir. Queremos todos o mesmo. O que mais desejamos é que este tempo passe e o mundo avance para outra realidade. Uma vida nova, sem distâncias de pele, na qual nos possamos voltar a cheirar e tocar ao sabor do desejo.

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