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SUSTENTO FELIZ

São íngremes os trilhos dos que almejam um sustento feliz. O dinheiro enche os bolsos mas a realização alimenta a alma. Desalentados os que se arrastam carregando o fardo de um ofício que não enriquece nem faz sorrir. O trabalho ideal será sempre aquele que alinha a individualidade dos talentos com as múltiplas necessidades do servir à humanidade. 

ANTES E DEPOIS DE MIM

"Se um dia o sol explodir, ninguém saberá que Vergílio escreveu a Eneida". A frase de Saramago, ressoa dentro de mim, desde o documentário "José e Pilar". Tudo o que fazemos vai desfazer-se. Tudo o que escrevemos vai apagar-se. Os livros podem arder, o digital colapsar, a memória perder-se no infinito do tempo. Porque escrevemos afinal? Masoquismo, talvez? Ou pura incapacidade de nos saciarmos com a experiência de existir. Só sei que este vício de trocar tudo por palavras já nasceu comigo. Comecei logo no útero materno a magicar como haveria de contar a metaformose a que me sujeitei para aqui chegar: humana, imperfeita, gemendo de dores e dúvidas e medos, sempre a sonhar com uma felicidade que nunca chega. Valham-me os livros que me têm salvo a existência no deleite de cada página. Abençoadas sejam as palavras que me permitem descodificar o significado de tantos dias abstratos. Louvada seja a palavra escrita, capaz de dissolver as mágoas e perpetuar o eco feliz das ...

BEIJO MOLHADO

De repente, éramos só nós, à chuva, no meio da estrada. O tempo parou na hora certa dos encontros imprevistos. Pareceu-me ouvir música e o sapateado sorridente do Fred Astaire, quando te perguntei: Vieste dançar comigo à chuva? Não, vim beijar-te à chuva! Prolongou-se um silêncio. E quando voltámos a abrir os olhos, o céu era um arco-íris e nós o sol renascido da tempestade.

BOCAS CHEIAS DE CRAVOS

Que liberdade é esta que não nos deixa sorrir? Insistem em colocar-nos cravos na boca, com o intuito de silenciar as balas que precisamos expelir. A democracia nascida da revolução deixou de gostar dos revolucionários. A verdade é um conceito em desuso e quem a enverga torna-se criminoso. Querem anestesiar-nos com festas e cânticos e flores, como se a fome se alimentasse de circo. Liberdade deve rimar com dignidade mas somos mais pobres hoje que ontem, tão prisioneiros como os que ousaram enfrentar a tal ditadura. Quase meio século de vergonha celebramos hoje, tão longe das promessas de quem sonhou um outro abril. 

INAJUSTÁVEL

Sei o que quero e gosto de poder escolher. Não fico com sobras, nem com o que está disponível, receando a escassez. A minha medida certa é uma só. Não me estico nem me encolho para caber melhor em lugar algum. Ajustar-me ao inajustável está fora de questão. Sou ampla, sou extensa, sou profunda. Só me encaixo onde me puder expandir, multiplicar, florir. Não me limitem nem me delimitem. Quem bem me quer, eleva-me e eleva-se comigo. Deixem-me ser inspiração e perfume.  

DESAFETOS

Que espécie de animal és tu que já ninguém te passa a mão pelo pêlo? Nem um afago, nem um roçar de nariz, nem um convite a uma sesta no colo... Adormeces sempre assim, na solidão gelada dos que vivem sem permissão para se aninhar no conforto do calor humano. Quem mordeste tu, animal racional, para a vida te privar da necessidade básica dos afetos?