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As mães nunca morrem


Dormes. Dentro do quarto, só o silêncio quebrado pela tua respiração. Entro a pés descalços e sento-me a teu lado. Ver-te dormir devolve-me a paz. Queria ter poderes mágicos para eternizar este momento. Gostava que fosses para sempre menina e eu para sempre jovem, para poder estar sempre a teu lado. Imaginar que um dia este encontro vai deixar de ser possível é a base de um desassossego que me consome. Inspiro a doçura do teu rosto, pedaço de mim. E, nesse instante, na escuridão dos meus olhos fechados, há universos que se abrem até ao infinito. Voamos juntas de mãos dadas e somos imortais. No meu sonho somos felizes na alegre ilusão de que o nosso tempo não irá passar, que este tempo alegre da tua infância e da minha juventude não irá acabar nunca. Não falo em morte. Não gosto de falar do que não conheço. E tu não irias entender o que é. Para nós, aqui e agora, tudo é vida, alegria feita de mimos e gargalhadas que nos fazem sentir bem. Porém, na inocência dos teus quase cinco anos, já pairam fantasmas vindos não sei de onde, nem sei porquê. Hoje, ainda há pouco, quando estavas acordada, paraste junto a mim e a tua mão pequena procurou o meu cabelo. Querias descobrir cabelos brancos. Mas não os encontraste. Aliviada, garantiste que eu nunca iria morrer. As pessoas de cabelos brancos é que vão morrer, afirmaste. Tu não tens cabelos brancos, não vais morrer, continuaste. As mamãs nunca morrem. Vais ficar comigo para sempre. Detive-me silenciosa e imóvel diante da tua certeza. Sem saber o que responder, cheguei a acreditar nas tuas palavras. Ainda em silêncio, jurei guardar um segredo: nunca saberás que pinto os cabelos, que escondo os cabelos brancos com tinta de outras cores. Que me disfarço de jovem todos os dias, para continuar a ser a mamã que os teus olhos de bebé viram ao nascer. Ser mãe é saber disfarçar. É fingir que está tudo bem mesmo que o mundo esteja para acabar. Uma mãe é como uma mão aberta, sempre pronta a dar. Mão e mãe podiam ser palavras gémeas. Há sempre uma mão que se agiganta por onde passa uma mãe. Há sempre um toque mais suave, uma cabeça em busca de afago, dois braços que se estendem na disponibilidade de um colo. Agora que continuas a dormir como uma anjo, penso com calma na resposta que amanhã te darei. Sim minha filha, é verdade, as mães nunca morrem. Cada mãe é infinita e, como um pedaço de véu, irá pairar para sempre sobre os filhos, cobrindo-os, protegendo-os e aconchegando-os, onde quer que vão.

Comentários

  1. A cada artigo vais conseguindo mostrar esta alma maravilhosa .Parabens!!!!

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