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Conto "Casa de Bonecas" - página 4

Às primeiras notas da melodia, Maria estava oficialmente encantada. Era como se estivesse ali apenas fisicamente. O seu espírito vagueava galopando livremente sobre um mundo com o qual sempre sonhara. Um mundo onde tudo é belo, onde todas as pessoas são bondosas e onde as crianças podem comer gomas ao pequeno-almoço sem reprimendas maternais. A imaginação de Maria viajava agora a bordo de uma espiral giratória multicolorida que a transportava para uma outra dimensão.
- Ouviste o que eu te disse, Maria? – Perguntou Dona Carlota, interrompendo o sonho diurno da menina. Por instantes, a senhora temeu pela integridade da caixinha, tal era a forma como as mãos de Maria se evidenciavam trémulas. Um mero reflexo do turbilhão de emoções das últimas horas.
- Oh, que linda caixinha! Eu sempre sonhei ter uma destas! – Exclamou Maria, antes de libertar um sonante e profundo suspiro.
- Pois bem, Maria, como Deus nunca me deu filhas nem netas, vou propor-te um acordo: Um dia, quando a minha vida chegar ao fim, esta caixinha será tua. O anúncio súbito e inesperado de Dona Carlota emocionou de tal forma Maria que a menina não se conteve. Transpondo os limites da vergonha e da intimidade, abraçou a velhota com todas as suas forças.
- Muito obrigada! Obrigada, obrigada, obrigada…- repetiu a menina quase interminavelmente, agarrada à cintura da sua nova (velha) amiga. Era o melhor presente que jamais alguém lhe oferecera. Apesar de ser um presente que só chegaria no futuro.
Dona Carlota acariciou a cabeça da menina num suave cafuné, esboçando um sorriso com um olhar distante.
Passou-se mais uma hora em que os três exploraram toda a loja, desvendando segredos escondidos em pequenas caixas de madeira, movimentando fantoches e soltando gargalhadas. Parecia que se conheciam há anos.
Dona Carlota propôs que subissem à cozinha, para comer qualquer coisa.
- Eu já estou cheiinha de fome! – Fez saber Maria, sem sombra de vergonha.
- Ainda bem, meu amor – respondeu a avó Carlota. – Vou já preparar um lanchinho para nós os três. Colocou uma toalha de quadrados vermelhos sobre a mesa, na qual sobrepôs um lindo pão-de-ló, aparentemente acabado de sair do forno. Levou ao lume um púcaro de alumínio cheio de leite fresco e no final dissolveu várias colheradas de cacau no cremoso líquido branco. Depois, partilhou o chocolate quente por três chávenas iguais, servindo a primeira ao neto, a segunda à menina e reservando a última para si. (...)

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